Vias Romanas em Portugal
Itinerários
Home 2026 Janeiro
 
NOVO   Programa «Outras Histórias» na RTP Play

Hispânia Romana by Selina Hall - 1847; Hispânia Romana by Alex Findley - 1849 ; Hispânia Romana by Gustav Droysen - 1886 ; Hispânia Romana by viasromanas.pt - Mapa Geral - 2020 ;

Sobre este site

A identificação dos trajectos romanos é um estudo em curso onde os dados escasseiam e proliferam as suposições, conjecturas e efabulações sem qualquer aderência à realidade geográfica e arqueológica. Desde o seu arranque em 2004, o site é regularmente actualizado à medida que avança o estudo sobre a viação antiga e deve por isso ser lido como um documento dinâmico (ver evolução do site e a lista de referências que conta actualmente com mais de 80 citações em trabalhos científicos). O site está estruturado da seguinte forma: Como citar o site?: Soutinho, P. (2025). Vias Romanas em Portugal; disponível em www.viasromanas.pt (consultado em 23-4-2025)
Contacto: pedro.soutinho @ gmail.com

Os Itinerários de Antonino

O chamado «Itinerário de Antonino» é uma compilação de rotas do período romano indicando as estações viárias e as respectivas distâncias intermédias expressas em milhas (cerca de 1500 m), sendo por isso um documento essencial no estudo da rede viária desse período. Das 372 rotas mencionadas no documento, 34 referem-se às províncias da Hispânia, sendo que 11 dessas rotas cruzam o actual território português:
Um itinerário de Lisboa a Braga
 XVI    BRACARA a OLISIPO
Quatro itinerários de Braga a Astorga
 XVII   BRACARA a ASTURICA per AD AQUAS (Chaves)
 XVIII  BRACARA a ASTURICA per SALANIANA (Gerês)
 XIX    BRACARA a ASTURICA per TUDAE (Tui)
 XX     BRACARA a ASTURICA per AQUIS CELENIS (Foz do Minho)
Três itinerários de Lisboa a Mérida
 XII   OLISIPO a EMERITA per EBORA (Évora)
 XIV  OLISIPO a EMERITA per ABELTERIO (Alter)
 XV   OLISIPO a EMERITA per FRAXINUM (Monte da Pedra)
Um itinerário de Faro a Alcácer do Sal
 XIII   SALACIA (Alcácer) a OSSONOBA (Faro)
Dois itinerários da Foz do Guadiana a Beja
 XXI   BAESURIS a PAX IULIA per SALACIA (Alcácer)
 XXII  BAESURIS a PAX IULIA per MYRTILIS (Mértola)

Índice de Outros Itinerários

(de norte para sul)
 Braga (BRACARA) - Monção (Minius flumen)
 Braga (BRACARA) - Freixo (TONGOBRIGA)
 Freixo (TONGOBRIGA) - Viseu (VISSAIUM)
 Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Moimenta (Arabriga?)
 Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Celorico da Beira
 Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Lamego (Lamecum?)
 Braga (BRACARA) - Marialva (ARAVORUM)
 Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Belmonte (Centum Cellas)
 Belmonte (Centum Cellas) - Mérida (EMERITA)
 Astorga (ASTURICA) - Almofala (Cobelcorum)
 Ponte de Picões - Freixo de Numão (Meidubriga?)
 Porto (CALE) - Barcelos - Lima (LIMIA)
 Porto (CALE) - Barca do Lago - Caminha
 Porto (CALE) - Alfena - Guimarães
 Porto (CALE) - Freixo (TONGOBRIGA)
 Porto (CALE) - Foz do Vouga
 Porto (CALE) - Viseu (VISSAIUM)
 Marnel (Vacca?) - Viseu (VISSAIUM)
 Lamego (Lamecum?) - Tarouca - Viseu (VISSAIUM)
 Lamego (Lamecum?) - C. Daire - Viseu (VISSAIUM)
 Celorico da Beira - Guarda
 Marialva (ARAVORUM) - Guarda
 Távora - Mangualde - Coimbra (AEMINIUM)
 Coimbra (AEMINIUM) - Viseu (VISSAIUM)
 Viseu (VISSAIUM) - Marialva (ARAVORUM)
 Condeixa (CONIMBRIGA) - Bobadela (civitas)
 Bobadela (civitas) - Celorico da Beira
 Viseu (VISSAIUM) - Belmonte (Centum Cellas)
 Viseu (VISSAIUM) - Seia - Belmonte (Centum Cellas)
 Coimbra (AEMINIUM) - Bobadela (civitas)
 Viseu (VISSAIUM) - Bobadela (civitas)
 Viseu (VISSAIUM) - Ferreirós do Dão (castra)
 Mealhada (mansio) - Bobadela (civitas)
 Bobadela (civitas) - Amêndoa (Elbocoris?)
 Condeixa (CONIMBRIGA) - Aramenha (AMMAIA)
 Condeixa (CONIMBRIGA) - Alvega (ARITIUM)
 Condeixa (CONIMBRIGA) - Mérida (EMERITA)
 Coimbra (AEMINIUM) - Mestas (TUBUCCI)
 Tomar (SEILIUM) - Belmonte (Centum Cellas)
 Tomar (SEILIUM) - Salamanca (SALMANTICA)
 Santarém (SCALLABIS) - Évora (EBORA)
 Condeixa (CONIMBRIGA) - Leiria (COLLIPPO)
 Leiria (COLLIPPO) - Tomar (SEILIUM)
 Leiria (COLLIPPO) - Mestas (TUBUCCI)
 Leiria (COLLIPPO) - Santarém (SCALLABIS)
 Leiria (COLLIPPO) - Alenquer (IERABRIGA)
 Leiria (COLLIPPO) - Óbidos (EBUROBRITTIUM)
 Óbidos (EBUROBRITTIUM) - Santarém (SCALLABIS)
 Óbidos (EBUROBRITTIUM) - Lisboa (OLISIPO)
 Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA)
 Alcácer do Sal (SALACIA) - Beja (PAX IULIA)
 Alcácer do Sal (SALACIA) - Serpa (SERPA)
 Évora (EBORA) - Serpa (SERPA)
 Évora (EBORA) - Moura (ARUCCI)
 Évora (EBORA) - Beja (PAX IULIA)
 Évora (EBORA) - Faro (OSSONOBA)
 Alter do Chão (ABELTERIO) - Évora (EBORA)
 Alter do Chão (ABELTERIO) - Juromenha (Colarnum?)
 Idanha (IGAEDITANA) - Aramenha (AMMAIA)
 Beja (PAX IULIA) - SERPA - Sevilha (HISPALIS)
 Beja (PAX IULIA) - SERPA - Huelva (ONUBA)
 Beja (PAX IULIA) - Mértola (MYRTILIS)
 Moura (ARUCCI) - Mértola (MYRTILIS)
 Mértola (MYRTILIS) - Tavira
 Cacém (MIROBRIGA) - Mértola (MYRTILIS)
 Cacém (MIROBRIGA) - Beja (PAX IULIA)
 Cacém (MIROBRIGA) - Lagos (Monte Molião)
 Garvão ao Algarve por São Bartolomeu de Messines
 Querença - Moncarapacho - Bias do Sul (Olhão)
 C. Marim (BAESURIS) - Faro (OSSONOBA)
 Faro (OSSONOBA) - Portimão - Alvor (IPSES)
 Faro (OSSONOBA) - São Brás de Alportel

Outros Itinerários por Região

 Outras vias de BRACARA (Braga)
 Outras vias de AQUAE FLAVIAE (Chaves)
 Outras vias de CALE (Porto)
 Outras vias de TONGOBRIGA (Freixo)
 Outras vias da Civitas ARAVORUM (Marialva)
 Outras vias da Civitas COBELCORUM (Almofala)
 Outras vias da Civitas IGAEDITANORUM (Idanha)
 Outras vias da Civitas AMMAIENSIS (Marvão)
 Outras vias de Numão (Civitas Meidubrigensis?)
 Outras vias da Guarda (Civitas Transcudana?)

ITER XVI - Item ab OLISIPONE BRACARAM AUGUSTAM m.p. CCXLIIII
Mapa
Braga












Famalicão










Cabeçudos




Lousado


Trofa












Peça Má




Alvarelhos






Maia









ITINERARIO XVI - Braga (BRACARA) - Porto (CALE) - Coimbra (AEMINIUM) - Lisboa (OLISIPO)   CCXLIIII milhas
Item ab OLISIPONE
BRACARAM AUGUSTAM

IERABRIGA
SCALLABIN
SEILIUM
CONIMBRIGA
EMINIO
TALABRIGA
LANGOBRIGA
CALEM
BRACARA

* proposta correção
** proposta correção

m.p. CCXLIIII
m.p. XXX
m.p. XXXII
m.p. XXXII*
m.p. XXXIIII
m.p. X
m.p. XL
m.p. XVIII**
m.p. XIII
m.p. XXXV
m.p. XLII
m.p. XXIII
O itinerário romano de Bracara Augusta a Olisipo utiliza várias vias independentes. Inicialmente seguia a via de Bracara a Cale, num total de 35 milhas por um trajecto hoje praticamente seguro e bem documentado por inúmeros miliários (com pelo menos 25 referências). O troço seguinte ligava Porto a Coimbra pela via de Cale a Aeminium com duas estações permeio, Langobriga e Talabriga do qual apenas conhecemos quatro miliários atribuíveis a esta via, o miliário de Úl deslocado para o centro de Oliveira de Azeméis, o miliário de Adães depositado na Casa Paroquial de Úl, o miliário da Vimieira transladado para o átrio da C.M. da Mealhada indicando 12 milhas a Coimbra e o miliário do Arco da Traição indicando 4 milhas a Coimbra, actualmente no Museu Machado de Castro. Daqui seguia para a cidade de Conímbriga, onde se registam mais 5 miliários, e 8 milhas depois temos novo miliário no sítio de Tamazinhos, atestando a continuação da via rumo a Tomar. Por sua vez, o miliário que apareceu no Castelo de Soure está seguramente relacionado com uma outra via que ligava Conimbriga a Collippo (a sul de Leiria), seguindo um percurso mais próximo do litoral que passando por Eburobrittium (na base do Castelo de Óbidos) rumo a Olisipo (Lisboa). Na região de Tomar temos mais 6 miliários, 4 apareceram na área urbana da cidade e 2 na sua periferia, os miliários de Santa Catarina e de Santos Mártires. A etapa seguinte ligava Tomar a Santarém, antiga Scallabis, onde apareceu um miliário de Probo. Daqui até Lisboa conhecem-se mais 7 miliários, os miliários da Quinta do Bravo e da Quinta de Santa Teresa em Alenquer, o miliário do Açougue Velho em Alverca, o miliário da Quinta de Santo António de Frielas, estes desaparecidos, e mais recentemente apareceram mais dois miliários em Loures, assim como um miliário de Probo nas obras de renovação da Casa dos Bicos em Lisboa (actualmente em exposição no Museu da Cidade). Em 2023 apareceu outro miliário na Rua das Canastras, dada a sua proximidade da Casa dos Bicos, fazendo supor que assinalavam o mesmo ponto, ou seja, a milha zero a partir de Lisboa. Temos também uma notícia que refere um miliário no Convento de Chelas, mas é duvidoso que a inscrição tivesse carácter viário. Subsistem algumas dúvidas no percurso exacto devido sobretudo às alterações operadas na paisagem, mas a via segue genericamente a rota das actuais estradas EN14 de Braga ao Porto, EN1 para Coimbra, EN110 para Tomar, EN365 para Santarém, continuando até à Ota, onde reencontra a EN1, seguindo depois por Alenquer, Vila Franca de Xira, Alverca e Loures para Lisboa. Sobre a parte final deste percurso ver as "Atas da mesa redonda De Olisipo a Ierabriga" no nº 1 da Revista Cira Arqueologia, assim como a restante bibliografia (Sarmento, 1888, 1890, 1892; Capela, 1895; Colmenero et al., 2004, Mantas, 1996, 2000a; Ribeiro, 2016).

BRACARA (Braga)
No perímetro urbano de Braga foram encontrados vários miliários dispersos pela cidade mas deslocados do seu local original; alguns desses miliários podem estar relacionados com o Itinerário Braga-Lisboa, como o que apareceu na parte sul da rua de São Geraldo ou o que apareceu na esquina da rua Sá de Miranda com a «rodovia», próximo da necrópole da Av. da Imaculada Conceição que deveria ladear a via que seguia para Cale. A maioria destes marcos foi reunida no Campo das Carvalheiras, onde estiveram muitos anos, antes de dar entrada no Museu D. Diogo de Sousa (MDDS), onde estão actualmente expostos, integrando a respectiva colecção que conta com 36 miliários (a maior colecção num só museu). A sua preservação deve-se aos esforços de vários eruditos ligados à Sé de Braga, que ao longo dos séculos foram recolhendo estas «antiqualhas». Por sua vez, no Museu Pio XII existem mais seis miliários, quatro pertencentes ao Itinerário XIX de Braga a Tui e dois pertencentes a esta via para Cale, o miliário de Lousado (MPXII.LIT.285) e o miliário de Carreiras (MPXII.LIT.563), atestando a sua passagem junto de Vila Nova de Famalicão. Este antigo seminário guarda também uma ara a Mercúrio, divindade ligada aos caminhos, uma ara dedicada a Júpiter por um soldado da Legião VII Gémina Félix que apareceu debaixo do palco do Teatro Circo (FE 196), e ainda o epitáfio de Marcus Antonius soldado da mesma legião, atestando a presença militar na cidade. Todas as vias que partiam da cidade tinham origem no Largo Paulo Orósio, antigo forum, ponto de confluência do decumanus maximus e do cardus maximus e cujo cruzamento sul é ainda visível na esquina da rua Frei Caetano Brandão e rua São Paulo, junto da biblioteca, existindo também um troço de calçada medieval dentro do edifício que se terá sobreposto ao cardus maximus; por sua vez, o decumanus correspondia aproximadamente à actual rua do Alcaide e rua dos Falcões. A saída da cidade para Cale seguiria na direcção sul passando entre o anfiteatro e a necrópole de Maximinos, aproximadamente pelas actuais ruas de Santiago, São Sebastião e Direita até ao Largo de Maximinos, antiga saída da cidade, onde iniciava a marcação miliária; o miliário de Adriano que apareceu no colégio de São Paulo assinalando 35 milhas a Cale poderia estar originalmente neste local.

Ferreiros (m.p. I; segue pela rua do Cruzeiro, vencendo a primeira milha junto do marco divisório da Gandra, cruzando pouco depois a linha férrea; do outro lado surgem umas alminhas assinalando a continuação pelo «Caminho de Baixo» por Quintela e Casal Novo rumo à travessia do rio Este no lugar da Ponte Nova, onde há ponte antiga, talvez medieval)
Lomar (m.p. II; Argote refere um miliário de Crispo na Igreja de Lomar, actualmente desaparecido, CIL II 4764, assim como duas aras funerárias (Argote, 1732:251); poderá corresponder à Capela de Lomar em Ponte Nova por onde passaria a via, e não há Igreja Velha de Lomar; seguia pela rua da Costa até Custóias, onde toma o caminho de terra pelo monte até reunir com a rua da Bemposta, seguindo pela travessa das Pedreiras)
São Miguel (m.p. III nas alminhas; a via seguiria para Figueiredo pelo topónimo «Estrada», hoje cortada pela A11, com as alminhas na outra banda; poderia ser daqui o miliário indicando três milhas a Braga referido no «Monarchia Lusitana» (Brito, 1609:108; PIR:205); cerca de 300 m a nascente da via subsiste a Mamoa de Lamas)
Figueiredo (m.p. IV; tesouro monetário em Pipe; vestígios na Casa da Vila; segue talvez pela rua do Salgado, Capela de Santo António, onde vencia a quarta milha)
São Vicente do Penso (m.p. V; continua talvez por Carcavelos, Alminhas de Pombal, Alminhas de Cruz, Alminhas do Sr. Padrão, eventual alusão a um miliário, seguindo pelo chamado «Caminho de Santiago» até ao nó viário da Portela, percorrendo a vertente nascente do Castro romanizado do Monte Redondo/Monte Cossourado/S. Mamede, de onde provém a ara de Antiscreus, actualmente no MSMS, nº 21)
Portela (m.p. VI; miliário de Constantino II, actualmente no Museu Pio XII com o nº MPXII.LIT.563; apareceu no «Lugar de Carreiras», topónimo hoje difícil de precisar)
Telhado (m.p. VIII; continua pela margem direita do rio Pelhe, na rota da EN319)
São Cosme do Vale (m.p. IX; miliário de Adriano encontrado segundo João de Barros «metido na terra» no «Vale de São Cosmado», entretanto desaparecido, Argote, 1734:599; CIL II 4867)
São Martinho do Vale (m.p. X; continua por Pousada, cruza o rio Pelhe, Devesa, cruza a EN319 segue pelo caminho das Alminhas de Tojão)
Cruz de Pêlo (m.p. XI; cruza a EN206 junto da Alminhas do Senhor da Boa Fortuna e segue recto pelo caminho em terra)
São João da Pedra Leital (m.p. XII; passaria na base da capela, mas depois foi cortada pela A3, continuando do outro lado por «Devesa Alta»)

Santiago de Antas (m.p. XIII junto da igreja românica, onde apareceram vários miliários)
  • Um miliário apareceu deslocado na Quinta da Devesa, hoje cravado num penedo no interior do actual Parque da Cidade. Na última linha lê-se o numeral «III» pelo que é provável que indicasse 13 milhas a Braga.
  • No século XVI, João de Barros transcreve um miliário de Adriano, indicando 8 milhas a Braga, que estava na casa do Duque de Barcelos em Famalicão (CIL II 4737); posteriormente Argote localiza-o na adega da casa de Domingos Thomé de Fonseca onde já só leu as letras Traiano (Argote, 1734:598). Este miliário parece ser o mesmo que é referido por Bernardo de Brito indicando 8 milhas (Brito, 1609:89. Enquanto Hübner considera ser um outro miliário (CIL II 4739), Vasco Mantas aponta para um erro na leitura de Barros, trocando o numeral XIII por VIII, pelo que este seria outro marco desta milha (Mantas, 1996, 411-415))
  • No CIL Hübner refere um outro miliário de Adriano indicando 12 milhas a Braga, actualmente dado como desaparecido (CIL II 4738), mas que segundo Vasco Mantas deverá corresponder ao miliário de Adriano da milha XIII (CIL II 4752) que está actualmente no MDDS (nº 1992.0666), atendendo a que apresentam a mesma epígrafe salvo na indicação de milhas (XIII em vez de XII), que deverá ser um erro na transcrição de Acúrcio, omitindo o «I» final (Mantas, 1996, 411-415).
  • Argote refere um fragmento de um miliário de Caracala, CIL II 4741, que teria sido reutilizado como base do cruzeiro que existia defronte da igreja no início do século XVIII, mas entretanto perdido. Todavia Colmenero sugere que este poderá corresponder ao possível fragmento que actualmente integra o muro oeste do Seminário Camboniano (Colmenero et al., 2004).
  • Martins Capela viu ainda dois miliários anepígrafos no pátio da casa paroquial, entretanto desaparecidos; um terceiro miliário foi encontrado na «Devesa Alta» e foi levado para o portal da Quinta da Pereira em Esmeriz, onde se lhe perdeu o rasto (Capela, 1895).
  • Um grande cilindro em pedra junto da capela particular da Quinta do Vinhal tem sido interpretado como miliário, no entanto é duvidoso dado o seu grande diâmetro.

Continuação da via para Cale
Da Igreja de Santiago das Antas a via continua pela rua Miguel Torga até concluir na EN204, continuando por Vela e Capões para a Portela de Baixo.
Portela de Baixo (m.p. XIV; Argote refere um miliário de Caracala indicando 14 milhas a Braga embutido numa «capela arruinada» em Portela de Baixo (CIL II 4740); Martins Capela encontra-o anos depois já partido em dois, servindo de suporte do alpendre da casa paroquial de Antas, mas actualmente está desaparecido)
Cabeçudos (m.p. XV junto do habitat da Igreja Velha; segue pela EM509-1 e EM508-2 que passa junto da igreja paroquial, onde Martins Sarmento identificou um outro miliário ilegível suportando uma varanda de uma casa, entretanto dado como desaparecido, mas que segundo Vasco Mantas estará num muro junto da igreja seccionado longitudinalmente; continua por Estrada passando junto da villa(?) da Quinta de Boamense)
Santa Catarina (m.p. XVI; miliário de Caracala proveniente do sítio do Marco suporta actualmente uma varanda na Quinta de Santa Catarina; Martins Sarmento leu apenas o numeral X, mas pelo local do achado, este marco deveria indicar 16 milhas; continua por Fial, Pé de Prata, Fonte dos Castanheiros e Garrida, seguindo pela rua dos Almocreves para Montezelo)
Lousado (m.p. XVIII; miliário de Magnêncio descoberto na Igreja Paroquial em Montezelo, actualmente no Museu Pio XII com o nº MPXII.LIT.285, referente à milha 17 que era vencida junto da actual igreja)

Travessia do rio Ave (na sua forma actual a Ponte da Lagoncinha é uma construção medieval sem qualquer vestígio romano; num documento de 1034 há referência à ponte «per illam carrariam antiquam que uadit pro a illum pontem petrinum» (PMH DC 287) e na «Carta do Couto do Mosteiro de Santo Tirso» do ano de 1097 aparece uma «ponte antiqua de flumine Avie» (PMH DC 864), mostrando que no século XI já existia uma ponte de pedra sobre o rio Ave. O caminho referido como «carrariam antiquam» provinha de Santo Tirso e não da Trofa, não integrando portanto a via Braga-Porto. Assim, tudo indica que a travessia do rio em período romano se fizesse mais a jusante, na chamada «Barca da Esprela», junto da confluência do rio Pelhe no Ave, trajecto aliás assinalado pelo miliário de Lousado, seguindo praticamente recto rumo à Ponte de Sedões)
São Martinho de Bougado (depois de cruzar o Ave seguia pela Igreja de Ns. das Dores até entroncar na EN14; junto da estação C.F. existia um marco com base quadrangular, possível miliário, entretanto desaparecido)
Trofa (m.p. XX junto da igreja; continua por Vale do Eirigo até Trofa Velha; necrópole e villa? em Rorigo Velho a cerca de 500 m da via)
Ponte sobre a ribeira de Sedões ou de Covelas, Trofa Velha/ Lantemil (m.p. XXI; 4 miliários aqui reunidos após a demolição entre 1844 e 1846 da «Ponte Velha» ou «Ponte do Arco» em consequência da reconstrução da estrada Porto-Braga:
  • miliário de Constante indicando a milha XXI, actualmente na Casa da Cultura da Trofa (CIL II 4742 = CIL II sup. 6209).
  • miliário de Licínio, actualmente na Casa da Cultura da Trofa (CIL II 6213).
  • miliário de Magnêncio, actualmente no Museu Abade Pedrosa em Santo Tirso (CIL II sup. 6212).
  • miliário de Tácito, CIL II 6212, recolhido em 1875 e actualmente desaparecido.
Peça Má (m.p. XXII; miliário de Constâncio II, actualmente na antiga casa do Padre Sousa Maia em Lantemil e fragmento do miliário de Carino que apareceu na berma da EN14 junto da Ponte da Peça Má e actualmente está no jardim da antiga casa do Dr. António Cruz na Trofa Velha)
São Cristóvão do Muro (m.p. XXIII junto do topónimo «Venda Velha»; miliário de Maximiano indicando 23 milhas a Braga que apareceu na Quinta de São Cristóvão, (CIL II 4743), ao km 12.7 da EN14, entretanto destruído; no jardim da Quinta do Paiço encontra-se um miliário de Adriano (CIL II 4736) que apareceu reutilizado num dos torreões da casa que deveria indicar também 23 milhas)

Nó viário de Alvarelhos
A Venda Velha de Muro deverá corresponder à estação viária na base do Castro de Alvarelhos (a «Civitas Albarelios» num documento do ano 907), situada a 12 milhas de Cale. Em Sobre Sá, junto ao castro, apareceu uma inscrição com o epitáfio de Ladronus colocada pelos habitantes do «Castro dos Madequisensis», possivelmente designado por Madiae, topónimo que poderá estar na origem da designação actual do concelho, actualmente no Museu da Maia (Silva A.C.F., 1980). Próximo do castro, em Vila Boa, surgiram vestígios de uma villa romana nos terrenos da Casa de Milreus, incluindo mosaicos e três aras na necrópole, duas anepígrafas e a terceira com o epitáfio de Lanasus originário do castellum dos Fidueneae situado presumivelmente na Citânia de Sanfins por voto dos habitantes do castellum de Uliainca (?), evidenciando a existência de relações sociais entre os diversos povoados da região (Silva A.C.F., 1980). Daqui partiam outras vias de ligação aos principais povoados da região; uma seguia para norte rumo ao importante Castro de Penices; outra seguia para poente rumo à villa de Fontão em Lavra, ligando ao Atlântico, e outra para noroeste rumo à Ponte do Ave, de encontro à chamada «Karraria Antiqua», a via proveniente do Porto rumo à Barca do Lago. Uma outra via partia do castro rumo ao Castêlo da Maia, onde entronca na via principal para Cale.
  • Ligação ao Castro de Penices: partindo do Muro, seguia para noroeste por Guidões (vestígios na vertente este do maciço de Santa Eufémia em Cidoi, Cerro e Póvoa; altar votivo ao génio Saturninus entre o Monte do Castro e o Monte de Cidai), seguindo para a travessia do rio Ave nas imediações de Azevedo, continuando por traçado incerto rumo ao Castro de Penices, junto do qual transpunha o rio Este (na Ponte da Gravateira?) seguindo depois na direcção de Rates, de encontro à «Karraria Antiqua», podendo também seguir directo a Barcelos por Gondifelos (vestígios em Lobeira, Fiança e Eirados e Igreja Velha).
  • Ligação à Ponte do Ave: há duas rotas possíveis, uma seguiria por Palmazão (casal) e Vilar pela EM537, outra passando junto do Castro Boi em Vairão até ao cruzamento de Vilarinho e daqui à Ponte do Ave, ou uma directa à ponte por Fornelo (Igreja/Quinta de Vilas Boas) e Macieira da Maia (villa de Campos Pereira junto da igreja).
  • Ligação a Lavra/Atlântico: também deveria existir uma via de acesso ao mar designada por via vetera e stratam veterem nas Inquirições de 1258 (PMH Inq. 492); do castro seguia por Guilhabreu, passando na Sra. do Amparo, Rua da Carreira da Talhada, Parada, Rua das Minas, Rua do Freixo, cruzava a «Karraria Antiqua» em Mosteirô e continuava por Lançaparte, Aveleda e Laceiras rumo ao castro de Angeses e da villa do Fontão junto da costa (Moreira, 2009).
  • Ligação do Castro de Alvarelhos - Maia: esta via partia também do castro rumo à Maia pela EM1352, seguindo por Palmezão e pelo «Caminho das Bouças da Teixeira», apresentando ainda um troço lajeado pouco antes de confluir na rua de Quiraz; a antiguidade deste caminho é atestada num documento medieval do ano 986, onde surge como «carreira antiqua» (PMH DC 151) e pelo facto de ser ainda hoje a linha divisória entre os concelhos de Vila do Conde e Maia. Em Quiraz a via poderia dividir-se em dois possíveis trajectos; um segue junto da Igreja de São Pedro de Avioso (EN536), Vilarinho e Castêlo da Maia (na estação C.F.), seguindo de encontro à via para Cale na base do povoado do Monte de Santo Ovídeo. O outro trajecto deriva da rua de Quiraz e toma o caminho em terra que vai desembocar na rua das Andorinhas, continuando pela rua da Bajouca e rua do Ribeiro (junto Monte Faro), seguindo depois à direita pela Campa do Preto, rua Frederico Ulrich até Moreira da Maia onde entronca na chamada «karraria antiqua».

Continuação da via para o Porto
Carriça (m.p. XXIV; antiga estalagem)
Ferronho (m.p. XXV junto da Capela de Ferronho; antiga estalagem medieval próximo da divisória entre os concelhos de Trofa e Maia; segundo o Abade Pedrosa, o miliário de Caro apareceu em 1894 no lugar da Espinhosa, 19 m a poente de EN14, passando depois para as Alminhas dos Passos/Santo António, à margem da EN14; encontra-se actualmente em exposição no Museu da Maia, juntamente com uma ara dedicada à divindade Valanis; deveria indicar 24 milhas a Braga)
Castêlo da Maia (m.p. XXV; continua pela EN14 que serve de divisória entre as freguesias de São Pedro e Santa Maria de Avioso, passando junto do Monte de Santo Ovídeo, referido na documentação medieval como kastro cibidas abenoso no ano 1045 (PMH DC 323), e em 1048 como castro abenoso (PMH DC 363) e montis abenoso (PMH DC 364) e em 1075 como castro amaya (PMH DC 520); é possível que o nome na época romana fosse Madiae e o seu povo os Madequisensis, com base na inscrição de Sobre Sá acima referida; segue sob a EN14)
Forca (m.p. XXVI; necrópole; continua por Chiolo)
Pinta (m.p. XXVII; miliário indicando 27 milhas a Braga actualmente numa casa particular do lugar da Barca, mas que estaria originalmente no sítio do Marco/Cruz da Barca, actual lugar da Pinta (Ribeiro, 2016), trifínio das freguesias de Barca, Vermoim e Maia; daqui seguiria pela rua da Pinta rumo ao centro da Maia, percurso entretanto destruído pela A41)
Maia (m.p. XXVIII em Picoto; cruzava o centro da cidade, próximo da CM; segue pelas ruas Augusto Simões e do Catassol)
Leça do Balio/Gueifães (m.p. XXIX; a via serve de divisória entre as freguesias de Leça do Balio e Gueifães, continuando pela rua de Santana até ao largo da Feira de Santana, onde toma a rua da Estrada Velha, antiga «Socarreira», e a rua da Ponte da Pedra; necrópole em Quelha Funda)
Ponte Romana-Medieval da Pedra (m.p. XXX; ponte medieval sobre o rio Leça com possível origem romana com base em alguns silhares almofadados reutilizados na sua reconstrução; designada no século XI por «ponte petrina de Leza», PMH DC 248; continua pela rua da Estrada Velha e Largo da Ermida)
São Mamede de Infesta (m.p. XXXI; continua pela rua da Conceição, cruza a estação C.F. e segue até à Capela de Santo António Telheiro; topónimos Carriçal e Largo do Marco indiciam a passagem da via que foi interrompida pela construção da EN12; poderia continuar pela rua Cidade de Vigo)
  • Hübner refere um miliário de Adriano a servir de base de um cruzeiro na rua da Igreja Velha, junto da Quinta do Dourado/Santo António (CIL II 4735); posteriormente terá sido reutilizado num cruzeiro do cemitério, não sendo hoje visível qualquer letra; a Quinta do Dourado fica a cerca de 1 milha a nascente do traçado proposto, mas caso não estivesse deslocado, poder-se-ia admitir um percurso alternativo pela rua Bela Parada, rua da Igreja Velha, rua de Moalde e rua Oliveira Gaio já em Asprela, passando assim próximo do Castro de Moalde (a villa Manualdí num documento do ano de 994); a via foi destruída com a construção do campus universitário/Hospital de São João, mas reaparece mais abaixo na rua Dionísio dos Santos Silva, continuando pela rua Igreja de Paranhos e rua do Campo Lindo, de encontro à via principal na rua Antero de Quental (Almeida CAF, 1969).
Paranhos (m.p. XXXIII; cruza a VCI e segue pelo Jardim da Arca d'Água; continua pela rua do Vale Formoso, atingindo a milha 33 no cruzamento com a rua de Campo Lindo, próximo da linha divisória entre as freguesias de Paranhos e Cedofeita, onde subsiste o topónimo Travessa da Calçada)
Cedofeita (m.p. XXXIV; continua pela rua Antero de Quental até ao Largo da Igreja da Lapa, passando junto da Capela do Sr. do Socorro («Olho Vivo») onde existe um raro padrão do Caminho de Santiago, seguindo depois pela Praça da República, antigo «Campo de Santo Ovídio», onde atingia a milha 34, continua pela rua dos Mártires da Liberdade, antiga «Estrada de Santo Ovídio», rua Sá de Noronha, Largo do Moinho de Vento, «Praça dos Leões», rua Dr. Ferreira da Silva, antiga «Calçada dos Orfans» e Jardim da Cordoaria, outrora «Porta do Olival», e daqui descia ao Douro pela rua dos Caldeireiros)

CALE (Porto)
A possível sede dos Callaici corresponde ao Morro da Pena Ventosa, onde está a Sé, existindo ainda vestígios do antigo castro na actual sede regional da Ordem dos Arquitectos e na Casa-Museu Guerra Junqueiro na rua D. Hugo, assim como nos alicerces da própria Sé, onde apareceram algumas epígrafes: inscrição aos Lares MarinhosLaribus Marinis»), ara votiva de Valeria Materna, ara funerária de Cassia Midutia e a ara funerária de Avita; a Igreja dos Grilos alberga a chamada «Colecção Epigráfica do Seminário Maior», actualmente Museu de Arte Sacra e Arqueologia do Porto. Há vestígios romanos um pouco por toda a zona da Ribeira como restos da muralha romana e estruturas habitacionais, em particular o magnífico mosaico da Casa do Infante (Ramos, 1994). A escavação efectuada na rua Mouzinho da Silveira e rua das Flores (Silva AMSP, 2010) demonstrou que o povoamento romano se estendia por toda esta área e ao longo da margem do rio, da Ribeira para poente, com vestígios em Miragaia (ara à divindade DVRI achada talvez na igreja de São Pedro em Miragaia, mas actualmente desaparecida), Massarelos (rua Campo do Rou, rua Casal do Pedro e na marginal), Lordelo do Ouro (cais fluvial e vicus) e Foz Velha (inscrição e estátua pré-romana dita «homem togado»). No Museu Nacional Soares dos Reis está o miliário recolhido em Areal de Baixo (Braga); O miliário de Soalhães que estava neste museu passou entretanto para o Museu de Tongóbriga (act. 2018); entre as muitas inscrições depositadas neste museu temos, uma estela funerária proveniente da villa (?) da Quinta de Eira Vedra em Sousela (Lousada), a estatueta de Marte em bronze da Tapada da Pombinha (Campo Maior), a árula a Júpiter Conservatori de Arrifana (Santa Maria da Feira) e a estela funerária de Flavus de Valongo.

Travessia do rio Douro (Durius)
Segundo Estrabão, o rio Douro era navegável até 800 estádios, cerca de 147 km, o que que corresponde ao acidente geográfico do Cachão da Valeira, limite de navegabilidade do rio até ao século XVIII quando foi finalmente dinamitado, permitindo a navegação além desse ponto. Do Jardim da Cordoaria descia ao Cais da Ribeira talvez pela rua dos Caldeireiros, antiga «rua da Ferraria de Cima», passando junto do antigo hospital-albergaria medieval de Rocamador; continua pela rua Afonso Martins Alho, cruzando o rio da Vila na «Ponte da Pedra», junto do antigo Largo de São Roque (entretanto destruída pela construção da rua Mouzinho da Silveira e consequente encanamento do rio), entrando no morro da Sé pela rua do Souto e Porta de Sant'Anna, cujo arco foi demolido em 1821. A ligação ao rio seria pela rua Escura, rua da Bainharia, rua dos Mercadores até à Boca do rio da Vila no Cais da Ribeira, onde atravessava o rio talvez por barca; em alternativa a travessia fazia-se um pouco a jusante junto ao Castelo de Gaia, importante povoado fortificado cujos vestígios concentram-se na área delimitada pelo gaveto da rua de Entre Quintas e da rua de São Marcos até à Quinta de São Marcos e Igreja do Bom Jesus; adjacente ao povoado apareceram vestígios dos períodos da Idade do Ferro, Romano e Medieval, numa área delimitada a sul pelo armazém da Quinta de Santo António e a noroeste pelo muro do Convento de Santo António. No início da escadaria que ascende do rio Douro ao castelo, junto do Senhor da Boa Passagem, apareceu uma inscrição sepulcral de um militar da Legião X Gémina, Lavius Tuscus, originário de Olisipo, actualmente em exposição no Solar dos Condes de Resende, assinalando a passagem desta legião nestas paragens (ILER 6317; Guimarães 1995, 2000).
Mapa
Gaia




Langóbriga




Airas


Pica








Vouga





Porto (CALE) - Fiães (LANGOBRIGA) - Vouga (TALABRIGA)
Vila Nova de Gaia (do cais de Gaia em Santa Marinha a via ascendia a encosta rumo ao Largo dos Aviadores, seguindo talvez pela antiga «rua Direita», actuais ruas de Cândido dos Reis e Teixeira Lopes, designada por «Calçada de Vila Nova»; continua pela rua Marquês Sá da Bandeira marginando o Castro de Mafamude)
Mafamude (m.p. I no Jardim Soares dos Reis; continua pela rua da Rasa, desviando desta junto do «Clube Vilanovense», onde toma a rua António Rodrigues da Rocha, ascendendo suavemente até atingir a Rotunda de Santo Ovídio)
Santo Ovídio (m.p. II; aqui existia a Capela do Sr. do Padrão, já desaparecida, presumível alusão ao segundo miliário desde o rio Douro; continua pela rua Soares dos Reis, rua Fonte dos Arrependidos, rua da Palmeira, reaparecendo do outro lado da A1 na rua do Alto das Torres)
Rechousa (m.p. III em Serpente; continua sob a rua da Rechousa)
Canelas de Cima (m.p. IV; na subida da Senhora do Monte resta um raro vestígio da via com algumas lajes da antiga calçada, num barranco à margem da estrada actual; a via sofreu grandes danos com a construção da EN1 e por uma urbanização, estando o que resta ao abandono; continua pela estrada actual onde existe o topónimo Vendas de Cima, mas depois foi cortada pela construção do nó da auto-estrada, onde vencia a milha V)
Carvalhos (m.p. VI; a via reaparece na Av. Dr. Moreira de Sousa e vencia a milha 6 no início da rua do Padrão, sugestivo topónimo; continua pelo Largo França Borges, rua Gonçalves de Castro, rua Carvalhos de Baixo, reencontra a EN1 e desvia logo à esquerda pela rua da Voltinha até ao Cruzeiro da Venda Nova, onde vencia a milha 7)
  • Monte Murado (importante povoado indígena romanizado conhecido por Castro do Monte Murado; actualmente ocupado pelo Santuário da Sra. da Saúde nos Carvalhos; na época romana a sua designação seria possivelmente «Ceno Oppido», assentamento referido no chamado Anónimo de Ravena entre Cale e Langobriga; na base do castro, no lugar de Idanha, apareceram duas raras tesserae hospitales em bronze no interior da villa de Decimus Iulius Cilo, mencionando o nome dos habitantes da região, os «Turduli veteres»; a peça foi para o Solar dos Condes de Resende em Canelas (AE 1983, 476 e 477); daqui seguia junto do Cruzeiro da Venda Nova, na 7ª milha, e pelos lugares de Seada e Leirós, onde ainda há memória de troços lajeados.
Afonsim (m.p. VIII; alminhas; continua pela Rua Central de Alfonsim e rua do Cidral)
Seixezelo (m.p. IX no Cabeço)
Vendas de Grijó (m.p. X, junto do sugestivo topónimo «Ribeira da Venda», rua paralela à EN1; daqui partia a derivação da via para Viseu)
Picôto (m.p. XI; importante nó viário, cruzamento desta via norte-sul com a via que ligava Crestuma à Vila da Feira)
Vergada, Argoncilhe (m.p. XI; segue a rua Central da Vergada até reencontrar a EN1; menção à «strata» num documento de 1096; PMH DC 842)
Lourosa (m.p. XIII; desvia da EN1 no cruzamento para Arouca pela rua Romana e rua da Estrada Real em Vendas Novas)

LANGOBRIGA (Monte Redondo)
Estação viária que tem sido associada ao Castro do Monte de Santa Maria ou Monte Redondo (Fiães) com base na distância de 13 milhas indicadas a Cale. O povoado forneceu importante espólio (Corrêa, 1925) no início do século XX, mormente uma ara a Júpiter, actualmente em exposição no Museu Convento dos Lóios em Santa Maria da Feira, juntamente com a inscrição funerária de Boutius também proveniente deste local. Entretanto o local foi destruído e urbanizado. O relativo afastamento da via faz supor que a estação viária estivesse junto da via, podendo corresponder à Albergaria de Souto Redondo, na milha 16 (Pereira, 1907; Arêde, 1938; Souto, 1941; Oliveira, 1943; Seabra Lopes, 2000a).

Ferrada, Fiães (m.p. XIV; a via continua para sul sempre pela rua da Estrada Real até Ferrada, topónimo viário onde venceria a milha 13; pouco depois a via está interrompida na travessia do ribeiro porque foi destruída pelo recente arranjo urbanístico que hoje é preciso contornar para retomar ao caminho 50 m depois na rua do Arieiro; mais um atentado ao trajecto da via perfeitamente evitável)
Souto Redondo (m.p. XV; continua pela rua da «Estrada Romana» seguindo até ao único troço que resta da antiga «Estrada Real» com a calçada original em seixos rolados, seguindo até ao Largo de Airas, onde resta um pequeno troço de calçada com cerca de 50 m formada por grandes lajes de pedra, continuando pela «Estrada Real» até desembocar na EN1)
Albergaria de Souto Redondo (m.p. XVI no reencontro com a EN1 junto da Malaposta de São Jorge, antiga albergaria medieval; seguia depois o traçado da EN1 pela actual rua da Malaposta, passando junto da Mamoa da Quinta da Laje, Mamoa da Laje e Mamoa da Carvalhosa)
Escapães (m.p. XVIII; referência à via como «extrada que vadit de Colimbrie de Vimeario» num documento de 1129 (Bastos, 2006), ou seja, a «estrada que vai para Vimieira de Coimbra», povoação situada a sul de Mealhada; continua pela EN1, marginando a Capelinha da Meia Légua, onde toma a rua da Estrada Real que segue paralela à EN1, interrompida pouco depois com a construção dos novos viadutos da EN223, na milha 17, continuando depois pela rua Frei Luís de Sousa, rua da Banda de Música e rua Prof. Vicente Reis)
Arrifana (m.p. XIX junto da Igreja Matriz; possível mutatio junto do topónimo Manhouce, a «vila maniozi» num documento de 1085, PMH DC 385; nó viário, sucessivamente hospital medieval e estalagem da «Estrada Real» no cruzamento com uma via este-oeste que ligava Arouca ao Atlântico por Vila da Feira; árula a Júpiter Conservatori por Valeria Marcella, actualmente no Museu Soares dos Reis; continua pela rua Dr. António Gomes Rebelo e rua da Fundição)
São João da Madeira (m.p. XX junto da Igreja Paroquial; referência à via em 1088 como «illa strata de iusta illa ecclesia de sancti ioanni», PMH DC 704; a via cruzava o actual centro urbano, junto da Capela de Santo António, continuando pela rua Visconde de São João da Madeira, rua Comendador Rainho e rua de Cucujães)
Faria (m.p. XXII; continua pela rua Dr. Ângelo da Fonseca e rua da «Via Militar Romana» até ao rio Úl)
Ponte da Pica (m.p. XXIII; ponte medieval sobre o rio Úl; pela directriz da estrada é possível que o ponto de travessia original fosse ligeiramente a montante; daqui continua por Cavadas do Couto, cruzando a EN1 e seguindo pelo caminho defronte que foi cortado pela A1 300 m depois; a via reaparece do outro lado da A1 rumo à travessia da ribeira do Cercal na base da possível atalaia conhecida pelos topónimos «Castelo» e «Torre Antiga», subindo a encosta por troço lajeado com marcas de rodados rumo ao Castro de Lações; seguia talvez paralela à estrada actual [EN227-1] pelo caminho de terra que passa abaixo de Lomba)
Lações de Cima (m.p. XXV; a 25ª milha era vencida junto do posto de combustíveis; o Castro de Lações ocupava a área actual Santuário do Monte da Sra. de La-Salette que terá destruído os vestígios do povoado; act. 2024)

Rota para o rio Vouga: a generalidade dos autores faz seguir a via por Oliveira de Azeméis rumo a Úl, onde apareceu miliário, continuando pelo percurso da antiga Estrada Real ou «Estrada dos Reis» por Branca e Albergaria-a-Nova até Albergaria-a-Velha (Sousa, 1960). No entanto, o Frei Bernardo de Brito dá notícia do achado de um miliário no Castro de Gião, actual Castro de São Julião, pelo que a via antiga poderia seguir antes em altura junto deste povoado, continuando pelo viso da serra até ao Povoado do Bronze Final de Ns. do Socorro, descendo daqui a Albergaria-a-Velha. Este trajecto poderá ter sido abandonado mais tarde a favor de um percurso pelo vale adoptado pela Estrada Real que seguia pelo Pinheiro da Bemposta e Branca. A ser assim, a passagem desta via por Úl parece obrigar a um rodeio desnecessário, dado que existe um percurso mais directo e mais facilitado entre o Castro de Lações e o Castro de São Julião. O miliário de Úl poderia assim assinalar um ramal desta via partindo do Castro de Lações para sudoeste rumo ao litoral (act. 2024).

  • Miliário de S. Gião/S. Julião: em 1597, Frei Bernardo de Brito menciona uma inscrição encontrada junto do Castro de São Julião. Segundo Brito, apareceu «no alto de hum monte que fica entre os lugares de Albergaria, & Bemposta, em fronte de outro chamado Pinheiro, no cume do qual se vem inda claramente os sinais de muros antigos, que cercão grão parte da coroa do monte, (...) me disserao se chamava Castelo de Gião, (...) achey pela parte Nascente muita pedraria lançada pela quebrada da serra (...) que a meu ver foi padrão posto na estrada» (Brito, 1609:4). Brito transcreve as letras COS VI / P IX PF / VAC XII P. M.» que interpretou como sendo um miliário indicando 12 milhas ao rio Vouga, dado que este é mencionado nas fontes clássicas como Vaccua em Estrabão (Geo. III, 3, 4), Vacca em Plínio (NH. IV, 35) e Vacus em Ptolomeu (Geo. II, 5). O problema é que a distância entre o povoado e o rio Vouga ronda as 10 milhas; assim das duas uma, ou o miliário foi deslocado de um local 2 milhas a norte (bastante improvável atendendo ao local do achado), ou o marco indica a distância a outra estação 12 milhas mais a norte, distância que nos coloca em S. João da Madeira, tradicional ponto de paragem desta rota, que por sua vez está a 20 milhas de Cale (act. 2023; sobre esta inscrição ver Pereira, 1907; Souto, 1941; Oliveira, 1943:50; Baptista, 1948a; Alarcão, 2004a; Mantas, 1996:332-336, 2019b).

Continuação do Itinerário XVI pelos povoados de São Julião e Ns. do Socorro
Partindo de Lações de Cima, continuava junto do Castro de Lações (actual Santuário de Ns. de La Salete), Capela de Ns. do Carmo e Alminhas de Cidacos em direcção ao cruzamento do rio Úl/Antuã no topónimo «Porto de Carro» (junto do povoado de Lomba de Vilar) e daqui ascende a encosta de Macinhata da Seixa (designada por «Macinhata da Pousada» em 1420; mamoas), subindo pelo Seixo até ao Alto do Monte, e daí pelo viso do monte por Sanfins e Alto da Raposeira, passando junto do povoado fortificado conhecido por Crasto da Mó; continua por Alviães, Alfange, seguindo pela vertente nascente do Castro de São Julião, povoado do Bronze Final dominando a povoação de Branca; a estação viária poderia estar junto ao castro, na encruzilhada de Espinheira, dado que este local se encontra a 10 milhas do rio Vouga; o povoado é referido num documento do ano 922 como «Abranca» (PMH DC 25) e no ano de 1088, como «Castro de Abranka» (PMH DC 708). Há também referência à «albergaria da Castineyra» nas inquirições de Dom Afonso II sobre Auranca de 1220, incluindo os terrenos «quantum laborauerint sub estrada» (LPMG, 36). Retomando o percurso em Espinheira, continua pelo viso da serra por Fradelos até ao Castro de Ns. do Socorro (m.p. XXXVI; a 6 milhas ao Vouga e a 20 a Langobriga, possível localização de Talabriga), e daqui por Urgueiras seguia para Albergaria-a-Velha onde reúne com o traçado da Estrada Real em (act. 2024).

TALABRIGA (Sra. do Socorro?)
A sua localização permanece incerta, no entanto, segundo o Itinerário de Antonino, este povoado estaria a 40 milhas de Coimbra, o que posiciona esta estação junto do Povoado de Ns. do Socorro, quadrifinium da divisão entre as freguesias de Branca, Albergaria-a-Velha, Valmaior e Ribeira de Fráguas, ocupando portanto um ponto central do território e com domínio visual sobre toda esta área. Foi Costa Veiga quem inicialmente lançou a hipótese de Talabriga se localizar neste povoado do Bronze Final, com base numa notícia do aparecimento de cerâmica atribuída ao Bronze Final. Não havendo evidências de uma posterior ocupação, o sítio poderá ter sido abandonando em data incerta. O topónimo «Tala-briga» poderá ter o significado de «flat hillfort» (Curchin, 2007:151), descrição que se adequa a este cabeço aplanado com um vasto campo visual sobre o vale de Albergaria-a-Velha. João de Almeida refere a existência de estruturas de um possível "castro luso-romano" (Almeida J., 1948:46), mas até hoje nada foi encontrado. Sobre esta questão ver ainda a nota 1 dos I.A. em "Viação Romana" (ver também Pereira, 1907; Arêde, 1938; Madahíl, 1941; Souto, 1941; Oliveira, 1938 e 1943, Baptista, 1948a, Seabra Lopes, 2000a e 2000b; Silva AMSP, 2015) (act. 2024).

