Category Archives: Milestones

Rede viária entre Douro e Vouga

Fig. 1 – A rede viária antiga na região litoral entre Douro e Vouga (actualização 2024)

A recente revisão do trajecto do Itinerário XVI entre Lisboa e Porto que tem vindo a ser publicada em artigos recentes evidencia finalmente um acerto total do percurso com a contagem miliária. Daqui resultam as propostas de identificação das estações mais problemáticas referidas nesta rota, no caso, as estações de Ierabriga, Seilium e Talabriga, cuja localização continua em discussão, mas que segundo este estudo seriam identificadas respectivamente com os povoados proto-históricos do Monte dos Castelinhos (Castanheira do Ribatejo), Castro de Ceras (Tomar) e Castro da Ns. do Socorro (Albergaria-a-Velha). 

A solidificação do percurso proposto e coerência com a contagem miliária permite identificar os possíveis locais de cruzamento com outras vias, ditas secundárias. Em resultado desta análise, foi possível definir melhor o traçado das variantes e vias transversais a este eixo norte-sul que funcionava (e funciona ainda hoje), como coluna vertebral de toda a rede viária do litoral português. Em artigos anteriores referiu-se o caso da via transversal por Alenquer e da chamada Via Colimbriana, variante da rota XVI que partia também de Coimbra rumo ao Tejo, mas que seguia por uma trajecto alternativo (“saltando” Conímbriga), passando em Penela, Ansião e Fungalvaz, reunindo com o eixo principal a sul de Tomar, logo após esta cruzar o rio Nabão.

O mesmo se passou na região entre Vouga e Douro, onde as dúvidas eram muitas devido à incoerência com as distância indicadas nos roteiros romanos (possivelmente um erro), como discutido neste anterior post. Com a fixação da nova proposta de trajecto passando junto do Castro da Ns. do Socorro (Talábriga, segundo a contagem miliária), o traçado mais lógico seria este continua directo ao Castro de Lações (actual Santuário da Sra. de La-Salette) dado que a sua passagem junto do Castro de Úl obrigaria a um desvio desnecessário, para além de uma difícil passagem do rio Úl, na base do castro, em particular quando existem trajectos mais facilitados, tal como aquele que viria ser adoptado pela Estrada Real por Travanca (ver novo itinerário aqui #lacoes). Ora, então como explicar o achado de um miliário na Igreja Paroquial de Úl?

Dada a extrema raridade de miliários neste eixo (facto que não deve desvalorizar a importância desta rota desde a antiguidade), e o facto do exemplar de Úl indicar 12 milhas, valor que se ajusta à distância entre Úl e a próxima estação mencionada nos itinerários, Langobriga, cuja identificação com o Castro de Monte Redondo em Fiães (Almeida e Santos, 1971) não sofre actualmente qualquer contestação, justificava a sua inclusão neste trajecto . Deste modo este testemunho viário foi sempre associado (e diga-se, com a toda a lógica) ao trajecto principal rumo a Lisboa, dado se encontrar no alinhamento deste eixo viário (Almeida, 1956).

No entanto, o relativo afastamento da rota principal permite equacionar uma outra explicação, a possibilidade de este marco assinalar não a via para Lisboa mas um ramal desta estrada rumo ao litoral que partia do Castro de Lações para sudoeste, cruzando Oliveira de Azeméis rumo a Úl . Deste modo, estaria explicado o facto de o segundo miliário ter sido encontrado em Adães, na outra margem do rio Antuã, junto da Igreja de Ns. de Febres, que se encontra precisamente a uma milha da Igreja de Úl (e a quatro milhas de Lações). Daqui a via um percurso sensivelmente paralelo ao rio Antuã até às proximidades do Castro de Salreu.

Pouco antes de atingir a actual povoação de Salreu, junto a Santo Amaro, confluía na chamada via litoral que liga Porto a Estarreja (rota da actual EN109), seguindo até à Capela da Ns. da Luz, local a 10 milhas de Úl e 32 milhas de Cale. Seguia depois por esta última cruzando o rio Antuã na base do Castro de Salreu, continuando por Canelas até Roxico, local fulcral da rede viária dado que se encontra a 15 milhas do Castro de Lações (e a 40 milhas de Cale), mas em particular porque se encontra a 12 milhas da Igreja de Úl que é a distância indicada no miliário ali encontrado.