  • Variante do Monte de Ns. do Socorro ao Vouga por Mouquim (10 m.p.)
    Esta via deriva do itinerário principal na base do Santuário Ns. do Socorro, seguindo para sudeste junto da Capela da Sra. da Luz, rumo à travessia do rio Caima em Valmaior (2 m.p. junto ao cemitério). Continuava por Mouquim (rua Vale do Carro), Póvoa (4 m.p.) e Carvoeiro, onde cruza o rio Vouga, junto da Foz do Caima (5 m.p.). Continua por Soutelo (6 m.p.), Beco (7 m.p.), Macida de Cima (8 m.p.), Cavadas de Cima e Carvalhal da Portela, reunindo com a via principal no Alto de Giestal onde vence a décima milha (act. 2024).

Albergaria-a-Velha (m.p. XXXVIII; em 1258 era designada por «Albergarie veteris de Meigonfrio» ou seja, «a albergaria velha de Mesão Frio» [Oliveira, 1943:60], fundada por D. Teresa no século XII segundo documento da Carta de Couto de Assilhó [DMP DR 49]. É possível que a mutatio romana estivesse também neste local situado na base do Monte de Mesão Frio, actual Santuário de Ns. do Socorro, eventualmente construído sobre um antigo povoado castrense; segundo Mário Saa a expressão «frio» tem aqui o sentido de local deserto, despovoado (Saa, 1956:145); desvia da EN1 para cruzar a povoação pela rua 1º de Dezembro e rua Mártires da Liberdade, antiga «rua da Calçada»)
Serém de Cima (m.p. XLI; há referências a um miliário nesta antiga malaposta; segue pela rua Central, descendo depois a encosta de Gândara pela rua da Estrada Real e rua da Estrada Velha, onde existiam vestígios de calçada entretanto soterrados, cruza a EN1 para Pontilhão e chega ao rio Vouga; Baptista, 1942; Seabra Lopes, 2000a)
Travessia do Rio Vouga (m.p. XLII; a ponte actual é uma reconstrução setecentista da primitiva ponte quinhentista da qual ainda são visíveis os pilares e os arranques dos arcos; no período romano a travessia deveria ser por barca, dado não existirem vestígios de uma anterior ponte romana (Baptista, 1947; do mesmo modo a Ponte do Marnel será medieval atendendo a que num documento de 1327 é referida como ponte noua do Marnel; Ferreira, 2008:79)
Cabeço do Vouga (Povoado da Idade do Ferro fortemente romanizado dominando a travessia do rio Vouga; no topo do cabeço subsistem ainda muitos vestígios das estruturas sidéricas e romanas)

VACCA
A relevância dos vestígios e a posição estratégica do povoado do Cabeço do Vouga levaram à sua identificação com Talabriga (Girão, 1923, Alarcão, 1988, Lopes, 1995, 2000a). No entanto, as distâncias indicadas no Itinerário XVI não batem certo com esta localização dado que a distância entre o Vouga e Mondego ronda as 34 milhas, enquanto o Itinerário de Antonino indica 40 milhas para este percurso (o que coloca esta estação junto do Povoado de Ns. do Socorro em Albergaria-a-Velha, como referido acima), pelo que a designação deste povoado poderia antes derivar do nome antigo do rio Vouga, Vaccua em Estrabão (Geo. III, 3, 4), Vacca em Plínio (NH. IV, 35) e Vacus em Ptolomeu (Geo. II, 5). Esta hipótese tem forte tradição na historiografia nacional quando Frei Bernardo de Brito publica o achamento de uma inscrição do Vale de Ossela, assinalando a presença de coortes da Legião X Fretense nos praesidia de «VACE OSCEL LANCO CALEN AEM» (Brito, 1609:3). A identificação destes praesidia não oferece grandes dúvidas, como Oscela no Castro de Ossela, Langobriga no Castro do Monte Redondo (Fiães), Cale no Porto e Aeminium em Coimbra. Nesta lista de civitates da região litoral entre Douro e Vouga, estranha-se a ausência de Talabriga, que aqui aparece substituída pelas iniciais VACE, apontando para a existência de um território Vacensis e o respectivo oppidum em Vacca ou Vacua (daí o topónimo rua da Cidade de Vaccua em Lamas do Vouga). O abandono do Castro de Ns. do Socorro ainda antes da conquista romana poderá ter ditado a sua substituição como cabeça de território pelo povoado do Cabeço do Vouga, que por sua vez, apresenta importantes vestígios da Idade do Ferro e Romano. Deste modo, interessa recuperar esta antiga proposta que identifica o povoado do Cabeço do Vouga com o oppidum de Vacca de Plínio (act. 2024).
Mapa
Marnel


Águeda




Mealhada


Coimbra




Mondego




Conímbriga















Cabeço do Vouga (Vacca?) - Coimbra (AEMINIUM) - Condeixa-a-Velha (CONIMBRIGA) m.p. XXXIV
A continuação da via para sul não seguiria a Estrada Real por Lamas do Vouga e a Ponte Medieval do Marnel (segundo proposta de Baptista, 1947), mas por caminho alternativo a este do anterior que partia um pouco a montante da ponte sobre o Vouga, junto do sítio do Carvalhal, ascendendo ao Alto do Giestal (m.p. XXXII), onde reencontra a EN1, continuando pela rua 25 de Abril. A via é referida num documento medieval como strata maiore (PMH DC 578).
Mourisca do Vouga (m.p. XXXI junto da Viela do Marco, possível referência a um miliário; a trigésima milha seria vencida no cruzamento com a rua dos Moleiros, actual divisória entre freguesias)
Águeda (m.p. XXVIII junto da travessia do rio Águeda; albergaria medieval na rua do Barril; um documento medieval sobre Cabanões de Riba d'Águeda alude à carreira publica (Bastos, 2006:179); também foi identificado um troço lajeado logo após o cruzamento do rio, seguindo a antiga «Estrada Real» por Sardão, Chão da Moita, m.p. XXVII nas Alminhas, e Brejo; cruza a zona industrial de Barrô e a ribeira do Porto da Moita seguindo pelo caminho actualmente cortado pela IC2; continua pela «Estrada Velha» até à Capela da Sra. da Alumieira em Landiosa, m.p. XXIV; logo depois cruza a ribeira do Cadaval)
Aguada de Baixo (m.p. XXIII junto da Capela da Sra. da Memória em Aguadela; em ara votiva a Cusei Baeteaco em Aguada de Cima; continua pela rua Alto da Póvoa)
São João da Azenha (m.p. XXII junto da Capela de São João; nos anos 70 ainda existia um trecho da via, com «guias marginais de lajes calcárias»; continua pela EM1656, passando junto das capelas de Ns. da Ajuda e dos Aflitos, na m.p. XXI)
Avelãs de Caminho (m.p. XX atingida no cruzamento com a rua Portela, actual divisória entre freguesias)
Anadia (m.p. XVIII; segue a poente do Castro de Anadia por Malaposta e Vendas da Pedreira)
Aguim (m.p. XVI; continua sob a EN1 por Alpalhão, m.p. XV, e Sernadelo, m.p. XIV)
Mealhada (m.p. XIII; cruza a povoação, talvez pela rua Costa Simões)

Vimieira (m.p. XII)
Provável mutatio a 12 milhas de Coimbra dado que aqui apareceu um miliário de Calígula, CIL II 4640, indicando essa distância (Corrêa, 1971); foi descoberto durante a construção da linha do norte entre 1856 e 1857, inter Fornos et Pedreira, a cerca de 1 milha a sul da Mealhada (via"> Almeida, 1956) e actualmente encontra-se no átrio da C.M. da Mealhada; o local exacto da mutatio ainda não é seguro; a ocidente da via há vestígios de uma provável villa conhecida por «Cidade das Areias» (Lopes, 1981). Em Casal Comba apareceu uma estatueta de Mercúrio, divindade protectora dos caminhos)

Nó viário da Vimieira
  • A mutatio poderia ser propriedade de Caius Fabius com base numa inscrição dedicada à divindade Tabudico achada na villa da Quinta de Ns. do Amparo (Murtede), onde surge cognominado de viator, actualmente no Museu da Pedra em Cantanhede (Alarcão, 2004, p. 49); na igreja paroquial de Murtede existe uma outra ara votiva, incorporada na pia baptismal.
  • A via surge em documentos medievais como «karraria de illa Vimeneira» no ano 973 (in PMH DC 106) e noutro de 1095 como «strada de uiminaria» (in PMH DC 817), mostrando a relevância desta estação ainda durante o período alto-medieval; referência ainda à «estrada velha coimbram» num documento de 1288, junto da «Mealhada Má» (DL, II, fl. 64; Carvalho, 1950:218).
  • Ramal para Montemor-o-Velho por Póvoa da Lomba, segundo Vasco Mantas (1996:328-332), partia da Vimieira por Silvã (EM615, Enxofães e Cordinhã (de onde poderia partir uma via vicinale servindo as villae a sul, com vestígios na Quinta do Mancão, Pardieiros, Várzeas, Portunhos e Ançã), seguindo depois pela EM1038 por Póvoa da Lomba (povoado proto-histórico em Mosqueiros, cerca de 600 m a sul da via; daqui poderia haver ligação à villa de Tentúgal passando na Lagoa de Outil e Portela); a via continuava próximo de Zambujal (junto da possível mutatio do Monte Salgado, onde apareceram bases de coluna e muita cerâmica, a 10 milhas de Montemor) e seguia por Gordos (próximo de Zambujeira), continuando para Montemor por Meco, Vale Canosa, Boleta e Carapinheira, passando nos topónimos viários Estrada, Cruz de Santo António, e pelos altos da Cavalinha e São Gens atingia o Castelo de Montemor.
  • Ramal para Montemor-o-Velho por Cantanhede, outra possibilidade proposta por Jorge de Alarcão poderia seguir por Ourentã (villa em Bouças), Cantanhede, Lemede, Casal de Cadima (em torno do Alto de São Gião, a villa em Pelício e respectivas necrópoles em Pedra do Sino e Mata Pinto), descendo por Arazede (referência em 1099 à «strada maiore que vadit pro ad Cantoniede.» no doc. LP 108) e Amieiro até Montemor-o-Velho (ara a Júpiter proveniente do sítio romano da Capela da Sra. do Desterro, junto da EN111; RAP 281 e FE 629). Possível ligação por Lomba ao porto fluvial da Forca (Alarcão, 2004:40).

Continuação para Coimbra
Seguindo por Quinta da Malaposta (m.p. X), Carqueijo (m.p. IX), Santa Luzia (m.p. VIII), Sargento-Mor (cruza a povoação passando nas Alminhas de São Romão e continua sob a EN1 passando a poente da villa na Quinta de Lagares, relacionada com a milha VI; a via é referida num documento do ano 968 como «carrale que discurrit ad ciuitas conimbrie»; PMH DC 95). Daqui seguia por Adémia de Cima (m.p. IV junto do trifínio entre as freguesias de Trouxemil, Torre de Vilela e São Paulo de Frades; o miliário de Calígula indicando 4 que apareceu em Coimbra estaria originalmente neste local onde hoje se cruzam estrada e linha férrea; continua pela rua Cerâmica Ceres e rua Coimbra) e Pedrulha (num documento do ano 933 é via é referida como «carraria maiore» (PMH DC 39), assim como «uia que discurrit ad sanctum romanum» no ano 1094 (PMH DC 807). Nesta área há também referência às «terris de Alvalat» (LP, 305) que provém do árabe 'al-balat' que significa 'caminho calcetado'; daqui a via continua por Venda da Fontoura, margina a Capela de Ns. de Loreto, m.p. I em direcção à estação Coimbra-B, junto da qual foi detectado um troço da via durante as obras para construção de uma passagem subterrânea, projecto entretanto abandonado. Depois de cruzar a ribeira de Coselhas, a via seguia talvez junto da Gafaria/Hospital de São Lázaro, fundada em 1209 por testamento de D. Sancho I, cujos restos ainda são visíveis na Azinhaga dos Lázaros.

AEMINIUM (Coimbra)
Importante oppidum a 40 milhas de Talabriga e a 10 milhas de Conimbriga; a localização de Aeminium em Coimbra é atestada por uma lápide honorífica dedicada ao imperador Constâncio Cloro pelos habitantes da Civitas Aeminiensis que apareceu na Couraça dos Apóstolos e actualmente está no Museu Machado de Castro, MNMC 150 (Figueiredo, 1888); o museu tem uma colecção de epígrafes funerárias proveniente da necrópole junto da porta oriental, local que recebia o aqueduto; neste museu estão também depositados dois miliários, um tem a inscrição já muito danificada e por isso ilegível, e o outro é o miliário de Calígula (CIL II 4639) indicando 4 milhas a Coimbra que apareceu em 1774 reutilizado na Couraça de Lisboa, junto ao Arco da Traição; estaria originalmente em Adémia de Cima; o museu assenta sobre um magnífico criptopórtico romano que na época suportava o antigo forum de Aeminium e é hoje uma das construções romanas mais bem preservadas em Portugal; há vestígios do cruzamento do decumanus maximus com o cardus maximus no canto SE do edifício (Alarcão, 2008a e Mantas, 1992 e 1996).

Travessia do rio Mondego (MONDA) (a ponte medieval foi construída em 1132 por ordem de D. Afonso Henriques e posteriormente reconstruída em 1513 no período manuelino, não havendo evidências de uma ponte anterior romana; continuava depois junto do Portugal dos Pequenitos, onde iniciava a subida da encosta pela rua da Volta das Calçadas, seguindo depois por Carrascal da Várzea pelas ruas Vitorino Planas e Capitão Pereirinha até ao Alto de Barreiros, onde, num jardim particular junto à via, existe um marco cilíndrico com base quadrangular, provável miliário. Daqui seguia até confluir na chamada «Estrada Antiga de Lisboa»; há referência à via no ano 1088 como «publica uia que ducit ad sanctaren», PMH DC 700)
Cruz dos Morouços (m.p. II junto das Alminhas do Sr. dos Aflitos; cruza a EN1 e segue a antiga rota da Estrada Real por Ladeira da Paula)
Antanhol (m.p. IV; acampamento militar romano, também chamado de «Cidade Velha dos Mouros/Mata Velha», importante sítio arqueológico porém nunca estudado e entretanto destruído com a construção do Aeródromo de Coimbra, possível povoado fortificado reutilizado como posto militar na época Republicana; a via passaria na sua base pelo lugar do Adro Velho; há uma referência à estrada como «via publica» num documento do ano 1087, atestando a sua importância; PMH DC 676)
Venda do Cego (m.p. V; villa entre Picoto e Malga; cruza o IC1 e segue por Arneiro e Vendas de Pousadas)
Cernache (m.p. VI; cruza a ribeira de Casconha e segue por Orelhudo)
Eira Pedrinha (m.p. VIII junto do povoado do Bronze Final conhecido por "Castelo", junto da Capela da Sra. da Piedade onde apareceram vestígios romanos, incluindo tijolos de coluna e um pavimento de opus signinum (Vilaça, 2012:21); daqui a via seguia para o cruzamento da ribeira de Bruscos na Ponte da Atadôa, m.p. IX, onde no século XVI ainda estavam várias inscrições, uma deles mencionando um natural de Conimbrica (Barreiros, 1561:49-50), seguindo depois por mais uma milha até à sede da Civitas Conimbricensis)

Condeixa-a-Velha (CONIMBRIGA)
Na área de influência da cidade apareceram sete miliários, um em Tamazinhos, outro em Soure, e os restantes cinco apareceram dentro da cidade ou no seu aro, dois de Constâncio Cloro, um de Tácito, outro de Galério Maximiano, e ainda um fragmento de outro, talvez de Tácito (FE 737); estão no Museu Monográfico de Conímbriga; existem dois cilindros enterrados junto da porta norte da cidade que poderão ser miliários anepígrafos, mas também podem ser colunas retiradas de algum edifício da cidade; ara aos Lares Viales; ara ao génio Conimbricensis e seus lares. O abastecimento de água era assegurado pela captação do Castellum Romano de Alcabideque, através de um aqueduto com pouco de mais de 3 km de extensão, grande parte enterrado no solo excepto no troço à entrada da cidade, onde foram utilizados arcos para manter o seu nivelamento; apareceram também inscrições relacionadas com o culto das águas, a ara dedicada aos Lares Aquitibus e ara a Aquiae Sacrum. Junto desta entrada da cidade apareceu uma ara aos Lares Viales; o porto fluvial da cidade poderia situar-se no braço do Mondego que alcança a zona de Venda da Luísa/Anobra, ligando depois à cidade por Sebal Pequeno e pela Ponte do Barroso)
Mapa
Tamazinhos




Tomar


















Santarém






Variante
Torres
Novas





Condeixa-a-Velha (CONIMBRIGA) - Tomar (SEILIUM) - Santarém (SCALLABIS)
O I.A. indica 34 milhas para este trajecto o que é manifestamente insuficiente para cobrir a distância entre Conímbriga e Tomar, provável localização de Seilium, dado que a distância em linha recta ronda 37 milhas e o percurso proposto totaliza 42 milhas. Apesar desta dúvida, o percurso não oferece grandes dificuldades, seguindo por Tamazinhos, Ateanha, Várzea de Aljazede e Venda das Figueiras em direcção a Tomar (Mantas, 1996). Em Conímbriga, saía pela chamada "Porta de Tomar" cujos vestígios são ainda visíveis junto do parque de estacionamento do museu. No entanto, o trajecto da estrada continuava para sul pela Ponte de Atadôa, cruzando depois a Mata da Alfarda, passando a nascente da cidade. O ramal de acesso deverá corresponder à via transversal este-oeste que liga Eira Velha a Soure passando por Conímbriga. Continuava pela base nascente do Cerro da Pêga, servindo a partir daqui de linha divisória entre concelhos. Continua para sul pelo caminho rural do Outeiro, marginando diversos vestígios romanos como em Lameiras (Póvoa das Pegas), Algar de Janeia, Janeia Velha e Enxurreira e Lameiras, fazendo supor que estes teriam uma função viária. Continua por Zambujal e Porta d'Angere, onde há referências a um possível miliário "com letras", correspondente à milha V. Na outra margem da ribeira de Carálio Seco assenta a monumental villa Romana de Rabaçal. Continua pela Cruz do Morto, onde vencia a milha VI, na base do Castelo Medieval de Germanelo que poderá assentar sobre um antigo povoado castrejo.

Tamazinhos, Penela (m.p. VIII na base do Cerro de Juromelo; continua por estradão de terra junto do habitat de Lameiros, existindo vários troços em calçada ainda bem conservada na subida para o cruzamento da Quinta da Ribeira perto da qual foi encontrado o miliário de Décio indicando 8 milhas a Conímbriga, actualmente em exposição Museu do Rabaçal. Cruza a ribeira de Alcalamouque e segue o estradão de terra por Portela de Casas Novas e Cabeço da Revolta, margina o casal de Vale de Abrunheira até atingir a base do povoado do Cabeço de Ateanha, a milha X)
Aljazede (m.p. XI; continua pela Várzea de Aljazede e Vale de Camporez passando junto do habitat de Poço Carril/Vinha Morta pelo caminho rural a sul da Póvoa por Algar, Estalagem, Furadouro, Terra de Maçãs/Celeiros e Campo da Lagarteira, servindo de linha divisória entre os distritos de Leiria e Coimbra, cruza o ribeiro de Camporez e segue por Palmoeiro e Castelos até entroncar na EN560)
Cumeeira (cruza a ribeira da Sabugueira junto do povoado de Castelos)
Venda das Figueiras (m.p. XIV na capela; possível mutatio em Freixial, no caminho paralelo à EN110)
Tojeira, Avelar (m.p. XVI; reúne com a EN110 e segue por Pontão e Venda Nova)
Chão de Couce (continua pela EN110 por Vendas de Maria, Carvalhal, Venda de Barqueiros, Fonte Pedra e Carvalhal de Pussos)
  • Possível mutatio em Melgaz, trifínio entre freguesias. Este local está situado sensivelmente a meio percurso da via Tomar - Conímbriga, a 22 milhas de Conímbriga e a 20 milhas de Tomar pelo que aqui deveria existir estação. A via corre em grande parte paralela ou coincidente com a actual estrada nacional N110. Possível referência à estrada num documento de D. Sancho I (1174-1211): in stratam Colimbrianam et uadit per ipsam stratam ad aquam de Valle de Cupis, podendo este último topónimo corresponder a este local; continua por Cabaços (Pussos), onde vencia a milha XXV.
  • Variante por Alvaiázere: segundo autores como Costa Veiga e Mário Saa, existia um itinerário alternativo que saía de Chão de Couce rumo Alvaiázere (Veiga,1943:11-12; Saa, 1956:218-219), continuando depois próximo de Maçãs de Caminho e do vicus da Rominha, por Sobreiral, rua da Calçada Romana, Feteiras (calçada da Cortiça e calçada do Ramalhal) de encontro ao nó viário do Rego da Murta.
  • No documento da doação da herdade de Almofala («hereditate de Almafala») em Maçãs de Dona Maria, surgem referências à «stratam Colimbrianam» e a uma outra «stratam veteram», mas de difícil localização (DDS, 185).

Continuação do trajecto para Tomar
Rego da Murta (m.p. XXVII; nó viário e provável mutatio; a Igreja de São Pedro assenta num podium de um possível santuário associado à via que seguia entre dois povoados proto-históricos romanizados, a poente, o Castro de Avecasta, e a nascente, o Castro de São Saturnino, sendo a milha 30 era vencida nas proximidades deste último; continua pela «Estrada Velha» até Farroeira, onde desvia da EN110 pouco antes do km 77)
Casal da Farroeira (m.p. XXIX; continua por Casais e Fonte do Tojal, na milha XXX)
Vila Verde (m.p. XXXI; casal rústico junto da via; continua por Daporta)
Fonte da Laje (m.p. XXXII)
Portela de Vila Verde (m.p. XXXIII; topónimo Calçadas)
Ponte de Ceras (m.p. XXXIV, 8 milhas a Tomar; uma fotografia tirada nos anos 20 mostra um fragmento de miliário junto à ponte; Guimarães, 1927:31)

SEILIUM
Estação viária ainda sem localização segura que tem sido colocada em Tomar. No entanto, a contagem miliária aponta para a sua possível identificação com o Castro de Ceras, a 34 milhas a Conímbriga, referido num diploma régio de Fevereiro de 1159 (DMP, DR I, doc. 271). Trata-se do documento de doação do Termo de Ceras aos templários por D. Afonso Henriques, referindo-se aí o castrum quod dicitur Cera, especificando que então estaria já em ruínas. A ideia inicial de Gualdim Pais era reconstruir a velha fortificação, mas o projecto foi abandonado a favor da construção do Castelo de Tomar que é iniciado logo um ano depois (Barroca, 1997:178). Os vestígios do Castelo de Ceras ainda eram visíveis cerca de 1542, tendo sido registados pelo Dr. Pedro Álvares Seco, mas em 1799, segundo Viterbo, já pouco havia a registar (idem). Actualmente ainda há dúvidas na localização deste castelo, com Salete Ponte apontando para o Monte do Alqueidão, seguindo a proposta de Amorim Rosa (Ponte, 1997:292), enquanto João Romão propôs a sua localização no vizinho Monte das Castelhanas, onde encontrou vestígios de um recinto amuralhado (Romão, 2012:99). Depois de cruzar a povoação de Ceras, a via continuava pelos topónimos Calçadinha e Ferradura (act. 2023).

Freixo, Alviobeira (m.p. XXXV; continua por Feiteira; a poente, o povoado fortificado do Cabeço da Pena)
Pintado (m.p. XXXVII; castro romanizado do Cabeço da Pena em Calvinos; segue a EN110 pelo Alto do Pintado, onde havia vestígios de calçada)
Vale da Trave (m.p. XXXVIII)
Venda Nova (m.p. XXXIX)
Calçadas (m.p. XL; troço com cerca de 100 m designada por Calçada de Tripeiro, entretanto destruída; continua por Alvito e Bacelos, entrando na cidade)

Tomar (m.p. XLII a Conímbriga - XXXIV a Santarém)
Vestígios do forum nas traseiras do quartel dos bombeiros; dois miliários encontrados na margem esquerda, no Cerrado de São João do Couto, actualmente no Museu do Carmo em Lisboa, o miliário de Tácito, CIL II 6197/CIL II 4959 sem indicação da distância e o miliário de Maximiano, CIL II 6198/CIL II 4960, que segundo Hübner indicaria a milha I (Hübner, 1869), apesar de hoje já não estar legível (Mantas, 1989). Outros dois miliários anepígrafos foram descobertos durante obras na Av. Norton de Matos. Há também notícia do achado de um miliário na rua do Everard que terá sido deixado enterrado no local. Inquirições a vizinhos de Tomar em 1135 mencionam o termo «Cêlho» associado ao lendário Abade Célio que terá origem no antigo topónimo Seilium, sendo que Tomar foi também designada por «Santa Maria de Celho» (Guimarães, 1927:107; Alvim, 1961:124).

Travessia do rio Nabão: não há qualquer vestígio de uma possível ponte romana sobre o Nabão; a chamada «Ponte Velha» não apresenta qualquer sinal de romanidade, e o mesmo se passa com a Ponte de Oleiros/Ferrarias mais a jusante; foto; apesar de haver referências a uma ponte desde o ano 1219, não são conhecidos vestígios dessa ponte e nem qual seria a sua localização original. Pelo alinhamento do trajecto, o local de travessia poderia ser junto da Igreja Templária de Santa Maria do Olival, onde apareceram miliários (act. 2024).

Miliários de Delongo: em 1666 Jorge Cardoso dá notícia da existência de dois possíveis miliários em Delongo a sul de Tomar, estando «hum distante do outro hum quarto de legoa», ou seja estavam separados por uma milha, indiciando a passagem da via nesta área, nas proximidades da travessia da ribeira de Beselga em Marmeleiro. O primeiro marco (hoje perdido), terá aparecido em Santa Catarina, a «hum tiro de espingarda do lugar da Delongo». O segundo marco apareceu na «Quinta das Coelhas» em Santo Estevão (local hoje desconhecido), estando associado à lenda dos Santos Mártires; foi transferido para junto do «Casal das Abadessas», local sobranceiro à ribeira da Beselga, onde era venerado pelos viandantes e onde há vestígios romanos (seria antigo santuário romano). Entretanto o cipo foi levado para o jardim de uma casa particular ali próximo (Cardoso, 1666:762; Mantas, 1989, 1992a:44, 2012b:309; Batata, 1997:211) (act. 2024).

Itinerário de Tomar a Santarém por Golegã (XXXIV m.p.)
Partindo da margem direita do Nabão seguia aproximadamente a rota da EM535 por Algarvias, continuando pelo CM1130 por Casal de São Miguel (3 m.p.), Casal de Freiras (4 m.p.) e Marmeleiro, onde cruza a ribeira da Beselga (5 m.p.), continuando por Delongo até ao nó viário de Santa Catarina (6 m.p.), onde cruza a via Coimbra-Tancos. Continua por Venda de Peralva (7 m.p.), Alto da Casa Branca (8 m.p.), Quinta da Margarida (9 m.p.) até Atalaia (10 m.p.; possível miliário na rua Luís Picciochi). A partir daqui corresponde ao percurso da «Antiga Estrada Real», descrita no «Roteiro Terrestre», actual EN365, por Ponte da Pedra (12 m.p.) e Golegã (17 m.p.; a meio percurso), seguindo depois a margem direita do Tejo (próximo existe a villa de São Miguel/Quinta dos Álamos). Daqui cortava a direito pela antiga Ilha de Alvisquer, cruzando o rio Almonda junto da Quinta da Broa (a «Ponte de Almondega» no Roteiro Terrestre), continuando por Azinhaga, onde haveria nova estação viária, a 12 milhas de Santarém. Há diversos vestígios romanos (e anteriores) nesta área, assim como um possível povoado em Pombalinho. A via continuava sempre recto pela Quinta da Lezíria, passagem dominada pelo povoado de Chões de Alpompé, na base do qual se regista o topónimo «Vale da Carreira», seguindo rumo à travessia do Alviela junto à Cruz da Légua, onde há notícia de um extenso troço calcetado junto dos topónimos Barreiras da Bica e Boavista que deverá corresponder ao trajecto da via. Como o próprio nome indica, a Cruz da Légua indicava 4 milhas a Santarém, podendo também haver aqui um estabelecimento viário, atendendo ao achado de estruturas, sigillata e moedas em torno deste local, designado por sítio de Cirne. Daqui a via seguia até a Ribeira de Santarém, onde se regista o topónimo «Entrada do Campo de Santarém», atingindo a 34ª milha na base do morro do assentamento de Scallabis.

Santarém (SCALLABIS) (oppidum e mansio; sede do Conventus Scalabitanus; na Alcáçova de Santarém, actual Jardim das Portas do Sol, apareceu um miliário de Probo, actualmente na Igreja de Santo Agostinho da Graça; a área foi escavada e os achados estão em exposição no novo Centro de Interpretação «Urbi Scallabis». Na Casa da Alcáçova existem vestígios do podium e cella do Templo Romano de Santarém. Um ramal da via acedia ao povoado, talvez pela Calçada de São Domingos, junto da necrópole, entrando na cidade pela antiga Porta de Leiria junto da Igreja de Nossa Senhora da Piedade; percorria depois a actual rua Capelo e Ivens até ao cruzamento com a rua 1º de Dezembro, num local conhecido por «Canto da Cruz», possivelmente o ponto de cruzamento do decumanus com o cardus da antiga urbe; uma derivação daria acesso ao porto fluvial em Alfange, onde apareceu uma estátua do deus Harpócrates)

Chões de Alpompé: o importante povoado de Chões de Alpompé, ocupando um cerro situado junto da foz do rio Alviela, a cerca de 8 milhas a norte de Santarém controlava o comércio fluvial do rio Tejo, havendo vestígios de um acampamento militar Republicano. Poderá corresponder à "cidade" de Morón mencionada por Estrabão a 500 estádios do mar (cerca de 92,5 km), valor coerente com esta localização.

    Variante de Tomar a Santarém por Torres Novas
    Alguns autores fazem passar a via para Santarém por Torres Novas, percurso referido num documento de 1213 como «Estrada de Turribus» (Mantas, 1990:225, Romão, 2012); no entanto, apesar de esta estrada poder remontar ao período romano não parece corresponder ao traçado principal que seguia, mais próxima do Tejo, por Golegã e Azinhaga tal como a Estrada Real. Partindo de Tomar, seguia talvez por Madalena rumo a Paialvo (em 2004 apareceram vestígios de calçada em Casal Salgueiro, durante obras na linha férrea, restando o topónimo «Rua da Via Romana»; ver notícia). De Paialvo seguia a actual linha divisória entre os concelhos Tomar e Torres Novas, passando em Casal de Soudos, rumo à travessia da ribeira de Pé de Cão na chamada «Ponte Romana» (mas que será posterior). Vestígios no sítio do Paraíso/Paraísas sugerem a existência de uma estação viária a 8 milhas de Tomar. Continua junto do Casal de São Brás em Vargos e pela calçada junto do cemitério de Valhelhas, e daqui a Gateiras (topónimo Porto da Laje), onde começa um troço bem conservado em calçada com cerca de 1500 m que passa a sul da Quinta da Torre de Santo António (actual Quinta do Marquês), próximo da qual cruza a ribeira de Arripiado numa ponte dita "Romana" (Romão, 2012), e segue pelo troço de calçada entre o Casal da Quebrada e Fonte do Bom Amor para atravessar o rio Almonda na confluência com a ribeira do Alvorão junto a Torres Novas (m.p. XV; ver Carta Arqueológica; imponente Villa Cardillio cujo espólio está no Museu Municipal Carlos Reis), seguindo depois um hipotético trajecto por Brogueira, Alcorochel (por Casal da Capela, Várzeas, Casal da Varjas, Casal da Roca, Casal do Mau Dente, Quinta dos Formigais, Valverde, Pedregal, Espinhal e Sobral) e São Vicente do Paúl onde cruza o rio Alviela (talvez nas proximidades dos extensos vestígios de Torrão, Gamacho e Outeiro do Bairrinho, continuando junto do topónimo Corredoura), Torre do Bispo (continua por Alcaidaria), Póvoa de Santarém, cruza a ribeira de Cabanas junto da Quinta de Vale de Lobos, continuando talvez próximo do sítio romano das Besteira rumo a Santarém.
Mapa
Alenquer








Loures


Lisboa










Ponte de
Alcântara



Santarém (SCALLABIS) - Alenquer (IERABRIGA) - Lisboa (OLISIPO)
Santarém (continua pelo trajecto da «Estrada Real» por Vila Chã de Ourique, cruzando o rio Maior na Ponte da Asseca («Ponte Secca» no «Roteiro Terrestre»), local a uma légua de Santarém; segundo Vasco Mantas a via continuava pelo troço em calçada da Quinta do Malpique; Mantas, 2002)
Cartaxo (a via seguia um trajecto mais interior a fim de evitar o grande Paúl da Ota)
  • Ramal de ligação a Porto Sabugueiro/ Rio Tejo: um ramal deveria cruzar o rio Tejo no sítio de Esfola-Vacas, cruzando o rio rumo ao importante povoado Porto de Sabugueiro, na outra margem, evidenciando uma larga diacronia de ocupação relacionada com o comércio fluvial.
Pontével (provável mutatio; referência à via vetera num documento do ano 1200; há calçada «acima da Fonte da Concha, à Horta d'Ourives, junto ao Pinhal da Rola» e duas pontes antigas com possível origem romana, a Ponte Velha sobre a ribeira de Pontével e a Ponte da Ribeira da Fonte, esta entretanto destruída)
Aveiras de Cima (continua por Casais da Milhariça)
Ota (Povoado pré-romano da Ota numa colina a poente; cruza o rio Ota e continua pela rota da EN1, desviando depois pelo Alto da Forca por onde descia ao rio)

Alenquer (provável mansio no lugar de Paredes, referência ao paredão romano que se encontra na rua das Fontes, designada por villa vedra nas «Memórias Paroquiais» de 1758; os vestígios do povoado romano, certamente um vicus viário, abrangem uma área delimitada por Paredes, Quinta do Bravo, Quinta das Sete Pedras e Quinta de Santa Teresa; na necrópole da Quinta do Bravo apareceu um miliário de Adriano, CIL II 4633, assinalando reparações na via, «refecit», actualmente no Museu do Carmo em Lisboa; na Quinta de Santa Teresa apareceu um outro miliário possivelmente indicando 35 milhas a Lisboa (Mantas, 2017); na villa da Quinta da Barradinha há notícia de um miliário inédito que seria dedicado a um imperador da dinastia dos Flávios (Mantas, 2012a); no Pinhal do Alvarinho apareceu um tesouro monetário; depois de cruzar o rio Alenquer junto da Quinta do Bravo, a via continuava por Quinta de Araucásia, Quinta dos Santos, Carambancha e Quinta da Ferraguda)
Carregado (continua por Guizanderia, Quinta de Santo António, cruza o rio Grande da Pipa no local da Ponte da Couraça e daqui segue a EN1 pela Quinta de São José do Marco)
Castanheira do Ribatejo (vestígios no Bairro da Gulbenkian, na base do povoado fortificado do Monte dos Castelinhos provável localização de Ierabriga; habitat em Mouchão; villa em Sub-serra)
Povos, Vila Franca de Xira (villa ou vicus no sítio da Escola Velha, talvez relacionado com um porto fluvial; vestígios no Casal da Boiça e no sítio da Igreja Velha em Cachoeiras; Pimenta, 2007)
Vila Franca de Xira (vestígios na Travessa do Mercado e no Vale da Ribeira de Santa Sofia; continua pela EN1 por Alhandra)
Alverca (antigo povoado no Morro do Castelo; lápide funerária de Marcus Licinius na parede exterior da antiga Casa da Câmara; cupa funerária de Amoena na urbanização de Bom Sucesso; por volta de 1630 Coelho Gasco menciona um miliário de Constâncio Cloro indicando a milha XXIII que apareceu na Travessa do Açougue Velho, actualmente desaparecido, CIL II 306, 4632; todavia, as 23 milhas indicadas excedem em muito a distância entre Alverca e Lisboa que é aproximadamente de 18 milhas, sendo por isso provável um erro na leitura de Gasco, tal como propôs Vasco Mantas, trocando o numeral «XVIII» por «XXIII» o que é bastante plausível; a via passaria no centro de Alverca e seguia para Alfarrobeira, local onde teria existido uma mutatio, bifurcando nas duas variantes descritas a seguir; Gasco, 1924; Mantas, 1996, 2012; Guerra, 2012)

Itinerário para Lisboa por Loures
A recente descoberta de dois miliários no vicus viarum de Almoínhas em Loures veio reforçar esta variante por Loures como o itinerário principal para Lisboa. A via cruzava o núcleo urbano de Loures, marginando o povoado romano, onde poderia existir uma estação viária tipo mutatio, estrategicamente situada no local onde a via bifurcava, para nordeste rumo a Santarém e para noroeste rumo a rumo a Eburobrittium (Óbidos) e a Collippo (Leiria), trajecto descrito aqui. Deste modo, o trajecto do Itinerário XVI correspondia a esta variante de forma a evitar o percurso pela margem direita do rio Tejo que era inundável no período de Inverno (Brazuna et al, 2012; Guerra, 2012; Mantas, 2012a).
Vialonga (EM501 por Morgado e Quintanilho)
São Julião do Tojal (atravessa o rio Trancão em Junqueira; calçada; tesouro na Quinta da Bandeira)
Santo Antão do Tojal (passa a EN115 e segue por Quinta Velha, onde havia vestígios de calçada, continua por São Roque e Quinta do Sacouto até à travessia do rio Loures)
Loures (vicus de Almoínhas, junto do Palácio da Justiça, onde deveria existir uma mutatio dado que aqui foram recolhidos dois miliários tardios, actualmente em exposição no Museu Municipal na Quinta do Conventinho, um deles, de Licínio, indicando X milhas que corresponde à distância daqui a Lisboa; a via seguiria a rota da EN8)
Ponte de Frielas sobre a ribeira da Póvoa (em 1907 apareceu na Quinta de Santo António uma epígrafe com a inscrição «[…] / BONO / REIP NATO», ou seja, «nascido para o bem da república», e logo reutilizada nos alicerces da quinta actual; a inscrição, da qual resta apenas um desenho, foi interpretada por Vasco Mantas como um miliário que estaria originalmente junto da Ponte de Frielas; de facto, esta expressão é registrada também no miliário da Quinta da Lagoa em Moimenta da Beira; 2 km a norte da ponte há vestígios de uma villa romana junto da Capela de Santa Catarina, tendo aqui aparecido uma caixa de selos, raro testemunho do sistema de correio; não muito afastada desta há vestígios de outra villa na Quinta do Belo em Unhos; da ponte a via seguiria pelo vale de Póvoa de Santo Adrião (ara), subindo depois a Calçada de Carriche rumo ao Alto do Lumiar)
Lisboa (continuava por Entrecampos, antigo «Campos de Alvalade», onde apareceram dois cipos funerários, continuava talvez pela via designada por «Corredoura» na Idade Média que deverá corresponder a um percurso pela rua Visconde de Santarém, Calçada de Arroios, Rua de Arroios e rua dos Anjos, onde terá havido necrópole, continuando pelas actuais ruas do Benformoso, da Mouraria e do Poço de Borratém, seguindo depois sob a Baixa Pombalina entre as ruas dos Douradores e dos Fanqueiros até à zona ribeirinha, terminando o seu percurso muito provavelmente junto da Casa dos Bicos dado que aqui apareceu o referido miliário de Probo que actualmente está no Museu Municipal. Aqui seria muito provavelmente o local onde se fazia a travessia do rio Tejo para Cacilhas, onde apareceu outro miliário, este reutilizado na Rua da Canastras; FE 831; Mantas, 1996; Banha da Silva, 2012)

  • Variante a Lisboa por Sacavém e Chelas
    Poderia existir uma variante seguindo pela margem direita do Tejo, derivando na zona da Alfarrobeira, onde poderia existir mutatio, seguindo depois por Póvoa de Santa Iria (vestígios na Quinta de Santo António de Bolonha; epitáfio do Oliponense Rufinis), São João da Talha, Bobadela (junto da Quinta da Parreirinha), cruza o rio Trancão junto a Sacavém (no século XVI Francisco d'Holanda refere uma ponte romana neste local com 15 arcos da qual publica um desenho, mas não é seguro que fosse de facto uma obra romana). Continua talvez pela rua José Luís de Morais e rua António Ricardo Rodrigues até Portela, cruzava a zona de Olivais, seguindo junto da necrópole de Poço de Cortes na Av. do Santo Condestável e por Chelas (lápide honorífica de Adriano no antigo convento de Xabregas; lápide na Quinta da Bela Vista). Daqui segue estrada de Chelas, passando junto do Convento de São Félix de Chelas, onde estaria um suposto miliário referido em 1652 por Marinho de Azevedo na sua obra «Antiguidades e Grandezas da Mui Insigne Cidade de Lisboa» e posteriormente registrado por Hübner (CIL II 4631); no entanto, a epígrafe não parece ter carácter viário, sendo portanto duvidoso). Continua até Cruz de Pedra (talvez assinalando a primeira milha), seguindo pela Calçada da Cruz de Pedra e rua da Santa Apolónia, chegando a Alfama pela rua do Mirante, rua do Paraíso (junto da necrópole de Campo de Santa Clara), rua dos Remédios, Largo do Chafariz, rua de São Pedro e rua São João da Praça, entrando na área amuralhada da antiga cidade pela desaparecida Porta de Alfama, uma das portas da muralha romana conhecida por «Cerca da Moura» (vestígios de um edifício termal no Beco do Marquês de Angeja). A via margina a Igreja de São Vicente de Fora onde apareceu uma ara honorífica de Vespasiano e ara a Júpiter, terminando na zona ribeirinha de Lisboa junto da Casa dos Bicos)

OLISIPO (Lisboa) (m.p. CCXLIV)
A cidade romana ocupava toda a encosta do Castelo de São Jorge, estendendo-se pela zona da Sé até ao cais fluvial na actual Baixa Pombalina, zona onde existiam diversos complexos industriais para preparados de peixe e respectivas cetárias ainda visíveis no interessante Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, zona portuária sobranceiro ao antigo braço do rio Tejo que se estendia da actual Praça do Comércio até à Praça da Figueira, onde foi descoberta uma necrópole e vestígios de uma calçada cruzando a «Baixa Pombalina» até à zona ribeirinha; há também vestígios de uma ponte sob a antiga rua do Arco da Bandeira, actual rua dos Sapateiros, cruzando o braço do rio que chegava à Praça da Figueira; porto fluvial no Cais do Sodré; em Alcântara, vocábulo que provém do árabe «al-quantara», «a ponte», existia uma ponte em cantaria sobre a ribeira de Alcântara, presumivelmente com origem romana dada a sua tipologia, observável num mapa de 1580. Além do núcleo dos Correeiros, existiam vários outros complexos industriais marginando o Tejo como na Casa dos Bicos, rua dos Fanqueiros, Rua dos Bacalhoeiros, Convento Corpus Christi e Casa do Governador da Torre de Belém, mas actualmente pouco resta da antiga Olisipo. Aliás, a cidade romana só reaparece em consequência do terramoto de 1755, sendo registrados na época vários vestígios monumentais que atestam a relevância da cidade sede do municipium Olisiponense em contexto romano, como sejam as Termas Romanas dos Cássios na rua das Pedras Negras, referidas numa inscrição como Thermae Cassiorum, o Teatro Romano de Nero na rua de São Mamede, o criptopórtico da rua da Prata e um possível circo ou hipódromo na Praça do Rossio, onde as várias epígrafes da Igreja de São Nicolau apontam para uma necrópole. A presença Fenícia em Olisipo foi finalmente comprovada com a descoberta de uma estela funerária Fenícia durante as escavações Armazéns Sommer, a primeira evidência de escrita na Península Ibérica (Neto et al., 2016). Há vários miliários distribuídos pelos museus de Lisboa (act. 2024:
  • No Museu da Cidade de Lisboa está o miliário da Casa dos Bicos e várias epígrafes do municipium Olisiponense, como a ara dedicada a Mercúrio.
  • No Museu Arqueológico do Carmo há 4 miliários em exposição que integravam a antiga colecção da Associação dos Arqueólogos Portugueses, os dois provenientes de Tomar (CIL II 4959 e 4960) da Via Bracara Olisipo , o terceiro veio da Quinta do Cadouço em Barrelas (Famalicão da Serra) na Via Viseu a Belmonte e o quarto é proveniente da Quinta do Bravo (Alenquer).
  • No Museu Nacional de Arqueologia estão os muitos miliários recolhidos nas mais variadas partes do território nacional.

Item a BRACARA ASTURICAM m.p. CCXLVII
Mapa


































Iter XVII por Ciada








Iter XVII por Pindo
























Chaves
















ITINERARIO XVII - Braga (BRACARA) - Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Astorga (ASTURICA)
Item a BRACARA
ASTURICAM

SALACIA
PRAESIDIO
CALADUNO
AD AQUAS
PINETUM
ROBORETUM
COMPLEUTICA
VENIATIA
PETAVONIUM
ARGENTIOLUM
ASTURICA

m.p. CCXXXVII
m.p. XX
m.p. XXVI
m.p. XVI
m.p. XVIII
m.p. XX
m.p. XXXVI
m.p. XXVIIII
m.p. XXV
m.p. XXVIII
m.p. XV
m.p. XIIII
O traçado principal do Itinerário XVII de Antonino tem suscitado muitas dúvidas apesar dos muitos miliários conhecidos (actualmente cerca de 32), dando origem a várias propostas de trajecto e variantes. A primeira descrição do seu percurso foi feita pelo bispo de Uranópolis, informador de Contador de Argote que viria a publicá-la em 1732 na sua grandiosa obra intitulada «Memorias para a Historia Ecclesiastica do Arcebispado de Braga». Desde então muito se tem discutido acerca do verdadeiro trajecto destas vias, assim como sobre a localização das respectivas estações intermédias, dando origem a uma grande diversidade de propostas. A estação de Ad Aquas mencionada no itinerário corresponde seguramente a Chaves que viria a designar-se posteriormente por Aquae Flaviae. Sobre a localização das outras estações desta rota não há ainda consenso entre investigadores. Em 1958, Lereno Barradas revê o relato de Argote e acrescenta novos dados arqueológicos num extenso artigo sobre este itinerário. Mas só em 2005, no âmbito do projecto «Vias Augustas» foi feito um levantamento sistemático do traçado da via, com base no extenso trabalho de Rodríguez Colmenero, Luís Fontes e outros autores do qual resultou a limpeza e sinalização do trajecto. No entanto, no troço entre Braga e Chaves, estes autores optaram por fazer passar o itinerário pela variante setentrional que vai por Gralhós, Cortiço, Arcos, Alto do Pindo, Malhó, Sapelos e Pastoria até Chaves, servindo a importante região mineira do Vale do Rio Terva, trajecto aliás assinalado por diversos miliários. Apesar da sua utilização em período romano ser inquestionável, este trajecto não deve corresponder ao Itinerário XVII pois este é bem mais longo. De facto, através da indicação da distância a Braga em dois desses miliários, 59 milhas no Alto do Pindo e 65 em Lapavale (Sapelos), em conjunto com um outro que indicava 5 milhas a Chaves encontrado na Serra da Pastoria, podemos concluir que a distância total de Braga a Chaves não ultrapassa as 72 milhas, valor bastante abaixo das 80 milhas indicadas no itinerário. Claro que poderá haver erro no itinerário, mas a indicação de 43 milhas a Chaves num miliário da Ponte do Arco (ponte sobre a ribeira da Borralha, o «rio Canhua» em Argote (Argote, 1734:574), ponte actualmente submersa pela albufeira da barragem da Venda Nova), só poderá ser explicada através de um trajecto mais longo. Deste modo, o trajecto do Itinerário XVII teria de utilizar a variante mais setentrional que seguia pela importante região mineira em torno de Solveira e Vilar de Perdizes, área de grande concentração de vestígios romanos. A estação de Caladuno deveria estar nesta área, muito provavelmente correspondendo ao vicus viarum da Veiga de Vilar de Perdizes. De facto, este local corresponde a um nó viário de onde partia uma outra via para norte rumo a Geminas, seguindo por Vilar de Perdizes, Lucenza, Seoane de Oleiros e Xinzo de Limia. Ora, em toda esta área, conhecida por Veiga de Vilar de Perdizes, apareceram significativos vestígios romanos, como a ara dedicada a Larouco, ainda hoje a designação da serra vizinha, e o altar da Pena Escrita com uma epígrafe gravada num penedo onde se regista a presença militar. Todos estes indicadores apontam para a existência de uma estação viária e que seria com toda a probabilidade a localização de Caladuno, dada o acerto com a marcação miliária. Depois da análise das diferentes propostas de percurso, o traçado e localização das estações deverá ser o seguinte: a primeira estação, designada por Salacia, estava a 20 milhas de Braga, distância compatível com a sua localização no Castro de Vieira do Minho (Colmenero, 2004). Não parece que a via pudesse seguir a rota da actual EN103 (por Ruivães), como tem sido proposto (Fontes e Roriz, 2012), sendo este o percurso assinalado nos guias turísticos, mas que poderá ser assim posterior. A segunda estação, designada por Praesidio, estava a 46 milhas de Braga, devendo por isso localizar-se entre Pisões e Penedones embora não seja segura a localização exacta desta estação. Pela marcação miliária, a milha 46 era vencida na Cantina de Leiranque, onde apareceu um miliário, posteriormente reutilizado na Cruz de Leiranque e que entretanto foi transferido para um largo da aldeia de Viade de Baixo após a construção da barragem do Alto-Rabagão. A designação Praesidio sugere um assentamento militar, possivelmente uma statio para controlo da via, hipótese que se adequa à elevação vizinha, conhecida por Alto de Leiranque, mas não há notícia de vestígios romanos neste local. A mansio romana poderia estar duas milhas adiante, num local conhecido por Leira dos Padrões, onde há vestígios romanos já referidos por Argote como «Vila Miel». Além disso, o topónimo «Padrões» sugere a existência de miliários neste local, embora se desconheça o seu paradeiro. Daqui a via continuava até à aldeia de Travassos, onde apareceu outro miliário. Julgamos que a via bifurcava neste local nas duas variantes referidas acima. Para leste seguia a variante meridional cruzando o rio Rabagão, continuando por Arcos, Pindo, Vale do Terva e Serra da Pastoria. Por sua vez, a variante setentrional, mantinha a sua directriz. seguindo ao longo da margem esquerda do rio Rabagão talvez por São Vicente da Chã e Codeçoso até Alto da Ciada, junto do qual existia um povoado romano, possivelmente uma vicus viarum. Daqui seguia ao longo do vale da ribeira da Assureira passando em Solveira, atingindo a estação de Caladuno que deverá corresponder ao vicus da Veiga. Daqui seguia para Chaves por Soutelinho da Raia, Castelões (miliário), Calvão (miliário), Vale de Anta (miliário) e Casas dos Montes (miliário). Ver também bibliografia: Pinheiro, 1895; Barradas, 1956; Colmenero, 1987; Redentor, 2002; Colmenero et al.; 2004; Maciel, 2004; Fontes, 2005 e 2012. Os miliários estão na sua maioria nos seguintes museus: MDDS - Museu D. Diogo de Sousa || MRF || Museu da Região Flaviense || MAB - Museu Abade de Baçal


BRACARA (Braga)
Em 1835, durante a construção do Hospital de São Marcos apareceu um miliário de Caro, CIL II 4760, actualmente no MDDS com o nº 1992.0674; mais tarde, em 1917, nos alicerces da enfermaria do mesmo hospital, apareceram mais doze miliários conhecidos por série de Wickert que os transcreveu nos anos 50 mas entretanto perdidos, entre eles um miliário de Cláudio indicando uma milha, outros a Galério, Crispo, Licínio, Constante e Constantino Magno; na sua periferia temos a necrópole de São Lázaro, actualmente terrenos da Santa Casa da Misericórdia. A via partia do Largo Carlos Amarante, onde se registou um vasta necrópole junto à via, tomando depois a rua do Raio, passa junto da Fonte do Ídolo, atravessa a Av. da Liberdade junto do antigo edifício dos CTT, sob o qual apareceu um troço da via, continua ao longo da margem direita do Rio Este pela rua do Raio, Igreja da Senhora-a-Branca, onde apareceu uma necrópole e restos da via, Igreja de São Vítor, rua D. Pedro V e rua de São Vítor-o-Velho, actualmente cortada pela antigas instalações da Fábrica Confiança; continua pela rua do Pulo e rua Nova de Santa Cruz, antiga EN103, saindo depois pela rua da «Estrada Velha»; neste troço apareceram dois miliários deslocados na antiga Quinta das Goladas, situada na rua Padre Manuel Alaio, o miliário de Tibério indicando uma milha, actualmente no MDDS com o nº. 1992.0642, e o miliário de Constâncio Cloro, CIL II 4763, transladado em 1920 pelo proprietário para a Casa de Pielas em Painzela, Cabeceiras de Basto que na época detinha as duas quintas (Colmenero et al., 2004)

Gualtar (em Areias, junto da EN103, apareceu um miliário de Heliogábalo, indicando a milha III (CIL II 4766), actualmente no MDDS com o nº. 1992.0671; continua pelas ruas de Cavadas, Lameirão, Ribela, CM1294 e em Queixadas toma o CM1296)
Este de São Mamede (continua pelos lugares da Venda e Bemposta, onde começa um troço de calçada que percorre a Serra dos Carvalhos, próximo do povoado romanizado de Eiras Velhas; num documento do ano 1056 este troço é designado por «carral antiqua», LF 60; continua pela rua de Carvalho)
Pinheiro, Póvoa do Lanhoso (a via passa junto dos topónimos viários «Calçada» e «Laje Grande», contornando pela vertente norte o outeiro onde se encontra o castro romanizado do Castelo de Lanhoso; cruza a ribeira do Pontido onde um troço lajeado, e sobe ao «Carvalho Centenário» de Calvos, passando junto do Dólmen da Tojeira)
Calvos (cruza a ribeira de Frades em Amareira e segue por Botica e Torrão, junto do cemitério)
Serzedelo (cruza a EM600 e toma o caminho de Botica de Baixo a Pardieiros; continua aproximadamente paralela à EN103 por actual caminho de terra que segue pela rua dos Lameiros e zona industrial, desviando logo depois para Pepim)
Tabuaças (cruza o lugar de Pepim e segue o caminho pelo vale até ao lugar de Sanguinhedo, de onde passa para Vieira do Minho depois de transpor a elevação designada por «Outeiro Alto»)

SALACIA, m.p. XX, mansio a 20 milhas de Braga, localiza-se no Castro de Vieira, povoado romanizado nas proximidades de Vieira do Minho que se encontra precisamente a 20 milhas de Braga, no ponto onde cruza a ribeira de Cantelães; a estação viária poderia estar na base do castro, em Vila Seca ou no edifício romano descoberto no Campo da Igreja Velha em Cantelães.

Vieira do Minho (na base do castro desvia da EM526 e segue por Vila Seca, Tabuadelo e Pinheiro, seguindo a sul de «Parada Velha», sugestivo topónimo viário assinalando a passagem da via, iniciando pouco depois a subida à Serra da Cabreira pela sua vertente ocidental, seguindo talvez a calçada que leva à «Fonte do Confurco», seguindo depois pela «Portela da Serradela», onde ainda subsiste um troço com 500 m com vestígios de calçada, descendo depois à ribeira das Chedas que cruzaria na Ponte Poldro; daqui continuava por Espindo, onde toma o troço lajeado designado como «Caminho do Zebral» que passa nos topónimos Pontilhão, Cancelos, Gândara e Ponte Velha do Caldeirão, seguindo paralela ou coincidente com a estrada actual)
Zebral (m.p. XXXI; Argote refere dois miliários junto da «Capela de São Martinho» em Zebral; num deles lia-se ESAR. AUG / STR. XVIII, sugerindo tratar-se de um miliário de Augusto (CIL II 4776), e no outro apenas se podia ler as letras CAESAR . AVG . / IMP . V . POT / III (Argote, 1734:633; CIL II 4775); como no aro de Zebral não se conhece hoje nenhuma capela dedicada a São Martinho, é provável que Argote se referisse à Capela de São Pedro, onde de facto há um miliário onde se lê CAESAR / NCVS / IV; cruza o rio da Lage no Pontilhão dos Pardieiros)
Campos (m.p. XXXII; continua por Lamalonga e Alto do Cambedo, descendo depois à Ponte do Arco; Argote refere dois miliários junto a um ribeiro, próximo da aldeia de Campos: um era de Cláudio (CIL II 4770) e no outro apenas se lia 35 milhas (CIL II 4772), provenientes da «Portella de Rebordellos» (Argote, 1734:574), topónimo actualmente desconhecido; estranha-se um miliário neste local da milha 35 que era vencida mais adiante junto de Pisões. Poderá ser um erro na transcrição do texto do marco, confundindo o numeral XXXV com XXXII, o que é plausível; Argote refere mais dois miliários adiante da aldeia de Botica de Ruivães, «à vista do rio Canhua», um ilegível foi perdido e outro era dedicado a Trajano, indicando 43 milhas a Chaves (Argote, 1734:603), distância que era vencida na Ponte do Arco.
  • Ligação a Ruivães: é provável que de Botica partisse um ramal de ligação ao povoado romano de São Cristóvão em Ruivães, localizado junto da confluência dos rios Rabagão e Cávado.
Ponte Romana?-Medieval do Arco (m.p. XXXIV; 43 milhas a Chaves; cruza a ribeira da Borralha, o «rio Canhua» no tempo de Argote e actualmente submerso pela albufeira da barragem da Venda Nova; Contador de Argote, Martins Capela e Emil Hübner descrevem um miliário anepígrafo junto da ponte, CIL 4773, que deverá ser o mesmo que apareceu durante a construção da barragem; esteve muitos anos nos jardins do Bairro da EDP e actualmente está num jardim junto da EN103 à entrada da aldeia da Venda Nova; dois outros miliários desaparecidos foram referidos por Argote, um era de Adriano com o nº. 940 e outro era dedicado a Trajano com o nº 574, CIL II 4783, ambos indicando 43 milhas a Chaves (Argote, 1734:603), mostrando a crescente importância de Aquae Flaviae com a deslocação do ponto de origem da contagem das milhas para essa cidade; a via corre submersa junto da linha de água)
Padrões (m.p. XXXV; 42 milhas a Chaves; antiga Vilarinho dos Padrões, com 3 miliários: o Miliário de Tibério da milha XX[...] a Braga, actualmente no acervo do MNA, CIL II 4773; também será daqui o miliário de Cláudio indicando 35 milhas a Braga, actualmente no MRF (CIL II 4771, apesar de hoje já não ser visível o 'X' inicial), dado como proveniente da «Venda Nova»)
Venda Nova (m.p. XXXVI; ; antiga Venda dos Padrões; conhecem-se quatro miliário daqui, sendo que dois foram encontrados na parede do forno comunitário de Sanguinhedo, o miliário de Trajano actualmente no MRF como ARC431, CIL II 4782, e o miliário de Adriano, indicando 42 milhas a Chaves que actualmente está num jardim junto ao Castelo de Chaves; o terceiro é um miliário cortado a meio indicando também 42 milhas, CIL II 4774; a via corre submersa junto da linha de água)
Codeçoso do Arco (m.p. XXXVII; continua junto do Castro de Codeçoso, onde ainda resta um troço da via com 100 m lajeados descendo a encosta leste rumo a «Porto de Carros», local hoje submerso pela albufeira, onde cruzava o rio Rabagão na Ponte dos Três Olhais que Argote já viu em ruínas; cruzado o rio, subia por Lama do Carvalho até à aldeia de Currais)
Lama do Carvalho (m.p. XXXVIII; segundo Martins Capela existia um miliário de Cláudio na descida ao rio indicando 38 milhas a Braga; resta ainda um pequeno troço lajeado com 300 m passando num terreno a que chamam «Borrajeiro» ou «Lama do Carvalho», onde Argote refere a existência de um miliário de Tibério indicando a milha 38, entretanto perdido, CIL II 4777)
Currais (m.p. XXXIX; no Largo do Cruzeiro, encostado a uma casa, está um miliário anepígrafo; Argote refere outros miliários na aldeia provenientes do sítio dos «Padrões», actualmente desaparecidos, podendo um deles corresponder ao fragmento de miliário actualmente encastrado na parede de um forno da aldeia de São Fins; a milha 39 seria vencida no centro da aldeia seguindo depois um troço ainda conservado da via pelas actuais rua da Portela e rua de Fontelas; segundo Argote, a via passava nos topónimos «Subila», «Brea» e «Pedreira» rumo a Ladrogães (Argote, 1734:584), topónimos difíceis de identificar com precisão no terreno)
Ladrugães (m.p. XLI a sul da aldeia, no sítio da «Gêa», continua por «Cambella», junto da actual ribeira de Cambela, descendo ao rio pela Portela de Trás, onde terá aparecido a estela funerária com o epitáfio de Camalus, CIL II 2496 um Límico do Castellum Livairum)
Pisões (m.p. XLV; a partir daqui a via ficou submersa pela albufeira do Alto Rabagão)

PRAESIDIO (Cantina de Leiranco?)
Mansio localizada a 46 milhas de Braga ainda sem localização segura; a contagem miliária aponta para uma localização no Alto de Leiranque onde a via vencia a milha 46, assinalada pelo miliário da «Cantina de Leiranco» que foi reutilizado no Cruzeiro de Leiranque, actualmente em Viade de Baixo. Todavia não são conhecidos vestígios romanos atribuíveis a este povoado; em alternativa esta estação viária estaria mais adiante junto do povoado romano da Leira dos Padrões, seguramente uma referência aos miliários ali existentes e que em conjunto com a ara anepígrafa e tesouro monetário encontrados nas proximidades denunciam a existência neste local de uma estação viária, já referida por Argote como «Villa Mel», quando ainda se viam vestígios do assentamento. Toda esta área ficou submersa, mas a via reaparece precisamente na Leira dos Padrões, a milha 48, seguindo depois rumo a Penedones, onde vencia a milha 49, e daqui a Travassos.

Travassos da Chã (m.p. L; miliário anepígrafo convertido em cruzeiro e deslocado da via para o sítio do Padrão, junto do antigo traçado da EN103, provavelmente após a construção da Ponte da Pedra Seixa sobre o rio Rabagão, actualmente submersa pela albufeira)

Nó viário de Travassos da Chã: a via bifurcava no largo da aldeia nas duas variantes para Chaves, uma continuava pelo cemitério e pelo caminho do pontão para São Vicente da Chã para Caladuno, junto a Vilar de Perdizes, seguindo depois por Soutelinho da Raia, Castelões e Calvão até Chaves enquanto a outra, mais meridional inflectia para leste, seguindo o caminho que passa junto da Capela de São João para cruzar o rio Rabagão na base do Castro de São Vicente, continuando depois por Gralhós, Arcos e Alto do Pindo rumo a Chaves, percurso mais curto que o anterior, mas bem mais acidentado.

Itinerário XVII por Ciada
São Vicente da Chã (m.p. LIV; do pontão segue o caminho de terra que cruza a EN103 junto da Capela de São Gonçalo, na base do vicus viário do Alto da Carvalha, local de onde será proveniente a ara a Júpiter do sítio do Padrão ou das Almas colocada por Equales; FE 368; continua pela estrada para Montalegre até ao «Monumento do Jubileu», onde toma o caminho carreteiro à direita que passa junto do povoado romano da Veiga de Carigo, possível estação viária tipo mutatio, situada entre Medeiros e Peirezes, a 56 milhas de Braga, onde apareceu uma ara; cruza a EM308 e continua pelo CM1003 por Ternovale)
Laje Gorda (m.p. LIV)
Codeçoso da Chã (m.p. LV; Argote refere que a via passava nos topónimos «Casais» e «Portela de Orseira», topónimos hoje desconhecidos)
Meixedo (m.p. LVI; cruza a povoação e ribeira homónima e segue talvez pela Encosta do Biomal/Campelos)
Alto da Ciada (m.p. LIX; povoado romano no Alto da Ciada, 1 km a sudeste da aldeia de Gralhas, mas toda a área foi arrasada com a construção de um campo de futebol; deverá corresponder a um vicus viarum)
Solveira (cruza a povoação e no cemitério segue o caminho à direita; povoado mineiro da Telheira/Antas; a norte existem dois povoados da Idade do Ferro, o Castro de Soutelo e a Cidade de Grou)

CALADUNO (Veiga de Perdizes?)
Mansio a 62 milhas de Braga, identificada com os vestígios do possível vicus viarum da Veiga, a sul da aldeia de Vilar de Perdizes; nas proximidades existe um santuário rupestre, conhecido por Altar de Penascrita («pena escrita»). Aqui foi gravada uma inscrição dedicada à divindade local Laraucus por soldados da Legião VII Gémina. Na entrada norte do povoado, no sítio do Portelo, quando da abertura da EM508, apareceu uma ara votiva também dedicada à mesma divindade e uma outra dedicada a Júpiter, actualmente armazenadas na CM de Montalegre. Há ainda uma inscrição num penedo no lugar de Rameseiros. Todos estes dados apontam para a sua identificação com Caladuno, até porque daqui a Chaves contam-se as 18 milhas indicadas no Itinerário. A via passaria a sul do vicus, vinda de Solveira, para cruzar a ribeira da Assureira, continuando depois pelo caminho que actualmente delimita a fronteira com Espanha, passando junto do sítio romano do Carvalhal, que poderia ter também uma função viária.
  • Ligação de Caladuno a Geminas (28 m.p.): poderia existir uma derivação para norte a partir de Caladuno, seguindo por Vilar de Perdizes e Alto do Pindo, cruza o rio de Porto de Rei na fronteira actual, continuando depois por San Cristobal, Lucenza (miliário na Capela de Santa Marta e outro na povoação), Gudín, Bouzo, Seoane de Oleiros (miliário), Moreiras, Xinzo de Limia e Torre de Sandiás, provável localização da estação viária de Geminas que servia a «Via Nova» rumo a Astorga (Pérez Losada, 2002).
  • Ligação de Soutelinho da Raia a Geminas (28 m.p.): daqui seguia uma outra via para norte rumo a Geminas, integrando uma grande rota proveniente de Chaves interligando os Itinerários XVII e XVIII. A via seguia por Videferre (2 m.p.) até confluir com a via Calduno-Geminas referida acima junto da fronteira luso-espanhola, local a 5 milhas tanto de Soutelinho como de Vilar de Perdizes (act. 2023).


Itinerário XVII de Caladuno a Chaves por Ervededo (m.p. XVIII):
Esta variante corresponde ao percurso mais longo até Chaves descrito no Itinerário XVII, ou seja, com mais três milhas que a variante por Calvão descrita acima. Deste modo, a distância total de Braga a Chaves por esta variante é de 80 milhas, ou seja, o valor indicado no Itinerário. Esta variante seguia de Soutelinho da Raia, a via continuava para nascente até ao Santuário de São Caetano (XI m.p.; necrópole), onde inflectia para sul, passando na base no Castro do Alto das Coroas (povoado fortificado romanizado a 10 milhas de Chaves), Ervededo (IX m.p. no sítio do Couto, onde apareceram moedas), Sra. dos Desamparados, Sra. da Portela (III m.p.), Outeiro Seco e Santa Cruz (notícia de um miliário, actualmente desaparecido, talvez referente à milha II), seguindo depois um trajecto rectilíneo até Chaves.

Itinerário XVII de Caladuno a Chaves por Calvão (m.p. XV):
Continuação do percurso do Iter. XVII seguindo por Soutelinho da Raia (entra pela rua Fonte Fria e inflecte para sul, passando a poente do possível vicus de Pardieiros). Continua pela «Calçada do Facho» em Castelões, percorrendo o sopé do Povoado de Facho de Castelões (junto da via apareceu um possível miliário anepígrafo, talvez indicando 9 milhas a Chaves; estelas de guerreiro da Idade do Bronze). Continua por Calvão (onde apareceu um miliário, actualmente deslocado para a entrada da aldeia, que deveria assinalar 7 milhas a Chaves), seguindo depois pela Ponte Guilherme, passando a poente do povoado romano do Outeiro da Torre. Pouco depois cruza a ribeira do Calvão e sobe à Serra do Ferro rumo a Soutelo (4 m.p. a Chaves), seguindo depois por Vale de Anta (2 m.p. a Chaves; notícia do achado de um miliário anepígrafo na povoação, mas que originalmente estaria junto do topónimo «Alto do Marco»; na igreja apareceu uma placa honorífica a Treboniano Galo). Daqui a via seguia para Chaves, entrando na cidade por Casas dos Montes (junto da Capela de São Bartolomeu, defronte da qual está ainda um miliário anepígrafo, talvez ainda in situ, indicando uma milha ao Tâmega. Continuava pela calçada descoberta em 2014 sob um edifício perpendicular à rua 1º de Dezembro até ao centro urbano de Aquae Flaviae.

Variante do Itinerário XVII pelo Alto do Pindo
Travessia do rio Rabagão (m.p. LIII, na base do Castro de São Vicente; este local está hoje submerso pela albufeira do Alto Rabagão; a via reaparece mais adiante, seguindo junto do Novo Bairro do Barroso e pela Estrada do Cemitério)
Gralhós (m.p. LVI, calçada atravessa a Ponte da Pedra sobre a ribeira de Rabagão por Avessó, ribeira do Cargual, Porto da Geia e Suavila)
Cortiço (m.p. LVIII; miliário anepígrafo reutilizado como pilar da varanda de uma casa no centro da aldeia e um pequeno fragmento na parede da mesma; outro fragmento de miliário convertido em bebedouro está no jardim da casa do Sr. Domingos, na estrada que liga a aldeia à EN103; a via cruza a aldeia e segue pela Ponte Romana? de Cortiço sobre o rio Beça, onde vence a m.p. LIX, continuando junto do Alto da Pedra Moura e do topónimo «Breia», actual pela rua da Estrada/CM1001, passando assim a norte da aldeia de Vilarinho de Arcos)
Arcos (cruza a aldeia pela rua de Cima até ao Largo da Sra. da Saúde, tomando depois o caminho em frente em terra; na rua principal, perto da Sra. do Campo, apareceu em 1813 o miliário de a Cláudio indicando L[...] milhas, actualmente no MRF com o nº ARC398, CIL II 4770; a aldeia situa-se entre a milha 60 e 61 pelo que poderia indicar originalmente um desses valores; todavia um outro miliário de Tibério também descoberto na aldeia e reutilizado como pilar da varanda da casa do Sr. Manuel Moreno, actualmente no MRF com o nº ARC394, CIL II 4778, indica 59 milhas a Braga, distância que era cumprida não aqui, mas um pouco antes junto da Ponte do Cortiço (!); junto da Fonte Romana no centro da deia está outro possível miliário anepígrafo)
Pindo, Cervos (dois miliários provenientes do «Alto do Pindo», local onde a via inicia a descida da Serra do Leiranco rumo a Chaves; um fragmento de miliário de Cláudio, actualmente no pátio do Castelo de Montalegre e o miliário anepígrafo que esteve alguns anos no jardim da antiga escola de Cervos e que actualmente se encontra na JF de Arcos)
  • Hipotética ligação de Arcos à variante norte com base no miliário anepígrafo junto da Fonte de Tordavela na rua da Calçada em Antigo de Arcos, actual Antigo de Sarraquinhos; se não foi deslocado da via que passava a sul por Arcos e Pindo, poderia indiciar uma derivação para norte a partir de Arcos por Sarraquinhos de encontro ao Itinerário norte por Ciada; há dois trajectos possíveis: um seguindo para Solveira e outro seguindo por Pedrário (calçada e povoado) e Mexide rumo a Soutelinho da Raia.

Variantes do Alto do Pinto a Chaves
A partir da Portela do Pindo, situada na linha divisória entre os concelhos de Montalegre e Boticas, existem aparentemente dois percursos para Chaves. A «variante norte» segue um trajecto mais curto por Ardãos e Seara Velha, descendo depois à Veiga de Chaves por Soutelo e Vale de Anta, apresentando ainda vários troços de calçada e uma inscrição viária no lugar da Pipa próximo de Soutelo (Colmenero, 2004). Por outro lado a «variante sul», servia as importantes explorações auríferas do Vale do rio Terva como Batocas, Brejo, Sapelos e Poço das Freitas, marginando o Castro de Malhó e o vicus mineiro de Sapelos, onde nas proximidades se achou um miliário conhecido como «Pedra de Caixão», percorrendo depois as cumeadas da Serra até Pastoria, onde apareceu um Miliário de Trajano indicando 5 milhas de Chaves, descendo depois a Vale de Anta, onde reúne com o Itinerário XVII por Ciada.


  • Variante Sul por Sapelos e Pastoria
    Portela do Pindo (desce pela vertente SE da Serra do Leiranco, passando na base do Castro da Malhó)
    Nogueira (segue a nordeste da povoação, situada na base do povoado da Idade do Ferro designado por Castro da Nogueira)
    Bobadela (inscrição aos Lares Corcaeci servindo de pilar da pia baptismal da igreja; ara a Júpiter suportando a pia baptismal da Capela de São Lourenço; a via passa a leste da povoação e do Castro do Brejo/Cidadonha, cruzando o ribeiro do Ferrugento na base do Alto do Picão e seguindo ao longo da ribeira do Vidoeiro até Carvalhosa para cruzar a ribeira de Calvão na Ponte das Meãs; neste percurso a via passa próximo do povoado mineiro do Carregal associado à exploração da Mina do Poço das Freitas, subsistindo vestígios de rodados em Giraldo)
    Sapelos (m.p. LXVII; vicus viário; ara a Júpiter na capela, actualmente no Museu Rural de Boticas; o miliário de Augusto de Sapelos foi encontrado deslocado num carvalhal designado por «Lapavale» que fica a cerca de 800 m para nordeste da aldeia de Sapelos na serra de Lapabar, já convertido em sarcófago e era por isso chamado de "Pedra do Caixão"; apesar de danificado ainda se pode ler BRAC LXV[...] ou seja, indicava a distância a Braga num possível intervalo entre 65 e 68 milhas; o local fica na base do Castro do Muro ou da Cerca e junto da ribeira de Calvão, tendo defronte o povoado romano na Capela da Sra. das Neves/ Povo de Paredes, situado na confluência das ribeiras de Calvão e de Cunhas. Todavia, o seu local original seria outro, junto da via, talvez junto no topo da encosta onde se regista o topónimo «Padrão» e onde a via vencia a milha 68; actualmente está no Centro de Interpretação do PAVT em Sapelos (Colmenero, 2004; Fontes, 2010); daqui descia a Serra da Pastoria, passando junto do Castro do Muro)
    Pastoria (m.p. V a Chaves; inscrição funerária de Camalus; miliário de Trajano indicando 5 milhas a Chaves, actualmente no MRF; aquando da sua descoberta estaria já deslocado e longe da via na «Serra da Pastoria», possivelmente como marco divisório, desconhecendo-se o local original da sua implantação, mas segundo o traçado proposto, este marco poderia estar à saída da aldeia da Pastoria, junto da Capela do Senhor dos Aflitos que fica a cerca de 5 milhas de Chaves (act. 2017); daqui segue um extenso troço ainda preservado seguindo pela calçada do Alto da Mortiça, entretanto cortado pela A24, continuando até Seara Velha onde entronca nas outras variantes mais a norte e daqui a Chaves)

AQUAE FLAVIAE (Chaves) (milha LXXX; mansio ad Aqvas no IA)
Argote refere quatro 4 miliários no aro de Chaves, miliário de Constantino, desaparecido (CIL II 4784), o miliário de Licínio que apareceu à margem do rio Tâmega, entretanto relocalizado em 2006; dois miliários de Adriano desaparecidos, um estaria na Igreja de São João de Deus e indicava a milha II (CIL II 4779) e o outro indicava a milha V e estaria junto da extinta Capela do Anjo no nº 6 do actual Largo 8 de Julho (CIL II 4780) de onde provém um outro miliário que terá sido apagado e reutilizado como base de cruzeiro no ano de 1602; referências ainda a um miliário de Décio indicando a milha VI e um miliário no Postigo das Manas, ambos desaparecidos; na Praça da República apareceu um miliário convertido em tampa de sepultura; no jardim junto ao Castelo de Chaves está cravado no solo o Miliário de Adriano proveniente da Venda dos Padrões; estão em curso as escavações do balneário termal no Largo do Arrabalde; o Museu da Região Flaviense guarda treze miliários, incluindo os três miliários achados na Venda dos Padrões, o Miliário de Cláudio de Arcos, Miliário de Tibério do Pindo, Miliário de Augusto de Sapelos, Miliário de Trajano de Pastoria, Miliário de Constâncio de Eiras, fragmento de Miliário de Caracala ou Adriano e vários outros fragmentos encontrados nas imediações de Chaves (Teixeira, 1996).
Mapa






































































ITINERARIO XVII - Chaves (AQUAE FLAVIAE) - Astorga (ASTURICA) CCXXVI m.p.
AQUAE FLAVIAE
PINETUM
ROBORETUM
COMPLEUTICA
VENIATIA
PETAVONIUM
ARGENTIOLUM
ASTURICA
 

m.p. XX
m.p. XXXVI
m.p. XXVIIII
m.p. XV
m.p. XXVIII*
m.p. XV
m.p. XIIII
* m.p. XVII
Atendendo ao grande número de miliários e pontes romanas encontradas é hoje consensual que o Itinerário XVII continuava pela região de Valpaços até Castro de Avelãs, povoado às portas de Bragança. Partindo de Chaves, a via atravessava o Rio Tâmega na Ponte Romana de Trajano, uma obra monumental e surpreendente, e uma das poucas em Portugal que mantém o desenho original, apesar de várias reparações, incluindo a reconstrução de dois dos arcos centrais. Ver na parte seca as grandes marcas de fórfex e a construção modular. Sobre a ponte estão duas colunas honoríficas, cópias de originais romanos; uma é designada por «Coluna de Trajano» ou «Padrão dos Aquiflavienses», assinala a construção da ponte romana no tempo de Trajano pelos Aquiflavienses, desconhecendo-se onde para o original, enquanto a segunda coluna, designada por «Padrão dos Povos» é uma inscrição honorífica feita pelas 10 civitates que compunham o municipium de Aquae Flaviae ao Imperador Vespasiano em agradecimento a alguma concessão imperial. A coluna original que apareceu em 1980 no leito do rio Tâmega está actualmente no átrio do MRF (Mendes, 2006; ver também o site do Projecto VIAS AVGVSTAS).

Há divergências entre os vários manuscritos medievais na indicação miliária nas etapas finais antes de atingir a ASTURICA, em particular na distância entre as estações de Compleutica e Veniatia e na etapa final de Argentolium a Asturica; apesar da distância total ser coincidente, há 10 milhas que ora são atribuídas à primeira estação, ora à segunda. De facto, o manuscrito de Paris, datado do século X (Parisinus Regius 7230 A), surge a combinação XV milhas para a primeira, e XXIIII milhas para a segunda, versão que viria a ser adoptada na edição de Cuntz. No entanto, no manuscrito de Viena, datado do século VIII (Vindobonensis, 181), portanto bem mais antigo, as distâncias intermédias indicas são XXV para a primeira e XIIII milhas para a segunda (Wesseling, 1735:423). A versão corrigida com base no traçado proposto é uma combinação das duas informações, com Argentolium a 14 milhas de Astorga e Veniatia a 15 milhas de Compleutica, sendo que a estação de Petavonium deverá corresponder ao acampamento romano da ala II Flavia, na base do povoado indígena, situado a oeste de Rosinos de Vidriales. No entanto, a distância entre Veniatia e Petavonium não excede as 17 milhas, em vez das 28 indicadas, levando à proposta de correcção desta etapa (act. 2025).

Chaves a Castro de Avelãs por Valpaços
Chaves (depois de atravessar o Tâmega a via seguia inicialmente a EN103, saindo desta pela rua da Senhora da Boa Morte até ao Cruzeiro, local onde vencia a primeira milha, onde estaria o miliário de Constâncio I que apareceu no lugar de Eiras; logo após o canal segue à esquerda e logo à direita, iniciando a subida Alto de São Lourenço pela rua da Calçada Romana, troço da via ainda bem preservada que passa na Capela da Sra. dos Aflitos, onde vencia a terceira milha)
São Lourenço (ascende a encosta pela Calçada de São Lourenço, troço lajeado onde Argote identificou um miliário anepígrafo deitado na berma da calçada ainda observado por Barradas em 1958, entretanto desaparecido; indicava seguramente a milha III; continua depois pela Casa dos Ferradores, Largo do Cruzeiro, milha IV, rua da Travessa, até à EN213; ao chegar ao chafariz segue para Juncal)
Ponte Romana de São Lourenço (ponte romana com um arco sobre a ribeira de São Julião/Cabanas/Palheiros, a 500 m da povoação; cotinua por Arco e Lama)
São Julião de Montenegro (m.p. V; na igreja paroquial apareceram quatro miliários, dois estão dentro da igreja, o miliário de Macrino ou Carino e o miliário de Décio indicando a milha VI a Chaves, o miliário anepígrafo está no adro da igreja e um fragmento de um miliário de Flávio Dalmácio foi para a casa do Pe. Fernando Pereira em Vilar de Nantes; continua pelo Alto do Cavalinho, provável mutatio entretanto destruída, Falgueira, Poças, Alto da Gesta, no cruzeiro vencia a milha VI, inflecte para nascente cruza a EN213 e segue por Sra. do Barracão, Pardieiros, Ladeira Grande e a nascente do outeiro da Capela de Santa Luzia no Alto da Penha Sá)
, Ervões (m.p. X; nas obras de demolição da Capela de Santa Luzia apareceram dois miliários, o miliário de Macrino, actualmente num terreiro da casa de Hermínio Quintino e o outro foi reutilizado nas fundações da mesma; a via cruza a aldeia até confluir novamente na EN213)
Vilarandelo (m.p. XI; miliário de Macrino, apareceu na Capela do Espírito Santo dentro do cemitério e está actualmente no jardim junto ao mercado, junto com o miliário de Caracala que apareceu no pátio de uma casa particular de Vilarandelo com a particularidade de indicar o acampamento militar e mansio de Petavonium como ponto inicial para a contagem das milhas, já não se lendo no entanto o respectivo numeral; um outro fragmento de miliário foi para o MRF; a via continua junto da Capela do Sr. do Milagres, m.p. XII por Cerdeira, Pousadouro, Carriçal e Lama do Vale)
Lagoas (m.p. XV; continua a nordeste de Valpaços pela rua Calçada e «Caminho de Possacos»)
Possacos (m.p. XVII com 4 miliários, o miliário de Magnêncio que apareceu junto à Igreja e actualmente está numa casa particular em Carlão, o miliário de Flávio Dalmácio que apareceu nos alicerces de uma casa no Largo das Duas Fontes, actualmente no acervo do MNA, e mais dois miliários referidos no CIL II entretanto desaparecidos: miliário de Macrino? da Quinta do Pe. António de Sousa, CIL II 4790, miliário de Carino? da Quinta de Francisco da Costa Homem, CIL II 4792; a via desvia da EN206 à direita, pouco depois de cruzar a aldeia, e desce à ponte por calçada com 2 km)
Ponte Romana do Arquinho (m.p. XVIII; ponte romana sobre o rio Calvo; vídeo; um miliário de Maximino e Máximo, CIL II 4788, está actualmente cravado no adro da Capela de Ns. de Fátima em Vale de Telhas; indica reparações da via na frase vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt curante; referência a mais dois miliários nas imediações entretanto desaparecidos; depois da ponte a via sobe até à EN206 e daqui descia ao lugar da Barca, onde cruzava rio Rabaçal)
Travessia do rio Rabaçal (m.p. XIX; a Ponte de Vale de Telhas é uma construção medieval que reutiliza silhares com marcas de fórfex de uma ponte anterior romana, provavelmente localizada mais a jusante no lugar da Barca, onde apareceu um vasto conjunto de miliários que foram agrupados na Ponte Medieval e posteriormente deslocados para outros locais: o miliário de Galério foi para o Museu de Vila Real, o miliário de Maximino Daia está na casa da família Verdelho em Vale de Gouvinhas, o miliário de Constantino II e Constante I está junto da fonte da aldeia de Vale de Telhas, o miliário de Numeriano actualmente desaparecido e o miliário anepígrafo, referido por Hübner que poderá corresponder ao cipo actualmente na aldeia de Vale de Telhas a servir de banco)

PINETUM (Valtelhas) (m.p. XX)
Estação viária a 20 milhas de Ad Aquas localizada no Castro do Cabeço da Mochicara junto da actual aldeia de Vale de Telhas, povoado situado a 20 milhas de Chaves onde apareceu uma ara dedicada a Júpiter pelo cidadão romano Publius Aelius Flaccinus, sinal de algum estatuto administrativo sobre este território, possivelmente como sede de civitas; a via margina o castro e segue pelo caminho praticamente abandonado que passa no sítio do «Alto da Estrada», m.p. XXI)

Bouça (m.p. XXII; continua pelo «Cruzamento da Bouça» onde existia um miliário indicando 22 milhas a Chaves, actualmente junto do Café «Estrela do Norte» em Ferradosa)
Fradizela (cruza a aldeia e segue a rua Direita até ao cemitério onde vencia a milha XXIV; neste local estaria o miliário anepígrafo actualmente partido em 3 fragmentos, um dos quais está na berma da EN206 à saída da povoação da Ferradosa; daqui toma o caminho à esquerda da capelinha até reunir com a EN206, continuando próximo dos topónimos viários Quinta da Calçada, Padrões, Redonda, Cabeço das Mós, Quinta do Ermidão e Estalagem, m.p. XVI, para cruzar a ribeira do Arquinho na Ponte Romana?-Medieval do Arquinho, onde volta a reunir com a EN206 e desce à Ponte da Pedra)

Ponte Romana da Pedra (m.p. XVII; magnífica ponte romana sobre o rio Tuela com seis arcos e que ainda hoje suporta o tráfego da EN206; esta ponte constitui um dos melhores exemplares da engenharia romana em Portugal em conjunto com a Ponte de Chaves e a Ponte da Vila Formosa no Alentejo e no entanto continua um pouco desprezada; a sua construção é tal modo avançada que foi considerada por muitos autores como moderna até aos anos setenta; silhares almofadados com marcas de fórfex não deixam dúvidas que se trata de uma construção romana, provavelmente nunca reconstruída)

Torre de Dona Chama (a via passa a norte da povoação e do Castro romanizado de São Brás até reunir com a EN206)
Vila Nova da Rainha (m.p. XXX, 1km antes da povoação, começa um troço de calçada com 900 m que segue paralelo à EN206 até ao centro da aldeia, onde existe um miliário anepígrafo a suportar uma varanda)
Nossa Sra. das Dores, Lamalonga (m.p. XXXI; troço da via com 1500 m ladeia a capela com um fragmento de um miliário junto ao Alto da Pinha, na entrada de uma casa com acesso à EN206, já convertido em peso de lagar, assinalando talvez 31 milhas a Chaves)
Lamalonga (no adro da Capela de São João apareceram dois miliários, o miliário de Constâncio Cloro, actualmente no MAB com o nº 1565 e um outro anepígrafo que terá sido destruído nos anos 70; Lopo, 1907)
Carvalhal, Lamalonga (m.p. XXXIII; miliário anepígrafo na berma da EN206)
Agrochão (m.p. XXV; ara votiva aos lares viales; seguia a norte da povoação pela chamada Estrada Velha que passa no sopé do Cabeço do Marco, possível alusão a um miliário que poderá corresponder ao miliário partido em 2 fragmentos que se encontra na berma da estrada no sítio da Amoreira; a via continua a norte da povoação pelo Alto dos Malhões, outra possível referência a miliários)
    De Agrochão a Castro de Avelãs: A partir de Agrochão surgem dúvidas no traçado; o único miliário conhecido neste tramo apareceu na Capela de São Cláudio, situada entre Formil e Gostei. Colmenero propôs a continuação da via por Ousilhão, onde há forte presença romana (localizando aqui a mansio de Roboretum), seguindo rumo a Vinhais e daqui para nascente rumo a Formil, integrando assim os miliários achados em Vinhais e Soeira; todavia este trajecto descreve uma volta pouco lógica e por um terreno particularmente acidentado; por outro lado, o Miliário de Caro supostamente encontrado na aldeia de Carrazedo deve-se a uma confusão com outro miliário na povoação homónima de Carrazedo no concelho de Amares, servindo de cruzeiro na aldeia do Pilar (Colmenero et al., 2004).
Falgueiras (m.p. XXXVIII; continua pelos altos do Roleiro, do Poulo e dos Barreiros, cruza a EN206, e contorna a Lagoaça Carroceira pelo norte)
Edrosa (m.p. XLIV; cruza a povoação e segue pela EN206)
Zoio (m.p. XLVI na «Portela de Zoio»; segue paralela à EN206 até à Capela de Santa Luzia, na milha 48, onde toma o caminho da Fraga do Viborão, reúne com a EN206, na milha 49, e segue até Cruzes, continua pelo caminho florestal ao Alto da Ferradosa e desce a Formil pelo «Caminho da Vila» ao Castro ou «Feira dos Mouros»)
Formil (m.p. LIV no centro; continua pela EM518 passando no adro da Capela de São Cláudio onde apareceu um miliário de Maximiano, actualmente no MAB com o nº 1580 e uma inscrição honorífica a Cláudio embutida na parede, CIL II 6217; Lopo, 1900a)
Gostei (m.p. LIV antes da aldeia, no desvio da EM518 pelo caminho directo ao sítio da mansio em Torre Velha)

ROBORETUM (Castro de Avelãs) (m.p. XXXVI)
Estação viária a 36 milhas de Pinetum e a 56 milhas de Aquae Flaviae localizada no povoado romano da Torre Velha em Castro de Avelãs, onde apareceram dois miliários no exterior das ruínas da Capela de São Sebastião, já transformados em sarcófagos, o miliário de Caracala, CIL 6216 e o miliário de Augusto, CIL II 6215, com leitura muito dificultada devido a um furo na zona da inscrição onde se indicavam as milhas, mas poderia indicar a distância a Braga que era cerca de 136 milhas; estão ambos actualmente no MAB com o nº 1583 e 1584 respectivamente; aqui também apareceram duas aras dedicadas ao Deo Aerno, uma das quais colocada pelo Ordo Zoelarum, ou seja a tribo dos Zoelae, entretanto destruída no séc. XIX, e a outra está actualmente no MSMS, nº 20, CIL II 2607; da mesma divindade apareceu uma ara na Capela do Senhor de Malta em Olmos, freguesia de Macedo de Cavaleiros, actualmente no MAB, fazendo supor que este local integrava o território dos Zoelae.

Castro de Avelãs (m.p. LVI; após a Torre Velha a via cruza a ribeira do Castro)
Bragança (m.p. LIX na Praça da Sé; possível vicus entre a rua Abílio Beça e a Praça de Camões; ver os oito miliários desta via no Museu Abade de Baçal; três estelas funerárias em Quatro Caminhos e no Couto; a via cruza a cidade talvez pela Praça da Sé, rua Abílio Beça, rua de São Francisco, passando junto da Capela de São Sebastião onde apareceram 3 inscrições funerárias, rua do Alcaide e rua das Amendoeiras, marginando a Fonte e Capela de São Lázaro)
Ponte das Carvas, São Lázaro (m.p. LXI; ponte medieval sobre o rio Sabor; continua paralela à EN218 e pela Quinta das Carvas)
Gimonde (m.p. LXIII; castro romanizado do Arrabalde, de onde provêem três estelas funerárias e um pedestal de estátua com a inscrição BONO / R P NATO, FE 249); travessia do rio de Onor na Ponte Medieval)
Cruz do Marrão (m.p. LXIV; no «Caminho Velho para Babe» apareceu um miliário de Caro, actualmente no MAB com o nº 1575; a via seguia assim pela Cruz do Marrão, próximo do Castro de Sapeiras e da Fonte de Megilde, onde hã inscrição, continuando pela Canada de Jucadelo/Juncedelo até à Capela de São Sebastião [Lopo, 1900])
Babe (m.p. LXVII; no lugar do Sagrado, associado à extinta Igreja de São Pedro Velho 4 km a sul da aldeia, sobranceira à ribeira da Ferradosa, há vestígios de um provável vicus viarum, onde apareceram dois miliários reutilizados como sarcófagos, o miliário de Caracala onde se lê X[---] milhas, actualmente no MAB com o nº 1572 e um miliário de Adriano também no MAB com o nº 1570, lendo-se XX[...] milhas contadas talvez a Caesera, mansio provavelmente localizada em Rabanales de Aliste; neste local apareceu também uma ara a Júpiter e a estela funerária de Calpurnius Reburrinus, actualmente no MAB, cavaleiro da Ala II Flavia que tinha a sua base no acampamento romano em Petavonium, situada a oeste de Rosinos de Vidriales; na Capela de São Sebastião, existe um miliário anepígrafo; a via deverá corresponder ao caminho que passa 300 m a sul da capela)
  • Ramal de Babe a Barca Dalva: a estação do Sagrado está um pouco a sul da via para Astorga, à margem de uma outra via que seguia para sul rumo à travessia do rio Douro em Barca Dalva, passando por Vimioso e Algoso. Ver itinerário.
Palácios (m.p. LXVIII, cruza a povoação)
São Julião de Palácios (m.p. LXIX na Igreja Paroquial; continua pela calçada chamada «Caminho das Duenas» por Lameiros da Calçada com vestígios do corte artificial da rocha e muros de sustentação da via)
Porto Calçado (m.p. LXXIII; cruza o rio Maçãs em Vale de Perdizes, fronteira luso-espanhola, rumando daqui para nordeste pelo «Camino de San Julián»)
Moldones (m.p. LXXVIII; continua por Figueruela de Abajo e Mahide?)

COMPLEUTICA m.p. XXVIIII
Estação viária possivelmente localizada em Figueruela de Arriba dado que esta localidade está a cerca de 29 milhas de Castro de Avelãs, presumivelmente a localização da mansio Roboretum. A via seguia talvez por São Pedro de las Herrerías, Boya, Villardeciervos e Villanueva de Valrojo.
  • Ligação Compleutica a Caesera: alguns miliários apontam uma via norte-sul por Gallegos del Campo (miliário de Macrino), San Vitero (miliário de Adriano junto da igreja indicando VI milhas à mansio de Caesera) e Rabanales de Aliste, provável localização de Caesera, onde apareceram diversas inscrições e um possível miliário junto da igreja, indiciando um importante povoado romano que poderia ser Curunda, a capital do povo Zoelae.

VENIATIA m.p. XV
Estação viária a 15 milhas de Compleutica que poderá ficar nas proximidades de Villanueva de Valrojo. A via continua pelo «Carril de los Cervatos» por Olleros de Tera e Calzadilla de Tera, onde cruza o rio Tera e segue por Calzada de Tera, San Juanico el Nuevo, Barrio de Abajo de Brime de Sog e Santibánez de Vidriales (miliário, talvez de Décio).

PETAVONIUM m.p. XVII
Estação viária que corresponde ao acampamento militar romano da legião X Gemina e da Ala II Flavia Hispanorum localizado a oeste de Rosinos de Vidriales; o povoado indígena poderá corresponder ao vizinho «Cerro del Castro» em San Pedro de la Viña; a via continua por Fuente Encalada (3 miliários, um de Maximino e Máximo, outro de Caracala e o terceiro de Décio(?), entretanto desaparecido), continua por um extenso troço da via conhecida por «La Chana», passando junto do Miliário de Valeriano e Galieno no lugar de Fuente del Robledo (actualmente no Museo de Castrocalbón), onde há um aparente acampamento romano, continuando por Calzada de Valdería e Herreros de Jamuz.

ARGENTIOLUM m.p. XV
Estação viária que deverá corresponder à exploração mineira identificada nas proximidades de Tabuyuelo de Jamuz, local a 15 milhas de Petavonium e a 14 milhas de Asturica; a via continuava junto do acampamento romano do «Campo del Medio» em Villamontán de la Valduerna, sendo designada neste troço por «Calzada del Obispo», em direcção a Valle de la Valduerna e Castrotierra (povoado da Idade do Ferro), continuando pelos topónimos El Pico del Aguila (passando a nascente da Ermida de San Gregorio), Carba, Las Calzadas, Los Cascayles, Monte Castrillo (onde cruza a N-VI), Ponte Balimbre (sobre o rio Turienzo) e Celada, continuando pelo «Camino de Cuevas» até Astorga.

ASTURICA m.p. XIIII
Caput via e importante nó viário do noroeste Peninsular, actual Astorga; segundo Ptolomeu Asturica era a sede da tribo dos Amacori. No século I é fundada a cidade de Asturica Augusta no local do acampamento romano. A distância total medida a Braga é de 226 milhas.


Variante sul por Alturas de Barroso e Boticas
Durante muito foi discutida a possibilidade do Itinerário XVII seguir mais a sul por Alturas de Barroso e Boticas e daqui a Chaves. Todavia, a ausência de miliários retiram sustentação a esta hipótese. No entanto, o trajecto já deveria existir no período romano dado que esta via servia vários importantes povoados da Idade do Ferro, alguns com sinais de terem sido romanizados, tal como o Castro do Alto do Cabeço em Granja (sobranceiro ao rio Terva junto da EN103) e o Castro de Outeiro Lesenho (hipotética sede dos Equaesi, tendo aparecido nas proximidades quatro estátuas de guerreiros). Esta velha estrada passaria ainda em Atilhó e Carvalhelhos, junto do Castro do «Castelo de Mouros», cruzando o rio Beça na Ponte de Pedrinha (a sul do povoado mineiro romano de Candedo, associado às minas de Ferrarias, estas localizadas na outra margem do Beça), continuando por Carreira da Lebre e Alto da Esculca até Boticas; daqui seguia por Sapiãos (povoado junto do cemitério) e Sapelos, onde reúne com o Itinerário XVII.