A ser assim, indicaria a distância entre a travessia do rio Antuã e a área de Roxico em Fermelã, possível deturpação do topónimo Rio Seco (Bastos, 2006) mencionado num documento de (PMH DC 557), podendo indicar a distância do Castro de Úl ao acesso ao mar. Toda esta área está muito alterada devido ao actual assoreamento da ria, mas é possível aqui este local estivesse sobre a orla do paleo-estuário do Vouga, até porque na outra margem temos evidência de actividade portuário no povoado da Torre da Marinha Baixa, também hoje bem afastado do mar (Sarrazola, 2003: 160). Apesar da aparente relevância viária deste local não são conhecidos vestígios romanos ou anteriores em toda esta vasta área. Daqui haveria ligação ao eixo principal para Lisboa, quer partindo de Roxico rumo a Albergaria-a-Velha, quer continuando a sua directriz para sul, seguindo pelo Cabeço de Angeja rumo a Serém de Cima, isto é, entroncando no eixo para Lisboa a uma milha do local de cruzamento do rio Vouga.

Em síntese, estas propostas configuram uma variante da rota principal para Lisboa que desviava logo após a travessia do rio Douro em Cale e que seguia mais próxima do litoral até ao paleo-estuário do Vouga (ver #cale_vouga). A esta rota confluía o referido ramal que partia do Castro de Lações também rumo ao Vouga (e ao comércio marítimo), passando por Úl. O restante trajecto para Cale não sofreu alterações de monta.

Por fim, o ramal que partia do Picôto (EN1) pelo Castelo da Feira (reunindo com o eixo principal na Ponte da Pica, pouco antes de atingir o Castro de Lações), tem afinal continuação para o Castro de Crestuma, onde havia cais fluvial durante o período romano, criando assim o itinerário #crestuma_pica . Cruzando o rio seguia por Esposade, Compostela, Foz do Sousa e Alto do Jovim, seguindo a rota da Estrada de Dom Miguel  até ao nó viário de Monte Alto em Valongo onde entronca na via Cale-Tongóbriga (ver #porto_freixo), a 10 milhas do rio Douro. Uma variante desta rota cruzava o rio Douro no cais de Arnelas reunindo com variante por Crestuma, evitando assim o cruzamento do rio Sousa .

Fica assim completo o panorama geral da rede viária entre Douro e Vouga, em particular com a publicação destas novas propostas viasromanas.pt e cartografia dos respectivos trajectos no novo Mapa de Vias (ver. 5.5, Janeiro de 2024). A escassez de dados arqueológicos, nomeadamente de carácter epigráfico, não permite ainda confirmar estas identificações das estações viárias, mas tem a virtude de apontar o nosso olhar para locais de particular relevância para a rede viária, como a referida ligação de Cale ao estuário do Vouga, e dos sucessivos ramais que ligavam ao eixo principal para Lisboa, interligando os sucessivos povoados proto-históricos dispostos ao longo deste percurso como Lações e Ns. do Socorro ao mar.

Eventualmente, o nó viário viário do Rio Seco seria apenas o cais de passagem para a outra margem do paleo-estuário, assim explicando a ausência neste local de vestígios relevantes, enquanto na outra margem temos abundantes vestígios de um povoado portuário romano da Torre em Cacia, nomeadamente evidência de um complexo industrial para a produção de vidro, lugar simbólico de uma região ainda hoje com um forte carácter industrial.

Janeiro 2024

Bibliografia:

ALMEIDA, C.A.F.; SANTOS, E. (1971) – “O Castro de Fiães”. Revista da Faculdade de Letras. Série de História. II., 147-168.
ALMEIDA, F. de (1956) – “Marcos miliários da via romana «Aeminium-Cale»”. OAP, 2ª Série, Vol. III, 111-116.
BASTOS, M. R. (2006). O baixo Vouga em tempos medievos: do preâmbulo da Monarquia aos finais do reinado de D. Dinis. Diss. de Doutoramento – Universidade Aberta.
OLIVEIRA, Pa. M. de (1943) – “De Talabriga a Lancobriga pela Via Militar Romana”. Arquivo do Distrito de Aveiro, Vol. IX.
SARRAZOLA, A. (2003).- “Tentativa de enquadramento histórico dos contextos de abandono da Marinha Baixa/Torre (Cacia, Aveiro) – séc. V-VI”. Era Arqueologia 5: 150-163.