Variante norte por Lebução e Vinhais
Uma outra hipótese anteriormente lançada (e.g. em Colmenero et al., 2004:693) considerava a possibilidade de uma variante norte ao Itinerário XVII que partindo também de Chaves seguia por Faiões e Lebução rumo à travessia do rio Rabaçal na Ponte de Picões, continuando depois por Vinhais até ao Castro de Avelãs. No entanto, esta proposta apresenta alguns problemas. Por um lado, não existem evidências no terreno de uma estrada de Chaves a Lebução, estrada essa que obrigaria à transposição de difíceis obstáculos. A partir da Ponte de Picões existia de facto uma via por Vinhais onde apareceram miliários, seguindo daqui para Castro de Avelãs, onde entronca no Itinerário XVII. No entanto, pensamos que este troço integra uma outra via com origem no Castro de Avelãs e que seguia por Soeira e Vinhais rumo ao Castro de Valtelhas (Pinetum). Um ramal desta estrada, cruzava o rio Rabaçal na Ponte de Picões e seguia por Fiães (miliário), Sá (cruza o Iter XVII), Castro de Cidadonha (miliário em Monsalvarga) e Vassal (miliário) rumo à importante zona mineira de Jales. Além destas, existia um ramal que partia de Fiães para norte passando a poente de Lebução que poderia ligar a Chaves pelo norte, seguindo junto do Castro de São Sebastião, Mairos, Santo António de Monforte e Vila Verde da Raia e daqui ao longo da margem esquerda do rio Tâmega até Chaves. Este itinerário é descrito abaixo (act. 2022).

Ligação de Chaves a Fiães
O percurso parte de Vila Verde da Raia no Vale do Tâmega e segue a rota da actual EM502 por Santo António de Monforte (vicus; antigo Curral de Vacas; fuste de coluna ou miliário e estela funerária em casas da aldeia; ara a Larouco na igreja); continua pelo topónimos viários, Chã da Vrea, Alto da Vrea e Vidual, passando a poente do sítio romano de Amedo em Paradela de Monforte (tesouro) até atingir Mairos (vicus? no Calvário; estela funerária), continuando pela EN502 entre Travancas e São Cornélio, junto do sítio romano dos Pardieiros até Cimo de Vila da Castanheira (passa próximo do habitat do Seixal e junto do Capela de São João na base do Castro de São Sebastião, onde terá aparecido uma ara a Júpiter), continua pelo Alto de Pedome, margina o habitat de Caço/Megingueira e passa junto da Capela da Sra. dos Aflitos em Lebução, seguindo na direcção de Fiães (vicus Vagornica), nó viário onde entronca na referida via transversal descrita abaixo (Teixeira, 1996; Lemos e Martins, 2010).

  • Vias na área do Castelo de Monforte: O povoado do Castelo de Monforte de Rio Livre em Águas Frias controlava a respectiva portela de acesso ao planalto a partir de Chaves; no sítio de Casarelhos/Aguatões, situado na base do povoado, viria a formar-se um pequeno assentamento romano, possivelmente uma estação viária, havendo referência a um via como carrale antiqua (Teixeira, 2015:34); a partir daqui poderia tomar dois caminhos; um percorria o planalto por Breia, Jaguintas, Calhelhas das Presas e Baixinha das Presas até Bobadela (ara numa casa da aldeia; a Igreja de São Pedro integra alguns silhares romanos com marcas de fórfex e duas estelas funerárias, eventualmente trazidas do povoado fortificado de Cigadonha); o outro trajecto seguiria por Oucidres e Alvarelhos rumo a Valpaços (?). Ambos os trajectos entroncam no Itinerário XVII.
Mapa
















Via transversal ao Itinerário XVII entre Castro de Avelãs e Tresminas
Atendendo à localização de uma série de miliários na região de Valpaços e de Vinhais que parecem alinhar uma via transversal no sentido nordeste-sudoeste que cruzava com o Iter XVII na aldeia de Sá, a ocidente de Valpaços, é possível equacionar um itinerário proveniente de Castro de Avelãs rumo à região mineira de Tresminas, ao contrário de Colmenero que prefere integrá-los no percurso do Iter XVII, "forçando" a via a fazer um desvio para norte a partir de Edrosa para poder passar em Vinhais e Soeira (Colmenero et al., 2004) quando existe um caminho mais directo e menos acidentado rumo a Castro de Avelãs. A parte inicial do trajecto segue as indicações do percurso proposto pelo Padre Francisco Alves (o conhecido 'Abade de Baçal') no início do século XX, seguindo anotações anteriores do Major Celestino Beça (Alves, 1915). Alguns dos topónimos por ele mencionados são actualmente desconhecidos e são por isso colocados entre aspas.

Castro de Avelãs (seguia inicialmente o Itinerário XVII até Formil, desviando aí para noroeste)
Formil (desvia pelo caminho que cruza a ribeira de Prado Redondo e segue por «Vale do Roupeiro», «Vale de Centiares», «Paulo de Fontes», Chousa, junto da «Fonte do Velho»)
Castrelos (passa no cemitério onde há necrópole romana e continua pelo Carriço do Ervedal» em direcção à travessia do rio Baceiro na Antiga Ponte de Castrelos cujas ruínas ficam a jusante da ponte actual, na base do castro do Cabeço de São João/Castelos Velhos, onde apareceu a estela funerária de Sempronius Tuditanus, continuando na outra margem pelo caminho da «Estalagem do Diabo»)
Soeira (a via cruza a aldeia junto da Igreja Velha, onde existe uma inscrição, continuando até ao sítio romano de «Vilar», estação viária tipo mutatio onde em 1900 Celestino Beça achou um miliário reutilizado como sarcófago, actualmente no MAB com o nº 1566; da inscrição original restam umas poucas letras TRIB POT e o numeral XXI; daqui desce ao rio por 1 km, contornando o Castro da Ponte para cruzar o rio Tuela na «Ponte Velha» de Soeira, continuando por calçada até à EM1017, confluindo pouco depois na EN103 que segue aproximadamente para cruzar a ribeira de Padornelo junto da Ponte de D. Marinha)
Vila Verde (cruza a aldeia, passando a norte da Torre de Modorro, provável atalaia romana tipo statio para controlo da via na zona de travessia do rio Tuela, continua pela EN103 e logo depois desvia à direita pela EM505 e logo à esquerda pela calçada muito destruída que sobre a encosta do Castro da Cidadelha)
Vinhais (Argote refere um miliário entretanto desaparecido; onde apenas leu CONLAPSOS RESTITVERVNT / …Q. DECIO LEG.AVG.PR.PR. / CV… VIA AVG / M.P.CP, ou seja referindo reparações efectuadas na via talvez pelo Imperador Maximino, indicando a milha C[---?], talvez a Braga; provável vicus no Bairro do Eiró, onde terá aparecido a ara a Júpiter pelo que aqui deveria existir uma mutatio; a via margina o povoado, seguindo depois entre os altos da Portela e do Pinheiro, cruza a ribeira das Trutas no Pontão, continua pelo caminho de Lamas da Susana até Soutelo, passando a norte do povoado do Monte da Circa e do vicus da Lagoa, continua por Sobreiró de Cima, sobe pelo Alto do Meiral até Cruz das Cortes na EN103 e continua pela portela do Monte da Forca e do Alto da Madorrinha)
Curopos (passa em «Souto Escuro», onde terá existido um miliário (?), seguindo por Estalagem de Cima e Estalagem de Baixo, na rota da EN103)
Valpaço (por Pedra Mourisca, Breia e Fonte do Mau Nome)
Ponte de Picões (ponte medieval sobre o rio Rabaçal, já muito arruinada e entretanto submersa; daqui ascendia a encosta por Bouças e Muradelha, passando junto povoado fortificado do Cabeço de Ns. da Ribeira, onde apareceu uma are votova e de onde será também a estela funerária de Flavia Duerta dada como proveniente da aldeia de Vilartão e que actualmente está no MRF)
Bouçoães (dois possíveis miliários anepígrafos provenientes das ruínas Casa da Abadia, antiga casa paroquial, actualmente na JF; continua pelo Alto das Pedrinhas e Alto da Relva)
Tortomil (vicus de Fetais, em Vale de Fetos; duas aras votivas, uma das quais com uma inscrição a Júpiter pelos Castellani Af(...) que seria a designação do sítio; continua pelo Alto da Fraga do Marco)
Fiães (vicus Vagornica no sítio de Muradelha com base numa ara dedicada a Júpiter pelos Vicani Vagornicensis achada no sítio da Cortinha do Fundo junto da aldeia, actualmente no MRF; dentro do povoado apareceu um possível miliário; estela funerária na Fonte de Ns. do Socorro)
Tinhela (calçada; ponte medieval sobre o rio Calvo; estela funerária na rua da Veiga)
Lama de Ouriço (miliário de Magnêncio, actualmente desaparecido; povoado fortificado no Cabeço da Muralha)
(onde cruza o Iter XVII)
Valongo (miliário anepígrafo reutilizado numa casa da aldeia, entretanto deslocado para o exterior dum armazém em Vilarandelo)
Ervões
Lamas
Monsalvarga (fragmento de miliário anepígrafo na berma da estrada que passa na aldeia; calçada segue paralela e a nascente da EM543)
Vassal (fragmento de miliário numa casa particular; a via margina o castro romanizado de Cigadonha e segue a nascente da aldeia talvez pelo Caminho da Quinta da Fonte; no Lugar do Regueiral em Sanfins, há uma inscrição rupestre que delimitava os povos Treburi e Obili: «Termin(us) Treb(ilium) / T(erminus) Obili(um)»; Colmenero, 1987)
Argeriz (calçada entre o santuário rupestre de Pias de Mouros e o Castro de Ribas, passando na Ponte do Regato do Pereiro; ara aos Lari Cusicelensis (?) achada no lugar do Couto de Algeriz, CIL II 2469, actualmente desaparecida)
Argemil (seguia talvez por Nozedo e junto do habitat da igreja paroquial de São João da Corveira, continuando por Sobrado e Rio Bom)
Padrela (nó viário na Serra da Padrela que dá acesso à região mineira de Tresminas, ver Itinerários Chaves - Tresminas - Rio Douro)

Iter XVIII - Item alio itinere a BRACARA ASTURICAM m.p. CCXV
Mapa


























































































ITINERARIO XVIII (VIA NOVA) - Braga (BRACARA) - Serra do Gerês - Astorga (ASTURICA)
Item alio itinere a
BRACARA ASTURICAM

SALANIANA
AQUIS ORIGINIS
AQUIS QUERQUENNIS
GEMINAS
SALIENTIBUS
PRAESIDIO
NEMETOBRIGA
FORO
GEMESTARIO
BERGIDO
INTERERACONIO FLAVIO
ASTURICA

m.p. CCXV
m.p. XXI
m.p. XVIII
m.p. XIIII
m.p. XVI
m.p. XVIII
m.p. XVIII
m.p. XIII
m.p. XVIIII
m.p. XVIII
m.p. XIII
m.p. XX
m.p. XXX
Nos últimos anos, esta via foi alvo de um grande projecto de reabilitação e valorização turística que resultou na sua classificação como Monumento Nacional e na construção do «Museu da Geira Romana» em Campo do Gerês (Terras de Bouro), assim como uma candidatura a Património da Humanidade; neste âmbito foi criado um site sobre o «Projecto Geira» com uma excelente descrição da via que foi entretanto desactivado. Para que esse trabalho não se perdesse (mais uma vez), conseguimos recuperar os textos e algumas fotos a partir do site archive.org e pode agora ser consultado no seguinte endereço viasromanas.pt/geira/.

Este itinerário de Braga a Astorga passa por um dos troços de via mais bem preservados em Portugal, cruzando a Serra do Gerês onde é designada por o «Geira», sendo uma das vias com maior de miliários da Hispânia romana, contando-se actualmente mais de 250 exemplares (!). A via percorre apenas 34 milhas em território nacional com uma estação intermédia na milha XXI, designada por «SALANIANA». Esta distância coloca a estação nas proximidades da aldeia de Travasso (Vilar, Terras de Bouro), valor confirmado pelo miliário de Heliogábalo que apareceu no local indicando essa distância. Partindo de Braga, a via dirigia-se a Amares depois de atravessar o Rio Cávado e ascendia por patamares suaves até à Portela de Santa Cruz, onde penetrava no vale do Rio Homem acompanhando as vertentes setentrionais da Serra da Abadia. A partir daqui o traçado é todo feito em altitude, sem subidas ou descidas acentuadas até atingir Covide, onde penetra na Serra do Gerês, percorrendo os seus contrafortes orientais por Campo do Gerês e junto à barragem de Vilarinho das Furnas até atingir a milha 34 na Portela do Homem, actual fronteira luso-espanhola. O restante percurso em território espanhol foi finalmente publicado, apresentando uma nova proposta de trajecto e das respectivas estações (act. 2023). Ver também (Baptista et al., 1995; Lemos e Baptista, 1995-1996; Lemos, 2002; Colmenero et al., 2004; Carvalho H., 2008; Redentor et al., 2023).

BRACARA (Braga)
Um miliário de Adriano que estava também no Campo das Carvalheiras indica CCXV milhas (CIL II 4747), ou seja a distância total entre Bracara e Asturica pela «Via Nova»; está actualmente no MDS partido em dois fragmentos com o nº 190.092 e o nº 67.692; existem outros miliários provenientes do centro urbano que poderão estar relacionados com esta via como é o caso do miliário encontrado na rua de Ns. do Leite ou o da Casa do Passadiço na rua Francisco Sanches; a via saía pelo extremo nordeste da cidade, talvez pelo largo de São João do Souto, seguindo junto à grande necrópole da «Via Nova», no início da Av. Central, onde apareceu também uma ara dedicada aos Lari Viales, continuando pela actual rua dos Chãos rumo à travessia do rio Cávado.

Travessia do Rio Cávado (Celadus):
Como a Ponte do Porto é uma construção medieval sem indícios de uma anterior romana, temos que recorrer à localização dos miliários existentes na zona para identificar o ponto de travessia do rio Cávado. Apesar de estarem todos deslocados do seu local original, existem vários miliários nas proximidades: junto da Ponte do Porto temos o miliário da Capela de São Miguel-o-Anjo e mais a jusante, os miliários de Barreiros e o miliário do Cruzeiro de Pilar. No entanto, a travessia do rio seria feita a jusante da Ponte do Porto, já na freguesia de Navarra, sendo que Sande Lemos coloca essa travessia na Barca de Ancêde, com uma provável mutatio em Bouça Alta, enquanto Colmenero propõe uma travessia um pouco a jusante nas Azenhas de Santa Marta. Na sua saída de Braga, a via é citada num documento medieval do ano 911 que delimita a antiga diocese de Dume como «in via, quam dicunt de Vereda, qui discurret de Bracara», ou seja «pela via que chamam de vereda proveniente de Braga» (PMH DC 17) pelo que é certo que a via passava algures pelos limites de Dume, facto reforçado pelo aparecimento do miliário de Constante em Areal de Baixo, actualmente no Museu Soares dos Reis no Porto que indicaria assim a milha II. (Colmenero et al., 2004; Sande Lemos, 2002; Carvalho H., 2008).
  1. Na Barca de Ancêde/Bouça Alta: partindo de Braga, a via segue pela rua dos Chãos, rua de São Vicente e rua do Areal de Baixo, passando paralela ao cemitério de Monte d'Arcos (miliário da m.p. I). Continua pela rua do Areal de Cima ladeando o quartel, continua a nascente do Convento de Montariol por Cedro e Pinheiro, rua Rafael Bordalo Pinheiro, EM1298, passa na Capela das Sete Fontes pela rua Hélder Figueiredo e segue pelo estradão junto do Castro de Pedroso, actual rua da Calçada Romana, onde ainda se pode percorrer um longo e excepcional troço lajeado da via até atingir Adaúfe (villa na Quinta do Avelar); continua a poente igreja paroquial por Romil, Redondo (m.p. IV), continuando por Estrada, Poça, Cortinhal (m.p. V), Souto e Salgueirinho até ao Lugar do Rio, onde cruzava o rio Cávado na Barca de Ancêde (provável mutatio em Bouça Alta).
  2. Nas Azenhas de Santa Marta: seguia próximo da Igreja Sueva de São Martinho de Dume que assenta sobre uma villa romana anterior, continuando depois pelo caminho que passa na Quinta do Igo, Vila Aldos e Quinta do Gontijo, continuando depois por Palmeira (citada na mesma delimitação de Dume como Palmaria; calçada no lugar do Assento), rumo à travessia do rio Cávado nas Azenhas de Santa Marta, junto da actual Ponte do Bico, subindo na outra margem pelos topónimos Ponte e Paço até Barreiros, onde reencontra a variante pela Barca de Ancêde.
Barreiros (m.p. VI; do rio seguia pela seguia junto da Capela Sra. das Angústias, onde vencia a milha 6, continuando pela Travessa da Geira no lugar de Além; há vários fragmentos de miliários nas redondezas, três estão na Quinta do Agrolongo e um outro na Quinta da Pena, servindo de base de uma mesa de jardim que reutiliza uma mó; um outro fragmento de miliário foi deslocado para o lugar de Passos, na base do povoado do Monte da Santinha, servindo para delimitar um canteiro; inscrição votiva de Aemilius Valens, CIL II 5610, cavaleiro da Ala Flávia na Igreja de Proselo)
Carrazedo (m.p. VII no lugar de Feira Velha/ Castro; o vicus fica próximo no Lugar da Igreja; uma ara votiva aos Lares Buricis apareceu junto da via no «Campo da Porta» ali próximo; em 1642 existiam doze miliários no adro da Igreja de Carrazedo dos quais 8 terão sido levados para o Campo de Santana em Braga enquanto os restantes 4 permaneceram na igreja, sendo depois dispersos; Sousa, 1971-1972)
Pilar, Fiscal (m.p. VIII assinalada pelo miliário de Caro, CIL II 4786, cravado no solo a servir de cruzeiro e marco divisório numa rotunda da aldeia; terá sido deslocado da via que passa a leste deste cruzamento, seguindo por Paredes e Regato, onde venceria a milha oito; aqui inflecte para nascente rumo a Caires)
Besteiros (m.p. IX; segue pelo lugar de Santo António, atingindo a milha nove no desvio para Pousadas; continua por Cal, Penas e Portelinha)
Caires (m.p. X junto da «Cividade de Biscaia»/ Castro de Gróvios/Castro de Caires; possível mutatio a 10 milhas de Braga; o povoado romano foi instalado no sítio do «Campo da Bouça», na base do Paço Velho; Albano Belino recolheu aqui uma figura equestre em granito que Sande Lemos interpretou como um símbolo do sistema de correio, ou seja do cursus publicus; Argote refere um miliário da milha 10 no «alpendre da Igreja de Santiago de Vilela», actualmente desaparecido; poderia ser do tempo de Tito visto que o texto é muito similar a outros miliários deste imperador); dedicatória ao Genius por Sabinius Florus num pedestal de uma estátua proveniente da demolição da Capela da Quinta de São Vicente e actualmente depositada na Quinta de Rios de Cima)

Continuação do percurso da via pela Portela de Santa Cruz
Aqui começa um dos mais interessantes troços da Geira Romana; partindo da mutatio na «Cidade de Biscaia» no Campo da Bouça, a via contorna o Monte de São Pedro Fins pela vertente sul por Paço Velho, Castro, Tornadouro, São Vicente, Roupeiro e Cimo da Geira, onde venceria a milha XI, continuando pelo lugar de Vila Cova em Paredes Secas, iniciando-se aqui um grande troço ainda intacto da via lajeada que ascende por suaves patamares à divisória entre freguesias, onde vencia a milha XII, pouco antes de atingir o vicus e provável mutatio de Mojeje, local onde cruza a ribeira das Oliveirinhas e cujo nome latino poderia ser Viriocelum atendendo ao pedestal com uma inscrição ao Genius Viriocelensis, actualmente na casa paroquial de Vilela. Os miliários das milhas XII e XIII entre os quais estava a mutatio de Mojeje foram todos deslocados para as sedes de freguesia, nomeadamente o miliário de Maximino e Máximo indicando 12 milhas a Braga que apareceu em 1957 junto da ribeira da Pala no lugar de Lama/Dornelas e actualmente no adro da igreja paroquial de Paredes Secas, enquanto os miliários da milha XIII estão actualmente na aldeia de Vilela, o miliário de Tito e Domiciano indicando 13 milhas (CIL II 4798) está encostado ao muro da igreja e nas traseiras está o miliário anepígrafo, no pátio de uma casa particular.

Santa Cruz, Souto (m.p. XIV; de Mojeje a via percorre a meia-encosta a vertente nascente do Monte de Santa Cruz passando junto de um miliário anepígrafo deitado junto da via até entroncar na EM535-2, seguindo à direita pelo largo da aldeia para onde foi deslocado um fragmento de outro miliário; junto da Portela de Santa Cruz que serve de divisória entre os concelhos de Amares e Terras de Bouro, deixando o vale do rio Cávado para entrar no vale do rio Homem, atingindo pouco depois a milha 14 num local designado por Bouça do Padreiro, onde ainda subsistem sete miliários, quatro deles indicando a m.p. XIV, um dos quais está enterrado in situ; continua pelo estradão que passa a asfalto e no desvio para Barral segue à direita para Chão de Cima e Reboredo)
Lampaças, Balança (m.p. XV no Bico da Geira ou Cantos da Geira; quatro miliários; miliário de Maximiano e miliário de Caro, indicando 15 milhas e um terceiro anepígrafo; dois miliários desta milha, um a Magnêncio e outro talvez a Carino, estão actualmente na C.M. de Terras do Bouro)
Teixugos, Chorense (m.p. XVI; miliário de Décio; três outros miliários deste local estão desaparecidos; a via continua pelo monte até à Capela de São Sebastião da Geira, onde entronca na EM535, segue esta estrada por 150 m e desvia à esquerda por estradão de terra)
Ribeiro de Cabaninhas, Chorense (m.p. XVII; cinco miliários. Heliogábalo, Caracala, Décio, Caro e Valentiano)
Chã de Vilar, Chorense (m.p. XVIII em Minério; miliário de Tito e Domiciano in situ indicando 18 milhas; também seria daqui o miliário de Constâncio I ou II que hoje está na C.M. de Terras de Bouro; vestígios de um povoado romano; atravessa o ribeiro do Urzal e segue pelo Alto do Falanco, Barreiros e Alto do Bustelo)
Lajedos, Saim (m.p. XIX; 4 miliários, um dos quais dedicado aos imperadores Tito e Domiciano, indicando 19 milhas a Braga, onde se lê «VIA NOVA FACTA»; miliário de Caracala fragmentado; miliário anepígrafo deslocado para a aldeia de Moimenta Nova servindo de suporte a uma varanda junto à igreja; também desta milha seria o miliário anepígrafo actualmente na C.M. de Terras de Bouro)
Podrigueiras, Saim (m.p. XX junto ao Penedo dos Ladrões; dois miliários, um a Carino e outro a Adriano indicando ambos 20 milhas a Braga; miliário anepígrafo integrado na base de um muro a 30 m da via; logo depois cruza o ribeiro da Pala da Porca)

SALANIANA, mansio a 21 milhas de Bracara Augusta, deveria situar-se na zona de Travasso pois aqui apareceram 2 miliários in situ, um miliário de Heliogábalo indicando precisamente 21 milhas a Braga, CIL II 4805 e o miliário de Caro, CIL II 278; desconhece-se o local exacto da mansio, mas há povoados romanos nas proximidades, no lugar do Pontido a leste e no lugar de Chã de Vilar, 3 milhas a sul.

Travasso, Vilar (m.p. XXI na Pontelha da Geira; daqui segue por Espigão e passa a ribeira do Fojo)
Ervosa, Santa Comba, Chamoim (m.p. XXII; dois miliários in situ, um de Carino e outro de Adriano indicando 22 milhas a Braga, CIL II 4806; um terceiro miliário daqui foi levado para a Igreja Paroquial de Chamoim em Lagoa, onde serve de cruzeiro)
Esporões, Chamoim (m.p. XXIII; 4 miliários; miliário de Tácito, miliário talvez a Juliano e dois miliários anepígrafos; há referências a um Miliário de Adriano e outro a Constâncio II entretanto desaparecidos)
Padrós (m.p. XXIV no caminho para Cabaninhas; albergaria medieval; miliário de Maximino e Máximo; referência a mais 4 miliários desaparecidos; cruza a EN307 e segue entre esta e o ribeiro da Roda até Sá onde reencontra a EN307)
, Covide (m.p. XXV; miliário de Décio transformado em cruzeiro enterrado invertido à entrada da povoação; a via continua para Covide pela estrada actual, EN307)
Covide (miliário de Décio na rua da Carreira, CIL II 4812, como pilar de um alpendre de uma casa, mas proveniente da milha XXVI, e logo depois no Outeiro do Rei, um miliário de Adriano já sem inscrição e transformado em cruzeiro; pelo caminho da Junceda leva Castro da Calcedónia; a via cruza a Veiga da Santa Eufémia pelo lugar do Monte)
Jeirinha, Covide (m.p. XXVI no lugar das Várzeas; miliário de Constâncio Cloro aparecido no Campo do Saganho; a via acompanha o ribeiro por alguns metros, subindo depois à EN307; Argote dá notícia de dois miliários desta milha, um miliário de Décio (Argote, 1734:550) e outro de Licínio II (Argote, 1734:57))
Costa do Cruzeiro (m.p. XXVII; miliário de Magnêncio indicando a milha 27 na berma esquerda da estrada na linha que separa Covide de Campo do Gerês, cruzando a EM533; referência a um miliário de Tito e Domiciano desaparecido; há ainda referência a um outro miliário de Vespasiano actualmente desaparecido, CIL II 4814, indicando também 27 milhas a Braga; pouco depois surge o Miliário de Décio indicando também 27 milhas que actualmente serve de base do Cruzeiro de São João do Campo e logo depois surge um outro miliário ilegível na berma direita da estrada; todavia estes miliários estão deslocados e o acerto da marcação miliária sugere que a via desviava no cruzeiro e seguia antes pela Ponte dos Eixões e depois quase recto até à Igreja da aldeia do Campo)
São João do Campo/ Campo do Gerês (m.p. XXVIII no sítio da «Leira dos Padrões», nas traseiras da igreja; no entanto a mutatio poderia estar no sítio do «O Sagrado» ou «Adro Velho» situado na Veiga de São João, onde se achou uma ara votiva dedicada à divindade indígena Ocaere; na aldeia existem vários miliários, o miliário de Caro está dentro do jardim de uma casa particular à entrada da povoação, outro fragmento de miliário indica 28 milhas a Braga e está encastrado na parede de uma casa da aldeia, tal como um outro miliário anepígrafo; a norte da aldeia na «Leira do Cotelo» no lugar do Porto do Carro, há outro fragmento de miliário; Argote refere um miliário de Magnêncio actualmente desaparecido e em 1728 Matos Ferreira refere dois miliários que estavam na Leira dos Padrões e que foram posteriormente destruídos; a via continua pela estrada actual que se dirige para a extinta aldeia de Vilarinho das Furnas, onde há vários miliários reutilizados, mas antes de descer à barragem desvia à direita por estradão de terra que se dirige para a Bouça do Gavião, perdendo-se pouco depois nas águas da albufeira que submergiu a via; o caminho actual foi construído a cota superior, mas reúne com a via 2500 m depois)
Bouça do Gavião/ Padrões da Cal (m.p. XXIX; os treze miliários que aqui existiam foram transladados para Sarilhão, junto do estradão actual, após a construção da barragem; alguns terão sido partidos e levados para Vilarinho das Fornos onde ainda se podem observar alguns fragmentos entre as ruínas submersas da aldeia)
Bouça da Mó (m.p. XXX; vestígios da mutatio na margem esquerda do ribeiro da Mó; 4 miliários; dois miliários identificados em 1992, um deles enterrado; em 2007 apareceu um miliário de Maximino e Máximo [Redentor et al.,2023])
Bico da Geira (m.p. XXXI; 16 miliários junto ao ribeiro do Pedredo, de um conjunto com 21 marcos, um dos quais apresenta ainda restos de pintura avermelhada [Redentor et al.,2023]; vestígios da antiga pedreira que serviu para o fabrico dos miliários)
Volta do Covo (m.p. XXXII; 22 miliários, aos imperadores, Adriano, Maximino e Máximo, Caro, Magnêncio, Caracala, outro a Constantino II, Constâncio II e Constante I, etc.)
Ponte Romana sobre a ribeira de Maceira (só vestígios; 1 arco)
Ponte Romana sobre a ribeira do Forno (só vestígios; 1 arco)
Albergaria (m.p. XXXIII; 20 miliários, de Constantino, Tácito, Décio, etc.)
Ponte Romana de Albergaria ou Ponte Feia sobre a ribeira de Leonte (silhares almofadados entre as ruínas da antiga ponte; a via segue o caminho entre o rio Homem e a estrada actual)
Ponte Romana sobre a ribeira de Monsão (só vestígios)
Ponte Romana de São Miguel sobre o rio Homem (a via segue até à estrada nova na Cruz do Pinheiro)
Portela do Homem (m.p. XXXIV; nove miliários, de Caracala, Tito, Décio, Domiciano, Magnêncio, Maximino e Máximo, Nerva e Adriano, um dos quais indica reparações da via na frase vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt; talvez fosse a fronteira entre os Bracari e os Querquerni)
Lama do Picón, Parque do Xurés, Lobios (m.p. XXXVI; nove miliários reunidos na zona de recreio junto da estrada actual; resta um miliário no sítio original da milha a poucos metros, designado por Chan dos Pasteroques; daqui a via acompanha a margem direita do rio Caldo até Baños)

AQUIS ORIGINIS (Baños do Rio Caldo) XXXVIII m.p.
Na povoação de Torneiros (Lobios) existe um miliário de Constâncio II proveniente da milha 37 que era vencida no sítio do Corgo do Outeiro do Porco. Junto a este encontra-se outro fragmento de miliário. Várias notícias de outros miliários nesta área onde a via nova vencia a milha 38. Daqui seguia para a travessia do rio Lima na Ponte Pedrina (actualmente submersa pela albufeira das Conchas mas com eventual origem romana), seguindo por Vilameá (m.p. XXXIX), Lobios (m.p. XLII), A Portaxe (m.p. XLIII na ponte), Xendive (m.p. XLIV) e San Salvador do Torno (m.p. XLV; miliário de Constantino II e Constâncio II actualmente numa casa particular de Xendive), descendo daqui à Ponte Pedrina, onde cruza o rio Lima (m.p. XLVII); depois segue pela margem direita do rio, passando em Tedós, Ermida de San Bartolomé/Ermille (m.p. XLVIII), Chaos (m.p. XLIX). Daqui a via segue paralela ao rio na base de Santa Comba de Bande (miliário indicando 51 milhas reutilizado como pia baptismal na igreja visigótica de Santa Comba de Bande), mas a estrada foi cortada pela albufeira das Conchas, pouco depois atingia Puerto de Quintela e seguia até ao acampamento romano de Aquis Querquennis.

    Ramal para São Gregório por Castro Laboreiro m.p. XXVIII
    Via ainda inédita de ligação entre o rio Lima e o rio Minho derivando da via nova na povoação de San Salvador do Torno. Depois de cruzar o rio Lima seguia para noroeste rumo à Ermida de San Benito (talvez por Lama, Ferreiros), após a qual seguia um traçado por alturas da serra até à área da Portela de Pau, onde foi identificado um vasto acampamento romano num local designado por «Lomba do Mouro», já anteriormente conhecida pelos seus monumentos funerários megalíticos. Daqui a via descia a Castro Laboreiro (por Alto da Picota, Queimadelo, Falagueiras, Coriscadas e Porto de Carros), onde inflectia novamente para norte, percorrendo o vale pela margem esquerda do rio Trancoso (seguindo por Vido, Portelinha, Porteiro/ Porto de Asnos/ Porto de Cavaleiros, Alcobaça, A-da-Velha, Campo do Souto, Sobreira, Cristoval) até São Gregório, descendo depois pela Caminho Velho e Rua Verde para cruzar este mesmo rio na Ponte Velha/ Ponte Barxas, a antiga porta de entrada em território Galego. A via continuava talvez por Vendas e Trado, passando junto da Ermida de San Xusto, mas o seu destino final continua incerto. Atendendo à grande dimensão deste acampamento romano, formando um recinto solidamente amuralhado com cerca de 20 ha, assim como a sua sólida muralha, indiciam que esta passagem foi extremamente importante no avanço do exército romano durante o período inicial da conquista, ocupando um local absolutamente estratégico, dado que o acampamento se localiza a meio caminho entre o rio Lima e o rio Minho, ou seja na décima quarta milha (act. 2023).

AQUIS QUERQUENNIS (Baños de Bande) LIII m.p.
Importantes vestígios de um acampamento militar junto da milha 51, parcialmente submersa pela albufeira das Conchas. Miliário de Constâncio II proveniente da aldeia vizinha de Lobosandaos, talvez da milha 52, actualmente no Centro de Interpretação Fundação Aquae Querquennae - Via Nova. Aqui existe um outro miliário talvez de Magnêncio proveniente da Igreja de Santa Comba que corresponde à milha 51. A via continuava junto do local original da Capela de San Xoán, entretanto deslocada para a berma da estrada nova. No entanto, o Itinerário indica 53 milhas, medida que corresponde à travessia do rio Cadones, afluente do Lima, junto da qual apareceu um miliário indicando esse mesmo valor; a mansio poderia ser em Baños. Continua pela Ermita de San Fiz, Ponte Liñares, Padrón (dois miliários na milha 60), Cruzeiro de Congostro, Las Cruces, Pedrosas, Ponte de Saínza, Rairiz, Cantos e Vilariño das Poldras (3 miliários da milha 67).

GEMINAS (Torre de Sandiás) LXIX a Braga
Segundo o Itinerário, Geminas estava a 16 milhas de Aqui Querquennis, distância que coloca esta estação a 69 milhas de Braga, junto do nó viário de Torre de Sandiás. Alguns vestígios cerâmicos e uma ara sem inscrição junto da igreja sugerem um simples mutatio junto deste importante cruzamento, de onde partia uma via em direcção a Chaves (ver via Aquae Flaviae - Geminas) com um possível ramal para Vilar Perdizes (ver via Caladuno-Geminas), ambas estações do Itinerário XVII. A via continuava por Castro, Corga e junto do miliário de Zadagós que assinalava a milha 71; daqui seguia para Casasoá, onde apareceu um miliário indicando 73 milhas; continuava pelo chamado «Caminho do Teso», junto do qual apareceu um miliário anepígrafo, seguramente relacionado com a milha 74; também seria daqui o miliário de Adriano que indica precisamente 74 milhas a Braga que estava na sítio da «Leira dos Padrós» ou «Antas da Bobadela», actualmente difícil de precisar, dado o caminho que levava a Busteliño ter sido destruído; continuava por Froufe, Vide (miliário numa casa de Baños de Molgas), e pelo antigo caminho para Foncuberta que passava no topónimo Sublomba, onde apareceu um fragmento de miliário; julgamos que este local corresponde à milha 90, valor esse indicado no miliário que actualmente serve de cruzeiro na aldeia de Foncuberta. A partir daqui a via seguia para Tioira (miliário), ascendendo daqui por fortes pendentes ao Alto do Rodicio (talvez por Cimo de Vila e Costa). Depois de atingir o planalto, a via seguia em direcção a Vigueira de Abaixo, havendo miliários tanto na aldeia de Covas como do Cadaval, não se sabendo em qual destes locais passaria a via.

SALIENTIBUS (Vigueira de Abaixo) XC a Braga
A marcação miliária aponta para a aldeia de Vigueira de Abaixo por onde passava a via e há registo de miliários, mas não podemos excluir outras hipóteses nas proximidades. Um miliário de Constantino; outro de Caro ou Carino serve de umbral de uma cancela; depois de cruzar a ribeira, a via é assinalada pelos miliários de Nogueira, Burgo, Vilamaior, Castromao e Alto da Cerdeira, descendo depois por Aviceiro e Fonte das Guístolas até à Ponte Romana de Navea (reconstrução medieval de uma anterior romana; CXVI m.p. a Braga; 2 miliários anepígrafos e um miliário de Tito)

PRAESIDIO (Pobra de Tivres) CVIII a Braga
Daqui descia ao rio Bibei que cruzava na Ponte Romana de Bibei (uma das pontes romanas mais bem conservadas na Península; milha CXXI; junto da ponte foi colocado o miliário de Tito que apareceu no rio e que indica 94 milhas a Astorga (pelo trajecto curto), pelo que seria da milha posterior à ponte, localizada a 95 milhas de Astorga. Junto deste está uma coluna honorífica de Trajano, que assinala a construção da ponte, muito similar à que apareceu junto da Ponte de Chaves. Do rio, ascendia pelo sugestivo topónimo Fonte do Pilar, onde há notícia de miliários (CIII m.p.), subindo a Larouco, onde inflecte para nordeste rumo à travessia do rio Sil na Ponte Romana da Cigarrosa)

NEMETOBRIGA (Ponte de Cigarrosa) CXX m.p. a Braga | XCV a Astorga
Junto à travessia do Sil na Ponte da Cigarrosa (alicerces romanos), junto do qual estaria a estação de Nemetobriga; porém o topónimo aponta para um povoado fortificado que estaria algures nas proximidades; em 2022 apareceu um miliário, talvez de Nero, numas obras junto da Ponte da Cigarrosa, em Petín, que foi entretanto colocado à entrada da ponte; deveria assinalar 120 milhas a Braga. Daqui segue recto por Rua, Valdeorras, Arcos e Barco.

FORO (Proba de Barca) CXXVIII a Braga | XXXI a Bergido
O itinerário indica 19 milhas a Nemetobriga, no entanto, a sua localização mais provável é o lugar da Proba em Barco de Valdeorras, a oito milhas da Ponte da Cigarrosa, onde apareceu um miliário junto do sítio romano de San Salvador, vicus viarum associado a esta estação. Deste modo, poderá existir um erro de transcrição, confundindo os numerais «XVIIII» por «VIII». Também será daqui a inscrição votiva colocada por um soldado da VII Legião Gémina (HEp 7, 1997, 490). A partir daqui a via dirige-se para travessia da Serra da Encina da Lastra que ascende por calçada ainda preservada, junto da qual apareceu um miliário, indicando 12 milhas possivelmente a Foro, a poucas milhas da linha divisória entre as províncias da Galiza e das Astúrias que corta um pouco antes do topónimo Santo Tirso. Continua por alturas de Cabarcos e Portela de Aguiar, onde vencia a milha 18 e portanto a localização da estação seguinte.

GEMESTARIO (Portela de Aguiar) XIII a Bergido | LXIII a Astorga
Estação a 18 milhas de Foro e a 13 de Bergido, provavelmente situada no Alto da Portela de Aguiar, apesar de não se conhecerem vestígios da mutatio. Na continuação para Bergido, a via desce ao vale do rio Sil que passa a seguir até Paradela do Rio, a 14 milhas de Foro (inscrição a Júpiter), seguindo depois praticamente recto por Toral de los Vados até à estação de Bergido, local onde conflui também o itinerário XVII de Bracara a Asturica por Aquae Flaviae (Braga-Chaves-Astorga).

BERGIDO (m.p. XIII, junto do Castro Ventosa; 159 milhas a Braga; o restante percurso está descrito no Itinerário XVIII)
INTERAMNIO FLUVIO (m.p. XX; Bembibre; 179 milhas a Braga)
ASTURICA AUGUSTA (m.p. XXX; Astorga; 209 milhas a Braga)

ASTURICA (Astorga) CCIX m.p. a Braga
Segundo o percurso proposto, a distância de Bracara a Asturica totaliza 209 milhas, portanto, diferente do somatório das milhas indicadas no I.A. que é 218 milhas. Segundo a proposta de traçado da via, esta diferença resulta das diversas correções nas distâncias intermédias, em particular as 19 milhas indicadas entre Nemetobriga a Foro, que deverão ser apenas oito; acresce a milha em falta na etapa Aquis Querquennis-Geminas, 17 em vez de 16, totalizando 208 milhas, valor já muito próximo do medido no terreno. Com estes acertos, obtemos um percurso coerente com os dados no terreno e a informação contida no Itinerário, fornecendo uma proposta de solução para um itinerário que continua a ser muito discutido entre o emaranhado de diferentes propostas que foram sendo lançadas (act. 2023).

Iter XIX - Item a BRACARA ASTURICAM m.p. CCXCVIIII
Mapa
Braga
















Cávado








Neiva








Lima























Labruja








Rubiães












Antas













Sapardos










Valença












Pontevedra
























































ITINERARIO XIX - Braga (BRACARA) - Tui (TUDA) - Lugo (LUCUS) - Astorga (ASTURICA)
Item a BRACARA
ASTURICAM

LIMIA
TUDAE
BURBIDA
TUROQUA
AQUIS CELENIS
TRIA
ASSEGONIA
BREVIS
MARCIE
LUGO AUGUSTI
TIMALINO
PONTE NEVIAE
UTTARIS
BERGIDO
INTERAMNIO FLUVIO
ASTURICA

* proposta correção
** proposta correção
*** proposta correção

m.p. CCXCVIIII
m.p. XVIIII
m.p. XXIIII
m.p. XVI
m.p. XVI
m.p. XXIIII*
m.p. XII
m.p. XIII**
m.p. XXII
m.p. XX
m.p. XIII
m.p. XXII
m.p. XII
m.p. XX***
m.p. XVI
m.p. XX
m.p. XXX
m.p. XIIII
m.p. XVIII
m.p. XVI
O traçado do Itinerário XIX está relativamente bem estudado dado o elevado número de miliários existentes. Este itinerário corresponde em grande parte ao Caminho de Braga a Santiago pelo que existe sinalização do percurso através das famosas setas amarelas, embora nem sempre o caminho proposto siga pela via do período romano. Esta rota para a Galiza, certamente já utilizada antes da chegada dos romanos, tinha obrigatoriamente de atravessar os dois grandes rios da região, o rio Lima, onde viria a instalar uma mansio designada por LIMIA situada a XIX milhas de Braga, actual Ponte de Lima, e 24 milhas depois o rio Minho onde instala outra mansio TUDAE, actual Tui. O itinerário continua por Lugo rumo a Astorga, partilhando a partir de Bergido a rota do Itinerário XVIII, ou «Via Nova» que seguia também para Astorga, mas pela Serra do Gerês.

Ver os cinco miliários desta via no Museu Pio XII, o miliário de Oleiros (MPXII.LIT.79) em exposição e na arrecadação, o fragmento de miliário de Arcozelo (MPXII.LIT.264), o miliário de Romarigães (MPXII.LIT.572), o miliário de Adriano de São Paio de Merelim (MPXII.LIT.758) e ainda o possível fragmento de miliário encontrado num muro da casa Patronato da Sé, na rua da Cónega, possivelmente relacionado com esta via (MPXII.LIT.612).

O Museu da Sociedade Martins Sarmento (MSMS) em Guimarães tem em exposição o miliário da Quinta São Germil em Panóias e o miliário de Tibério da Ponte do Prado. Numa das entradas do Claustro da Sé de Braga está depositado o miliário de Nerva da Quinta do Outeiro, convertido em pedra de lagar. O Museu D. Diogo de Sousa em Braga guarda os outros miliários conhecidos desta via (sobre este itinerário ver: Argote, 1734; Regalo, 1987; Colmenero, 1987; Araújo, 1982; Colmenero et al., 2004; Lemos, 2011).

Há dúvidas nas distâncias intermédias indicadas entre Turoqua (Pontevedra) e Lucus (Lugo), dado que a sua soma é insuficiente para percorrer a distância que separa estes lugares. O mesmo se passa no troço entre Lucus e Bergido pois o itinerário indica 70 milhas, quando a distância medida pelo percurso proposto ronda a 66 milhas, havendo, portanto, quatro milhas em excesso. A ser assim, o erro poderia estar na estação de Uttaris, que deveria indicar 16 milhas em vez do numeral «XX» conforme surge nas cópias remanescentes do Itinerário de Antonino (act. 2024).

BRACARA (Braga)
No palacete de D. Jerónimo Pimentel, na esquina do Campo das Carvalheiras e rua da Sé, apareceu um miliário de Augusto indicando 43 milhas a TVDE, actual Tui, marcando certamente a milha zero ou caput via desta via e que actualmente no MDDS; a via poderia seguir próximo da necrópole do Campo da Vinha no alinhamento do cardus maximus que corresponde hoje aproximadamente à rua Jerónimo Pimentel seguindo pelo Campo das Carvalheiras e Campo das Hortas, atendendo à importante cloaca que corre sob o ex-Abrigo Distrital; no entanto o trajecto da Iter XIX é incerto pois apesar dos muitos miliários quase todos foram deslocados ou reutilizados nas quintas da periferia da via como o miliário de Augusto que apareceu em 1967 no Paço dos Cunhas Sotomayor na Praça do Conselheiro Torres e Almeida, actualmente no MDS com o nº 68992; a saída da cidade fazia-se talvez pela Calçada de Cones, seguindo depois aproximadamente a EN201 até à Ponte do Prado; em alternativa poderia continuar rua de São Martinho e depois por caminhos agrícolas passando em Felgueiras, onde existe um possível miliário reutilizado como marco divisório (Lemos, 2002; Carvalho H., 2008)

Real (m.p. I; o miliário de Constâncio indicando uma milha a Braga e que apareceu em 1990 na antiga casa dos Paços da Câmara, na rua Frei Caetano Brandão, está actualmente dentro da cafetaria que ali existe; o miliário de Maximino e Máximo também da milha I, CIL II 4756, apareceu no Monte dos Cones a servir talvez de marco divisório, actualmente no MDDS com o nº 1992.0677; também seria desta milha o miliário da Quinta do Tourido descoberto em 1979, mas que anda perdido)
Frossos (m.p. II no sítio da Ramoia/Ramoa; na Quinta do Outeiro apareceu um miliário de Nerva transformado em pedra de lagar que actualmente está na Sé de Braga; Albano Belino descobriu um miliário de Tibério indicando a milha II na Quinta de Germil, actualmente no MSMS nº 65; o miliário do Cruzeiro de Panóias, no Largo do Souto, terá sido deslocado da Ponte do Prado pois indica 4 milhas; tem duas inscrições sobrepostas, a inicial dedicada a Tibério e outra posterior de Valentiniano e Valente; também o peso de lagar actualmente na Quinta da Mainha, poderá ser um miliário reutilizado)
São Paio de Merelim (m.p. III; miliário de Adriano descoberto em 1981 num muro junto ao lavadouro na EN201, actualmente no Museu Pio XII, onde se regista também o topónimo Calçada)

Travessia do rio Cávado (Celadus) (m.p. IV)
Seria por barca dado que a Ponte do Prado é uma construção medieval sem qualquer indício romano. O local de travessia poderia ser junto à ponte ou mais a montante, próximo do sítio romano de Macarome; Argote refere o aparecimento de um miliário de Augusto indicando 4 milhas, CIL II 4868, aquando da reconstrução da ponte, entretanto deslocado para Braga onde terá desaparecido; vários outros fragmentos de miliários estão embutidos nos muros junto à ponte (Regalo,1987); vestígios de uma possível vicus em Barreiro e Igreja Nova.

Itinerário XIX da Ponte do Prado ao Rio Neiva:
A rota da via entre os rios Cávado e Neiva permanece insegura; o actual «Caminho de Santiago» segue a proposta de Brochado de Almeida por Lage, São Miguel de Carreiras e Portela das Cabras, descendo depois à Ponte Velha de Goães (Almeida CAB, 1979). Apesar da evidente antiguidade deste caminho não é segura a sua existência já em época romana já que apresenta fortes pendentes na subida à Portela das Cabras (Almeida CAF, 1968; Colmenero et al., 2004); por outro lado a Ponte de Goães é Alto-Medieval sem qualquer sinal de romanidade. Finalmente, os miliários conhecidos nesta área estão todos a poente desta rota, embora deslocados das suas posições originais (Oleiros, Atiães, Marrancos e Arcozelo), sendo por isso mais provável que a via seguisse por esses locais até Portela das Cabras, descendo depois à travessia do rio Neiva a jusante da ponte medieval, talvez entre os lugares do Monte da Ribeira e Lagoeira, dado que na outra margem a via tem continuação para Anais. Sande Lemos admite que esta rota é tardo-romana ou alto-medieval, talvez do período Suévico; o seu traçado é o seguinte:

  • «Caminho de Santiago» pela Ponte de Goães: partindo da Ponte do Prado, segue por Faial, passa na calçada da Quinta do Jorge, lugar da Estrada, Murta, Santiago (um documento medieval refere uma carrariam antiquam junto da Capela de Francelos), Corga, Montinho e Sarrela), continua por Lage (calçada; passa junto à Igreja de São Julião, entra na Roupeira no CM1184 e segue por Livão/Olivão), Moure (calçada; próximo fica o castro romanizado do Barbudo ou Monte Castelo; continua pelo CM1184 por Caraceira, Laranjal, Landeira e Portelinha), São Miguel de Carreiras (CM1183 por Santo André e Cachada) até Portela das Cabras, onde reúne com a variante de Atiães, descendo depois à Ponte Velha de Goães ou da «Pedrinha», onde cruza o rio Neiva, e segue por Ângulo Quarenta, Igreja de Anais e Cruzeiro/Albergaria onde reúne com a variante por Atiães descrita a seguir.

Itinerário XIX da Ponte do Prado a Ponte de Lima
Vila do Prado (da ponte segue pela rua Antunes Lima até à EN205 e depois à esquerda pela rua Direita no lugar da Vila, atravessa a EN205 e segue por 1800 m pelo caminho que passa nas traseiras da Igreja Velha de Prado e que liga a Outeiro; miliário de Tibério, CIL II 4869, encontrado numa bouça, actualmente no MSMS com o nº 77)
Oleiros (m.p. VI; miliário de Valentiniano I indicando 6 milhas a Braga que apareceu na «Bouça do Benefício Paroquial da Antiga Igreja Matriz» já transformado em cruzeiro, actualmente no Museu Pio XII; continua junto da Capela de São Sebastião)
Atiães (m.p. VI; fragmento de miliário na Bouça do Castro, a 6/7 milhas de Braga; no adro da Capela de Santa Marta, existem dois cipos, um dos quais Colmenero considera ser um fragmento de miliário, mas é duvidoso; minas romanas na encosta leste do Monte do Cardal; a via deveria seguir o caminho a poente do lugar da Cumieira pelos topónimos viários Alminhas e Quinta do Carrão)
Mata de São Jerónimo, Freiriz (m.p. VII; fragmento de miliário talvez in situ indicando a milha 6 ou 7; continua junto da Capela de Chãos)
Lugar de São José (m.p. VIII; cruza a EN201 e segue por Regadas; o desaparecido miliário de Tito e Domiciano, CIL 4799, poderá ter vindo daqui, já que indicava 10 milhas a Braga)
Portela das Cabras (m.p. X; cruza a EN308 na Portela do Meio e segue pelo lugar da Rua, onde havia calçada, e desce ao Neiva por Hospital e Fonte Fria; mina romana da Cova dos Mouros; ara na Portela da Penela)
Travessia do Rio Neiva (Naebis) (m.p. XI; talvez entre os lugares do Monte da Ribeira e Lagoeira; fragmento de miliário junto da JF; este marco poderá corresponder ao miliário de Carino indicando a milha 11 registrado no século XIX; na Igreja Velha de Fontes em Arcozelo apareceu um fragmento de um miliário de Tibério, actualmente no Museu Pio XII)
Anais (m.p. XII; no lugar da Boavista, apareceu um miliário ilegível reutilizado como suporte do alpendre de uma casa; retomando o percurso no lugar da Lagoeira, na divisória entre os concelhos de Braga e Ponte de Lima, continua por Venda, Talho, Souto, Caramasse, Varziela, Malhos, Cruzeiro, Albergaria e Pedra da Cruz, onde venceria a milha 13)

  • Variante Medieval por Queijada e Fornelos: seguindo a proposta de Ferreira de Almeida, o «Caminho de Santiago» continua pela freguesia de Queijada, passando em Empregada, Baganheiro e Cangostas, rumo à travessia do rio Trovela na chamada Ponte Nova, ponte referida nas Inquirições de 1258 (PMH Inq. 396; CAF, Almeida, 1968; CAB Almeida, 1990); no entanto, como o próprio topónimo sugere, esta ponte terá sido construída muito provavelmente na Alta Idade Média, alterando o percurso romano que seguia por Souto de Rebordões atendendo ao achado de um miliário enterrado em posição invertida no acesso à Quinta da Torre (actual rua da Rabela), junto a um antigo caminho entre a Quinta das Fontes e a Igreja Paroquial de Souto de Rebordões (Colmenero et al., 2004). Além do miliário, existem outros dados que apontam nessa direcção; por um lado este trajecto está mais de acordo com a habitual tipologia das vias romanas, evitando por exemplo a travessia da ribeira do Folinho e por outro nas Inquirições de D. Afonso III em 1258 há referência por 3 vezes a uma «via publica», confirmando a passagem pela paróquia de uma estrada importante que deverá corresponder ao trajecto antigo; nesse documento é referido uma «Cividade» que indicia a existência de um antigo povoado tipo castro (PMH Inq. 347).

Souto de Rebordões (m.p. XV; desvia da «rota de Santiago» em Pedra da Cruz (Anais), onde notícia da existência de um miliário de Adriano indicando a milha 13 (Jordão, 1859); daqui continua pela Capela da Senhora do Amparo, Carvalho do Lobo, Capela da Senhora das Dores, Quinta das Fontes, Quinta da Torre, passa no miliário e continua por Senra, Soalheiro, cruza o rio Trovela no lugar do Passo (?); daqui segue entre Torrinha e Chão de Mena)
Santa Maria de Rebordões (milha XVII; miliário de Maximino e Máximo descoberto no antigo passal da Igreja de Fornelos reutilizado como peso de lagar; indicava 17 milhas a Braga que eram vencidas junto da Capela de São Brás; actualmente está no jardim da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Cerveira; pouco depois cruza a ribeira de Sandilhão e segue por Lage até à estação viária da Posa)
Posa, Feitosa (m.p. XVIII; miliário de Dalmácio reutilizado num muro do lugar, actualmente em parte incerta; miliário de Maximino e Máximo indicando a milha 18 que apareceu no «Campo de Santo Amaro», actualmente no jardim do Solar de Bertiandos convertido em Pelourinho, CIL II 4870; a epígrafe revela reparações da via na frase «vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt»; a via continua por Postigo, Portelas e São Lourenço, entrando em Ponte de Lima pela rua do Merim, rua Norton de Matos e pela antiga Porta de Braga, desmantelada em 1800; Almeida e Rodrigues, 2001; em 2023 foi identificado um miliário anepígrafo num muro de uma casa na Rua das Oliveiras, a cerca de 500 m a nascente da via, servindo de marco divisório entre as freguesias de Arca e Feitosa que pela posição poderia originalmente assinalar 19 milhas a Braga)

LIMIA, Ponte de Lima m.p. XIX
Estação viária tipo mansio situada a 19 milhas de Braga na actual vila de Ponte de Lima; o miliário 19 estaria no cruzamento da rua do Merim com a rua Severino Costa, na divisória com a freguesia de Feitosa, assinalada por um marco na berma da estrada; na Igreja de Santa Cruz do Lima apareceu uma ara a Júpiter da oficina de ELPIDI, actualmente no Museu Pio XII; Castro romanizado na Serra de Antelas, ocupando o Alto de Santo Ovídeo e Alto da Telha.

Ponte Romana sobre o rio Lima (reconstrução medieval da ponte romana da qual restam os primeiros 5 arcos da margem direita com visíveis marcas de fórfex e utilização de silhares almofadados a denunciar a parte romana)
Antepaço (m.p. XX; no pátio da Quinta do Antepaço existe um miliário já ilegível que é o único que resta de um grupo de 4 miliários com os nº 1,2,3 e 4 da série Capela assinalando a milha 20 e posteriormente deslocados para a Quinta de Faldejães; da ponte romana seguia paralelo ao rio Labruja pela Quinta de Sabadão, onde vencia a m.p. XXI, continuando pelo limite da Quinta de Pomarchão e depois por Cancelhinhas e Igreja)
  • Na Quinta de Faldejães existem cinco miliários; 3 são provenientes da Quinta do Antepaço assinalando portanto a milha 20, o miliário de Adriano, CIL II 4871, o miliário de Caracala, CIL II 4872 e o miliário de Constâncio Cloro(?), CIL II 4873; além destes, existe ainda um miliário anepígrafo de proveniência desconhecida e um fragmento de miliário proveniente da Capela de São Sebastião em Labruja. O miliário de Maximino e Máximo indicando XXI milhas que apareceu deslocado e partido em dois esteios na Quinta da Agra em Correlhã (nº 7 da série Capela, CIL II 4874, Araújo, 1980) deveria estar originalmente na Quinta de Sabadão onde era vencida a milha 21 e hoje integra o acervo do MNA.
Arcozelo (m.p. XXII; na Igreja de Santa Marinha apareceu um miliário)
Ponte Romana do Arco da Geia, Boavista (ponte sobre o rio Labruja com possível origem romana dado que integra silhares almofadados; continua pela margem esquerda por caminho agrícola que passa nos sítios da Coutada, Riba Rio, Borralho, Cerdeira, Carvalho e Moinho do Folão)
Cepões (m.p. XXIV; miliário no adro da Capela de São Pedro, convertido em pia, relacionada com a milha 23 que era vencida um pouco antes da capela no sítio do Padrão, sugestivo topónimo em alusão ao marco miliário que ali existia na base do povoado do Castro do Bárrio)
Ponte do Arco (nova travessia do rio Labruja numa ponte medieval sem vestígios romanos; daqui segue a EM522 por Fonte da Estrada até à Capela da Sra. das Neves em Codeçal onde vencia a m.p. XXV; daqui segue pelo chamado «Caminho da Texugueira», passando nos lugares de Revolta, Antas, Portelinha, Valinhos e Casa da Balada, marginando o povoado romanizado do Castro de Baixo)
Labruja (m.p. XXVI; no lugar de Espinheiros apareceu um miliário de Constantino Magno indicando a milha 26, suportando o alpendre de uma casa rural e hoje integra a chamada «Colecção da JAE», bem como o fragmento de miliário de Magnêncio (?) que apareceu no lugar da Freita; miliário da Capela de São Sebastião que hoje integra o grupo da Quinta de Faldejães; CAF Almeida refere um outro miliário próximo da Capela de São João Baptista da Grova, reutilizado como suporte de pia baptismal, mas que terá sido transferido para a Igreja Paroquial; a via passava a poente da Igreja por Casa Branca, Eiras, Fonte da Três Bicas e Espinheiros)
Portela Pequena (m.p. XXVII; a via cruzava a serra pela Portela Pequena com base na notícia de um miliário na «Portela de Câmbua» nº 11 da série Capela; este miliário estaria no alto do monte, actual linha divisória concelhia, assinalando a milha 27, tendo sido partido em 4 esteios e depois perdido; a construção da EN201 e posteriormente da A3 impede a reconstituição do percurso da via nesta zona; cruzada a portela, descia depois pela Capela do Pisco, Veiga do Monte, Portela, Venda, Cascalhal e Capela de São Roque (CM1076-2) até à base do castro de Romarigães)
Portela de Romarigães (m.p. XXIX; nas traseiras da Casa Grande de Romarigães há dois miliários anepígrafos; numa casa rural das redondezas, apareceu um miliário de Valentiniano I convertido em pia de porcos, actualmente no Museu Pio XII com o nº MPXII.LIT.572 que deveria assinalar milha 29 ou 30, apesar de actualmente não se ler mais do que as letras «XX[...]», AE 1980, 571)

  • Nó viário da Portela de Romarigães: estrategicamente posicionada na ligação entre o vale do rio Lima e o vale do rio Coura, na base do importante Castro do Couto de Ouro, ainda hoje linha divisória entre os concelhos de Ponte de Lima e de Paredes de Coura, esta estação da Iter XIX deveria corresponder à milha 29 desde Braga, sendo muito provável a existência de uma mutatio na base do castro; a partir daqui a via parece dividir-se em duas variantes alternativas para Fontoura que seguiam a poente e a nascente dos castros de Romarigães e Cossourado, dado que ambas são pontuadas por vários miliários; o traçado mais a poente seguia por São Martinho de Coura e São Bartolomeu das Antas, com miliários em Barreiros, Fonte de Olho, Sapardos e São Julião, enquanto a outra variante seguia por Rubiães e Cossourado com miliários na Igreja Românica de São Pedro e na Quinta do Castro. Os dois ramos voltam a reunir-se mais à frente na portela junto da Capela de São Gabriel em Fontoura (Silva e Díaz, 1997; Colmenero, 2004; Matos da Silva, 2006). Aparentemente ambas as variantes estariam em utilização no período romano, no entanto é possível que a variante por São Martinho de Coura seja posterior, estabelecendo um novo percurso menos acidentado para o qual foram deslocados alguns miliários; de facto, no miliário de Barreiros que é dedicado ao Imperador Constante I (333-337 d.C.) pode ler-se MILIARIVM XXVIIII, ou seja este era o 29º miliário da via, distância que corresponde ao lugar da Portela de Romarigães. O miliário seguinte apareceu mais adiante na Fonte do Olho, mas reutilizado numa casa rural e é de Magnêncio (350-353 d.C.); os miliários da Capela das Antas foram todos deslocados e o mesmo poderá ter sucedido aos miliários de Sapardos e São Julião. Assim, é possível que esta via seja posterior, sendo o traçado leste o trajecto original do Itinerário XIX, mas não há certezas (act. 2020).

Variante por São Martinho de Coura:
    Portela de Romarigães (rumava a noroeste por Sabariz, Costa e Fonte de Frenes)
    Barreiros, São Martinho de Coura (miliário de Constante I da milha 29 no largo por trás da Capela Ns. da Conceição onde se lê MILIARIVM XXVIIII; continua por Calados)
    Fonte de Olho, São Martinho de Coura (miliário de Magnêncio reutilizado como suporte de uma parra numa casa rural, no lugar da Seara; cruza o rio Coura na Ponte dos Caniços, situada na base do castro do Alto da Madorra)
    São Bartolomeu das Antas
    • Na construção da Capela de São Bartolomeu das Antas, foram utilizados seis miliários da região que ficaram assim deslocados do seu local original, no entanto alguns deles poderão estar relacionadas com esta variante por São Martinho de Coura; dois deles suportam o alpendre, o miliário de Magnêncio da milha 31 (CIL II 4744 e 6225) e o miliário de Nerva da milha 36 (CIL II 6226), proveniente segundo Argote do «Monte das Contenças»; os restantes estão em redor da capela: o miliário de Juliano da milha 33 (CIL II 6227), o miliário de Maximino Daia da milha 32 pelo que poderia estar na Quinta do Castro, o miliário de Maximino e Máximo (CIL II 6228) com a milha apagada e ainda um miliário anepígrafo.
    • Miliário de Candemil: na aldeia de Candemil apareceu um fragmento de miliário onde apenas se lê IMPE que terá sido deslocado desta via.
    • Miliário de Gosendos: na aldeia de Gosendos em Sapardos existe uma coluna, possível miliário inédito, a servir de esteio de uma casa.
    Antas (continua pelo CM1035 por Poça da Roda, Espinheiral, Carreira, Sande, Alto e Outeiro)
    Ramalhal, Sapardos (2 fragmentos miliários junto à entrada lateral da Capela de São Brás; possível mutatio, Almeida, 1996)
    Ranhadoura, Sapardos (miliário de Constâncio II com a milha ilegível, actualmente na «Colecção da JAE» em Viana do Castelo; AE 1980, 576)
    Raso, São Julião (no Monte da Gândara ou Gandra apareceu in situ um miliário de Maximino Daia indicando 34 milhas a Braga (AE 1980, 575), actualmente também na «Colecção da JAE»; em 1979, no Largo da Feira em São Julião, apareceu um miliário anepígrafo, actualmente no adro da Igreja dos Terceiros em Ponte de Lima; há 200 m lajeados num caminho paralelo à estrada actual, seguindo depois em alcatrão por Pousada)
    Reguengo (segue até à Portela de Fontoura, junto da Capela de São Gabriel, onde reúne com a variante por Rubiães)

Variante por Rubiães:
    Portela de Romarigães (continua pela vertente leste do castro até Azenha do Ribeiro, junto do qual vencia a m.p. XXX)
    Agualonga (cruza a ribeira de Codeceira e segue por Monte da Gândara, Covelo; habitat em Mourela)
    Pereiros (m.p. XXXI talvez junto da Capela de São Roque; continua pelo caminho paralelo à EN201 que segue pela vertente poente do Monte da Costa)
    Rubiães (passa nas traseiras da Igreja Românica de São Pedro, onde existe um miliário de Caracala reutilizado como sepultura antropomórfica; aqui apareceu também uma ara funerária e um bloco almofadado; daqui desce ao rio Coura pelo lugar da Escola e do Crasto)
    Crasto, Rubiães (m.p. XXXII; na Quinta do Crasto há 3 miliários deslocados; o miliário de Augusto na entrada da quinta e no jardim interior um miliário de Valentiniano I e um fragmento de miliário anepígrafo; os dois primeiros indicam a milha XXX pelo que a sua localização original poderia ser na Azenha do Ribeiro em Romarigães; desta milha 32 temos o miliário de Juliano na capela de Antas)
    Ponte Medieval da Peorada sobre o rio Coura (m.p. XXXII; calçada junto da ponte)
    Cossourado (m.p. XXXIII; da ponte segue talvez pela EM1074, passando na vertente nascente do Castro do Cossourado, também conhecido como «Alto da Cividade» ou «Forte da Cidade», importante povoado da Idade do Ferro situado a 28 milhas de Braga; continua junto da Igreja Paroquial; o trajecto para Fontoura é incerto, mas talvez seguisse próximo de Carcavelha até ao lugar da Portela)
    Portela de Fontoura (m.p. XXXVI; estação viária junto da Capela de São Gabriel; o miliário de Nerva do «Monte das Contenças» que foi levado para a Capela de Antas poderia ser daqui pois indica 36 milhas a Braga; a milha seguinte seria assinalada pelo miliário de Chamosinhos, dedicado a Constâncio II, que apareceu reutilizado num quinteiro perto da Igreja de São Pedro da Torre, dado que indica a milha 37; actualmente este marco está no MNA)

Itinerário XIX de Fontoura a Valença
Partindo da Capela de São Gabriel, segue por Portela, Cortinhas, Casa Gonçalo, ribeira de Boriz e Rio Torto, continua por caminho em terra batida com cerca 100 m até ao Monte Chão, seguindo depois junto da Capela de São Bento e dos topónimos Bouça da Gândara e Paços. Já na freguesia de Cerdal, toma o caminho de terra batida até à Ponte Medieval da Pedreira. Daqui ascendia por Corgas a Tuído, cruzando o ribeiro de Mira num pontão de cronologia incerta, e logo depois a EN13, continuando paralela a esta por Albergaria, Senra, Ervêlho e Troias, aqui confluindo na EN13, seguindo depois pela base da fortaleza de Valença rumo ao Cais de Arinhos no rio Minho.

Valença (m.p. XLII; 2 miliários provenientes do lugar das Lojas na chamada «estrada do cais» que desce ao Cais de Arinhos, local de travessia do rio Minho; o primeiro é um miliário de Cláudio da milha 42, actualmente deslocado para dentro da fortaleza, e o segundo é um possível miliário anepígrafo que integra a «Colecção da JAE» em Viana do Castelo; Inscrição de um veterano da Legião VI Vencedora no Núcleo Museológico Municipal)

TUDA (m.p. XLIII)
Estação viária a 43 milhas de Braga, actual Tui; a via seguia pela da rua Bispo Castañón onde recentemente apareceu um miliário anepígrafo, continuando por Santa Eufémia, próximo de Rebordáns, onde apareceu um miliário de Décio e um outro fragmento (1 m.p.). Seguia depois junto da Capela da Virxe do Caminho (2 m.p.) e pela margem direita do rio Louro por Quintela, Centeans, Ponte de Febres, Gaiteiros, Madalena, Agueiro, Veigadanha, Castro, Rúa (na Igreja de Santa Baia/Santa Eulália de Mos), Sobrado, Os Cabaleiros, Cruzeiro do Santissimo Cristo da Victoria, A Zapateira, Caminho de Avileira e Cerdeirinhas até à Capela de Santiaguinho de Antas. A maioria dos miliários identificados neste tramo do Itinerário XIX estão Museu de Pontevedra (sobre os miliários nesta rota ver Colmenero et al. 2004 e Abascal, 2020).

BURBIDA (m.p. XVI)
Estação viária a 16 milhas de Tui, localizada em Santiaguiño das Antas; a cerca de 70 metros há um miliário ilegível junto à via assinalando esta paragem; continua por Monte Cornedo, Galleiro, Chan das Pipas e Padrón (miliário de Adriano indicando 17 milhas a Tui); continua por Souto (pelo «Caminho Romano»), San Mamede Quintela (miliário de Decêncio), Ponteareas e Redondela. Continua junto da Capela de Santa Marinha e pelo Caminho da Fonte de Ribas (interrompido pela via férrea), Caminho de Abreavella e Caminho Real de San Pedro de Cesantes rumo ao Outeiro das Penas (miliário de Numeriano junto da Fonte dos Frades, lugar de Sobreiro, onde há outro miliário anepígrafo). Daqui seguia até à Fonte do Viso por caminho hoje inutilizado, continuando pelo Caminho Real do Viso que passa junto da Casa de Mina (antiga estalagem 'Eido dos Mouros' na base do importante Castro da Peneda, povoado com origem na Idade do Bronze que dominava esta passagem), continuando por Padrón e Alto da Lomba, descendo daqui a Santiago de Arcade por Sete Fontes e Fonte da Lavandeira (miliário de Caracala, indicando 66 milhas a Braga que estava na Igreja de Santiago); continua por Soutomaior, cruzando o rio Verdugo junto da Ponte Medieval de Sampaio. Continua na outra margem próximo de Paredes (4 miliários; Adriano, Licínio, Carino e Severo), Cruzeiro de Ballota, rio Ulló, Cacheiro, Laceiras, Fonte Salgueirinho, Alcouce, Santa Comba de Bértola, Ganderón (Capela de Santa Maria), O Pobo, Lusquinhos e O Marco (dois miliários de Maximino, um em Pazo e outro próximo da Ponte do Couto), entrando em Pontevedra pela rua do Gorgollón.

TUROQUA (m.p. XVI)
Actual Pontevedra, possível referência a um possível ponte romana anterior à Ponte do Burgo cruzando o rio Lérez. Junto desta travessia apareceram três miliários, em 1988 o miliário de Adriano, indicando 96 milhas a Lugo (lê-se ainda «L. Aug. m.p. LXXXXVI», em 2006, o miliário de Maximino Daia, e em 2007 o miliário de Nerva; outro miliário de Adriano apareceu deslocado e reutilizado como pedra de lagar no lugar da Almuíña, indicando 95 milhas a Lugo. Da ponte seguia pela rua da Santiña para Santa María de Alba (miliário de Caracala) e San Vicente de Cerponzóns (miliário de Magnêncio; uma cópia foi colocada junto à via no lugar de Leborei). Continua pelo caminho da Ponte de Pedras, cruza a linha férrea e segue por Santo Amaro, Cancela, Cruzeiro de Lamas, Cruzeiro de Vilar, Cruzeiro de Nane, Cruzeiro, Capela de Santa Lucia de Arcos da Condesa, Souto, seguindo paralela à estrada actual (N-550) até ao local de cruzamento do rio Umia.

AQUIS CELENIS (m.p. XIIII)
O Itinerário indica 24 milhas a Turoqua, no entanto a distância de Pontevedra a Caldas do Reis ronda as 14 milhas. Deste modo, é muito provável que haja no erro de transcrição, trocando os numerais «XIII» e «XXIII»; miliário de Constantino; ara aos lares viais no muro do adro da Igreja de Santa Maria de Caldas de Reis. continua por San Xulián de Requeixo (ara aos Lares Viais na demolida Capela de Xan Xulián, junto com mais três inscrições) e Padrón.

TRIA (m.p. XII)
Seguramente um erro na transcrição do itinerário que deve ser corrigido para IRIA, ou Iria Flaviae, cidade portuária situada na confluência dos rios Sar e Ulla, 12 milhas a norte de Caldas dos Reis, ocupando a área da Igreja de Santa Maria; cerca de uma milha antes, na povoação de Padrón, apareceu um miliário de Graciano. A via continua pela Igreja da Escravitud, Santa Maria das Cruces, Picaraña, Faramello e Miladoiro até Santiago de Compostela (12 m.p.; ara a Mercúrio; ara a Júpiter)

ASSEGONIA (m.p. XVIII)
Presumivelmente localizada nos arredores de Santiago de Compostela, possivelmente em Lavacolla, onde cruza o rio Sionlla (também na variante Sioña, topónimo que poderá ter origem na estação romana). Deste modo haveria que corrigir a distância indicada a Iria, de 13 milhas para 18 milhas, por eventual troca entre os numerais «XIII» e «XVIII». A hipótese contrária também é válida, isto é, admitindo que esta estação corresponde a Compostela, então haveria que corrigir o valor indicado para 12 milhas (na Catedral de Santiago), e alterar de 22 para 28 milhas a distância à estação seguinte, Brevis, o que é menos provável, dado que obriga a duas trocas, além de uma pouco plausível troca entre os numerais «XXII» e «XXVIII». A via continua para nascente, cruzando a área do actual aeroporto, por Cimadevila, Castro de Amenal, Rúa (Castro de Vilaboa), Santa Irene, Cerceda, Brea, Salceda, Boavista, Ferreiros, Gueán, Calzada, Taberna Velha, Uceira, Cotobe, Fondevila, Arzúa (Castro Curbín), Ribadiso (ponte sobre o rio Iso), Fraga Alta/Pedrido e Boente.

BREVIS (m.p. XXII)
Estação viária do Itinerário XIX possivelmente situada em Boente, entre Arzúa e Mélide, local a 20 milhas de Marcie)notícia de 1889 regista uma ara a Júpiter, hoje desaparecida); continua por Parabispo, Penas, Carballal e Igreja de Santa Maria de Mélide, cruza a povoação pela rua Martagona e segue por Ponte de Pedra, Castro de Vilamor, Igreja de Santo Estevo de Toques (ara a Mercúrio), Santiago de Vilouriz, Hospital das Seixas, Monte de Riba/Castro das Seixas, Porto do Carro, Pena do Boi Louro, Leboreira e Senande (18 m.p.).

MARCIE (m.p. XX)
Estação viária a 13 milhas de Lugo possivelmente localizada próximo da travessia do rio Gamoira em Vilamaior de Negral; talvez Ponte Nartiae; continua por Santa Cruz da Retorta/ O Castro, Igreja de San Romao da Retorta (miliário de Caracala a 10 milhas de Lugo [IRL, 93]; no local existe uma cópia), San Pedro de Abaixo, Hospital, Casa de Rúa, Corredoiras, San Miguel de Bacurín (miliário anepígrafo no lugar de Herreal, a 8 milhas de Lugo), San Martin de Poutomillos (topónimo viário A Uceira), Caraloces, San Vicente do Burgo, Carrigueiros, Seoane, San Xoán do Alto, Vilaestévez (miliário anepígrafo junto à via, a cerca de 2 milhas de Lugo), continuando na direcção da Ponte Romana de Lugo onde cruza o rio Minho.

LUCUS (m.p. XIII)
Actual Lugo; a 70 milhas a Astorga e a 60 de Santiago de Compostela; seguia talvez por As Mercedes e San Fiz para cruzar o rio Chanca na Tolda de Castela; continua por Paredes, Santo André de Castro, San Mamede, Anxeles, Vilar de Cucos, San Lourenzo de Recimil (O Castro), Coeo, O Castro, Quintela e Arxemil (miliário de Adriano reutilizado como pia baptismal na Igreja de San Pedro, a cerca de 8 milhas de Lugo; um miliário anepígrafo apareceu em San Martiño de Perliños e está actualmente no Museo Provincial de Lugo). Continua pela Ponte Medieval de Galiñeiros em Corgo, continuando por Pedraficta, Bergazo, Rioseco, Fontoira (miliário no adro da capela de San Bernabé, no lugar de Castrillón), Franqueán (miliário de Caro junto da igreja paroquial), Cimadevila, Monte da Silva, Santo Estevo de Folgosa, cemitério de Sobrado de Picato, Ansareo, Calvela e Fonte Lavadero, continuando junto do cemitério de San Pedro de Ferreiros, na base do sugestivo topónimo viário Castro de Ferreiros.

TIMALINO (m.p. XXII)
Estação viária a 22 milhas de Lugo, possivelmente localizada junto do cruzamento do rio Neira em Baralla; continua por Campo de Arbre, Cadoalla, Forno da Cal, Igreja de San José do Cereixal, Becerreá e A Venta de Cruzal, cruzando o rio Narón na base do Castro de Vilar de Ousón, Serra da Horta, Capela de São Bento da Horta, cemitério de Agueira, cruzando Ponte da Ferrería de As Nogais.

PONTE NEVIAE (m.p. XII)
Estação viária a 12 milhas de Timalino, localizada junto da ponte romana sobre o rio Navia (destruída), no sugestivo topónimo A Ferrería, em As Nogais. Continua por Pedraficta do Cebreiro, Castro, Teso e Lamas.

UTTARIS (m.p. XVI)
Estação viária a 16 milhas de Ponte Neviae, distância que era vencida junto da Capela de Ruitelán, a 50 milhas de Lugo; continua por Vega de Valcarce (junto do Castelo de Sarracín), Ambasmestas, Portela de Valcarce, Trabadelo, Pereje, Vilafranca do Bierzo.

BERGIDO (Cacabelos) 66 milhas a Lugo, 50 a Astorga
Estação mencionada nos Itinerários XVIII, XIX e XX localizada no Castro Ventosa, a oeste de Cacabelos. De facto, Bergido era o local onde confluem as vias provenientes de Bracara e Lucus rumo a Asturica e era portanto um nó viário da maior relevância. No povoado apareceu uma inscrição dedicada a Cómodo e outra mencionando um Interamicus originário do Castelo de Louciocelo. Na sua base apareceu um miliário, actualmente na Igreja de San Martín de Pieros. Em Cacabelos há outro possível miliário e na Igreja de Campo, em Sorribas há uma inscrição dedicada às Ninfas. A via continua para sudeste rumo a Ponferrada, seguindo a chamda «Colada de Foncebadón» por Camponaraya (5 m.p.) e Compostilla (9 m.p.) para cruzar o rio Sil a montante de Ponferrada. Continua por San Tomás de las Ollas e San Miguel de las Dueñas até ao lugar de «Las Murielas» (16 m.p.; provável mutatio, dado que aqui apareceu um miliário de Nero, actualmente numa casa particular em Cubillos del Sil, assim como vários outros fragmentos anepígrafos actualmente recolhidos na Igreja Paroquial de Almázcara). Continua recto passando junto do Castro das Murielas (17 m.p.) descendo depois pela margem do rio Bueza até São Romão de Bembibre (20 m.p.).

INTERERACONIO FLAVIO (San Roman de Bembibre) 20 milhas a Bergido, 30 a Astorga
Estação presumivelmente localizada em San Roman de Bembibre, a 20 milhas do Castro Ventosa; há dúvidas no nome da estação porque no Itinerário XIX esta mesma paragem é designada por Interamnio Fluvio, nome mais em linha com o seu enquadramento geográfico com o sentido de «entre-os-rios», neste caso entre o Boeza e o Noceda. A ser assim, o nome da estação não teria relação com a dinastia Flávia e poderá tratar-se de um erro de transcrição.

Itinerário de INTERERACONIO FLAVIO a ASTURICA por Torre del Bierzo XXX m.p.
A via continua por Bembibre (29 m.p. a Astorga; miliário de Tito e Domiciano que apareceu numa casa da povoação, assinalando a construção da Via Nova na expressão «via nova facta ab Asturica»), seguindo depois pelo vale do rio Boeza por Ventas de Albares e Ribeira de Folgoso (25 m.p.; aqui apareceu um miliário de Tito e Domiciano a servir de cruzeiro, no entanto, indica 22 milhas pelo que estará deslocado). Aqui a via inflecte para sul, cruzando o rio Boeza para Torre del Bierzo (22 m.p.; três miliários desaparecidos, um era de Licínio, outro de Galério e o terceiro indicava 21 milhas e apareceu a uma milha na direcção de Manzanal). Cruza o rio Tremor e segue paralela à ribeira da Silva até à Ermida de San Xoán de Montealegre (20 m.p.). Aqui apareceram dois miliários entretanto deslocados para a povoação de Montealegre (miliário que servia de pilar da pia baptismal da Igreja de San Martin está actualmente na praça principal e um miliário indicando 21 milhas reutilizado na fonte da rua principal). A via continua a seguir o vale cavado da ribeira da Silva até à povoação de La Silva (18 m.p.). Continuava por Manzanal del Puerto (15 m.p.; antiga «Cruz de la Braña»), Rodrigatos de la Obispalía (13 m.p.), Combarros (7 m.p.), Pradorey (5 m.p.), Requeijo (4 m.p.), Bonillos (3 m.p.) e Brimeda (2 m.p.; fragmento de miliário junto da Ermida de San Esteban), seguindo depois pelos topónimos Reguerina, Recorva e Toyedal, entrando em Astorga pelo cemitério (act. 2025).

ASTURICA (Astorga) 50 milhas a Bergido
É possível que o assentamento original de Asturica estivesse localizado próximo da cidade actual, dada a ausência de vestígios pré-romanos no centro urbano romano. Ora, 2 milhas a sul existe uma elevação que aparenta ser um povoado fortificado apesar de não haver referência a este local no actual registo arqueológico (2025). O sítio tem uma configuração oval sendo delimitado por uma linha bem destacada no terreno, o que parece indiciar um perímetro cercado. Actualmente o sítio está rodeado pelo nó de acesso à A6, servindo de divisória entre os municípios de San Justo de la Vega e Astorga. Só uma escavação desta elevação destacada na paisagem poderá clarificar um dia a questão (act. 2025).

    Variante de INTERERACONIO FLAVIO a ASTURICA por Cerezal del Tremor XXXVI m.p.
    Vários miliários que parecem indicar que existia uma variante a Astorga por Cerezal del Tremor e pelo Vale do Rio Porquera, num percurso mais longo para Astorga, contando com mais seis milhas. Provavelmente esta variante fazia a ligação entre o Iter XIX e uma outra via que partia de Astorga rumo a norte. A via deriva do Iter XIX na povoação de Ribera de Folgoso e segue por Cerezal del Tremor, Brañuelas, Villagatón (miliário), Culebros (16 m.p.; miliário), e pelos topónimos viários Los Quirogales, Las Calzadas, Alto do Los Pinos, Venta de Adrián, Los Tesos, Las Encrucijadas, La Posa, Los Arrotos, El Castro, Perales até atingir Otero del Escarpizo (5 m.p.; miliário); continua por Brimeda (2 m.p.; miliário junto do santuário de San Esteban), onde reunia com a variante por Torre de Bierzo, seguindo depois recto a Astorga.

    Hipotética variante norte por San Justo das Cabanillas
    Alguns autores propuseram um trajecto por San Justo das Cabanillas para Astorga, dado que ali apareceu um miliário indicando 23 milhas referindo a construção da «via nova», «...ab Asturica Bracaram facta». Colmenero faz passar o percurso por San Justo de Cabanillas, Cabanillas de San Justo (miliário anepígrafo) e Quintana de Fuseros (miliário na Igreja). Interpretou uma inscrição na Igreja Paroquial de Noceda como sendo uma ara aos Lares Viales, relacionando-a com a estação de «Intereraconio», apesar das dúvidas na sua leitura. No entanto, trata-se de um percurso acidentado onde não se vislumbra sinais de via, obrigando a a desvio desnecessário da rota mais directa a Astorga. Assim, é provável que estes miliários estejam deslocados, possivelmente assinalando derivações do Iter XIX na direcção norte, eventualmente partindo de Ribera de Folgoso ou de Bembibre rumo a San Justo, hipótese reforçada pelo achado de vários fustes de possíveis miliários na povoação de Tejedo, localizada sensivelmente a meio-caminho (act. 2025).

Iter XX - Item per loca maritima a BRACARA ASTURICAM usque
Mapa
Arousa








Santiso


Boimorto


Friol


ITINERARIO XX - Braga (BRACARA) - Lugo (LUCUS) - Astorga (ASTURICA) per loca maritima
Item per loca maritima
a BRACARA ASTURICAM
usque

AQUIS CELENIS
VICO SPACORUM
AD DUOS PONTES
GRANDIMIRO
TRIGUNDO
BRIGANTIUM
CARANICO
LUGO AUGUSTI
TIMALINO
PONTE NEVIAE
UTTARI
BERGIDO
ASTURICA




stadia CLXV
stadia CXCV
stadia CL
stadia CLXXX
m.p. XXII
m.p. XXX
m.p. XVIII
m.p. XVII
m.p. XXII
m.p. XII
m.p. XX
m.p. XVI
m.p. L
Este itinerário apresenta uma variante da rota alternativa entre Braga e Lugo mas por via marítima (per loca maritima), atendendo à indicação das distâncias intermédias das quatro primeiras estações, não em milhas, mas em estádios (um estádio = cerca de 185 m ou 1/8 da milha), unidade habitualmente utilizada em rotas marítimas e fluviais (Mantas, 1997).

O seu trajecto em território português tem suscitado muitas dúvidas e diferentes interpretações, dado que não é possível ligar Braga ao litoral Atlântico utilizando somente um trajeto fluvial. Assim, diversos autores tentaram uma alternativa terrestre ligando Braga a Esposende (foz do Cávado) ou a Caminha (foz do Minho). No entanto apesar dos seus esforços, a verdade é que não há indícios claros dessas supostas vias, e até hoje não apareceu um único miliário que possa ser atribuído a esta via, ausência de todo inusitada nas vias que partiam da sede do Conventus Bracarensis referidas no I.A., sempre pontuadas por inúmeros miliários ao longo do seu percurso. O miliário de Chamosinhos ainda foi associado a esta suposta via litoral (Almeida CAF, 1987:165-166), mas tudo indica que este terá sido deslocado da Via Bracara - Limia - Tui, dada a sua passagem apenas a cerca de 4 milhas de local do seu achamento em Chamosinhos (Almeida CAB, 1979:123-124).

Outros autores que estudaram a região, tais como Rui Morais e Helena Carvalho, seguem também a hipótese de um traçado terrestre, saindo de Braga pela «Calçada de Naia» rumo a Areias de Vilar, antigo porto fluvial do Cávado. Daqui seguiria por via fluvial ou terrestre até ao litoral em Esposende. No entanto, esta tipologia de via ao longo da margem de rios é sempre evitada na viação antiga, apesar da distância percorrida não andar longe dos 165 estádios (supostamente) indicados entre Braga e a estação de Aquis Celenis (sobre estas hipóteses de traçado ver Almeida CAF, 1968, 1969, 1987; Almeida CAB, 1979, 1980, 1986, 1996; Maside, 2001; Colmenero et al., 2004; Morais, 2005; Carvalho H., 2008; Ferreira J., 2012).

No entanto, é mais plausível que este itinerário siga inicialmente o mesmo traçado do Itinerário XIX até Tui, simplesmente omitindo as duas primeiras estações, Limia e Tudae. Assim, os primeiros 165 estádios do percurso até Aquis Celenis seriam referentes ao percurso fluvial do rio Minho entre Tui e Caminha, que de facto ronda as 20 milhas ou 165 estádios (Crespán, 2015 e 2016). A ser assim, o povoado de Aquis Celenis poderia corresponder ao importante povoado no Castro de Santa Tecla, ou ao seu porto marítimo. Este poderia estar situado na pequena ilha do «Forte da Ínsua». Com efeito, Estrabão refere na sua Geographia que «diante da sua embocadura situam-se uma ilha e dois quebra-mares com ancoradouros» (Deserto e Pereira, 2016).

Todavia, permanecem dúvidas quanto a esta designação do Itinerário XX dado que a questão da localização de Aquis Celenis está longe de estar resolvida, dado que o mesmo topónimo surge no Itinerário XIX, a 99 milhas de Braga, valor incompatível com a foz do rio Minho. Assim, tudo indica que se trata de dois povoados distintos, com a Aquis Celenis referida no Itinerário XIX localizada em Caldas dos Reis (Pontevedra) e a homónima do Itinerário XX localizada na foz do rio Minho. Comparando estas grafias com a informação contida no «Ravennatis», fica claro que a Aqui Celenis referida nesse documento seria com toda probabilidade a mesma Aquis Celenis do Itinerário XIX e situada em Caldas dos Reis, dado que é mencionada na sequência de Iria Flaviae (Rav. IV.45). Porém, numa outra passagem é referida a povoação Quecelenis, esta presumivelmente situada nas proximidades de Tudae, atendendo a que é mencionada na sequência desse povoado (Rav. IV.43). Assim, é possível que o povoado de Quecelenis estivesse junto da foz do rio Minho, correspondendo eventualmente ao Castro de Santa Tecla. A similitude das duas grafias poderá ter confundido os copistas medievais, acabando por reduzir os dois nomes a uma só designação: Aquis Celenis. A ser assim, Quecelenis pode designar o cais ou porto «dos Celenis». Não temos para já evidências que pudessem confirmar em definitivo estas hipóteses que assentam acima de tudo numa interpretação geográfica dos Itinerários. No trajecto existem dois miliários identificados, Boimorto e Friol, reforçando a identificação deste traçado com o trajecto referido no Itinerário XX (act. 2024).

Proposta de trajecto para o Itinerário XX
A partir da foz do Minho, o itinerário ruma a norte tocando em portos e ancoradouros dispostos ao longo da costa galega, rumo a Santiago de Compostela. Inicialmente, navegando por 195 estádios, atingia Vico Spacorum, distância que coloca esta paragem à entrada da ria de Vigo. O topónimo Vico poderá ter relação com o Castro de Vigo, mas este está bem mais para o interior. Assim, Vico Spacorum poderá referir um local na boca da ria, possivelmente o sítio romano de Toralla, classificada como villa, mas que assenta sobre um sítio pré-romano e apresenta um complexo sistema termal, possivelmente na origem do topónimo spa-corum (no sentido de 'águas termais de Corum'). Navegando mais 150 estádios (passando ao largo do importante Castro de Donón), atingia Ad Duos Pontes («junto das duas pontes»), presumivelmente relacionado com o Castro marítimo de Lanzada (Noalla), cuja ocupação remonta ao Bronze Final. Daqui penetrava na ria de Arousa, a maior das rias da Galiza, por onde terá seguido a barca que transportou o Apóstolo, sendo que o topónimo Arousa surge também numa inscrição aparecida em Lugo, uma ara votiva dedicada à divindade Lucobo Arousa. Entrando pela ria de Arousa adentro, passava junto do porto romano do Adro Vello (Praia do Carreiro, Grove), onde apareceu uma ara aos lares viales (actualmente na Faculdade de Medicina de Santiago) e outra ara com as letras DEO D / EVER, continuando próximo do castro marítimo de Vistalegre (em Vilagarcia de Arousa, onde apareceu uma inscrição a Neptuno), percorrendo 180 estádios (cerca de 33 km) até Grandimiro (também nas grafias Glandimiro e Grandimuro), porto fluvial presumivelmente localizado na área da Punta do Cabo em Quintáns, na base do Castro das Cercas. A partir daqui o Itinerário XX passa a indicar as distância em milhas, sinal de que o percurso continuava por via terrestre, percorrendo as 22 milhas indicadas rumo à estação de Trigundo. Partindo do Cruzeiro de Punta do Cabo, seguia a margem direita do rio Ulla por Torres do Oeste (outra ara aos lares viales actualmente no Museu de Pontevedra), Bexo, Imo, Tallós e Lestrobe até Padrón, onde conflui no Itinerário XIX. No entanto, também é possível que houvesse continuação do trajecto fluvial através dos rios Ulla e Sar até Padrón, atendendo à ara dedicada a Neptuno pelos Corienses que está na Igreja de Santiago (CIL II 2540) que a lenda diz ser a pedra onde foi amarrada a barca do Apóstolo Santiago no respectivo porto fluvial.

Trigundo (XXII m.p.)
Antiga designação de Santiago de Compostela, importante nó viário comum aos itinerários XX e XIX (ara a júpiter no subsolo da catedral); depois de cruzar Santiago (talvez por Milladoiro, Ponte de La Rocha sobre o rio Sar, Santa Marta, Catedral, rua das Casas Reais, Porta do Camiño, Monte dos Postes, rua de Bonevai e Ponte de San Lázaro), os dois itinerários voltam a divergir em duas variantes rumo a Lugo. O local de bifurcação seria junto do lugar de San Marcos, derivando do Itinerário XIX para nordeste e passando nos topónimos Castro, Reboredo (5 m.p.), Castiñera Grande, Requesende (8 m.p.; N-634), Portela de Santiso (topónimos «Millario» e «Millerio» sugerem a presença de um miliário na 9ª milha, junto da Capela da Agra de Santiso (sítio romano, possível mutatio onde apareceram duas aras dedicadas aos lares viales e outras inscrições; Pérez Losada, 1988), Pena Vieiro, Terroeira, Ponte Puñide (nova possível mutatio à margem da via que aqui cruzava o rio Mera; vaso de medida), Bugalleira, Mesón, Santandré e San Gregorio (16 m.p.), continuando por Cimadevila, Couto Pequeno, Alto de Goimil, Cales (20 m.p.), Ermida da Mota, Cabrita e Bertomil (24 m.p.), em direcção a Boimorto (26 m.p.), cruzando depois a povoação por Vilanova (27 m.p.), onde apareceu o miliário de Maximino e Máximo (Monteagudo, 1981; Pérez Losada, 1988; HEp 4, 1994, 326), actualmente colocado no pedestal defronte da Casa do Concello. Daqui seguia para a povoação de Foro, a 30 milhas de Santiago, presumível localização de Brigantium (act. 2024).

Brigantium (XXX m.p.)
Presumivelmente localizada na área da actual povoação de Foro (Boimorto), local que acerta com as 30 milhas a Santiago indicadas no itinerário e onde se registam os sugestivos topónimos Hospital e Mesón, possíveis sucedâneos da antiga mansio romana associada à travessia do rio Tambre na actual Ponte de Présares. Os menires conhecidos por Pedrasfitas de Andavao evidenciam a ancestralidade deste trajecto. Nas proximidades há o lugar de Arentia (em torno da Capela de Santo Isidro/San Cidre, o que permite associar este local ao culto a Arentia, divindade de origem Lusitana, reforçando o carácter viário do local. A partir daqui o Itinerário XX rumo a nascente em direcção a Lugo, mas deveria existir continuação para norte, passando na Ns. da Laxe e próximo do acampamento militar de Ciadella (albergando 500 a 600 militares da Cohors I Celtiberorum Equitata civium romanorum e activo entre os séculos II e IV), possivelmente seguindo de encontro à via Coruña-Lugo (act. 2024).

De Brigantium a Lucus por Caranico (XVIII m.p. + XVII m.p.)
A partir de Foro, o itinerário inflecte para nascente, seguindo por Cruceiro (junto da Igreja de San Pedro de Présaras) e Carrasqueiras (onde desvia da DP-3205 por Pena), continua junto da Igreja de Santa Maria de Vilariño, em Torre/Campo da Cruz, e próximo do Castro Roda de Vilariño até atingir o Mosteiro de Sobrado dos Monges, em Porta (5 m.p.). Continua junto da Lagoa do Sobrado e Anuquera até Mesón (8 m.p.); cruza depois a Serra do Bocelo por Marco de Pias, Cibreiro, Carballo do Vento, Rego do Ourizo, Santo Estevão e Cerdeira, onde cruza o rio Parga para Gudín, continuando por Carregal rumo a Friol. As 18 milhas indicadas a Caranico colocam esta estação junto da Igreja de Santa Maria de Ramelle. Continua por Friol, onde cruza rio Narla, e segue para Guldriz de Abaixo, cruzando o rio Lodoso junto do monte homónimo (4 m.p.; local onde em 1995 apareceu um miliário indicando a distância a Lugo [Gesto et al, 1997], mostrando que esse era de facto o destino final deste trajecto. Pelo local do seu achamento este deveria indicar 13 milhas a Lugo, mas na inscrição apenas se lê as letras «XI», ou seja 11 milhas, estando os dois traços restantes apagados. Este marco servia também de trifínio entre as paróquias de Friol, Guldriz e Santalla de Devesa, até ser transferido para o Museu Provincial de Lugo, onde actualmente se encontra (há uma réplica no centro de Friol). A antiguidade deste trajecto é ainda evidenciada pelo vários dólmens existentes na região (Pedrouzos e Muroxosa), sendo que a via passa junto de um deles (dólmen de Vilavite). A partir de Guldriz de Abaixo, o trajecto seguia por Silvarredonda, Ermida de Santa Marta (7 m.p.), As Cruces (8 m.p.), Torible de Abaixo, Locai (10 m.p.), Marcoi (12 m.p.), Veral, Mera e Astariz, reunindo com o Itinerário XIX junto do cruzamento da ribeira de Louzaneta em Areeiras, entroncando na chamada Estrada Vella de Santiago, a uma milha da travessia do rio Minho na ponte romana de Lugo (act. 2024).

Iter XII - Item ab OLISIPONE EMERITAM m.p. CLXI
Mapa
Lisboa Alcácer




Alcácer Évora














Évora














Elvas




Montijo




ITINERARIO XII - Lisboa (OLISIPO) - Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA) - Mérida (EMERITA)
Item ab OLISIPONE
EMERITAM

AQUABONA
CATOBRICA
CAECILIANA
MALATECA
SALACIA
EBORA
AD ATRUM FLUMEM
DIPONE
EVANDRIANA
EMERITA

m.p. CLXI

m.p. XII
m.p. XII
m.p. VIII
m.p. XXVI
m.p. XII
m.p. XLIIII
m.p. VIIII
m.p. XII
m.p. XVII
m.p. VIIII
Itinerário
Corrigido

Aquabona
Caetobriga
Caeciliana
Malateca
Salacia
Ebora
Ad Atrum
Dipone
Evandriana
Emerita

m.p. CCXIII

m.p. XII
m.p. XII
m.p. VIII
m.p. VIII*
m.p. XXII*
m.p. XLIIII
m.p. LXX*
m.p. XII
m.p. XVII
m.p. VIIII
Inicialmente o Itinerário XII de Antonino seguia a via entre Olisipo (Lisboa) e Salacia (Alcácer do Sal) passando por três mansiones de permeio Aquabona, Caetobriga, Caeciliana e Malateca, cuja localização tem suscitado algumas dúvidas, isto porque há dificuldade de compatibilizar os vestígios romanos com as distâncias indicadas no I.A. Se a localização das duas primeiras estações não oferece qualquer dúvida, com Aquabona correspondendo à foz do rio Coina, a 12 milhas de Lisboa, e Caetobriga correspondendo à actual cidade de Setúbal, a 12 milhas de Coina, por outro lado as estações seguintes apresentam várias incoerências. De facto, o itinerário indica 46 milhas de Caetobriga a Salacia quando a distância real é de cerca de 35 milhas, diferença demasiado grande para ser justificada por uma rota alternativa. Assim temos de admitir um erro nas distâncias indicadas para estas etapas do itinerário. Assim, depois de Caetobriga, a via percorria as 8 milhas indicadas até Caeciliana, estação viária possivelmente situada no Alto da Lentisqueira, próximo do monte homónimo; daqui seguia para a travessia da ribeira de Marateca junto da qual deveria situar-se Malateca, percorrendo 7 milhas e não as 26 milhas supostamente indicadas no I.A. Daqui a via seguia Alcácer do Sal, percorrendo 22 milhas e não as 12 indicas (possível confusão entre os numerais «XXII» e «XII»). A etapa seguinte deste itinerário corresponde à via de Salacia a Ebora; o trajecto segue inicialmente pela margem direita da ribeira de Sítimos até à aldeia de Santa Susana, onde cruza o rio Mourinho, continuando depois próximo da linha divisória entre os concelhos de Montemor-o-Novo e Alcáçovas até Évora. Daqui continuava para Mérida, passando por três estações intermédias, Ad Atrum Flumen, Dipo e Evandriana cujas localizações são discutidas mais adiante. (Ferreira, 1993; Bilou, 2000; Almeida, 2000 e 2000a; Faria, 2002; Almeida et al., 2011; Carneiro, 2008).