Travessias do Douro entre Régua e Numão

O acidentado terreno das margens do rio Douro não permite a circulação de carros paralelamente ao rio. Assim, por regra, todas as vias na região assumem uma orientação norte-sul, aproveitando as lombadas das encostas que caiem para o rio, e cruzando este (por barca), ascendia na outra margem por nova lombada rumo à zona planáltica.

A imperativa necessidade de cruzar este grande rio da Península, em conjunto com a sua orografia particularmente difícil, moldou uma densa rede de vias norte-sul com inúmeros pontos de travessia não muito distantes entre si. Muitos dos estudos sobre viação antiga no Douro ignoram esta regra, sugerindo ligações paralelas ao rio que apesar de parecerem lógicas no mapa são inviáveis no terreno, com fortes pendente e difíceis travessias dos seus afluentes que se precipitam encosta abaixo para o rio Douro.

Os principais pontos de passagem do rio estão razoavelmente identificados, mas subsistiam muitas dúvidas no troço do rio que medeia entre Peso da Régua e terras de Numão. Os achados arqueológicos e alguns troços de via antiga apontavam para alguns nós viários importantes como Moimenta da Beira, Paredes da Beira, Penedono e São João da Pesqueira. No entanto, os trajectos finais destas vias continuavam incertos tanto para norte como para sul do rio. Deste modo, os achados que apontavam para a existência de um vicus viarum em cada um destes nós, permaneciam descontextualizados do ponto de vista viário.

Uma via anteriormente identificada provinha de Chaves em direcção ao rio Douro passando na região mineira de Trêsminas e junto do Santuário de Panóias, cruzando o rio junto a Covelinhas. Seguia depois próximo do Castro de Goujoim rumo a Moimenta da Beira. Uma derivação desta estrada desviava em Campo de Jales para sudeste por Alto do Pópulo rumo à travessia do rio Tua junto das Caldas de Carlão. Daqui seguia para a travessia do Douro junto do povoado mineiro da Senhora da Ribeira, cruzando depois o território de Numão.

Havia suspeitas da existência de outras vias no espaço que medeia entre Covelinhas e Numão, nomeadamente a via que cruzava Paredes da Beira no concelho de São João da Pesqueira (onde se regista um povoado romano), e um outro troço que ligava as povoações de Longa e Riodades, no concelho de Tabuaço, passando no vicus de Fontelo.

A recente identificação pelo arqueólogo José Carlos Santos de um possível miliário na povoação da Longa foi o factor que veio despoletar um novo estudo da rede viária na área que permitiu resolver finalmente as questões que permaneciam em aberto. Em concreto, toda a bibliografia consultada prolongava o troço da via este-oeste entre Arcos e Longa em direcção à travessia do rio Tedo, junto da actual povoação de Granja do Tejo. Na outra margem, temos o Castro de Coujoim e a via Chaves-Moimenta, sugerindo uma ligação entre estas duas vias.

As dúvidas que se mantinham sobre esta solução resultam das fortes pendentes da descida para o rio Tedo, portanto, incompatíveis com uma via para carros. A identificação do referido miliário em Longa permitiu finalmente esclarecer a questão. Desde logo, o achado de um miliário em Longa vem confirmar a existência de uma rota romana através deste caminho milenar.

Mas o detalhe que apontou em definitivo para a solução foi a informação precisa da sua localização que o colocava junto de um caminho de saída da aldeia para oeste, como seria expectável, sugerindo que estaria in situ (hipótese que se veio posteriormente a confirmar). No entanto, o referido caminho não se dirige para Granja do Tedo, mas para norte, inflectindo portanto o seu trajecto rumo ao rio Douro.

Estava assim levantada a forte possibilidade de o troço de via entre Longa e Arcos integrar uma grande rota romana. Seguindo o trajecto mais provável até ao Douro, verifica-se que a via se dirige à foz do rio Tedo (foz do rio Ceira na outra margem), local onde atravessava o rio Douro. Tal como neste caso, muitas das travessias do Douro são feitas junto da foz dos principais afluentes, evitando assim a necessidade de os cruzar próximo da sua confluência no Douro.