Lisboa (OLISIPO) (o percurso inicial deste itinerário corresponde à travessia do rio Tejo; o local poderia ser assinalado pelo miliário de Probo que apareceu na Casa dos Bicos; o trajecto fluvial ligaria ao Porto de Cacilhas, atendendo aos vestígios de cetárias descobertas no Largo Alfredo Dinis e à proximidade com o importante povoado da Idade do Ferro na Quinta do Almaraz; seguia depois por Almada, Cova da Piedade, Barrocas e Laranjeiro, continuando aproximadamente pela EN10 até Coina, percurso pontuado por diversos vestígios romanos como a olaria da Quinta do Rouxinol em Corroios, a mina de Vale dos Gatos em Amora, a necrópole da Quinta de São João em Arrentela e a mina de Foros da Catrapona, ao km 15 da EN10, com uma possível mutatio no Casal do Marco, junto da travessia do rio Judeu (4 m.p. no «Roteiro Terrestre»); também era possível cruzar o rio Tejo directamente a Aquabona, atracando no Porto da Romagem em Coina, através do braço do Tejo que penetra terra dentro até à foz do rio Coina; outros portos fluviais foram identificados próximo da Moita e de Alcochete, «Porto dos Cacos», mas é pouco provável que qualquer destas alternativas integrasse o itinerário principal para Mérida)

Coina (AQUABONA) (mansio na milha XII localizada nas proximidades da Capela de Ns. dos Remédios, antiga Ermida de São Sebastião, e da Fonte da Talha, possivelmente a «Aqua Bona» inferida do topónimo; daqui a via seguia rumo a Caetobriga, localizada a 12 milhas, o que corresponde à distância medida no terreno entre Coina e Setúbal; também deveria existir um trajecto mais directo, ligando Coina a Marateca passando a norte de Palmela, evitando a passagem por Setúbal e consequente travessia da Serra de São Luís, reduzindo em 4 milhas a distância entre Coina e Marateca.

  • Ligação directa de Aquabona a Caeciliana: deveria existir uma ligação directa de Coina a Marateca por Palmela, evitando assim a passagem por Setúbal que representa um desvio de mais 4 milhas. A via passaria a norte de Palmela pela base do importante Povoado de Chibanes situada na crista da Serra do Louro (a Caepiana de Ptolomeu segundo Amílcar Guerra), continuando por Carrasqueira, Olhos d'Água (4 m.p; estação do «Roteiro Terrestre»), Cascalheira e Palhota, onde entronca na EM533-1, também chamada de «Estrada dos Espanhóis», seguindo depois por alturas de Areias Gordas, Lau e Lentisqueira, nó viário junto do Monte da Lentisqueira, onde entronca na variante por Setúbal e presumível localização da estação Caeciliana/Caeliana.

Itinerário XII de Coina a Setúbal, segue recto, algures ao longo da margem direita da Vala Real, até Vendas de Azeitão, possível estação viária, continua pelo Alto das Necessidades (dentro está a chamada «Cruz das Vendas») e junto da Quinta da Calçada, topónimo que denuncia a passagem da via pela vertente oeste e sul da Serra de São Luís, cruzando a ribeira de ALcube e passando próximo do sítio romano da Cruz da Légua, a 7 milhas de Coina; logo depois conflui na EN10, seguindo por esta por 2600 m, desviando depois pela chamada «Estrada do Viso», onde subsiste troço calcetado na via entre o Grelhal e Casal das Figueiras (mas não o original romano como anunciado), terminando na rua do «Caminho Romano», entrando em Setúbal pelo Bairro do Tróino até ao Largo da Misericórdia.

Setúbal (CAETOBRIGA) (oppidum portuário a 24 milhas de Olisipo ocupando o actual centro da cidade, com os vestígios estendendo-se pela Av. Luísa Todi, ao longo da rua Direita do Tróino até á zona de Palhais/Fontainhas passando pelo Largo da Misericórdia e Rua Antão Girão; a via seguia talvez pela Igreja de São Julião, Rua Antão Girão, rua Aranguês, rua Camilo Castelo Branco, rua 4 Caminhos e Monte Belo, onde tomava a «Azinhaga de Cruz de Peixe» pelo Alto do Pessolho por Louseira, Matamouros, Brejo do Assa e Algeruz, até entroncar na chamada «Estrada dos Espanhóis» próximo do Monte da Lentisqueira)

Galeanos (CAECILIANA) (estação viária situada a 8 milhas de Caetobriga, possivelmente localizada no nó viário dos Galeanos, próximo do Monte da Lentisqueira, local onde confluem as referidas estradas, uma proveniente de Setúbal e outra proveniente de Coina conhecida por «Estrada dos Espanhóis», onde Mário Saa ainda viu a calçada original antes de esta desaparecer sobre a estrada actual designando-a como «Estrada Funda, dada a profundeza milenária do seu sulco»; a partir daqui a «Estrada dos Espanhóis» corresponde ao CM1040 até Marcos da Catarina em Agualva, a 11 milhas de Setúbal, desviando aqui pelo caminho do Chaparral de Agualva de Cima, cruzando a ribeira homónima para Águas de Moura)

Marateca (MALATECA) (estação viária a 16 milhas de Setúbal, provavelmente localizada junto da travessia da ribeira da Marateca; a estação viária poderá corresponder ao chamado «Castelo dos Mouros», localizado na outra margem junto ao cemitério, onde há vestígios de estruturas romanas, no entanto a 16ª milha era atingida um pouco mais a sul, no fim da subida que parte do rio; daqui a via aproximadamente a rota da EN5 até a Palma, onde cruzava a ribeira de São Martinho junto do sugestivo topónimo de «Ponte da Pedra»; continua próximo do Monte do Albergue e Igreja de Vale de Reis, a 16 milhas de Malateca, onde há vestígios romanos indiciando a existência de uma mutatio neste local, designado por Albergues no «Roteiro Terrestre»; segue depois junto da Capela de São Lourenço até ao novo parque solar fotovoltaico, onde vencia a 17ª milha e inflectia para sudoeste, seguindo depois o caminho que cruza a A2 e passa no Monte das Águas Pousadas, entrando em Alcácer pelo Bairro do Venâncio)

Alcácer do Sal (SALACIA) (oppidum, sede de civitas e importante porto fluvial a 22 milhas de Marateca; o povoado ocupava a área do castelo onde viria a instalar-se o convento de Ns. de Aracaeli. Santuário portuário Fenício na rua do rato. A via entrava na cidade pela Av. dos Clérigos e rua da Fábrica, passando junto do Convento de Santo António, marginando a necrópole de São Francisco de Frades até atingir a base do morro do castelo. Necrópole na Azinhaga do Sr. dos Mártires. Vestígios do aqueduto 1 km a nordeste; inscrição honorífica ao magistrado Cornelius Bocchus, CIL II 2479; ver Museu Pedro Nunes; Faria, 2002)
  • Porto Fluvial de Alcácer do Sal: no estuário do Sado ainda existem importantes vestígios do comércio por via marítima centrado no porto de Alcácer do Sal, articulado com os entrepostos comerciais e centros de transformação da actividade piscícola em Tróia (Achale?), Portinho da Arrábida (Creiro), Outão (Praia da Comenda), Sesimbra (no centro urbano) e Setúbal, assim como os mais de 20 centros de produção de ânforas, como a Feitoria Fenícia de Abul, do Monte do Bugio e da Herdade do Pinheiro; nesta última, André Resende registou um cipo dedicado ao imperador Cómodo nas «ruínas de uma povoação» situada a 20 mil passos de Caetobriga e a 16 mil passos de Salacia; este cipo que Resende inclui na descrição da via de Lisboa a Évora, não seria um miliário dado que apresenta uma inscrição de carácter honorífico, talvez colocada pelos habitantes do vicus portuário que aqui deveria existir, associado à indústria de fabrico de ânforas cujos fornos são ainda hoje visíveis; provável ligação à via principal que corria mais para o interior, assegurando o escoamento dos produtos por via fluvial. (CIL II 8; Resende, 1593:148-149).
  • Via fluvial pelo rio Sado: o rio Sado era navegável na era romana ligando ao hinterland alentejano com imensos vestígios de villae e portos fluviais ao longo das suas margens relacionados com o comércio fluvial, a saber: Herdade da Barrosinha (villa), Porto de Rei (villa e porto fluvial), Monte da Casa Branca (villa e calçada com 200 m), Portinho (villa), Benagazil, São Romão, Porto Carro (porto fluvial), Herdade dos Frades (villa), Portancho (villa) e Monte da Quinta de D. Rodrigo (calçada, ligaria a Alcácer?), na foz do rio Xarrama, rio que subia até ao Torrão passando ao lado da Capela de São João dos Azinhais na Herdade de Arranas (ara a Júpiter) e da villa de Passadeiras. O rio poderia ainda ser navegável para montante, passando na villa na Herdade da Quinta de Cima, seguindo provavelmente até Santa Margarida do Sado.

Itinerário de Alcácer do Sal a Évora
Depois de Alcácer, a via seguia seguramente pela margem direita da ribeira de Sítimos até Santa Susana, onde cruzava a ribeira de Remourinho. A partir daqui as propostas de traçado até Évora divergem. Francisco Bilou propôs um traçado pela parte sul do concelho de Montemor-o-Novo com base nos fustes de possíveis miliários por ele identificados no Monte da Prata, Monte da Venda e Monte dos Andrades, seguindo depois em direcção a Valverde/Herdade da Mitra, onde existe um miliário, seguindo daqui para Évora (Bilou, 2000, 2000a, 2005), trajecto a que Mário Saa chamava a «Estrada dos Almocreves» (Saa, 1963:83). Apesar da sua possível utilização já em período romano não é seguro que a via de Alcácer do Sal a Évora seguisse este caminho dado que a distância medida entre as duas cidades por este traçado ronda as 40 milhas, valor bem inferior às 44 milhas indicadas no Itinerário de Antonino para este troço. Por outro lado, este caminho apresenta uma aparente descontinuidade entre o Monte dos Andrades e a Herdade da Mitra. Alguns destes possíveis miliários poderão antes corresponder a fustes de colunas (Almeida MJ, 2017). Sendo assim, optamos por reconstituir o traçado mais a sul que tinha já sido proposto no século XVI por André de Resende seguindo pelas extremas das herdades situadas no limite norte do termo de Alcáçovas rumo ao sítio romano de Ns. de Tourega, sobre o qual temos umas preciosas notas coligidas no século XVIII pelo Frei Francisco de Oliveira e publicado em 1767 na terceira edição do «Roteiro Terrestre de Portugal» do Padre Baptista de Castro. Neste relato são indicados os pontos de passagem da via com algum detalhe, mas as grandes transformações da paisagem em resultado da actividade agrícola na vasta planície entre o Rio Mourinho e Tourega, praticamente sem obstáculos naturais, e a quase total ausência de vestígios romanos (com a excepção do sítio romano da Herdade de Água d'Elvira dos Padres), não permitem reconstituir um traçado seguro. Seguidamente transcreve-se o texto do «Roteiro», indicando entre parênteses rectos a sua provável correspondência com os topónimos actuais (Castro, 1767; Páscoa, 2002).
  • Itinerário de Salacia a Ebora segundo o «Roteiro Terrestre»
    «(...)chegava a Alcácer do Sal, donde sahia direito ao sítio da Ermida de São Brás, e pelas herdades do Arcebispo Figueira [Herdade da Arcebispa], Galrope [Galropos], Liziria [Lezíria], Alagapa de baixo [Lapa de Baixo], e Rio Mourinho [Ribeira de Remourinho], passava a ribeira. Depois discorria pelas herdades da Venda velha da Courella [?], Bruegas [?], entre as Romeiras, Zambujal, Caeiras, Farros [Fartos?], Pinheiro, e Defeza [Herdade da Defesa], estremas da Agua de Oliveira grande [Água d' Elvira Grande], entre o Pigeiro [Herdade do Pigeiro Grande] e Pigeirinho [?], Cardoso [?], entre a Capella [Capela], e o Poço da rua [Herdade do Poço da Rua], junto do Curral das Minas [?], entre o Cazão, e a Figueira [Casarões do Monte Figueira?], Poço do Reguengo [Monte do Reguengo], Paiva [Monte de Paiôa, Paivôa], Meda [Monte de Alcalá], e passando a ribeira da Odiege [ribeira de São Brissos], perto da Ourega [Tourega], herdade do Barrocal, Estrema da fonte cuberta (?), chegava a Évora.» (Castro, 1767)

Alcácer do Sal (SALACIA) (partindo a base do morro do castelo continua pela Calçada da Fonte Nova, rua das Douradas, rua Rui Coelho, rua 5 de Outubro e rua Miguel Bombarda, marginando a necrópole do Bairro do Crespo, continua pela rua Cabo da Vila e rua da Foz, passando junto da villa? do Olival de Ns. d'Aires, m.p. I, rumando depois para nordeste por uma rota próxima da actual EN235 ao longo da margem direita da ribeira de Santa Catarina de Sítimos, passando próximo da Ermida de São Brás, m.p. III, onde existiam dois fustes de colunas e um capitel de uma possível villa; continua junto do Monte da Arcebispa, cruzando com a via para o Torrão e Beja, continuando depois por Galropos)
Monte dos Carvalhos de Baixo, Pego do Altar (m.p. VII; miliário anepígrafo na divisória entre freguesias; possível local de travessia da ribeira de Sítimos dado que na margem oposta há vestígios de villa em Pedrões; a via continua pelas herdades das Lezírias e Lapa de Baixo/«Alagapa de Baixo»)
Santa Susana (m.p. X; villa ou vicus da Portagem, provável mutatio; Resende e mais tarde Breval transcrevem um miliário de Caracala achado na margem do «Riuo Maurino», actual ribeira de Rio Mourinho, possivelmente junto do local onde a via cruzava a ribeira e vencia a milha XI, local actualmente submerso pela albufeira da barragem do Pego do Altar [CIL II 434; Resende, 1593:149-150, Breval, 1726]; continua na outra margem pela EM1066 e pela «Estrada da Calçadinha» na Herdade da Biscaínha e Monte da Caeirinha)
Monte da Defesa, Alcáçovas (o Fr. Oliveira refere aqui uma «coluna»)
Água d' Elvira Grande (m.p. XXII em Olheiro; possível mutatio a meio percurso de Évora, havendo notícia de vestígios cerâmicos e uma possível calçada em terrenos da Herdade de Água d'Elvira dos Padres; continua talvez pela divisória com a Herdade do Pigeiro Grande, seguindo próximo de Casões do Monte Figueira até ao poço do Monte do Reguengo, continuando pelo caminho pelo Monte da Paiôa e Monte de Alcalá)
Travessia da ribeira de São Brissos (m.p. XIII a Évora; no «Porto de Alcalá»?)
Monte dos Tabuleiros de Baixo (m.p. XII; André de Resende refere dois miliários «in preadio quod vocat Tabularios», dando um como ilegível e o outro como um miliário de Maximiano, CIL II 433*, indicando 12 milhas, o que corresponde à distância deste local a Évora [Resende, 1593:151]; Mário Saa ainda fotografou um deles, mas actualmente estão ambos desaparecidos; a via continua pelo Monte dos Tabuleiros, Monte do Zambujeiro, onde apareceu o epitáfio de Mailoni, e Quinta de São Jorge, a X milhas de Évora)
N. Sra. da Tourega (m.p. IX; fuste de coluna ou miliário junto da Igreja de Ns. da Assunção, no acesso à magnífica villa das Martas; Resende registou uma inscrição funerária colocada por Calpurnia Sabina ao seu marido Quinto Iulio Maximo, questor da província da Sicília, eleito tribuno da plebe da província Narbonense, designado pretor da Gália e aos seus dois filhos, quatuórviros responsáveis pela manutenção das vias, «IIIIviro viarum curandarum», CIL II 112, actualmente no Museu de Évora; Resende, 1593:152-153)
Herdade do Barrocal (m.p. VII; anta; miliário anepígrafo tombado junto da via, uma milha para nascente do monte, talvez indicando 6 milhas a Évora; daqui seguia para a travessia da ribeira da Viscossa ou de Peramanca, onde há vestígios de calçada na margem esquerda)
Cabida (m.p. V; junto do cruzamento que dá acesso à Quinta do Pomarinho existe a base de um miliário provavelmente do tempo de Décio dado que em 1997 o respectivo fuste epigrafado apareceu mais adiante, junto do caminho que deriva da EN380 para o Monte das Flores, estando actualmente no Convento dos Remédios em Évora; FE 469)
Esparragosa (m.p. II; possível fuste de miliário anepígrafo 50 m a poente do marco geodésico/moinho; continua talvez pela Av. São Sebastião e rua Serpa Pinto até ao Templo de Diana, acrópole de Ebora).

Évora (EBORA) (mansio a XLIIII milhas de Salacia; a via entrava na cidade pela Porta do Raimundo e discorria pela decumanus, a antiga «rua da Sellaria/Selaria», actual rua 5 de Outubro, até ao forum junto do chamado Templo de Diana; excelente colecção de epigrafia no Museu de Évora; impressionantes Termas Públicas na Praça de Sertório, dentro do edifício da câmara municipal)
A partir de Évora, a via continuava a sua rota para Emerita passando nas três estações referidas no Itinerário XII, Ad Atrum Flumen, Dipo e Evandriana cujas localizações ainda levantam muitas dúvidas; seguramente que existem incongruências no itinerário porque as 47 milhas indicadas entre Évora e Mérida (cerca de 75 km) não correspondem à distância entre estas duas cidades que ronda os 190 km. Para a primeira estação depois de Évora, Ad Atrum Flumen, literalmente «junto ao rio Atrus», o itinerário indica apenas 9 milhas (14,4 km) o que colocaria a mansio junto da ribeira da Pardiela na rota norte, mas é duvidoso que estes pequenos cursos d' água justificassem uma mansio por si só. Seguindo as distâncias expressas no itinerário então Dipo poderia situar-se em Evoramonte, onde há miliário, e a estação seguinte, Evandriana teria que estar 17 milhas adiante pelo que seria impossível que estivesse também a 9 milhas de Mérida, a não ser que existam estações intermédias omissas no itinerário. Assim é mais provável, conforme sugerido por trabalhos mais recentes (Gorges e Rodríguez Martín, 1999:253-259; Almeida et al., 2011) que estas incongruências surjam da junção de duas vias, uma ligando Olisipo a Ebora e outra entre Ebora e Emerita pelo que a partir de Évora, as milhas indicadas devem ter como caput via Mérida, a capital provincial, pelo teríamos de ler o itinerário no sentido inverso, ou seja as distâncias são indicadas a Mérida e não a Évora. A ser assim, Ad Atrum Flumen estaria a 38 milhas de Emerita, o que corresponde à distância da capital da Lusitânia ao rio Xévora, o rio Atrus na era romana, actual fronteira luso-espanhola (Gorges e Martín 1999 e 2000; Almeida et al., 2011). Assim, a partir de Évora a via seguia um corredor natural por Evoramonte (milha XX) e Estremoz (milha XXX), contornando a Serra da Ossa pela sua vertente norte, passando depois um pouco a norte da actual EN4 pelo Monte de Alcobaça e Atalaia dos Sapateiros até Elvas. Daqui seguia para o cruzamento do rio Guadiana junto a Badajoz continuando depois para Mérida. Ao contrário dos outros itinerários para Mérida que seguiam pela margem direita do Guadiana, este itinerário seguia muito provavelmente pela margem esquerda, atendendo que passava numa estação viária apenas referida neste Itinerário XII, Evandriana. (Bilou, 2000, 2000a, 2005; Calado, 1993; Mataloto, 2001; Almeida, 2000; Almeida et al., 2011; Carneiro, 2011).

Évora a Estremoz
Évora (sai da cidade pela Porta de Machede seguindo o caminho rural por Quinta das Nogueiras e Quinta da Piedade; a descoberta de uma necrópole na Escola Secundária Gabriel Pereira poderá estar relacionada com esta via)
Travessia do rio Xarrama no sítio do Porto (continua paralela à linha férrea próximo da Quinta do Sande, Quinta da Retorta e Quinta da Lagardona em Garraia; no caminho de acesso ao Montinho da Piedade existem 4 cipos suportando uma laje que poderão ser miliários ou colunas reutilizadas.
Travessia do rio Degebe (da ponte nova segue à direita por um caminho rural paralelo à linha férrea pelo Monte de Vale Figueirinha)
Monte da Sousa da Sé (m.p. VI; um miliário anepígrafo à entrada do largo, fragmentado em duas partes, e um monólito em forma de menir, possível miliário; continua pelo caminho rural paralelo à linha férrea até à travessia da ribeira da Fonte Boa ou do Freixo)
Monte do Freixo (m.p. VIII; daqui segue o caminho rural e depois em calçada por 2,5 km)
Castelo Ventoso (m.p. X; inscrição funerária no Monte da Machoqueira; continua pelo Monte do Almo)
Monte da Venda, Azaruja (m.p. XIII; provável mutatio dado que aqui existem dois miliários anepígrafos partidos em 3 fragmentos e vários vestígios espalhados por uma vasta área entre os quais apareceu a placa funerária de Tullius Modestus, IRCP 407, actualmente no Museu de Évora; ara votiva a Salus na Igreja de São Bento do Mato; continua talvez por Monte da Torre e Monte do Pina?)
Evoramonte (m.p. XX; a pia baptismal da Igreja de Santa Maria, antiga de Ns. da Conceição, reaproveita um miliário de Crispo, Licínio e Constantino II, IRCP 674; no entanto o miliário poderia estar originalmente no sopé do monte junto à via, no local onde vencia a milha vinte, possivelmente junto da Ermida de Santa Rita, onde há uma mó e nas proximidades, um peso de lagar reutilizado como bebedouro [Barbosa, 2016: 173]. Cerca de 500 m para poente existe a Ermida de São Marcos onde também apareceram materiais romanos compatíveis com uma estação viária (Carneiro, 2014:242); a ser assim, a via passaria a poente do morro do castelo, seguindo depois o caminho por Atafona e Roque até ao apeadeiro, continuando depois paralela à linha férrea junto do Outeiro Ruivo rumo à travessia da ribeira de Têra no Pego do Sino, a 24 milhas de Évora antigo local de travessia onde há memória de ter existido uma ponte, representada numa gravura de 1684. A partir do Pego do Sino, a via seguia talvez por Herdadinha, Monte das Freiras, Aldeias, Castelo, Folgado, Azenha da Estrada, Estalagem, Ermida de São Lázaro e Ferrarias)
Estremoz (m.p. XXX; castro? oppidum?; provável vicus marmorarius em torno da Capela da Sra. dos Mártires, a sul da cidade, associado a uma estrutura para contenção de água conhecida por «Tanque dos Mouros», ao km 145 da EN4; aqui poderia existir uma mutatio ou mansio dado que em 1784 apareceu num local próximo conhecido por «Horta do Agacha», um miliário talvez a Crispo, Licínio e Constantino II, IRCP 675; também aqui apareceu um raro monumento votivo a Cibeles, a Mater Deum, erigido pelo liberto Iulius Maximianus que poderia estar junto da via, IRCP 440; Carneiro, 2011; o topónimo «Agacha» poderá derivar do árabe Qarya ‘Ukasha)

Estremoz a Elvas
Estremoz (a via segue talvez pela actual Estrada Municipal por Mamporcão, São Domingos de Ana Loura, passando nos topónimos viários 'Estalagem', 'Carris', 'Estalagem da Raposa' e 'Venda do Ferrador', até atingir a povoação de Orada onde cruza a ribeira de Alcaraviça, seguindo depois pelo caminho do cemitério que seguia junto do arruinado Monte da Presa, mas todo este troço foi destruído pela actividade agrícola, reaparecendo mais adiante como divisória entre os concelhos de Elvas e Monforte, a sul da Serra de Aires, continuando por um troço ainda bem preservado até ao Monte de Alcobaça com cerca de 5 km)
Herdade de Alcobaça (m.p. XLV; dois miliários; o miliário de Caracala está actualmente no Museu Arqueológico de Vila Viçosa, IRCP 679, e o outro é um miliário de Diocleciano e Maximiano indicando 65 milhas, IRCP 670, actualmente no MNA, indiciando que a contagem miliária tinha início em Mérida; terão aparecido no lugar de Cabanas, local a 63 milhas de Mérida pelo que o marco estaria originalmente duas milhas antes, talvez servindo de marco divisório entre as freguesias de Terrugem e Santo Aleixo; a via percorre o ondulado do terreno cruzando as casas do monte em direcção a Alcarapinha)
Monte de Alcarapinha (m.p. XLVIII; necrópole e fragmento de um miliário ilegível junto da esquina do monte servindo de marco divisório)

Atalaia dos Sapateiros (m.p. XLIX; na base do povoado deveria existir uma estação tipo mutatio ou mansio de apoio à via; no seu trajecto para Elvas a via margina as villae do Monte de São Romão/Serra Branca, Carrão e Trinta Alferes, seguindo junto do Monte das Casas Velhas, Monte do Menino d'Ouro e Calçadinha, significativo topónimo viário que assinala a passagem da via na entrada oeste da cidade de Elvas; Almeida MJ, 2000; Carneiro, 2011).
  • Miliários: André de Resende refere dois miliários actualmente desaparecidos «in agro Stermotiensi, non procul a pago Borbacena», ou seja «na região de Estremoz, não longe de Barbacena» que poderiam integrar este Itinerário XII, sendo um miliário de Caracala (IRCP 661), e outro miliário de Heliogábalo (Resende, 1593:154; CIL II 436*; IRCP 663), este com a inscrição completa, lendo na última linha «[Eb]ora m.p. XXII», ou seja 22 milhas a Évora (Resende, 1593:154-155); esta leitura é muito duvidosa porque as milhas indicadas são insuficientes para percorrer a distância entre Évora e Barbacena pelo que muitos autores deram-na como falsa, incluindo Emil Hübner; no entanto é possível que a indicação miliária esteja correcta, indicando não a distância a Évora mas à mansio de Ad Atrum Flumen presumivelmente localizada junto do rio Xévora, o que corresponde à distância deste local ao Monte de Alcobaça, onde aliás apareceu um miliário também com a contagem das milhas no sentido Mérida - Évora (act. 2018). Acaso indicasse a distância a Mérida, uma outra possibilidade seria um erro na leitura das milhas, devendo ler-se LXII, ou seja cerca de 93 km, o que corresponde à distância daqui à capital da Lusitânia (Mantas, 2019b:216).
  • Ligação a Campo Maior: é possível que do nó viário da Atalaia dos Sapateiros partisse uma via para nordeste rumo a Campo Maior, seguindo talvez pelo Monte dos Trinta Alferes, Monte do Ruivo, Monte do Lemos, Horta do Rangem (casal rústico), Torre da Sequeira, Alto da Azinheira e Caseta de Safardel, marginando no seu percurso os fundi da magnífica villa das Quinta das Longas a sul e da villa do Monte da Silveira a norte (referência a uma calçada), continua pelo Monte da Baloca e Monte do Rico rumo à travessia do rio Caia na Horta do Caia, passagem dominada pelo importante Castro de Segóvia (Segobia?, povoado fortificado com origens na Idade do Bronze e com ocupação até ao período Republicano atestada pelo achado de algumas glandes de chumbo desse período), seguindo depois rumo a Campo Maior e de encontro às vias para Emerita Augusta.

Elvas (m.p. LIV; a via seguia pelo Chafariz de El-Rei e Horta da Cabeça para depois contornar a elevação de Elvas pelo lado norte, passando na Quinta de Ns. da Conceição, Horta de Gil Vaz, Horta do Moreno, junto da necrópole de Papulos, e Herdade de Torre da Fonte Branca, onde apareceram duas aras dedicadas a Proserpina, indiciando a existência de um santuário neste local; a partir daqui o percurso é incerto pois depende do local onde se fazia as travessias dos rio Caia e Guadiana; admitindo a travessia deste último junto de Badajoz, a sul da confluência do rio Xévora, a via poderia seguir próximo da estrada actual rumo à travessia do rio Caia a sul do Monte das Caldeiras onde apareceu uma inscrição funerária de Festivus, e a norte da villa de Alfarófia num local conhecido por «El Rincón de Caya» onde teria existido um ponte cujas ruínas são ainda referidas em 1926 (Almeida MJ, 2000; Carneiro, 2011).

AD ATRUM FLUMEM
Segundo o itinerário, Ad Atrum Flumen, literalmente «junto do rio Atrus», estava a 38 milhas de Mérida, distância que é compatível com a sua localização junto da travessia do rio Guadiana em Badajoz a jusante da foz do rio Xévora/Gévora que corresponderia assim ao rio Atrus. A rota daqui a Mérida continua em discussão, mas é provável que seguisse pela margem esquerda do Guadiana, dado que não existem estações comuns com a via que seguia pela margem direita para Mérida por Plagiaria, integrando os Itinerários XIV e XV. Consequentemente deverá procurar-se as estações de Dipo e Evandriana na margem esquerda do Guadiana, a primeira a 26 milhas de Mérida e a segunda a 9.
  • Miliário de Torre Águilla: junto à villa da Torre Águilla em Barbaño (Montijo, Badajoz) apareceu um miliário de Magnêncio indicando 16 milhas a Mérida. No entanto, a posição deste marco parece fora das duas rotas para Mérida, indiciando antes uma possível interligação entre estas rotas, fazendo a ligação entre Lobón e Barbaño e cruzando o Guadiana junto da villa de Torre Águilla. Por outro lado, outros autores apontam para os indícios de alterações do curso do Guadiana, colocando a hipótese de Torre Águilla estar na margem esquerda durante o período romano, ou seja, próximo da via Évora-Mérida (Gorges e Martín, 1999).
  • Miliário de Montijo: possível miliário anepígrafo no cruzamento das ruas Virgen de Barbaño e Guadiana, no centro urbano do Montijo (Paredes Martín, 2023). Poderá ter sido deslocado da via para Mérida que passava mais a sul. No entanto, também poderia assinalar uma via transversal com orientação norte-sul ligando este marco ao miliário de Torre Águilla

Travessia do rio Guadiana (Anas)
Badajoz (depois de cruzar o Guadiana, a via seguia talvez pelo designado «Camino Viejo» por Atalaya, cruzando a divisão administrativa entre Badajoz e Talavera la Real que coincide com a milha 28 a Mérida)

DIPO (talvez Talavera la Real, a 26 milhas de Mérida; seguiria depois o «caminho velho de Lobón», atravessando o rio Guadajira até atingir a milha 17 nas proximidades de Lobón ou em Turunuela)

EVANDRIANA (estação a 9 milhas de Mérida, possivelmente localizada nas proximidades do Cerro del Turuñuelo (Arroyo de San Serván), povoado indígena que deverá corresponder à Evandria referida por Ptolomeu)

AUGUSTA EMERITA (Mérida) (caput viarum a 161 milhas de Lisboa)

Iter XIII - A SALACIA OSSONOBA m.p. XVI
Mapa
ITINERÁRIO XIII - Alcácer do Sal (SALACIA - Faro (OSSONOBA)

A SALACIA
OSSONOBA

m.p. XVI
O Itinerário XIII (13) é um caso estranho no contexto do «Itinerário de Antonino» pois indica apenas a distância entre dois pontos sem qualquer estação intermédia. Como este itinerário vem na sequência do Itinerário XII que liga Olisipo a Emerita por Alcácer do Sal, é lógico que possa indicar uma derivação a partir daqui rumo a Ossonoba. No entanto, as 16 milhas indicadas são manifestamente insuficientes para cobrir a distância entre essas cidades. Uma possibilidade seria admitir um erro de transcrição da distância, faltando eventualmente o «C» inicial que daria CXVI milhas, valor já muito próximo dos 185 km medidos entre Faro e Alcácer do Sal. Porém, um valor de 116 milhas para uma etapa do itinerário é de todo inverosímil. Outra hipótese adiantada pelo investigador Gonzalo Arias e seguida por autores como Fraga da Silva, localiza Salacia no porto romano do Cerro da Vila em Vilamoura, com base na distância aproximada de 16 milhas medidas entre este povoado e Faro (Fraga da Silva, 2005). No entanto, a distância medida no terreno entre Faro e Vilamoura é inferior a 16 milhas (seguindo por Almansil), retirando o único argumento que sustenta esta proposta. Outra hipótese bem mais credível, considera que este itinerário se refere a um ramal de ligação entre Alcácer e a via para Ossonoba. Deste modo, é possível que as 16 milhas indicadas se refiram à ligação entre Porto da Lamas (Alcácer do Sal) e o Torrão, ponto de travessia do rio Xarrama, onde conflui também a via proveniente de Évora rumo a Faro. De facto, a distância medida no terreno pelo presumível traçado entre a ribeira de Sítimos (miliário do Porto da Lama) e o rio Xarrama é de cerca de 16 milhas, permitindo sustentar esta hipótese. (act. 2018).

Iter XIV - Alio itinere ab OLISIPONE EMERITAM m.p. CLIIII
Mapa
Ponte de Sor






Alter do Chão
















Campo Maior




Enxara


Badajoz


ITINERARIO XIV - Lisboa (OLISIPO) - Alter do Chão (ABELTERIO) - Mérida (EMERITA)
Alio itinere ab
OLISIPONE EMERITAM

ARITIO PRAETORIO
ABELTERIO
MATUSARO
AD SEPTEM ARAS
BUDUA
PLAGIARIA
EMERITA

m.p. CLIIII
m.p. XXXVIII
m.p. XXVIII
m.p. XXIIII
m.p. VIII
m.p. XII
m.p. VIII
m.p. XXX
Apesar de ser a principal rota entre Olisipo a Emerita, o seu percurso ainda suscita algumas dúvidas pois não é clara a localização de algumas das estações referidas no I.A. Desde logo, as 38 milhas indicadas à primeira estação, Aritio Praetorio nunca poderiam ser contadas a partir de Lisboa pelo este valor é seguramente contado a partir do local de travessia do rio Tejo, tendo sido omitidas as duas primeiras estações deste itinerário, Ierabriga e Scallabis, dado serem mencionadas tanto no Itinerário XV como no Itinerário XVI. Mas onde seria esse ponto de travessia do Tejo? Inicialmente foi proposto que esta seria em Santarém tal como o Itinerário XV, sendo o trajecto comum até ao planalto das Mestas. Admitindo a No entanto não há acerto da distância à Herdade de Água Branca de Cima, presumível localização da estação de Aritio Praetorio na Herdade de Água Branca de Cima, dado que daqui a Alter do Chão são 28 milhas (Abelterio), conforme indicado para esta etapa no I.A. Deste modo, é mais provável que o início da contagem miliária a Aritio não se fizesse na várzea de Santarém, mas mais a norte, a partir da travessia do rio Tejo na Golegã que dista 28 milhas de Água Branca de Cima. Com efeito, se medirmos a distância da Golegã ao planalto das Mestas obtemos 20 milhas, valor ao qual se somam 8 milhas daqui a Água Branca de Cima. A ser assim haveria que corrigir o valor indicado para esta etapa. Esta possibilidade é ainda suportada pelo facto de em pelo menos duas cópias manuscritas do Itinerário indicarem precisamente 28 milhas e não as 38 milhas nas edições actuais. De Água Branca de Cima a via seguia para Ponte de Sor (miliários) e daqui a Alter do Chão, trajecto que passa na monumental Ponte Romana de Vila Formosa. A partir daqui as dúvidas avolumam-se; a estação seguinte, Matusaro, localizada a 24 milhas de Alter do Chão, poderia situar-se a sul de Arronches, junto da travessia do rio Caia. A estação seguinte, Ad Septem Aras, poderá corresponder ao sítio romano do Monte das Argamassas entre Nossa da Graça dos Degolados e Campo Maior (miliários), rumo à travessia do rio Xévora/Gévora junto do Monte Castro, tendo na outra margem a estação Budua, situada no mesmo local da Ermida de Ns. de Bótoa. Daqui rumava a Mérida por Plagiaria que corresponde ao sítio romano de «El Pesquero» em Novelda del Guadiana, continuando pela margem direita do rio Guadiana até Mérida, percorrendo as 30 milhas indicadas no I.A. (ver também Carta Arqueológica do Concelho de Abrantes; act. 2024).

Itinerário XIV de Scallabis a Aritium Praetorio (XXXXVIII m.p.)
Santarém (seguia o trajecto do Itinerário XVI até à Golegã, onde cruzava o rio Tejo)
Venda das Mestas (m.p. XXX; também designada por «Cevo de Muge» e «Sete Azinheiras»; Francisco d'Holanda refere aqui "calçadas"; Resende refere 4 miliários; no «Roteiro Terrestre» é designada como «Estallagem da Vendinha ou das Mestas»)
Alto da Abegoaria (m.p. XXXII; continua pelo caminho de festo)
Lagoa da Extrema do Copeiro/Barreiro (m.p. XXXIII; sítio romano, possível casal; a via continua até ao geodésico de Vale do Zebro onde entronca na EN2, ao km 425, com a milha 35 a ser vencida próximo do km 426)

ARITIO PRAETORIO m.p. XXXVIII
A estação viária de Aritium Praetorium deveria situar-se na área da Herdade de Água Branca de Cima dada a concordância com as distâncias indicadas no I.A., ou seja 38 milhas a Santarém e 28 milhas a Abelterio; todo o vale da herdade apresenta vestígios romanos que deverão estar associados à função viária, mas nunca foram escavados (Lizandro, 2003; 199-200); no marco geodésico de Água Branca Mário Saa ainda viu vestígios de rodados na via, inflectindo aqui para sul pelo caminho de terra e linha de festo que divide os concelhos de Abrantes e Ponte de Sor até ao Alto de Bufão, marginando um sítio romano de cariz viário nesta encruzilhada de caminhos que poderia ser um posto de controlo da via, mencionando ainda a descoberta em 1944 de um tesouro numismático da época Republicana (Saa, 1956); duas moedas de bronze com banho de prata (Lizandro et al., 1987); a via continuava sob a EN2 próximo do Monte Padrão (Alto do Padrãozinho), possível referência a um marco da estrada e entrava na cidade de Ponte de Sor pela estrada de Foros de Domingão.

Ponte de Sor (m.p. XLIV; no século XVI Bronseval refere uma pontem lapideum possivelmente romana da qual restam apenas alguns silhares reutilizados nos arcos do lado poente da ponte actual reconstruída em 1822; nas obras do mercado municipal em 1990 apareceu uma lápide de carácter monumental consagrada ao imperador TRAIANUS, FE 162)

Itinerário de Ponte de Sor a Alter do Chão
O troço seguinte ligava Ponte de Sor a Alter do Chão onde surgia nova mansio seguindo um percurso hoje praticamente seguro dado o grande número de miliários que pontuam o seu trajecto que passa na monumental ponte romana de Vila Formosa (Pereira, 1912 e 1937; Saa, 1956; Alarcão, 2006a; Carneiro, 2008 e 2010); logo após Ponte de Sor temos um miliário de Probo talvez da milha 46, IRCP 668, recolhido em 1910 por Leite de Vasconcellos no «Monte dos Casamentos», na junção da ribeira do Vale do Bispo com a ribeira do Andreu; daqui seguia pelo «Vale da Rainha» e Monte de Cabeceiros, com um miliário anepígrafo talvez da milha 48, seguia depois junto do miliário de «Coutadas» onde apenas de lê CONSTA... e do miliário da «Torre das Vargens» onde apenas de lê as letras AV[…]CO, até à Capela de Ns. dos Prazeres, na confluência das ribeiras do Vale de Açor e do Monte Novo, onde Mário Saa recolheu um miliário de Tácito, IRCP 666a, actualmente em exposição na Fundação Paes Teles no Ervedal; continua pelo Monte do Freixial, onde apareceu uma coluna honorífica ou possível miliário, onde apenas se lê BONO R P, rumo ao sítio romano da Fonte da Cruz, provável mutatio onde em 1976 apareceu a parte inferior de um miliário (RP 6/95) e mais quatro fragmentos; um desses fragmentos corresponde à parte superior e lê-se apenas as letras IMP CAE, FE 667; um miliário anepígrafo apareceu junto do caminho paralelo à margem direita da ribeira do Monte Novo, 500 m a montante da Fonte da Cruz; Frei Bernardo de Brito, transcrevendo André de Resende, faz referência a um miliário «adiante de Ponte de Sor» supostamente do tempo do imperador Lúcio Vero, onde se leria «AB EMERITA / m.p. LXXXXVI», ou seja, marcaria 96 milhas a Mérida, a distância deste local a Mérida (Brito, 1609:99); referência a outros possíveis miliários em «Vale do Contador» (?) e «Camoa» (?); a partir da Fonte da Cruz a via atravessava a herdade do Vale da Estrada, passava a norte do Alto de São Marcos, junto de um sítio romano onde apareceu um miliário com inscrição talvez da milha 54, seguindo depois paralela à EN119 por Lameira, novo miliário, e pelo Monte da Coreia, onde ainda lá está um outro miliário anepígrafo in situ talvez da milha 56.

Ponte Romana da Vila Formosa ( ponte romana sobre a ribeira de Seda, com 6 arcos de volta perfeita e a única no sul do país que ainda mantém a construção e o lajeado original da faixa de rodagem. Em 1912, Félix Pereira indicava vários miliários nas proximidades da ponte, todos anepígrafos, o miliário a norte do marco geodésico de Vale do Gato, o miliário do Monte da Celada/Selada, partido e talvez deslocado da milha 63 no Monte do Ensopado, outro no «sítio da Celada», o miliário em Vale Perlim/ Vale da Arrabaça e ainda mais 2 marcos separados por 3 a 5 km em Rascão [Pereira, 1912]. A via continuava na outra margem junto do sítio romano de Santa Luzia, possível mutatio, percorrendo depois terrenos da Herdade do Monte Redondo, marginando os sítios romanos da Casa de Alvalade, onde apareceu um fragmento de miliário [FE 662], e do Monte da Porra, seguindo depois pelo Alto do Vale da Pia, cruzando o IC3 em Arribada das Colmeias na Herdade da Torrejana, onde há vestígios de um troço lajeado, no caminho público que delimita a Coudelaria Real até Alter do Chão [Carneiro, 2011])

ABELTERIO (Alter do Chão) m.p. LXVI
A mansio de Abelterium referida no Itinerário corresponde sem dúvida a Alter do Chão com base nas distâncias indicadas pelo Itinerário, nos vestígios da imponente villa de Ferragial d'El Rei no topo SE do campo de futebol, possivelmente a própria mansio, o miliário de Constâncio Cloro (FE 374), actualmente numa casa particular e acima de tudo na menção explícita ao nome do povoado num grafito gravado num imbrex descoberto em 2009 (Encarnação, 2010). A localização do povoado indígena no entanto poderia ser em Alter Pedroso, presumível castro fortificado da Idade do Ferro onde apareceu uma estela funerária com o epitáfio de Sica, actualmente no Museu de Elvas.

Itinerário de Alter do Chão a Assumar pela «Estrada do Alicerce»
A via continuava para Arronches pela chamada «Estrada do Alicerce» (Vasconcelos, 1929:185), provável deturpação do termo árabe «al-rasif» («calçada, caminho pavimentado»), caminho ainda hoje bem marcado na paisagem, seguindo por Assumar e a norte de Nossa Senhora dos Degolados, rumo a Campo Maior. Em 1937, Félix Alves Pereira descreve o percurso pelos topónimos Almarjão, Retaxo, Amoreira, Escravides, Monte do Mouro, Tapada do Alicerce, Monte da Soeira, Rabasca, Revelhos, Azeiteiros e Adens (Pereira, 1937); Mário Saa por sua vez indica um percurso por Chancelaria, Ribeiro do Freixo, Ronha, Bedanais, Caldeireiros e Monte Grande até Assumar (Saa, 1958). Os trabalhos de André Carneiro na região levaram à definição de um percurso que passamos a descrever (Carneiro, 2004, 2011). Partindo de Alter do Chão, a via seguia para leste sempre recto, passando a norte do Monte dos Tapadões, entre o Cabeço da Azinheira e Alter Pedroso, até à Horta do Pote onde inflecte para nordeste pelo Monte do Carrão e Cascalheira, topónimos viários, passa na base do Alto de São Martinho, cruza a ribeira da Navalha (possível miliário) e segue rumo ao Monte da Chancelaria, daqui desce à ribeira do Freixo cruzando a linha férrea no sopé da elevação da Cabeça Alta, continua a sul do Monte da Silveira e do Monte da Chaminé, cruza o IP2 e continua pelo caminho que margina o sítio romano do Monte dos Escudeiros situado a sul do Monte do Alcaide, onde entronca na EM1099, seguindo por esta pelo Monte das Canas, onde há marcas de rodados, até Fonte da Vila.

Assumar (m.p. LXXXIII; contorna a povoação pelo norte e continua pela «Estrada do Alicerce» que corresponde ao estradão em terra que segue paralela à linha férrea e que serve de linha divisória entre os concelhos de Monforte e Arronches, atingindo a milha 84 no cruzamento com o caminho de acesso ao Monte Joana Dias).

Arronches (continua entre a Quinta do Carrefe, provável deturpação do topónimo viário «Arrecefe», e o Monte da Torre, marginando um sítio romano designado por «Estalagem», possivelmente associado a uma mutatio, onde apareceu uma ara, seguindo depois pela encruzilhada de Belmonte/ Monte d'El-Rei, na base do povoado proto-histórico de Safra/ Safara, presumível localização de Matusaro dado que se encontra a 24 milhas de Alter do Chão; a via seguia depois pelo Monte da Tapada do Diogo em direcção ao Porto das Escarninhas onde cruzava o rio Caia).

MATUSARO m.p. XC
Neste local a sul de Arronches, também conhecido por «Porto do Caia» ou «Porto das Escarninhas», a via cruzava o rio Caia na chamada «Ponte Velha» com possível origem romana da qual restam alguns silhares no leito do rio. Junto do Monte das Escarninhas existe um sítio romano onde apareceu uma ara a Mercúrio, divindade protectora dos viandantes, FE 606, sugerindo uma possível função viária deste sítio, mas os parcos vestígios e ausência de termas (Carneiro, 2011, 2014), sugerem mais uma taberna relacionada com a travessia do Caia. Uma possibilidade seria a sua associação com o povoado de Safara, junto da encruzilhada de Belmonte/ Monte d'El-Rei, local a 24 milhas de Alter do Chão como indicado pelo itinerário (act. 2022).

Itinerário de Matusaro a Ad Septem Aras
A via continua próximo do Monte da Figueira de Baixo, Monte Branco, Monte Folinhos e Monte de Revelhos, onde no caminho de acesso existe o fuste de um possível miliário como marco de propriedade; cruza a ribeira de Revelhos junto da arruinada Igreja de São Bartolomeu, provável villa ou estação viária onde apareceu uma ara votiva a Libera, IRCP 567; a via continua para leste marginando a norte o Monte da Calaça e Monte da Corredoura e a sul o Monte da Granja do Peral, onde existe uma coluna, possível miliário, continua pela base do Alto de Perdigão a norte do Monte dos Judeus, seguindo rumo ao Alto dos Morenos, 8 m.p., cruzando neste ponto a divisória concelhia entre Arronches e Campo Maior. Daqui partiria um ramal de acesso às Minas da Tinoca, mas a via para Mérida continua para leste, passando ligeiramente a sul do Posto Fiscal de Azeiteiros, onde existe um cipo cilíndrico, possível miliário. A partir daqui a via rumava a sudeste, seguindo por Monte dos Fragustos e Malada dos Covões em direcção a Campo Maior.

    Variante pela Ponte da Enxara
    A rota para Mérida inflectia para sudeste rumo a Campo Maior, mas deveria existir continuação para leste rumo à travessia do rio Cia na Ponte Romana de Ns. da Enxara. Partindo do Posto Fiscal de Azeiteiros, seguia talvez por Monte do Marco Alto (possível referência a um miliário; mina), Monte de Adães e Monte de Cevadais até Ouguela (na Tapada da Pombinha apareceu uma inscrição funerária e uma estatueta de Marte em bronze, actualmente no MNSR). Logo depois cruzava o rio Gévora na Ponte Romana de Ns. da Enxara. Nas proximidades existem vários sítios romanos como Malha-Pão, Enxara, Lapagueira e Defesinha (ara votiva a Dea Sancta). A ponte encontra-se em ruínas mas apresenta ainda sólidos alicerces, indiciando que teria uma grande envergadura (Carneiro, 2011). A continuação desta via permanece ainda incerta, mas é possível que daqui rumasse a Budua (?).

AD SEPTEM ARAS m.p. XCVIIII
Literalmente «junto das sete aras», esta estação viária estaria situada, segundo o Itinerário, a 8 milhas de Matusaro, junto da travessia do rio Caia, e a 12 milhas de Budua, localizada na Ermida de Ns. de Bótoa, junto da travessia do rio Zapatón, o que posiciona Ad Septem Aras nas proximidades da aldeia de Nossa Senhora da Graça dos Degolados. Deste modo, a etapa entre Matusaro e Budua totalizaria 20 milhas. No entanto, a distância medida no terreno pelo trajecto mais provável atinge as 24 milhas, sugerindo a existência de um erro no Itinerário. Como a distância de 20 milhas de Ad Septem Aras a Plagiaria está confirmada no Itinerário XV, é mais provável que o erro esteja na etapa anterior, ou seja entre Matusaro e Ad Septem Aras. Ora, se acrescentarmos as 4 milhas em falta a esta etapa obtemos 12 milhas, distância que posiciona esta estação no sítio romano do Monte das Argamassas entre Nossa da Graça dos Degolados e Campo Maior. Daqui continua para sudeste pela Malhada dos Covões.

Campo Maior (m.p. CIII)
Provável vicus e mutatio junto da Ermida de São Pedro dos Pastores, onde apareceram muitos vestígios romanos entre os quais dois miliários indicando a distância daqui a Mérida; um miliário de Domiciano (?), regravado, onde se lê «EMERITE», actualmente no Museu Municipal (FE 114), e o outro é um miliário de Severo Alexandre, actualmente desaparecido onde se leria 53 milhas a Mérida; FE 115; no entanto, atendendo a que distância entre Campo Maior e Mérida não ultrapassa as 47 milhas, é muito provável que a transcrição que chegou até nós esteja errada, trocando o numeral «XLVII» por «LIII»). A partir de Campo Maior, a via seguia para leste talvez pelo Alto da Defesa de São Pedro, Monte da Cabeça Gorda, Cancelinha e Monte do Bicho, ou em alternativa pela Ribeira dos Cães, passando próximo da villa do Monte do Muro e da respectiva barragem ainda bem conservada (Carneiro, 2011). Ambas conduzem ao Monte Castro, onde há ruínas actualmente classificadas como villa, mas que poderão ser antes vestígios de uma estação viária, dado que junto ao monte e da via apareceram duas aras anepígrafas, eventualmente relacionadas com um santuário à margem da via. Próximo deste local existem também vestígios de uma estrutura fortificada, entretanto destruída por trabalhos agrícolas, num local conhecido por «Casarões da Misericórdia» com domínio visual sobre a travessia do rio Xévora/Gévora (Carneiro, 2011). Depois de cruzar o rio Gévora, rumava a sudeste, cruzando o rio Zapatón no Rincón de Gila, chegando à estação viária de Budua.

BUDUA (m.p. CX Bótoa)
A mansio de Budua deverá corresponder ao povoado romano em torno Ermida de Nuestra Señora de Bótoa. Esta estação viária está directamente relacionada com a travessia dos rios Gévora/Xévora e Zapatón num local designado por «Rincón de Gila», situado a 38 milhas de Mérida, tal como indicado no Itinerário. Daqui dirigia-se para a mansio de Plagiaria distante de 8 milhas segundo o itinerário. A via está hoje praticamente destruída pela actividade agrícola, mas o trajecto ainda visível nas imagens aéreas, cortando a planície em direcção a La Novelda del Guadiana, designada por «Calzada Romana" nas primeiras minutas cartográficas realizadas em geral entre 1870 e 1950.

PLAGIARIA (m.p. CXVIII Pesquero)
Estação localizada em La Novelda del Guadiana, onde subsiste o topónimo «Calle Calzada»; a mansio estaria localizada junto do nó viário de Pesquero, a 8 milhas de Budua, junto da travessia do rio Guerrero, local onde entronca numa outra via proveniente de Badajoz, seguindo depois por traçado comum para Mérida, etapa com 30 milhas segundo o Itinerário (Corrales 1987:104). O trajecto da via seria por Valdelacalzada, Puebla de la Calzada, Torremayor e Garrovilla, seguindo em direcção à travessia do rio Aljucén (Gorges & Martín, 2000). Continua pela margem direita do Guadiana próximo da linha férrea e do Cortijo de Araya, havendo notícia de miliário ali próximo (Álvarez Martínez, 1983: 27; Paredes Martín, 2023), indicando talvez três milhas a Mérida). Daqui seguia em direcção à Ponte Romana das Albarregas, entrando em Mérida (act. 2024).

AUGUSTA EMERITA (Mérida, caput via)

Variante de Matusaro a Emerita por Gévora
A descoberta de um miliário de Carino junto da actual povoação de Gévora (a cerca de 6 km norte de Badajoz), indicia a existência neste local de uma travessia do rio Xévora/Gévora rumo a Plagiaria e daqui a Mérida. A distância entre estes últimos locais é de 30 milhas, sendo necessário percorrer mais 7 milhas até ao rio Xévora, pelo que o miliário deveria indicar 37 milhas a Mérida. Esta via poderia constituir uma variante ao trajecto por Campo Maior e Budua, derivando do Iter XIV talvez em Belmonte/ Povoado de Safra (presumível localização de Matusaro), seguindo para sul por Monte do Sancho, atendendo ao miliário descoberto na Ermida de Ns. do Carmo (cerca de 500 m a nascente da via, actualmente em ruínas). A via segue sensivelmente paralela à linha férrea até Santa Eulália e daqui à travessia da ribeira da Água de Banhos, onde cruza a via N-S de Revelhos a Elvas descrita acima. Daqui segue um trajecto pontuado por sítios romanos em Monte da Silveira, Capela de São Pedro, Herdade das Pereiras e Amoreirinha dos Arcos. Todos estão classificados como villae, mas pelo menos o sítio de São Pedro poderá ter uma função viária, dado que se encontra junto da via. Na continuação, a via passava um pouco a sul do importante Castro de Segóvia, rumo à travessia do rio Caia no Porto da Amoreirinha, tradicional ponto de passagem, seguindo depois pelos altos do Retiro e da Godinha rumo à travessia do rio Xévora junto da actual povoação de Gévora e daqui por Plagiaria rumo a Mérida (Almeida et al., 2011; Paredes Martín, 2021). O acerto das distâncias indicadas no Itinerário XV coloca a possibilidade de este ser o seu trajecto para Mérida, hipótese ainda por confirmar (act. 2022).
Mapa
Évora


Estremoz


Vila Viçosa


Monsaraz


Ramais derivando do Itinerário XIV
O Itinerário XIV era cruzado por diversas vias, sendo possível identificar pelo menos cinco grandes eixos, com três deles seguindo para o rio Guadiana e os restantes para Évora (act. 2024).
  • Eixo 1: Ponte de Sor - Estremoz - Guadiana: derivando adiante de Ponte de Sor na estação viária de Fonte da Cruz, seguia para sudeste por Ervedal, Cano, Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Mina do Bugalho rumo à travessia do Guadiana em Mocissos; uma variante desta via desviava em Estremoz e seguia por Bencatel, Alandroal, Rosário e Outeiro dos Castelinhos rumo à travessia do Guadiana na Azenha d'El-Rei.
  • Eixo 2: Ponte de Sor - Arraiolos - Évora: partindo também da Fonte da Cruz, mas seguindo na direcção nordeste-sudoeste rumo ao vicus de Calantica em Santana do Campo (Arraiolos).
  • Eixo 3: Alter do Chão - Estremoz: ligação de Alter a Estremoz passando no Monte de Silveirona, onde apareceu um miliário de Crispo, Licínio e Constantino II (finais do século IV), reutilizado na respectiva necrópole, actualmente no MNA (IRCP 673). Uma variante desta estrada seguia por Cano e Vimieiro para Évora.
  • Eixo 4: Alter do Chão - Vaiamonte - Juromenha: por Cabeço de Vide e Cabeço de Vaiamonte, rumo ao Monte da Torre do Curvo (miliário); continua pelo Monte de Alcobaça (onde cruza o Itinerário XII), Terrugem e São Romão de Ciladas rumo à travessia do Guadiana a jusante de Juromenha.
  • Eixo 5: Arronches - Terrugem - Juromenha: esta rota tem origem no Monte da Torre, a sul de Arronches (estação viária do Itinerário XIV), seguindo para sul rumo ao Monte das Esquilas, nova mutatio onde apareceu uma ara dedicada aos lares viales, e mantendo a directriz, atingia o Monte da Torre do Curvo (miliário), onde entronca no Eixo 4.

Eixo 1 - Itinerário de Ponte de Sor ao Guadiana por Estremoz
Inicialmente a via seguia talvez por Valongo rumo à travessia da ribeira da Seda e de Sarrazola em Benavila (vários materiais romanos reutilizados na construção da Capela de Ns. de Entre-Águas, em particular o epitáfio de Lobesa encastrado na parede, CIL II 165/ IRCP 459, e um possível Miliário de servir de coluna que poderia indicar uma estação tipo mutatio; Ribeiro, 2006; ara aos Bande Saisabro no Monte do Castelo; FE 206), seguindo depois pelo Alto do Chafariz (ponte?), junto do Poço das Grandezas, Monte da Torre, onde atravessa a ribeira Grande para o Monte da Calçadinha, Ervedal (junto do povoado no sítio da Ladeira, onde apareceu uma ara consagrada a Fontano junto de uma fonte, IRCP 437; epitáfio de Hegesistrate proveniente da villa junto da Capela da Defesa de Barros; em Maranhão, no sítio do Castelo, junto da villa de Bembelide, apareceu uma ara votiva a Bandi Saisabro, actualmente no Museu de Avis, FE 206), continua por Vale da Telha e próximo da villa da Represa (barragem dita «Ponte dos Mouros») até Cano, continuando depois pela base do Povoado de São Bartolomeu (com a importante villa da Torre do Álamo/Torre de Camões 2 km a poente), continua pela villa de Santa Vitória do Ameixial (possível mutatio a 6 milhas de Estremoz), seguindo depois a sul da EN245 pelo caminho que margina os montes das Freiras, da Estrada, da Folgada, do Carraço/Venda da Porca e o Monte da Cerca até tocar a linha férrea, contorna o outeiro de Estremoz pelo lado norte.

  • Itinerário de Estremoz ao Guadiana por Vila Viçosa
    A via continuava o seu percurso para sudeste passando por Borba (villa da Cerca; ara a Quangeius Turicaeco, FE 174), Vila Viçosa (o Museu Arqueológico expõe o miliário de Constantino Magno achado em sítio impreciso das redondezas, IRCP 676), seguindo depois junto do vicus marmorarius num local conhecido por «Vilares» que compreende os topónimos Ermida de São Marcos, Tapada de Fonte Soeiro e Fonte da Moura (aqui apareceu um altar votivo de Canidius, IRCP 375, actualmente no Museu de Vila Viçosa). De Vila Viçosa, a via continuava próximo de São Brás dos Matos pelos montes dos Boinhos, da Nave de Cima e de Baixo e do Azinhal, cruza a ribeira de Pardais junto da Mina do Bugalho e continua pelos montes de Lourenço Alcaide, da Ruivana, de Santo Ildefonso e Serra do Carneiro rumo à travessia do rio Guadiana no porto de Mocissos. O percurso é marginado por vários locais com vestígios de cerâmica romana.

  • Itinerário de Estremoz ao Guadiana por Bencatel (XXX m.p.)
    Esta via, associada à exploração de mármore em Bencatel, cruza a ribeira de Lucefécit junto do importante fortim romano do Outeiro dos Castelinhos e na sua base, significativos vestígios de uma villa romana onde se recolheram elementos arquitectónicos de mármore e sigillata. Partindo de Estremoz, da estação viária da Horta da Agacha junto da Capela de Santos Mártires, a via seguia a rota da EM por Monte da Estrada (26 m.p.), Gredeira (24 m.p.) e Convento da Luz (a nordeste de Rio de Moinhos), rumo a Bencatel, passando junto da pedreira romana da Vigária e do vicus da Gralhada (19 m.p.), continuava por Alandroal (15 m.p.), passando a poente da povoação por uma azinhaga que corta um sítio romano designado por Tapada de Vilares (Calado, 1993), continuando por Rosário rumo ao porto de Águas Frias (villa na Horta das Águas Frias; ara, FE 720) onde cruza a ribeira de Lucefécit (5 m.p.), passagem controlada pelo povoado fortificado do Outeiro dos Castelinhos. Seguia depois pelo Monte da Ferreira, junto da Ermida de Ns. das Neves (4 m.p.), Alto do Algarve Seco, margina o Monte do Escrivão (3 m.p.), Monte da Talaveira (2 m.p.), Monte de São Miguel e Monte do Roncão Velho (1 m.p.), rumo à Azenha d'El-Rei, onde cruza o rio Guadiana (30 m.p. a Estremoz). Continua na margem esquerda até Cheles (3 m.p.), seguindo depois o Camino de los Jarales por Cerro de María Peña, Atalaya de la Luz e Pizarra, rumo a Alconchel, perfazendo cerca de 17 milhas ao Guadiana, onde entronca na via norte-sul de Badajoz a Arucci (act. 2024).
  • Ligação a Monsaraz e ao Guadiana: um ramal desta estrada desvia logo após a travessia da ribeira de Lucefecit, junto do forte romano do Outeiro dos Castelinhos, e seguia em direcção a Monsaraz talvez por Defesa, Capelins, Monte da Vinha, Venda, Seixo e Convento da Orada até à Ermida de Santa Catarina (miliário no interior), continuando rumo à travessia do rio Guadiana junto da sua confluência com o Azevel (act. 2025).

Eixo 2 - Itinerário de Ponte de Sor a Évora por Arraiolos
Este itinerário poderá ter origem no nó viário de Fonte da Cruz, 7 milhas este de Ponte de Sor, dirigindo-se para sul rumo a Santana do Campo, Arraiolos, Sempre Noiva e finalmente Évora (Bilou, 2000a; Carta Arqueológica de Abrantes); no entanto o traçado continua duvidoso até Santana do Campo, podendo eventualmente seguir por Cabeção (villa no cemitério) para cruzar a ribeira da Raia em Reguengo, continuando a oeste de Pavia por Portela, Santa Madre de Deus, Monte da Tramagueirinha e Monte dos Olheiros, onde cruza a ribeira de Divor (junto da Torre das Águias), seguindo depois a «Estrada da Cumeada» pelo Alto da Cruz, Monte da Almoínha, Monte dos Fretos e Alto do Seixo.

    Santana do Campo, Arraiolos (Calantica?) (vicus e provável mutatio? a 17 milhas de Évora; a igreja paroquial reaproveita um imponente Templo Romano provavelmente dedicado à divindade indígena Carneo Calanticensi conforme aparecia nas duas inscrições aqui descobertas, actualmente desaparecidas, CIL II 125 e CIL II 126; IRCP 410 e 411; Pereira, 1948)
    Arraiolos (há vestígios de calçada com 200 m localizada a cerca de 700 m a norte da Horta do Freixo; segue por Fonte das Perdizes/ Alto da Albarda e a nascente do Monte do Montinho, existindo vestígios da trincheira da via a cerca de 300 m a SE do monte)
    Sempre Noiva (continua recto para sudeste junto da villa romana e do recinto-torre de Vale de Sobrados, vigiando a via que atravessa a ribeira de Penedos, restando um troço de calçada com 20 m, cruza a ribeira de Vale de Sobrados, onde há mais um troço com 50 m em calçada, 200 m a norte do Monte do Penedo, sobe à Camoeira e desce à ribeira de Divor que cruza junto do Monte da Azenha, seguindo depois pelo Monte do Divor da Estrada)
    Monte da Oliveirinha (fragmento de miliário anepígrafo no arruinado Monte da Parreira, indicando talvez 5 ou 6 milhas a Évora; neste ponto a via cruza a estrada que vem de Igrejinha e seguia pelo Monte da Oliveirinha até confluir na estrada que vem de Divor para Évora, EM527)
    Bairro do Louredo (passa junto do Alto do Penedo do Ouro e pela Quinta do Bacelo, entra na cidade pela medieval Porta de Avis e continua pelas ruas de Avis e da Corredoura)
    Évora (EBORA) (entra na cidade velha pela antiga porta romana, a Porta de Dona Isabel que integra a antiga cerca romana, subsistindo o arco romano e um pedaço da calçada correspondente ao cardus maximus).

Eixo 3 - Itinerário de Alter do Chão a Estremoz (40 m.p.)/Évora (62 m.p.)
Partindo de Alter esta via seguia para sul pelo Alto da Courela para cruzar a ribeira de Sarrazola junto do Monte Judeu onde foi identificada uma necrópole), continuando a poente de Fronteira pelo caminho do Vale de Amoreira atendendo ao aparecimento ali próximo de um possível miliário no Monte da Palhinha (Batata e Boaventura, 2000); desce pelo Monte do Vale de Amoreira rumo à travessia da ribeira Grande em Porto de Melões) (talvez no sítio de Pegos da Pedra), passagem controlada pelo povoado romanizado do Outeiro de São Miguel. Pouco depois vencia a vigésima milha junto do cruzamento da ribeira de Lupe, junto da Malhada da Granja (e da antiga Casa dos Cantoneiros da EN243), local de maior importância nesta via pois encontra-se a meia-distância deste percurso, ou seja, a 20 milhas tanto de Alter como de Estremoz. Deste modo é possível que os vestígios romanos identificados em Porto de Melões (Batata e Boaventura, 2000) possam corresponder a uma estação viária.

  • Itinerário de Porto de Melões a Estremoz por Silveirona (40 m.p.)
    Retomando o percurso na Malhada da Granja, a via continua pelo Alto da Granja, Monte Mortágua (18 m.p., anta), Cabana de João Luís, Vale de Carreiras (16 m.p.), Alto de Papaleite, Alto da Misericórdia e Monte das Cabanas; logo depois cruza a ribeira de Sousel (12 m.p.) e continua recto entre esta e a ribeira dos Olivais passando no Monte da Albardeira (11 m.p.), Monte da Cântara (7 m.p., do árabe «al-quantara», «a ponte»), Monte da Cavaleira (6 m.p., a poente da Igreja de Santo Estevão, onde há silhares romanos e um baixo-relevo), Monte da Coelha (5 m.p., villa), Silveirona (4 m.p.), Monte da Granja e Estremoz (Carneiro, 2008; act. 2024).

  • Itinerário de de Porto de Melões a Évora por Cano e Vimieiro (42 m.p.)
    Retomando o percurso em Porto de Melões, segue para a travessia da ribeira de Sousel junto do Monte da Defesa de Barros (villa, ara funerária de Calpurnia), continua pelo Monte da Capelinha, Monte da Roxa/ Alto do Carvalheiro, Monte da Rouca e Tapas das Brancas até ao Cano; daqui segue pela chamada «Estrada de Évora» que passa junto do cemitério e no Alto de Macarra, cruzando a ribeira de Almadafe próximo do Monte Mouchão, e a ribeira de Tera junto do Monte da Broa; mais adiante surge o sugestivo topónimo Monte da Estrada (este foi o trajecto percorrido por Claude Bronseval no século XVI). Continua por Vimieiro (fortim de Soeiros poderá estar relacionado com o controlo desta via; continua talvez pelo Monte da Carreteira, Monte da Ermida, Monte do Santana, Monte de Courelas), Santa Justa (seguia talvez junto da Capela de Santa Justa onde apareceu uma ara votiva e há vestígios de uma villa ou mutatio; continua talvez pelo Monte da Comenda de Cima e Monte da Anta, servindo de divisória concelhia e marginando duas fortificações romanas que controlariam a via, o Castelo de Santa Justa e o Castelo do Mau Vizinho, continuando depois a poente do Monte da Calada onde apareceu o epitáfio de Apano). Continua por Igrejinha (talvez a nascente pelo Monte do Barrocal e Alto dos Algraveos, cruza o rio Degebe junto do Monte dos Álamos e segue para Évora pelo Bairro dos Canaviais(?).

Eixo 4 - Itinerário de Alter do Chão a Juromenha por Vaiamonte
Partindo de Alter do Chão a via seguia para sudeste passando na base do importante povoado do Cabeço de Vaiamonte, onde há sinais de um acampamento militar romano. Até Maio de 2019, apresentamos aqui uma proposta de percurso praticamente unânime que fazia passar a via por Monforte e Monte das Esquilas com base na ara aos deuses viários descoberta por Mário Saa neste último local, tendo alguns autores considerado ser este o traçado do Itinerário XIV para Mérida o que levou à localização da mansio de Matusaro nesta estação viária do Monte das Esquilas (Carneiro, 2004, 2008 e 2011). No entanto, após uma análise mais cuidada do terreno, ponderamos a hipótese de a via não cruzar a ribeira grande junto da vila de Monforte (com uma ponte medieval, mas sem indícios romanos), mas sim mais a jusante, na base do fortim romano dos Beiçudos, seguindo não para as Esquilas, mas em direcção do miliário do Monte da Torre do Curvo, entroncando noutra via que seguia para a travessia do rio Guadiana em Juromenha. De facto a orientação que a via traz de Alter do Chão, passando na base do povoado indígena do Cabeço de Vaiamonte e a poente da villa da Torre de Palma segue em direcção aos Beiçudos e não a Monforte. A ser assim, cai por terra a proposta de situar a mansio de Matusaro no Monte das Esquilas com base no argumento da distância a Alter do Chão ser cerca de 24 milhas como é indicado no Itinerário para a etapa entre Abelterium e Matusaro (Encarnação, 1995; Mantas, 2010), proposta que na verdade nunca foi muito convincente porque obrigava a várias inflexões pouco lógicas do trajecto e tornava o percurso muito mais longo, tornando-o incompatível com as distâncias indicadas no Itinerário (act. 2019).

Alter do Chão (seguia talvez sob a actual «Estrada de Pedroso» até ao povoado indígena de Alter Pedroso, continua pela rua da Carreira até ao marco geodésico do Penedo Gordo, onde inflecte para sul pela «Estrada de São Domingos», com vários troços ainda em calçada que segue entre a villa da Quinta do Pião e a villa de São Pedro, passando de seguida pela Horta da Fonte de Vide e junto do marco geodésico do Monte das Ferrarias)
Cabeço de Vide (m.p. VII; ao chegar à vila pela azinhaga de São Domingos, a via entronca na rua de Santo Mártir, cortando depois à esquerda e logo à direita por um troço de calçada com 700 m até à Fonte do Borbolegão, com origem romana, junto das Termas da Sulfúrea, onde cruza a ribeira de Vide; na Igreja de Santa Maria, apareceu uma inscrição às Ninfas que terá vindo das termas, mas hoje com paradeiro desconhecido (CIL II 168); daqui a via cruza a linha férreas e segue o caminho designado por Mário Saa como a «Estrada dos Castelhanos», passando junto dos vestígios de uma possível mutatio em Monte dos Merouços e muito próximo da importante villa da Horta da Torre, cruzando a ribeira do Carrascal na base do povoado indígena do Castelo do Mau Vizinho)
Vaiamonte (continua pelo Monte da Laranjeira e a sul do Monte da Caniceira com vários vestígios marginando o percurso, Monte dos Caliços, Monte do Gacho e a villa do Monte da Matança, continua por Monte Branco e Arribanas para cruzar a ribeira Grande na base do fortim romano dos Beiçudos; a via passa a poente do importante Povoado Fortificado do Cabeço de Vaiamonte, com origem na Idade do Bronze e com fortes indícios de um assentamento militar romano, e da monumental villa da Torre de Palma)
São Saturnino (retomando o percurso no fortim romano dos Beiçudos, a via subia pela calçada das Pintas, com marcas de rodados ainda visíveis junto ao monte homónimo, continuando pelo Monte do Zambujeiro, Monte da Carreteira, Herdade da Velha e Quinta do Leão; a via passa cerca de 2 km a poente da arruinada Igreja de São Pedro de Almuro que reutiliza muitos materiais romanos)
Veiros (necrópole na Igreja de Ns. dos Remédios, onde apareceu uma cupa funerária, FE 530; continua a nascente do «Castelo Velho de Veiros», povoado fortificado da Idade do Ferro, seguindo pelos montes da Guardaria, das Alagoas, das Farisoas, da Giralda, das Santinhas, do Casco)
Santo Aleixo (cruza a ribeira do Almuro e segue pelo Monte de Magesse)
Monte da Torre do Curvo (mutatio; miliário de Maximino I e ao seu filho Máximo; CIL II 441 = IRCP 664; actualmente está no acervo do extinto Museu de Elvas; daqui continua pelo Monte da Aldinha, cruza a Tira-Calças e segue pelo e Monte dos Pereiros)
Monte de Alcobaça (cruza o Itinerário XII e segue pelo Alto do Alcaide, Monte da Atouguia e Monte do Montinho)
Terrugem (povoado no outeiro de Santo António; vicus no Monte da Nora, cerca de 2 km para nascente)
São Romão de Ciladas (vestígios pétreos e inscrição paleocristã na Torre do Pomar d’El-Rei)
Juromenha (travessia do rio Guadiana a jusante do forte, seguindo depois para Olivença num percurso que totaliza as 40 milhas desde Alter do Chão)
    O antigo povoado que deu origem a Juromenha encontra-se na Malhada das Mimosas, situado cerca de 3 km a jusante do Guadiana, junto do local de cruzamento do rio, próximo da sua confluência com a ribeira de Asseca; este povoado regista ocupação do neolítico final ao período romano, do qual apareceu uma tabula patronatus em bronze, em que a família Stertinia se coloca sob a protecção do seu legado provincial L. Fulcinius Trio (IRCP 479); duas inscrições votivas, uma dedicada a Júpiter por um soldado da legião VII Gemina Felix (IRCP 439) e outra dedicada a Endovélico (FE 64) poderão também provir deste local, apesar desta última ter aparecido no castelo. Nesta área, em local indeterminado, apareceu também um tesouro monetário datado do século III e IV, actualmente em exposição na Colecção de Arqueologia da Casa de Bragança em Vila Viçosa. Este povoado poderá corresponder a Colarnum com base nas coordenadas Ptolomaicas (Geo, II, 4).

Eixo 5 - Itinerário de Arronches a Olivença por Juromenha
Esta via perpendicular à orientação das vias para Mérida tinha origem na estação viário do Monte da Torre, possível mutatio do Itinerário XIV (3 km a SW de Arronches), seguindo para sudoeste rumo a Juromenha e Olivença, passando nas mutationes do Monte das Esquilas (m.p. VIII), Monte da Torre do Curvo (m.p. XIV) e Terrugem (m.p. XX). Partindo então do Monte da Torre, a via segue pela Quinta do Carrefe (topónimo viário), Monte dos Barrocais, Monte da Amendoeira, Monte de Mariares de Cima, cruza a ribeira de Algalé e continua a leste dos montes dos Reboleiros e da Boudaria por um longo troço preservado da via, seguindo recto ao Monte das Esquilas (num outeiro próximo Mário Saa descobriu uma ara aos Lares Viales possivelmente parte de um santuário junto da via); daqui continua pelo Monte da Fonte Branca (tégula), Monte dos Vinagres (onde Saa viu ainda «poderosa calçada»), passava próximo do Fortim Romano do Penedo de Ferro até ao Monte da Torre do Frade, onde cruza a ribeira da Colónia até chegar ao Monte da Torre do Curvo, onde entronca no Eixo 4 seguindo depois um percurso comum até ao Guadiana. A área de Torre do Curvo seria assim uma encruzilhada de caminhos como comprova o miliário descoberto neste local que se encontra a meio caminho da via entre o Monte das Esquilas e Terrugem (6 milhas a ambos), sendo por isso possível a existência de uma estação viária tipo mutatio neste local.

  • Ligação do Monte das Esquilas a Vila Fernando: uma derivação desta via pouco depois do Monte das Esquilas, no Monte da Fonte Branca, seguia para sudeste pelo Monte de São José, cruza a ribeira da Coutada a sudoeste de Barbacena (placa funerária de Atilia na Herdade de Fontalva, FE 592) rumo ao sítio romano da Anta do Reguengo, possível mutatio, onde Abel Viana assinalou vestígios da via; daqui seguia para o Monte dos Campos/ de Genemigo, onde apareceu um miliário de Caracala (IRCP 662), continuando depois a nascente de Vila Fernando pelo Monte Novo da Terra Vermelha e Monte do Passo até ao Monte da Alcarapinha, onde cruza o Itinerário XII. A via teria continuidade para sul pelos montes da Atalaia, do Texugo e de Valbom até Vila Boim (?).

  • Ligação de Revelhos a Elvas: o vasto campo de ruínas romanas em torno do actual regolfo da barragem do Caia, indicia a existência de uma derivação do Iter XIV rumo a sul. De facto, André Carneiro identificou um troço calcetado bem preservado junto do Monte do Reguengo, onde foi identificado um miliário (Carneiro, 2011). Esta derivação poderia partir da Igreja de São Bartolomeu no Monte de Revelhos, seguindo depois o antigo caminho pelo Monte das Furadas e da Horta Nova entretanto destruído, rumo à travessia da ribeira da Agulha no sopé do Monte do Reguengo e da arruinada Igreja de Ns. da Lameira. A partir daqui surgem vestígios da velha calçada seguindo na direcção do Monte das Freiras, perdendo-se pouco depois o seu rasto dado que toda esta zona ficou submersa após a construção da barragem do Caia. No entanto, o cruzamento do rio deveria fazer-se junto do Monte da Alentisca; em alternativa, a travessia poderia fazer-se um pouco a nascente, junto da ermida de Santa Catarina, onde apareceu uma ara dedicada a Belona (FE 207), havendo notícia de uma ponte de pedra junto a este local (Carneiro, 2011). A via continua para sul cruzando a ribeira da Rocha a nascente do Monte do Pinto e a ribeira da Água de Banhos próximo da linha férrea, continuando depois junto da Ermida da Ventosa, Monte de Mencáceres e Torre da Sequeira (onde cruza o Iter XII), passando assim a nascente de São Vicente, continuando pela Quinta das Longas (villa) talvez rumo a Elvas (?) (act. 2021).

Iter XV - Item alio itinere ab OLISIPONE EMERITAM m.p. CCXX
Mapa
Ulme




Crato




7 Chaminés




ITINERARIO XV - Lisboa (OLISIPO) - Monte da Pedra (Fraxinum?) - Mérida (EMERITA)
Item alio itinere ab
OLISIPONE EMERITAM

IERABRIGA
SCALLABIN
TUBUCCI
FRAXINUM
MONTOBRIGA
AD SEPTEM ARAS
PLAGIARIA
EMERITA

m.p. CCXX
m.p. XXX
m.p. XXXII
m.p. XXXII
m.p. XXXII
m.p. XXX
m.p. XIIII
m.p. XX
m.p. XXX
O percurso deste itinerário para Mérida continua envolto em dúvidas devido à problemática localização das suas estações intermédias. Na sua parte inicial o trajecto é comum ao Itinerário XVI entre Lisboa e Braga até Santarém onde cruzava o rio Tejo para Alpiarça tal como o Itinerário XIV rumo a Mérida. Em algum ponto desse percurso os dois itinerários divergiam para se reencontrarem na estação Ad Septem Aras muito provavelmente localizada próximo da aldeia de Ns. da Graça dos Degolados, tendo como estações intermédias Tubucci, Fraxinum e Montobriga cujas localizações continuam inseguras. Segundo as distâncias indicadas no Itinerário de Antonino, o percurso seria mais longo 10 milhas do que a via principal para Mérida (por Ponte de Sor e Alter do Chão) pelo que este itinerário deveria descrever um arco a norte ou a sul da via principal. Ao longo dos últimos séculos, vários autores tentaram definir um traçado quer a norte quer a sul da via principal sugerindo diferentes localizações para as respectivas estações intermédias de forma a acertar a marcação miliária, sem no entanto chegarem a uma solução satisfatória. Nesta demanda é crucial determinar a localização de Tubucci, a primeira estação indicada no itinerário que é determinante para a elaboração do restante percurso; André de Resende situou-a em Benavente, Mário Saa em Alvega, Jorge de Alarcão no Vale do Sorraia e Vasco Mantas próximo do Tramagal. No entanto, todas estas propostas carecem de provas irrefutáveis e implicam percursos mais ou menos inviáveis até Ad Septem Aras. Se na variante sul temos uma sucessão de travessia de rios importantes, na variante norte pelo Vale do Tejo teria de enfrentar os sucessivos afluentes e uma topografia de constante sobe-e-desce, totalmente em desacordo com a norma da viação romana. A hipotética localização de Tubucci próximo do Tramagal tem por base as importantes ruínas na Quinta do Carvalhal, junto da confluência da ribeira de Alcolobre no rio Tejo, e do respectivo miliário encontrado a pouco distância na povoação do Crucifixo. No entanto, este marco poderá estar relacionado com a travessia neste ponto do rio Tejo, integrando uma via proveniente de Tomar rumo a Bemposta. Do mesmo modo, o miliário encontrado no Monte Galego não integraria o Itinerário XV como antes se pensava, podendo antes assinalar a ligação da travessia do rio Tejo junto de Aritium ao eixo viário principal rumo a Mérida. Estando descartada a passagem da via pela margem esquerda do Tejo, há que procurar um outro traçado em altitude que possa não só evitar esses obstáculos no terreno como acertar o percurso com a indicação miliária presente no I.A.; após um trabalho de levantamento topográfico das diversas soluções foi possível determinar um percurso alternativo para o Itinerário XV que apesar de não ser absolutamente seguro, constitui uma solução prometedora para as várias incógnitas que este itinerário ainda apresenta. A rota proposta implica uma nova localização da mansio de Tubucci que estaria assim junto do nó viário das Mestas, ponto focal da rede viária nesta região, local onde a via proveniente de Mérida bifurcava em duas variantes rumo ao rio Tejo, uma rumo a Santarém e outra rumo a Leiria e Tomar, justificando a existência de uma mansio neste local (act. 2018).

Itinerário XV de Scallabis a Tubucci m.p. XXXII
Como referido, o percurso inicial seria partilhado com o Itinerário XIV e XVI até Santarém, cruzando aqui o rio Tejo para Almeirim. Segundo Francisco d'Hollanda existia uma «ponte de fundação romana» sobre a Vala Velha em Terrugem, mas actualmente as margens do rio estão muito alteradas; a via é flanqueada por dois possíveis acampamentos romanos, o Alto dos Cacos a sul, e o Alto de Castelo a norte, este junto de um povoado de larga diacronia, o Cabeço da Bruxa (miliários na Fábrica de Tomate, Quinta da Goucha e dois em Goucharia). Daqui seguia para norte até ao Vala de Alpiarça,onde toma o caminho de festo que passa nos altos do Sartel, Ameixial, Sete Sobreiros e Canavial, rumo ao Alto da Perna Seca (17 m.p.), nó viário onde se juntava a via proveniente da travessia do Tejo em Azambuja. Daqui seguia pelos altos de Santa Maria, Anafe, Caniceira e Aranhas (divisão entre os concelhos de Chamusca e Abrantes), marginando as nascentes da ribeira de Ulme/Alpiarça, as «Fontes de Alpiarça» como dizia Resende, até atingir o nó viário das Mestas, a 32 milhas de Santarém, a presumível localização da estação de Tubucci.

TUBUCCI m.p. XXXII
Esta estação viária possivelmente localizada junto da «Encruzilhada das Mestas». Para quem vinha de Mérida neste local a via subdividia-se em vários ramais de acesso a locais de travessia do rio Tejo. Um descia pelo alto da Perna Seca, bifurcando em três acessos ao Tejo, por esta via que integrava o Itinerário XV rumo a Santarém (17 m.p.), a via de ligação a Azinhaga (8 m.p.) cruzando o rio Tejo rumo a Leiria. Existia também um ramal desta via que descia ao porto fluvial de Ulme (3 m.p.), onde há dois possíveis miliários, ambos anepígrafos, o primeiro no cruzamento da rua Velha com a rua do Chafariz, e segundo marco no início da Rua Francisco Gomes Rato (erradamente classificado como «menir fálico»), estando portanto junto da via e por isso possivelmente próximo do seu local original de implantação (act. 2024). Este porto era controlado pelo Castelo de Ulme, antiga fortaleza actualmente ocupada pela Capela de Santa Marta (Marques, 2002; Coimbra et al. 2020). Na outra margem da ribeira de Ulme/Alpiarça, em Casal do Pinhão, apareceu um tesouro Republicano constituído por várias moedas de prata (Coimbra et al. 2020) e uma inscrição, ara da Junqueira, onde se leria BONO / REI [P [ublicae) ?] / [NATO?], ou seja, «nascido para o bem da República» (Encarnação, 1984: 700). O outro eixo viário deverá corresponder ao Itinerário XIV, mantendo a mesma directriz após a passagem na Venda das Mestas, continuando por alturas de Tamazim. Um ramal desta estrada deriva no Alto dos Rapazes rumo ao rio Tejo, seguindo pelo Campo de Santa Margarida e junto da villa de Alcolobre. A via seguia até Galega Nova, nó viário (e provável estação viária) onde havia nova bifurcação nos dois ramais de acesso ao Tejo, um cruzando o rio para a Golegã (rumo a Leiria) e outro seguindo para noroeste em direcção a Arripiado, onde cruzava o Tejo para Tancos onde ara a travessia do rio em Arripiado/Tancos ligando daqui a Tomar. Deste modo, a estação de Tubucci assentava num ponto absolutamente estratégico da rede viária antiga, articulando os diversos pontos de travessia do Tejo, justificando a existência de uma mansio neste local. Trata-se de uma área do planalto conhecida por «Mestas», «Venda das Mestas» ou «Encruzilhada das Mestas» e referida por vários autores desde o século XVI como André de Resende, Francisco d'Holanda e Claude Bronseval, como local de passagem obrigatória para quem vinha de Mérida rumo ao Atlântico. Os itinerários XIV e XV rumo a Mérida teriam ambos paragem neste local, divergindo a partir daqui até se reunirem junto da estação de Ad Septem Aras próximo de Campo Maior. O traçado mais a sul corresponde ao Itinerário XIV seguindo por Ponte de Sor, Alter do Chão e Assumar, e seria a via principal para Mérida, como comprovam os diversos miliários e a ponte romana de Vila Formosa. Por sua vez o Itinerário XV seguiria mais a norte, por Bemposta e Monte da Pedra.

Itinerário XV de Tubucci a Fraxinum m.p. XXXII
A partir da área das «Mestas», a via seguia em direcção a Bemposta (6 m.p.), onde cruzava o rio Torto (topónimo viário Vale da Venda), seguindo depois pelo caminho de festo que passa a sul de São Facundo nos topónimos Fonte do Santo e Alto de Colos (9 m.p.), continua a norte de outro topónimo viário, o Vale da Mua, por Alto dos Poços e Cruz das Cabeças (13 m.p.), delimitando a partir daqui os concelhos de Abrantes e Ponte de Sor pelos altos de Vale d'Água e da Pernelha (18 m.p.), inflectindo daqui para nascente ao «Porto dos Almocreves» (20 m.p.) em São Bartolomeu (Saa, 1967:80); continua até Vale de Gaviões, onde cruza a ribeira da Margem, seguindo depois até Polvorosas (26 m.p.), onde cruza a ribeira da Salgueira. Daqui segue para a travessia da ribeira de Sor em Porto do Manejo (29 m.p.), onde há vestígios romanos localizado na linha divisória entre os concelhos de Gavião e Crato; daqui seguia mais três milhas até ao Monte da Pedra, passando junto do marco geodésico do Alto da Pedra (31 m.p.).

FRAXINUM m.p. XXXII | LXIV a Santarém
Esta estação viária poderia situar-se no Monte da Pedra, a 64 milhas de Santarém; a possível existência de uma mansio neste local estará relacionada com a travessia da ribeira de Sor em Porto do Manejo, onde Mário Saa registra o topónimo «Caminho da Estalagem» assim como «vestígios de via e de uma ponte» que terão sido destruídos no século XX; Saa achou também um miliário Alto do Aguilhão contendo «alguns caracteres imperceptíveis» (Saa, 1967:81:62; Carneiro, 2008, 2011); este miliário poderia assinalar a via proveniente da travessia do rio Tejo em Belver (por Gavião, Atalaia e Comenda, cruzava a ribeira de Sor junto do Monte das Lameiras, subindo depois ao Alto do Aguilhão, onde apareceu o referido miliário; daqui poderia ligar a Fraxinum, mas pela direcção que trazia também é possível que seguisse directa ao Vale do Peso pelo Alto da Safra do Rebolo, seguindo o caminho de festo entre a ribeira de Vale de Magre e a ribeira do Monte da Pedra que cruza para Vale do Peso (act. 2020).

    Itinerário de Monte da Pedra a Alter do Chão por Aldeia da Mata
    Existe uma ligação entre Monte da Pedra e Alter do Chão, passando junto dos sítios romanos da Fonte Santa e Sampaio (marcas de rodados na rocha no cruzamento da ribeira, junto da linha férrea), continuando por Cabanas Salgadas e Quinta da Naba até Aldeia da Mata; daqui sai pela Fonte do Boneco rumo a Vale de vaqueiros, cruza a ribeira de Seda, a sul da linha férrea e segue pelo Monte do Murtal, Monte do Mato de Alter e Alto do Reguengo até Alter do Chão onde cruza o Itinerário XIV para Mérida. A continuação desta rota na direcção sudeste está descrita no Itinerário de Alter a Juromenha.

    Itinerário de Monte da Pedra a Alter do Chão pelo Crato
    Derivando no Monte da Pedra, esta via rumava a sudeste pelo «Caminho do Chamiço» que cruza a linha férrea e passa no geodésico homónimo, inflectindo depois para sudeste pelo Alto da Pedra do Rato, onde cruza a EM1022 que liga Vale do Peso a Aldeia da Mata; cruza a ribeira do Rôdo na Ponte Antiga e a ribeira dos Canais, seguindo por Flor da Rosa rumo ao Crato (estela de Cilea, IRCP 626). Daqui desce em calçada para a Ponte do Chocanol (ponte medieval que reutiliza materiais romanos, na base do Monte do Chocanol, o provável Vicus Camaloc(...) com base numa ara a Júpiter encontrada no caminho de acesso ao povoado colocada pelos Vicani Camalo[cani?, censis?]). Daqui segue para a travessia da ribeira da seda numa ponte reconstruída no século XVII, cruza a linha férrea e segue próximo da importante villa da Ganja e da respectiva necrópole 350 m adiante; daqui a via seguia talvez pelos altos de São Lourenço e São Miguel até Alter do Chão)
  • Ramal do Crato a Chancelaria: desviando para sudeste pela chamada «Estrada dos Louceiros», paralela à linha férrea, por Quinta de Marrocos, Alto da Abodaneira, margina o Monte do Aguilhão até ao Alto de Chancelaria, importante nó viário onde entronca na «Calçada do Alicerce» e no Itinerário XIV para Mérida.

Itinerário XV de Fraxinum a Montobriga por Vale do Peso m.p. XXX
Monte da Pedra (depois de cruzar a ribeira de Sor, a via passava junto do sítio romano do Sôrinho e no Alto do Monte da Pedra, seguindo depois rumo a Vale do Peso pelo chamado «Caminho do Chamiço»)
Vale do Peso (m.p. VII; a via passa a sul da Ermida de Santa Eulália, possível mutatio; daqui segue um caminho pontuado por sítios romanos que passa no Monte de Setil e a sul do Monte Cem Dias, Monte das Braguinas (m.p. XI), onde apareceram diversos vestígios, um capitel, colunas, silhares e estela funerária, IRCP 635, continua pelo Monte do Couto dos Algarves onde cruza a ribeira da Espadaneira, margina o sítio romano de Mosteiros e segue por Couto dos Guerreiros até Veladas)
Monte das Veladas (m.p. XV; possível a via passava a oeste da povoação de Fortios, junto do sítio romano do Monte das Veladas, onde há registo de 3 inscrições funerárias: epitáfio de [- - -]VGGO junto do cemitério, IRCP 633, e na arruinada igreja de São Domingos, o epitáfio de Urso, FE 132; assim tudo indica que se trata de uma mutatio da via Fraxinum e Montobriga, localizada a 15 milhas de ambas, ou seja, a meio percurso)
Portalegre (m.p. XX, a via passa a oeste da cidade por Lagar Velho, Frangoneiro, Coutada das Freiras, Alto do Casqueiro e Quinta da Misericórdia, onde cruza a ribeira da Lixosa e o IP2 (junto da Praça de Touros); continua rumo ao Alto do Carvalhal pela Herdade dos Fajardos, Monte Abrunheira do Conde e Monte da Abrunheira)
Urra (m.p. XXV; continua por Fadagosa e Azinhal rumo à travessia do rio Caia, junto do qual assentaria a estação de Montobriga)

MONTOBRIGA m.p. XXX | XCIV a Santarém
A estação viária poderia situar-se pouco depois da travessia do rio Caia junto do sítio romano da Herdade da Falagueirinha dado que este local está a cerca de 30 milhas de Monte da Pedra e a cerca de 14 milhas de Degolados, estando portanto de acordo com as distâncias indicadas no I.A.; a via continua a nordeste de Arronches por Venda e Nave do Grou, cruza a ribeira de Arronches a sul de Mosteiros e continua pelo Monte da Capela (villa), Monte do Rebolo, Monte de Martim Tavares (villa), Monte da Figueira de Cima, Monte do Baloco e Sequeirinha, reunindo depois com a via principal para Mérida adiante do Monte da Calaça, a 4 milhas de Degolados (act. 2017).

AD SEPTEM ARAS m.p. XII | CVIII a Santarém
Estação viária presumivelmente localizada no sítio romano do Monte das Argamassas entre Nossa da Graça dos Degolados e Campo Maior. Tudo indica que a partir daqui o percurso deste itinerário seria comum ao Itinerário XIV, ou seja, com a outra via que vinha de Lisboa por Alter Chão, dado que a distância de 20 milhas indicada entre Ad Septem Aras e Plagiaria correspondem exactamente à soma das distâncias intermédias indicadas nesse outro itinerário (12 a Budua mais 8 a Plagiaria). Deste modo, o restante percurso está descrito no âmbito do Itinerário XIV.

PLAGIARIA (Novelda del Guadiana; m.p. XX; XXX milhas a Emerita)
AUGUSTA EMERITA (Mérida; caput via)

ITER XXI - Item de BAESURIS PACE IULIA m.p. CCLXVII
Mapa

ITINERARIO XXI - Foz do Guadiana (BAESURIS) - Faro (OSSONOBA) - Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA) - Beja (PAX IULIA)
Item de BAESURIS
PACE IULIA

BALSA
OSSONOBA
ARANNIS
SALACIA
EBORA
SERPA
FINES
ARUCCI
PACE IULIA

m.p. CCLXVII
m.p. XXIIII
m.p. XVI
m.p. LX
m.p. XXXV
m.p. XLIIII
m.p. XIII
m.p. XX
m.p. XXV
m.p. XXX
O Itinerário XXI percorre o território actualmente designado por Algarve e Alentejo, indicando as principais mansiones ao longo de um percurso com origem na foz do rio Guadiana e término em Pax Iulia, capital regional e sede de um dos três conventus da Lusitânia. Não se trata de apresentar a via mais directa entre dois caput viae como é habitual nos outros itinerários, mas de apresentar um percurso que vai «tocando» nos principais focos de desenvolvimento do conventus Pacensis, mormente os grandes portos e oppida da região. Dessa forma a linha traçada pelo seu percurso é tudo menos recta, antes descrevendo uma longa espiral que termina na sua cidade capital, Pax Iulia. Os topónimos são em geral claramente pré-romanos pelo que com toda a probabilidade estas estações viárias assentam em geral sobre povoados da Idade do Ferro ou mesmo de tempos mais recuados. Aliás, a rede viária romana certamente que assenta sobre uma rede anterior pré-romana que servia os corredores comerciais anteriores à romanização. Da presumível origem Turdetana de Baesuris, Balsa e Ossonoba, associadas ao comércio Mediterrânico, aos nomes de origem céltica à medida que o Itinerário abandona a costa algarvia e ruma a norte, como Arannis, Ebora e Arucci, indiciam que estes povoados não seriam fundação romana. As restantes foram renomeadas, com «Imperatoria Salacia» a substituir a designação Beuipo do importante povoado da Idade do Ferro (Faria, 2002), o termo Fines a sugerir uma situação fronteira do território do conventus (Sillières, 1990:445) e claro a respectiva capital localiza em Pax Iulia, a actual Beja da qual desconhecemos o topónimo pré-romano. Deste modo a identificação destes locais deve sempre associar-se a povoados anteriores ao processo de romanização. O Itinerário XXI agrupa portanto um grupo de vias independentes, formando um arco que interliga os principais centros de povoamento da região. O primeiro troço corresponde à via entre a foz do rio Guadiana e Faro seguindo paralela à costa algarvia; entre elas existia apenas uma mansio localizada na importante cidade de Balsa (Mantas, 2003), ocupando os terrenos da Quinta de Torre de Aires em Luz de Tavira.

A partir de Ossonoba, o itinerário inflecte para norte rumo a Arannis cuja localização tem oscilado entre a aldeia de Santa Bárbara de Padrões no concelho de Castro Verde (Maia, 2000; Maia, 2006; Bernardes, 2006) e Garvão no concelho de Ourique (Ponte, 2010 e 2012). Embora estes povoados apresentem fortes evidências de ocupação romana, nenhum deles está localizado a 60 milhas de Faro, seja qual for o caminho escolhido. A essa distância temos antes o chamado «Castro da Cola», importante povoado durante a Idade do Ferro sobranceiro ao local de travessia do principal rio da região, o rio Mira, distando este ponto precisamente 60 milhas de Faro; a partir daqui o Itinerário seguia para Salacia (Alcácer do Sal) indicando para este troço apenas 35 milhas, distância manifestamente insuficiente para cumprir o percurso entre o Castro da Cola e Alcácer pelo que muito provavelmente o Itinerário omite uma estação intermédia que estaria a 35 milhas de Salacia, distância essa que coloca a mansio em Alvalade, importante nó viário de onde partiam vias também para Mirobriga (Santiago do Cacém), Pax Iulia (Beja) e Ebora (Évora). É possível que Alvalade possa corresponder a Sarapia, povoado referido por Plínio e em algumas cópias do Itinerário.

A partir de Alcácer do Sal o itinerário rumava a nascente na direcção de Ebora, tomando a via já referida no Itinerário XII de Lisboa a Mérida, confirmando assim as 44 milhas indicadas. A partir de Évora o Itinerário segue aparentemente rumo a Serpa, mas novamente a distância indicada é muito menor ao medido no terreno pelo que mais uma vez teremos de admitir a existência de uma estação intermédia a 13 milhas de Serpa, o que coloca esta estação junto à actual povoação de Pedrógão, local onde na época se fazia a importante travessia do rio Guadiana, justificando assim a existência de uma mutatio ou mesmo mansio. Por sua vez, a distância a Évora é de 40 milhas, valor típico de uma jornada. A partir de Serpa o Itinerário dirige-se para nascente e percorre XX milhas até à próxima estação designada por Fines certamente indicando o limite territorial de conventus Pacensis, mas a localização deste povoado continua por desvendar. Também a localização da estação seguinte designada por Arucci continua por desvendar, sendo que a respectiva mansio teria de estar, segundo o Itinerário, a 25 milhas de Fines e a 30 milhas de Pax Iulia (act. 2018).

O Itinerário foi dividido nos seguintes troços:
Mapa
Almargem


Quelfes


ITINERARIO XXI - Foz do Guadiana (BAESURIS) - Torre de Aires (BALSA) - Faro (OSSONOBA) m.p. XL

BAESURIS
BALSA
OSSONOBA

m.p. XXIIII
m.p. XVI
O primeiro troço do Itinerário XXI ligava a foz do rio Guadiana a Ossonoba, actual Faro com uma estação intermédia localizada na importante cidade portuária de Balsa, situada junto da Quinta de Torres de Aires em Luz de Tavira. As diversas propostas de traçado entretanto lançadas (Mantas, 1997a; Catarino, 1997; Fraga da Silva, 2002 e 2005; Sandra Rodrigues, 2004; Manuel Maia, 2006, Bernardes, 2011) partiram do pressuposto de que o único miliário até hoje conhecido do Algarve, descoberto no início do século XX junto à «Canada de Bias» em Bias do Sul, reutilizado numa nora (IRCP 660), pertenceria a esta via, sendo, portanto, uma prova inequívoca da sua passagem por estas bandas. Para além disso, a indicação de 10 milhas neste peculiar marco adequa-se à distância deste local a Faro pelo que esta tese, lançada por Fernandes Mascarenhas em 1967 acabou unanimemente aceite pela generalidade dos investigadores. Mais tarde acrescentou-se ainda a hipótese de o marco assinalar também a linha divisória que separava os territórios das civitates de Balsa e Ossonoba (Mantas, 1990:184). O marco ainda existe e está actualmente no Museu Municipal de Olhão, depois de ter estado muitos anos no interessante Museu Paroquial de Moncarapacho. De facto, todos os dados parecem apontar nesse sentido, no entanto, não existe evidência da existência de uma via que pudesse passar em Bias do Sul num eixo traçado de Faro a Torre de Aires. A possibilidade de a via seguir pelo traçado da actual EN125 a norte da Quinta do Marim não é viável porque teria de cruzar os diversos esteiros que nessa época penetravam bem o interior. Desse modo, a partir de Balsa, a via teria de seguir por Moncarapacho de modo a contornar esses mesmos esteiros, seguindo um trajecto que cruza a ribeira de Marim na Ponte Velha de Quelfes rumo a Faro. A ser assim, o miliário de Bias não assinalava a via de Balsa a Faro, mas uma outra via que corria na sua perpendicular designada por «Canada de Bias» que se dirigia para Querença passando em Moncarapacho (ver Outros itinerários do Algarve). O mesmo acontece no troço entre a Foz do Guadiana e Balsa perfazendo segundo o itinerário 24 milhas. Esta distância parece excessiva face ao trajecto actual, mas é preciso notar que a via teria de evitar os vastos esteiros que penetravam bem para o interior da actual linha de costa, obrigando a via a procurar pontos de passagem nos limites das zonas inundáveis como é o caso do rio Seco ou da ribeira de Almargem. Estes constrangimentos explicam as súbitas de direcção apresentadas pelo traçado que ruma inicialmente da margem do rio até Castro Marim, seguindo daqui para oeste para cruzar o rio Seco junto da povoação homónima. Depois ruma a sul até São Bartolomeu, área de grande densidade de vestígios romanos, inflectindo finalmente para oeste, direcção que mantém até Faro, passando no porto de Cacela Velha e por Tavira até à cidade de Balsa que ocupava uma vasta área que inclui as actuais quintas de Torre de Aires e das Antas. A seguir apresenta-se o seu provável trajecto.

BAESURIS (Foz do Guadiana)
Estácio da Veiga propôs a sua localização em Castro Marim com base num numisma aqui encontrado com as iniciais BAE (Mowat, 1900), tese actualmente praticamente consensual na comunidade científica (Faria, 1987; Arruda, 1988, 1996:96; 1997:244-245; Viegas, 2006:412-414; Fabião, 1992-93:232). No entanto, esta associação a este povoado da Idade do Ferro não está isenta de problemas dado que apesar de uma comprovada ocupação no período Republicano, o sítio acaba por ser abandonado no período Imperial (Angeja, 2017:136), eventualmente devido à inutilização do seu porto, apesar da manutenção de um pequeno embarcadouro no sítio do Enterreiro, onde se acharam diversos vestígios relacionados com a actividade portuária (Pereira et al., 2015). Por outro lado, a distância indicada no Itinerário de 40 milhas nunca poderia referir-se a Castro Marim dado que este povoado não dista de Faro mais do que 37 milhas, seja qualquer for o caminho escolhido. Ora, as 3 milhas em falta deverão corresponder à distância de Castro de Marim ao local da antiga travessia do rio Guadiana, a norte do Posto Fiscal da Rocha e da ponte actual, numa área designada por sapal da Venta de Moinhos, topónimo viário relacionado com esta travessia. Na outra margem, existe um cabeço designado por Cabezo Partido/Rejustos com domínio visual sobre toda esta área, havendo vestígios de povoamento do Bronze Final. Na margem direita, os únicos vestígios relacionados com esta passagem encontram-se a sul da ponte actual, no sítio da Zambujeira, onde apareceram materiais cerâmicos romanos e islâmicos. Na nossa proposta, a via passaria nos limites inundáveis dos vários esteiros que formavam a linha de costa na época, nomeadamente do Rio Seco e de São Bartolomeu (act. 2021).

De BAESURIS a BALSA m.p. XXIIII
Partindo da Venta de Moinhos, na margem direita do Guadiana, seguia para oeste por Zambujeira até próximo do Monte Francisco de modo a evitar o Esteiro da Lezíria. Aqui inflectia para sul, paralela à estrada actual, até Castro Marim (o Núcleo Museológico do Castelo guarda alguns materiais romanos encontradas na região); a partir daqui a via inflecte novamente para oeste a fim de evitar toda a zona inundável do rio Seco, seguindo paralela à EN125-6 por Horta de Dona Maria, Sapal Chão e Horta das Dragas, inflectindo aqui para sul cruzando o rio Seco. Ascendia à povoação homónima e tomava a estrada rumo a São Bartolomeu (área com grande densidade de vestígios romanos, muitos posicionados sobre a antiga linha de costa, como os sítios de Olhos, Aroucas e Sobral de Baixo, onde apareceu a inscrição funerária de Euprepes). Em São Bartolomeu, a via cruzava a linha férrea e rumava definitivamente para oeste, junto do sítio romano de Vale de Bôto, provável mutatio no limite inundável do Esteiro da Carrasqueira. Continua paralela à linha férrea por Alcaria (vestígios na Horta da Alcaria), rumo à travessia da ribeira do Álamo junto do topónimo Portela e dos sítios romanos de Arrife e da Torre dos Frades; continua do outro lado da linha pela EM1250 por Cruz do Morto, Bornacha (actual Vila Nova de Cacela, onde entronca na EN125); no sítio do Buraco desvia pela EM1242 até Cacela Velha (vila medieval implantada sobre estruturas romanas e islâmicas abrangendo o forte, a igreja e ainda parte da Quinta do Muro; há também vestígios de cetárias na villa da Praia da Manta Rota); daqui segue a EM1242 por Ribeira do Junco, Quinta de Baixo, Baleeira e Alto do Morgado, cruza a linha férrea e segue sob a EN125 até Conceição (vestígios romanos junto do topónimo viário Calçadinha, possível mutatio); logo depois cruza a ribeira do Almargem no local da actual Ponte do Almargem em Vila d'El Rei, (ponte antiga mas sem indícios romanos; no capítulo IV da Crónica da Conquista do Algarve como "caminho de Almargem": "(...) e vindo caminho direito por onde chamaõ o almargem acerca donde os moros estavaõ(...)" (Agostinho, 1792:245; Rodrigues, 2004:43). Daqui seguia para Tavira por Mato de Santo Espírito, Ermida de São Brás e Jardim da Alagoa.

Tavira (vestígios do povoado Turdetano-Fenício no antigo solar dos Corte-Real, actualmente em fase de escavação e musealização; na área urbana apareceu também um vaso com caracteres Fenícios, inscrição de carácter administrativo que foi associada às actividades portuárias (Maia, 2003). O local de travessia do rio Gilão/Séqua seria entre a Travessa de Asseca e a Capela de Ns. da Piedade, junto da Fonte da Praça e da antiga Porta da Vila, cerca de 70 m a montante da ponte actual dita "romana", mas que é seguramente uma construção muito posterior; a calçada que partia da margem do rio terá sido destruída com o desenvolvimento urbano de Tavira, devendo seguir junto do campo de jogos e da muralha por Bela Fria até ao nó viário do Alto do Cano, de onde partia uma via para norte rumo a Mértola. A partir do Alto do Cano a via terá sido destruída pela construção da linha férrea, mas deveria seguir paralela à rua Sebastião Leiria até ao Alto da Estação, local a cerca de 20 milhas de Faro. Continuava depois pela rua de São Pedro até próximo da EN125, onde toma o estradão em terra que passa junto das Quintas de Santo António e São Pedro rumo a Pedras d'El Rei (onde há notícia de existência de um troço calcetado e de uma possível villa), entrando na cidade romana de Balsa pela calçada da Quinta do Arroio.

BALSA (Torre de Aires) (a área urbana da cidade romana situa-se a sul de Luz de Tavira, abrangendo a Quinta das Antas e a Quinta de Torre de Aires)

De BALSA a OSSONOBA m.p. XVI
A via cruzava a área urbana e seguia a norte da colina do Pinheiro rumo ao santuário da Fonte Santa em Livramento, desviando em Arroteia da EN125, seguindo na direcção de Moncarapacho pela chamada "Estrada da Berlenga", trajecto que segue entre Areias e Maragota rumo a São Gião e daqui à Igreja de Moncarapacho (o Museu Paroquial de Moncarapacho guarda muito do espólio romano da região). Continua por Murteiras e Lagoão (EN369) rumo à Igreja Paroquial de Quelfes para logo depois cruzar a ribeira de Marim na Ponte Velha de Quelfes (ponte antiga, mas não de construção romana). Daqui seguia para Faro por Montemor, Brancanes, Queijeira, Belmonte, Bela-Curral, Vale de El-Rei e Areal Gordo, cruza o rio Seco (talvez a montante a ponte actual e a norte da villa portuária de Amendoal/Garganta; necrópole) e segue junto da Ermida de São Cristóvão (villa em Vale de Carneiros, junto do campo de futebol da Penha), entrando em Faro pela Estrada de São Luís (act. 2021; Rodrigues, 2004; Fraga da Silva, 2005; Bernardes, 2011).

OSSONOBA (Faro)
Cidade portuária ocupando a área de Vila-Adentro; a entrava no actual o centro urbano até à Ermida de São Luís, ponto inicial para a contagem miliária e de onde partia também a via para São Brás de Alportel. Entrando na malha urbana pela zona do Mercado Municipal rumo à Capela do Pé da Cruz, atravessando a grande necrópole entre o largo das Mouras Velhas e a rua Alcaçarias, seguindo depois pela rua do Bocage para entrar na cerca medieval pela Porta do Repouso até atingir o Largo da Sé. Um outro eixo seguia para poente pela rua Filipe Alistão e rua Serpa Pinto até ao Largo de São Sebastião (Bernardes, 2011:18). A igreja assenta no local da milha zero para a contagem miliária do troço seguinte de Faro a Alcácer do Sal)
Mapa
Alvalade


ITINERARIO XXI - Faro (OSSONOBA) - Castro da Cola (ARANNIS) - Alcácer do Sal (SALACIA) m.p. CXXV
OSSONOBA
ARANNIS
SALACIA

m.p. LX
m.p. XXXV
A partir de Ossonoba o Itinerário XXI seguia por Loulé, Querença e Salir, transpondo depois a Serra de Mú até ao Castro da Cola, onde se deverá localizar a mansio de Arannis, onde cruzava o rio Mira. Seguia depois por Garvão, povoado romanizado onde deveria existir uma mutatio por um caminho referido na Carta de Doação de uma herdade no termo do extinto concelho de Marrachique no ano de 1260 como «Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium» (Viana, 1960; Carvalho, 2009; Feio, 2009; Ponte, 2012).

Faro (OSSONOBA) (a via partia da necrópole do Largo São Sebastião, onde apareceu uma necrópole, seguindo junto da sepultura da Horta dos Fumeiros até chegar a Pontes de Marchil, continuando talvez paralela à EN125 por Patacão e Vale da Venda)
São João da Venda (m.p. V; possível mutatio; cruza o IC4 e segue aproximadamente a rota da EN125-4 por Esteval, Alfarrobeira, Goncinha)
Loulé (m.p. X; estranhamente sem vestígios romanos para além de uma ara votiva a Diana de proveniência duvidosa que apareceu na torre da Igreja Matriz de São Clemente, CIL II 5136, actualmente no MNA)
Querença (m.p. XVI; nó viário; a via continua a poente da povoação pela Azinhaga da Portela que sobe até à Nora de Pombal, onde toma o caminho de terra que cruza a rua da Eira junto do Monte dos Avós; continua pelo «Caminho do Borno», cruza a ribeira da Chapa e segue pela Portela de Vale de Alcaide para cruzar as Ribeiras da Salgada e do Sêco, seguindo depois próximo do povoado de Palmeiros (20 m.p.) e por Fonte Morena, Fonte do Ouro, CM 1102, junto do cemitério)
Salir (m.p. XXIII; necrópole em Torrinha; ara votiva a ...URNICUS no Museu de Loulé)

De Salir a Castro da Cola (ARANNIS) pela Serra de Mú m.p. XXXVI
A partir de Salir a via iniciava a difícil transposição da serra, seguindo junto da villa de Torrão, Alcaria, Alcaria do João e Pé do Coelho, ascende ao Alto da Malhão e continua pela EM1239 junto do Monte de Carvais de Cima (30 m.p.), Alto da Cruz, cruza a ribeira o Vascanito e segue por Éguas, Alto do Guincho, conflui na CM1148 que segue pelo Alto dos Três Moimentos até ao Alto de Mú; continua pelo CM1198 e Alto de Feiteira, onde toma o caminho à esquerda (CM1198:2) pelo Monte Novo da Estrada, Portela da Cruz (junto a Brunheira), Portela das Moreias, Alturas do Carvalhete (40 m.p.), Alturas do Semino, Alto dos Carriços, Corte das Cruzes, Monte das Cruzes, Alto da Boavista, Portela do Brejinho, Corte da Azinheira, Monte da Estrada, cruza a A2 e segue por Estaço (50 m.p.; possível referência a uma estação viária tipo statio, a 10 milhas do Castro da Cola), Monte da Alcaria Alta, Corte Formosa, Monte das Figueiras, Monte do Pego (passando a poente da villa do Monte da Hortinha da Abóbada), Portela do Lobo (cruza o IC1), Monte das Lajes, Monte Novo da Estrada, Portela da Carreira, Monte do Seixo e Alto do Azinhal.

Castro da Cola (ARANNIS) (m.p. LX; mansio e civitas no povoado adjacente à travessia do rio Mira e sede do extinto concelho de Marrachique; esta fortificação com origem na Idade do Ferro apresenta fortes sinais de romanização justificando a existência de uma statio neste ponto estratégico da rede viária entre o Algarve e o Alentejo. André de Resende transcreve uma inscrição proveniente daqui mencionando um tribuno da Legião X Gémina; depois de cruzar o rio, segue por Queimado do Telhado, Serro do Seixo, Monte da Bicada, Monte do Castelejo, Monte das Sismarias, Fonte da Corcha, cruza a EM1130 no Monte do Saraiva, e continua por Monte da Estrada, Monte Novo da Estrada, Monte da Corcha, onde apareceu a estela funerária de Boutia, seguindo daqui rumo a Garvão pelo caminho entre as ribeiras da Morgada e dos Cachorros que margina os fundi das villae de Zuzarte e da Herdade dos Franciscos, onde apareceu um busto em mármore e uma invulgar estela funerária de um imigrante Bracarus, oriundo do Castellum Durbede, actualmente no Museu do Garvão.

Garvão (mutatio a XII milhas de Arannis, junto do povoado da Idade do Ferro romanizado no Cerro do Castelo, sobranceiro à local de travessia da ribeira de Garvão que seria junto da Capela de São Sebastião, seguindo depois pelo Monte Novo da Piedade, Alto de Reipires, Monte da Crimeia Velha, onde apareceu o epitáfio de Licinius Fuscus, Montes de Corte Preta e Corte Branca, a nascente da aldeia de Santa Luzia, cruza a EN263 e segue pelo Monte de Vale de Alconde e Quintas, onde cruza a linha divisória entre os concelhos de Ourique e Odemira, continuando por um caminho actualmente destruído entre o Monte do Carvalhal e o Monte do Brejo (topónimo viário), seguindo depois por Alto dos Peneireiros cruza o CM1079 e entra no CM1079-1 pelo Alto das Fornalhas, servindo este troço novamente de divisão concelhia, passando pelo Alto do Carvalhal, Alto da Corredoura e Alto do Pombal até Alvalade; ao longo deste trajecto sucedem-se os vestígios de povoamento romano, em particular villae nas proximidades do rio Sado: uma estela funerária junto da estação CF de Montenegro, o epitáfio de Letondo no lugar de Courela, a villa de Torre Vã, o vicus? da Horta de São Romão e a importante villa da Herdade da Defesa)

Alvalade (mutatio a XXXII milhas de Arannis; notícia de duas «pedras cilíndricas com letras», possíveis miliários, uma na «Várzea de Alvalade» e outra na Herdade da Defesa [Feio, 2009]; o topónimo Alvalade deriva do árabe «al-valadi» ou «al-balat», no sentido de «estrada» ou «caminho calcetado/empedrado»; este importante nó viário teria um vicus ocupando a área do cemitério e está associado à travessia do rio Sado em «Porto Beja» / «Porto Ferreira» e local de cruzamento com as vias abaixo)

De Alvalade a Alcácer do Sal (SALACIA) pelas Minas do Lousal m.p. XXXV
A partir de Alvalade o Itinerário XXI seguia directo a Salacia percorrendo um total de XXXV milhas. A rota romana poderá coincidir com a antiga «Estrada Real» que passava junto da importante exploração mineira do Lousal, caminho, caminho descrito no «Roteiro Terrestre») passando pelas albergarias de «Bairros», «Nisa» e «Val de Guizio» rumo a Alcácer do Sal. Partindo da Igreja da Misericórdia em Alvalade (onde foi colocado o enorme peso de lagar proveniente da villa do Monte da Defesa), a via seguia pela actual rua de Lisboa rumo à Ponte Medieval sobre da Ribeira de Campilhas (antiga ponte reconstruída no século XVI com possível origem romana), continuando depois paralela à linha férrea pelo Monte da Ameira, Monte Branco (necrópole) e Monte da Mal Assentada até à aldeia de Ermidas-Sado que contorna pelo lado poente rumo a Faleiros, cruza a ribeira de Corona e continua pelo interior das Minas do Lousal para logo de seguida cruzar a ribeira de Lousal junto do chamado «Castelo Velho de Lousal» (provável fortificação romana controlando esta passagem da ribeira junto da ponte da actual da linha férrea; aqui seria a estalagem de «Bairros»), continuando depois pelo Monte da Rocha, Alto do Cabeço do Seixo, Alto da Encruzilhada (cruza a EN259) rumo à travessia da ribeira de Grândola junto do Monte de Anisa (antiga albergaria de «Nisa»; vestígios romanos de uma possível mutatio), continua pelo Alto do Brejo Redondo, Alto da Fresta, Lagoa Salgada, servindo aqui de divisória concelhia, Vale Ceisseiro e Vale de Guiso, cruza a ribeira do Arcão, seguindo por Arapouca (forno) rumo a Alcácer. A distância entre Alvalade e Alcácer por este caminho é de cerca de 35 milhas conforme indicado no Itinerário XXI.
Mapa
ITINERARIO XXI - Alcácer do Sal (SALACIA) - Évora (EBORA) m.p. XLIV
SALACIA
EBORA

m.p. XLIIII
O troço seguinte entre Salacia e Ebora numa distância de 44 milhas corresponde à via de Alcácer do Sal a Évora descrita no âmbito do Itinerário XII de Lisboa a Mérida, seguindo pela margem direita da ribeira de Sítimos até Santa Susana, continuando depois junto da Herdade de Água d'Elvira dos Padres rumo ao Monte dos Tabuleiros, e daqui por Tourega até Évora, totalizando 44 milhas.

Mapa
Rio Xarrama


Sitima




Torre do Lobo




ITINERARIO XXI - Évora (EBORA) - Serpa (SERPA) m.p. LV
EBORA
[Ad Anas]
SERPA

[m.p. XL]
m.p. XIII
A partir de Serpa o Itinerário XXI desvia da rota para Mérida rumo a Serpa. No entanto, a distância indicada de treze milhas é manifestamente insuficiente para percorrer o trajecto entre estes pontos. Esta incongruência sugere a existência de uma quebra na sequência de estações neste itinerário, sendo, portanto, as treze milhas referentes a outro local que não Évora. Assim, também não é possível afirmar com segurança que exista uma via directa de Évora a Serpa. Mário Saa seguido por outros autores têm proposto um trajecto por Portel, Veracruz e Marmelar, cruzando o Guadiana no Porto da Orada. A ser assim, então as treze milhas indicadas seriam referentes à travessia do Guadiana que se encontra sensivelmente a essa distância. No entanto, os escassos vestígios romanos ao longo desta rota colocam dúvidas nesta proposta de percurso. A via seguia possivelmente a divisória do concelho de Portel, atendendo à referência à via que venit de Elbora pro ad Serpam na demarcação do termo de Portel em 1258, seguindo pela Herdade do «Garduxo», «São Bento de Pomares» e «portel conelia», portela na Serra da Fasquia situada talvez entre Mendro e Bilharins (Bilou, 2000:159). Este caminho percorre a linha de festo que separa as bacias do Sado e do Guadiana, permitindo um percurso praticamente a seco rumo a Pedrógão e ao Porto da Orada (act. 2022; Carta Arqueológica do Concelho de Évora; Saa, 1958, 62-64; Bilou, 2000, 2000a, 2005:69-70; Carneiro, 2009, 104; Feio, 2010).

De Évora (EBORA) a Serpa (SERPA) por Portel
A parte inicial poderia ser comum à via para Beja, desviando no Porto da Camoeira para sudeste seguindo próximo do Monte da Torre de Lobo (dois possíveis miliários e mais dois fragmentos junto do casario do monte), continuando por Monte dos Castanhos, Feijoas de Cima, Herdade do Garducho, cruza a ribeira da Passada e segue junto do marco geodésico do Alto da Eira dos Pomares até Portel.

Portel (m.p. XXX; seguia talvez próximo do topónimo Atalaia e do povoado sidérico do Alto do Outeirão com ocupação no período Republicano, também conhecido por «Outeirão da Murada»; daqui segue por Laranjeiras/Zambujeiro, Monte do Ferro e Monte de Matraque até Portel, talvez a milha XXX)
Vera Cruz (m.p. XXXVI; vicus?; a igreja assenta num mosteiro visigótico; a via passaria talvez a poente da povoação)
Marmelar (m.p. XLI; necrópole; villa? vicus?; continua talvez próximo da necrópole da Herdade da Casa Branca, onde apareceu a inscrição sepulcral de Misinius Phanstianus; CIL II 9 = IRCP 432)

Variante pela Ponte do Xarrama
Gabriel Pereira dá notícia da existência de um troço calcetado logo à saída de Évora junto da Horta do Bispo (Pereira, 1948:296-335) seguindo em direcção à «Ponte Antiga» sobre o rio Xarrama, estrutura medieval que poderá ter origem romana, continuando pelo Monte da Sitima e Monte de São Marcos da Abóbada, atendendo aos possíveis fragmentos de miliários junto das casas do Monte (Bilou, 2004:69). Saída da cidade pela calçada pela Horta do Bispo, Bairro de Ns. do Carmo e Monte da Barbarrala Nova rumo à Ponte Antiga do Xarrama (continua pelo Monte da Chaminé, altos da Vigia e da Barroqueira, a nascente de Monte do Zambujal do Conde em direcção ao Monte de Sitima (possível miliário e mais 3 fragmentos junto à casa do monte). Daqui seguia para nascente cruzando a ribeira de Souséis e continua em calçada para Maceda/Alto do Marco, onde surgem mais 4 fragmentos de miliários anepígrafos junto do marco geodésico). Continua pelo Monte de São Marcos da Abóbada, passando a sudoeste de Torre de Coelheiros junto da importante villa romana da Abóbada situada a 12 milhas de Évora e por isso eventual mutatio. Seguia depois pelos limites da Herdade da Torre do Lobo, cerca de 3 km a nascente da sua torre medieval, pelo Alto do Seixo, entre Monte dos Frades e Monte da Carrapateira. Continua a sudoeste de Torre de Coelheiros, passando no Outeiro do Salto/Alto do Casqueiro e por Feijoas do Ramos, local onde apareceu tégula junto do sugestivo topónimo «Poço da Estalagem». Pouco depois entronca na variante anterior que vinha pela Camoeira.
Mapa
ITINERARIO XXI - SERPA - FINES - ARUCCI - Beja (PAX IULIA)

SERPA
FINES
ARUCCI
PACE IULIA
m.p. XIII
m.p. XX
m.p. XXV
m.p. XXX
Esta parte final do Itinerário XXI é a que coloca mais questões devido às incertezas que rodeiam a localização das estações intermédias, Fines e Arucci. «Fines» tem sido associada ao limite nascente do conventus Pacensis, no entanto, a sua localização ainda não reúne consenso; as propostas oscilam entre Paymogo (Caro, 1634:203), Corte Messangil (Lima, 1951, 194), Sobral de Adiça (Saa, 1964, IV, 171) e Vila Verde de Ficalho (Sillières, 1990, M.C. Lopes, 2000). Consequentemente, também continua incerta a localização da estação seguinte, Arucci, sendo que este povoado estaria, segundo o Itinerário, a 25 milhas de Fines e a 30 milhas de Pax Iulia. Como é óbvio, o esclarecimento deste «puzzle» teria um grande impacto no entendimento do povoamento romano nesta área porque tanto Fines como Arucci eram estações viárias com relevância regional a ponto de serem referidas também na Cosmografia do Anónimo de Ravena.

A problemática localização de FINES e ARUCCI
SERPA, FINES e ARUCCI no Ravennatis
A Cosmografia do Anónimo de Ravena apresenta a seguinte sequência civitates na descrição da «Spania»: «Item super fretum Septem sunt civitates, id est, Bepsipon, Merifabion, Caditana Portum, Asta, Serpa, Pace Iulia, Mirtilin,...» (Rav.IV.43). As três primeiras deverão corresponder aos principais portos romanos ao longo da costa Bética, nomeadamente Baesippo (Barbate?), Mercabulum (Ruinas de Patria, Conil de la Frontera?) e Gades (actual Cádiz); Asta deverá corresponder ao povoado romano na actual povoação de Mesas de Asta, a cerca de 40 km para norte de Cádiz; a partir daqui são mencionadas as civitates já em território nacional, com a sequência Serpa (Serpa), Pax Iulia (Beja) e Myrtilis (Mértola), sem no entanto mencionar Fines ou Arucci. No entanto, estes são mencionados mais adiante ao descrever as civitates da Betúria Céltica, indicando a sequência «Onoba, Urion, Aruci, Fines, Seria» (Rav. IV.45) que já apresenta alguma similitude com o percurso descrito no Itinerário XXI. Alguns autores (por ex. Sillières, 1990) leram nesta sequência as estações da via que ligava Huelva a Beja, "corrigindo" a última estação para Serpa. Apesar de inspirado no itinerário, o Ravennatis limita-se à listagem de povoados por regiões, sem uma sequência viária, fragilizando a hipótese de Fines e Arucci serem estações intermédias do eixo viário Serpa-Hispalis. Por outro lado, um percurso passando em Urion/Urium (muito provavelmente o importante complexo mineiro das Minas de Riotinto e povoado mineiro romano da «Corta del Lago») obrigaria a um desvio da rota ideal para Beja passando por Paymogo (act. 2022).

ARUCCI na Epigrafia
Inscrição a Agripina
[IV]LIAE AGRIPPINA[E]
[...] CAE[SA]RIS • AVG •
GERMAN[I] [CI] •
MATRI • AVG • N
CIVITAS ARVCCITANA
Esta famosa inscrição dedicada a Agripina foi colocada pelos habitantes da Civitas Aruccitana apareceu no Convento das Freiras Dominicanas em Moura (está actualmente no Museu Municipal) constitui a única referência epigráfica a Arucci que chegou aos nossos dias, sendo por isso um monumento essencial para a sua localização. A actual povoação de Moura assenta sobre um importante povoado da Idade do Ferro, possivelmente um vicus durante a época romana (Resende, 1593:172; Lima, 1988:69-70). No entanto, segundo um testemunho de Ambrosio de Morales na «Cronica General de España» de 1574, a pedra terá sido encontrada «entre la vila de Mora y la sierra de Aroche tierra de Sevilla» (Morales, 1574: IX 266). No entanto, um ano depois escreve no seu «Antiguedades de España» que «esta piedra se hallo en la sierra de Aroche, la qual confina con Portugal, y llevose a Mora, lugar pequeño que esta allí junto» (Morales, 1575:101; Germain, 2016:324-329). Deste modo, ficou estabelecido desde o século XVI que a "pedra" apareceu na Serra de Aroche ou nas suas cercanias de forma a manter a equivalência Arucci=Aroche (Encarnação, 1989:157, 1998:37-38, 2007, 358-361; Canto, 1997:136; Bermejo, 2016).


Inscrição a Paulina
M(arco) Atterio Paulina M(arci) f(ilio)
qui tumultuario Bethicae
bello asurgen(te)
multa pro rep(ublica) Aruccit(ana)
5 bel(lo) retinen(da) fortiss(ime)
gess(erat). Aruccitani Vet(eres)
et Iun(iores) opt(imo) civi
Inscrição a Hércules
Herculi deo
invicto et reip. Aru-
ccitanae patrono
stat. aeream
secund. Thebani templi tro-
ph. Aruccitani d. d.

Outras inscrições da Civitas Aruccitana
Ambrosio de Morales refere mais duas epígrafes também gravadas em pedestais de estátuas que mencionam a Republica Aruccitana, supostamente encontradas na área de Aroche, mas que foram classificadas como falsas por muitos autores (Canto, 1997:145). A primeira é honorífica e foi colocada pela Republica Aruccitana a Marco Atterio Paulina em agradecimento pela sua acção durante uma guerra (CIL II 100; Canto, 1997:145, nº 4) e a segunda é uma dedicatória ao invencível Deus Hércules, patrono da Republica Aruccitana (CIL II 99; Morales, 1575:101; Canto, 1997:369). Apesar das dúvidas sobre a veracidade dos textos, tudo indica que estas inscrições formariam um grupo monumental simbolizando o poder administrativo da civitas, no mesmo local da inscrição a Agripina, ou seja, Moura. Aliás, esta hipótese parece ser confirmada nas Memórias Paroquiais da Freguesia de Santo Agostinho (Moura), especificando que o pedestal de Paulina apareceu junto ao Ardila, numa courela do convento das carmelitas junto a Porto Mourão. Assim, tudo indica que todas estas inscrições apareceram de facto em Moura e não a Aroche, local do qual dista mais de 70 km(!).

ARUCCI em Moura?
A descoberta da inscrição de Agripina em Moura vinha de certo modo pôr em causa a tradicional associação de Arucci a Aroche, o que terá levado Morales a inventar uma localização a meio percurso, na Serra da Aroche, de forma a integrar o seu território. No entanto, esta incongruência não passou despercebida ao seu contemporâneo André de Resende que no intuito de resolver a questão acaba por propor a existência de duas civitates, uma designada por Arucci Nova, localizada em Moura, e outra designada por Arucci Vetus localizada em Aroche, apoiando-se numa interpretação errada da inscrição de Agripina onde leu na última linha N.(ova) Civitas Aruccitana (Resende, 1593:171-172). Esta leitura da letra "N" como abreviatura de nova foi já questionada por Hübner que corrigiu para N(ostrae) (CIL II 963), sendo hoje mais consensual a alternativa N(epti)(...) segundo proposta de José d'Encarnação, pelo que a personagem representada seria Agripina a Maior, neta do Imperador Augusto e mulher Germânico, sendo portanto a inscrição datada em torno do ano 37 d.C. (1989:157-160).

ARUCCI em Aroche?
A associação de Arucci com a povoação de Aroche foi sendo cristalizada na tradição historiográfica do país vizinho desde o século XVI, muito influenciada pela similitude fonética. No entanto, os dados disponíveis actualmente contrariam liminarmente esta hipótese dado que não se conhece níveis de ocupação do período romano na actual povoação que terá sido fundada apenas no século XI ou XII (Canto, 1997:136; Pérez Macías et al., 1999:198; Campos Carrasco et al., 2013:116). Para contornar o problema, propôs-se a sua associação com o importante sítio romano em torno da Ermida de San Mamés (Llanos de la Belleza), 3 km a norte de Aroche. No entanto, esta povoação não apresenta vestígios pré-romanos pelo que a sua associação com Arucci é assim problemática. Procurou-se então associar Arucci a um dos povoados pré-romanos das imediações, ou no sítio romano da Fuente Seca, mas nenhum dos argumentos apresentados parece validar qualquer destas propostas (act. 2022).

FINES em Messangil?
Para além da referência a Fines no Itinerário de Antonino e do «Ravennatis», não se conhece outra referência a este povoado, estando omisso na epigrafia. Fragoso Lima situou esta estação junto à Fonte de São Miguel em Messangil onde apareceram várias epígrafes e restos de edifícios, dispersos por uma área de 5000 m2. Pierre Sillières considera que se trata de uma mutatio da Via Beja-Aroche, posicionando Fines Vila Verde de Ficalho, baseando-se na distância aproximada de 20 milhas a Serpa (Sillières, 1990), enquanto Conceição Lopes propôs que esta servia antes uma via norte-sul de Moura a Vila Verde de Ficalho (M. C. Lopes, 2000:74-75). De facto tudo aponta para existência de uma estação viária nesta área. A primeira referência ao sítio surge no século XVI por André de Resende como um «semidirutum oppidum, ad pagum quem uocant Vallemuargi», ou seja «uma povoação semidestruída junto à aldeia a que chamam Vale de Vargo» tendo registrado uma das quatro inscrições de ali viu, junto da desaparecida Ermida de São Miguel (Resende, 1593:173).

FINES em Paymogo?
Em 1634 Rodrigo Caro publica no seu «Antigüedades y Principado de la ilustrísima ciudad de Sevilla» o achamento de uma inscrição funerária "no lexos de la villa de Paymogo, yendo yo camiñado por el móte" (Caro, 1634:203), sugerindo Fines poderia estar nas proximidades. Em 1862, Eduardo Saavedra retoma a proposta de Caro no terceiro apêndice do seu famoso discurso diante da «Real Academia de la Historia» na sua qualidade de «Engeniero de Caminos», dizendo que "Debió estar en un punto cerca de Paimogo, donde se han hallado antigüedades y es una entrada muy concurrida de Portugal." (Saavedra, 1862:93). De facto a vila de Paymogo está situada numa antiga estrada para Portugal, sendo aliás a única estrada assinalada entre a Andaluzia e Portugal no mapa dos «Reynos de España e Portugal» elaborado por Jean Baptiste Nolin em 1766 (ver aqui). A estrada cruzava Rio Chança/Chanza junto da «Casa de Bertolo», rio que servia e ainda hoje serve de fronteira entre Portugal e Espanha, e muito provavelmente, também das províncias da Lusitânia e da Bética em período romano. Este importante eixo viário servia as explorações mineiras das proximidades (em Vuelta Falsa, Grupo Malagón, Paymoguillo el Viejo, La Romanera e La Sierrecilla do lado espanhol e Serro de Ouro e São Domingos do lado português). No entanto, não dispomos de qualquer dado que permita a sua associação a Fines para além da situação fronteiriça desta passagem do Chança (act. 2022).

Viae ab ARUCCI
Mapa
Moura (ARUCCI)
Os vestígios encontrados em Moura indiciam a existência de um aglomerado urbano secundário construído sobre um anterior povoado da Idade do Ferro. Necrópoles romanas no Bairro das Sete Casas e em São Sebastião. A sua importância como nó viário advém da sua posição estratégica, articulando as ligações a norte (Évora e Monsaraz) com as povoações a sul como Beja, Serpa, Mértola e a estrada para Sevilha. É possível que corresponda à estação de Arucci mencionada no Itinerário e sede da Civitas Aruccitana. No entanto, a descoberta de quatro selos de dolia do período alto-medieval com o possível topónimo LACALTA e a inscrição: «Eclesiae Sanctae Mariae Lacaltensis Agripi» (Canto, 1997), parece sugerir uma mudança de nome nesse período. Um selo idêntico foi encontrado noutro dolium a cerca de 10 km, no Monte da Salsa (Brinches), presumivelmente do mesmo fabricante sediado em Moura (Wolfram, 2011). O Museu Municipal de Moura (actualmente encerrado!) guarda importante espólio recolhido por Fragoso Lima em meados do século XX, incluindo o miliário de Corte do Alho e a ara funerária de Priscilla, originária de Pax Iulia. As duas necrópoles romanas do povoado, Bairro das Sete Casas e São Sebastião, poderão indicar as saídas das respectivas vias.
Mapa
Évora (EBORA) - Moura (ARUCCI) m.p. XLVII
A rota Évora-Moura seguia talvez por São Manços e Monte do Trigo (tesouro de denários no Monte de Pernes, junto à via), continuando depois por Amieira e junto das antas de Chão da Pereira e de Torrejona rumo ao Porto da Moncarxa, onde cruza o rio Degebe. Daqui continuava por Musgos até ao Porto de Évora, onde cruza o Guadiana, seguindo depois para o cruzamento do Ardila na base do Castro de Azougada. Daqui ascendia à povoação de Moura.
Mapa


Moura (ARUCCI) - Serpa (SERPA) m.p. XX
Partindo de Moura, a via desviava da EN255 junto a São Lourenço e rumava a sudoeste, seguindo pelo Monte das Sesmarias, Monte Panasco, Monte Branco (villa), Monte da Capela (casal); cruza o Barranco das Amoreiras), seguindo até Pias (lápide funerária de Apolausis na Ermida de Santa Luzia). Continua talvez pelo Alto das Barreira Brancas e Monte Velho dos Canivetes, cruza a ribeira de Enxoé, e segue próximo do Monte da Chilra, junto do qual apareceu um miliário (servindo de limite com a herdade do Monte dos Alpendres de Lagares, actualmente numa casa particular em Serpa), continuando depois pelo sítio romano do Monte da Capela, a oeste da villa de Torre Velha, seguindo depois para Serpa.
Mapa
Moura (ARUCCI) - Aroche - Sevilha (HISPALIS)
A via seguia talvez pela Herdade dos Machados onde há notícia de um troço em calçada, continuando próximo da Atalaia da Casinha até Montes Juntos (estela e cupa funerária), continuando por Borrazeiros (villa e necrópole) até à Ermida da Coroada, seguindo depois a margem esquerda da ribeira de Toutalga. Neste troço Fragoso de Lima identificou um miliário em mármore com letras («na extrema da Coroada com o Motum», e próximo da «riquíssima estação do Cabeço Redondo»), fazendo também referência a mais 4 marcos iguais «entre a Coroada e o Monte de José Navas», informação não confirmada. O marco terá ido para Moura onde se perdeu. O local original deverá corresponder ao marco divisório entre as propriedades Motum e Coroada, junto do povoado sidérico do Cabeço Redondo que foi abandonado pelos finais do século V a.C. (Soares, 2012). A via continuava pela Herdade da Negrita (anta; possível mutatio) para a cruzar a Serra de Aroche pelo actual marco fronteiriço designado por Cabeço do Pereira, descendo depois ao vale do rio Chança, onde temos outra possível mutatio no sítio romano de Fuente Seca. Daqui seguia o vale, passando na base do Castelo de Aroche rumo a Sevilha (ver também o itinerário de Beja a Sevilha).
Mapa
Moura (ARUCCI) - Beja (PAX IULIA) por Brinches m.p. XXX
Segundo Fragoso Lima a via saía de Moura pelo caminho de terra junto da EN258 que passa nos terrenos do Forte pelo Bairro Oeste nas Encarreiradas e pela chamada calçada da Ladeirinha Branca rumo a Pisões, onde há vestígios de calçada e de uma ponte antiga com possível origem romana sobre o ribeiro de Torrejais (Lima, 1951:188); cruzava depois os olivais de Bogas de Ouro e Farelos, continuando por Pisanto e Brinches rumo à travessia do rio Guadiana no vau de Vale de Brisão/Beirão/Casa da Barca, seguindo depois por Folha do Ranjão (povoado da Idade do Ferro), Baleizão (grande povoado fortificado da Idade do Ferro no Cerro Furado; no Monte do Torrejão apareceu uma curiosa inscrição funerária da filha de Blossius Saturninus, habitante de Balsa, membro da tribo Arniense e natural da Colónia Iulia Neapolis, cidade situada na actual Tunísia junto à moderna cidade de Nebel Kedin, CIL II 105; IRCP 294; na Herdade do Passo do Conde, apareceu a cupa funerária de Verus, FE 686), cruza a ribeira da Cardeira em Porto Peles (vestígios de ponte antiga) seguindo junto da Quinta da Mongeralda em Ns. das Neves rumo a Beja.

Moura (ARUCCI) - Beja (PAX IULIA) pelo Porto da Orada m.p. XXX
É possível um percurso alternativo mais directo que cruzava o rio Guadiana no Porto da Orada, continuando depois por Monte das Aldeias, Monte da Rabadoa, Herdade da Barbas de Lebre, Alto da Amendoeira, Monte das Apolinárias, entrando em Beja pelo nó de São Pedro. Este trajecto perfaz cerca de trinta milhas com o Guadiana a meio percurso, sendo essa a distância entre Arucci e Pax Iulia.
Mapa
Vila Ruiva


Vidigueira

Alcácer do Sal (SALACIA) - Torrão - Serpa (Serpa?)
Este itinerário teria um traçado comum à via para Beja, mas após a travessia do rio Xarrama no Torrão desviava desta para nascente, seguindo na direcção oeste-este rumo a Alvito e ao respectivo vicus em São Romão; cruza pouco depois a ribeira de Odivelas na Ponte Romana de Vila Ruiva e segue rumo a Pedrógão onde cruza o rio Guadiana, continuando depois até Serpa.

De Torrão a Vila Ruiva por Alvito m.p. XVII
A via poderia seguir aproximadamente o trajecto da EN383 para o Alvito, passando por Vila Nova da Baronia, onde há vestígios romanos em Sobral das Barras e na Herdade da Mina (Feio, 2010). Em alternativa a via seguiria directo ao Alvito por Mortais, Vale Paraíso de Cima, Cortes Grandes, Cortes Pequenas, Serrinha, Castelo Ventoso, Lanças, Pereiras, Capela de São Bartolomeu e Velórios. A partir do Alvito, a via continuava até à ponte romana sobre a ribeira de Odivelas.
Ponte Romana-Medieval de Vila Ruiva sobre a ribeira de Odivelas (mutatio?)

De Vila Ruiva a Pedrógão por Vidigueira m.p. XXI
Da ponte romana ascendia à povoação de Vila Ruiva, inflectindo aqui para nascente, desviando assim da via para Beja, retomando a orientação oeste-este com que trazia do Torrão; seguia por Vila Alva (cupa anepígrafa na Ermida de São Bartolomeu), Vila de Frades (junto da imponente villa de São Cucufate), Vidigueira (miliário anepígrafo no cruzamento das ruas Hortinha e Caldeireiros), continuando pela rota da EN258 próximo da Horta da Marineta, Monte do Poço Seco, Monte do Zangarilho, Monte do Malheiro, Monte da Ordem, Monte do Peso até atingir Pedrógão.

Pedrógão (possível mutatio na da Horta do Cano; cupa funerária no Monte das Fontes)
Travessia do rio Guadiana (m.p. XLVII; a vau, no chamado Porto da Orada, havendo vestígios romanos na outra margem, sítio referido de Galeados; daqui ascende pelo Monte dos Galeados e da Mina das Azenhas até confluir na estrada actual, EN265, junto do Monte da Várzea)
Brinches (m.p. LI; continua junto da villa do Monte da Salsa, sítio hoje destruído, onde apareceram 3 epígrafes, a cupa funerária com o epitáfio de Valeria Amma, a estela funerária de Valerianus e uma estátua de Esculápio; de seguida cruza a ribeira de Enxoé em Casa Branca e continua pelo Monte da Torre do Lóbio, Monte Capicua, Monte do Manuel Azevedo, Monte da Cerejoa e Horta do Folgão, entrando em Serpa pela rua Serpa Pinto)
Serpa (SERPA) (m.p. LX; mansio; oppidum?; o epitáfio de Mustia assinala colonos originários de Útica, actual Zana, Tunísia)

Viae a PAX IULIA
Mapa
Porto da Lama




Torrão


Alfundão


Beringel


Alcácer do Sal (SALACIA) - Torrão - Beja (PAX IULIA) m.p. L
A via de ligação entre Alcácer e Beja passava na povoação do Torrão onde cruzava o rio Xarrama. Há três miliários atribuíveis a esta via, o miliário de Porto da Lama junto da travessia da ribeira de Sítimos, o miliário do Monte do Olival referido por Resende e o miliário de Valentiniano I e Valente que apareceu junto da villa da Fonte dos Cântaros em São Brissos, a 5 milhas de Beja. Este itinerário deveria desviar da via Lisboa - Alcácer do Sal junto da estação viária dos Albergues, seguindo depois rumo à travessia da ribeira de Sítimos junto do Monte da Arcebispa, onde cruza com a via de Alcácer do Sal a Évora)

Porto da Lama, Santa Catarina de Sítimos (villa romana do Monte da Lama, provável mutatio dado que na área do desactivado campo de aviação apareceu um miliário da Tetrarquia de Constante, Galério, Maximiano e Diocleciano cortado longitudinalmente, actualmente deitado por terra na área das ruínas do depósito de água em Alcácer do Sal, IRCP 671; Faria, 1986; a montante da ribeira há também vestígios de uma villa em Santa Catarina de Sítimos; seguia depois próximo do marco geodésico de Vale da Água, cruza a ribeira de Alfebre e continua por Bugiada, Monte da Boavista, Malhadas, Carvalhoso, Fonte Videiros, Monte do Vale de Arquinha e Ermida de São Fraústo, passando próximo da Anta da Lapa de São Fraústo)
Torrão (vicus e provável mutatio situada num importante nó viário que articulava as vias provenientes de Salacia e Ebora com a vias rumo ao sul quer a Beja quer a Faro; há vestígios do vicus na área do Centro Escolar e da Fonte Santa e das respectivas necrópoles no Penedo Minhoto e da Capela de Ns. do Torrão; a via entrava na povoação pela chamada «Calçadinha Romana», troço calcetado com cerca de 300 m que conduz à antiga travessia do rio Xarrama, onde poderia existir uma ponte romana e seguia talvez pelo Monte de Vale Paraíso de Baixo, Monte da Fonte Longa, Monte das Soberanas de Baixo, Monte da Ervedosa, Monte das Faias para cruzar a ribeira de Odivelas junto do Monte do Olival)
Odivelas (André de Resende e depois Túlio Espanca referem um miliário no Monte do Olival entretanto desaparecido, atestando a passagem da via a nascente de Odivelas por Monte Outeiro, Penique e Casa Branca, seguindo a nordeste do fortim romano de Casa Branca que deveria controlar a sua passagem, actual limite concelhio, continuando depois por Moutinho, Vilar e Monte da Caçapa, cruza a ribeira de Alfundão e segue por Monte Rossio e Figueiras até Alfundão, passando próximo das villae de Fonte Boa, Castelo Ventoso e Barranco de Rio Seco)
Alfundão (a via segue pela rua da Estalagem, atravessava a povoação e cruza o Barranco da Aldeia numa ponte antiga com prov