Medindo a distância entre a margem do rio e o marco que está em Longa, contam-se cerca de 12 milhas, mostrando que há acerto da contagem miliária, ainda por cima em torno do valor típico entre estações viárias e o rio, como por exemplo, no caso Panóias, também a 12 milhas do Douro. Resolvido o trajecto da via para norte, havia que estudar a sua continuação na direcção oposta.

Fig.1 – A rede viária cruzando o rio Douro em Covelinhas, Foz do Tedo e Foz do Pinhão.

Partindo da povoação Longa, seguia então o troço de via anteriormente cartografado, passando em Arcos e próximo do vicus do Fontelo em direcção a Riodades, onde cruzava o rio Távora. Daqui seguia por Carapito e Chosendo, onde recentemente apareceu um miliário epigrafado (FE 864, 2023). A via continuava até à povoação de Guilheiro, importante nó viário no planalto, onde se cruzavam diversas rotas da região da Beira Alta.

Depois de Guilheiro, a via continuava para sul por Queiriz e Muxagata (miliário na igreja) rumo à travessia do rio Mondego no sítio da actual Ponte de Juncais. Esta rota seguia depois por Carrapichana e Linhares, e daqui, cruzando a Serra da Estrela, atingia a estação viária de Centum Celas em Belmonte, entroncando na grande rota para Mérida por Igaeditana (Idanha-a-Velha), cruzando o rio Tejo na famosa Ponte Romana de Alcântara.

Fig.2 – Confluência das vias da região no nó viário de Guilheiro

Em síntese, a descoberta do marco de Longa ainda in situ permitiu finalmente identificar esta grande rota que última análise ligava as importantes explorações mineiras da região Flaviense à capital da província, Emerita Augusta. Com efeito, ao prolongar a via para norte a partir do rio Douro, esta rota vai de encontro à via Chaves-Covelinhas referida acima, entroncando nesta junto do Castro de Lamares.

A identificação do trajecto desta rota, levou à resolução dos traçados prováveis de outras vias na região das quais apenas se tinha dados pontuais. De facto, tudo indica que existiam outras travessias do rio Douro a montante da passagem na foz do Tedo. Com efeito, foi também cartografada uma derivação da via que cruzava o Douro junto ao Pinhão, seguindo depois por Paredes da Beira, Penedono e Antas (estes últimos com possíveis miliários) rumo também ao nó viário de Guilheiro, evidenciando ainda mais a importância deste local como uma verdadeira encruzilhada de vias de toda esta região a sul do rio Douro.

Por fim, agradeço a José Carlos Santos a partilha do achamento destes marcos em resultado do seu aturado estudo da região, identificando e interpretando o imenso património arqueológico da região, que em geral continua praticamente desconhecido apesar de se encontrar numa zona turística por excelência como é a Região do Douro.

Ver mais detalhes nas entradas de Setembro e Outubro de 2023 do histórico de alterações em: https://viasromanas.pt/vrhist.html

Ver itinerários em:
https://viasromanas.pt/#tedo_guilheiro
https://viasromanas.pt/#selores_guilheiro
https://viasromanas.pt/#torto_belmonte

SANTOS, J. C. e ENCARNAÇÃO, J. d’ (2023a). Miliário em Chosendo, Sernancelhe. Ficheiro Epigráfico 255 (864).

Parte 6 || Cale

Concluímos esta viagem pelo Itinerário XVI com algumas notas sobre a sua passagem por Cale, estação seguramente associada à travessia do rio Douro, apesar de permanecer a dúvida na sua exacta localização, oscilando entre os dois povoados proto-históricos que dominavam esta passagem, ou seja, o Morro da Pena Ventosa (Sé) e o Castelo de Gaia, dúvida que, no entanto, não afecta a contagem miliária que segundo o Itinerário era a seguinte:

Langobriga
Cale m.p. XIII
Bracara m.p. XXXV

Como referido no artigo anterior, a distância de 13 milhas de Langobriga a Cale é coerente com o percurso entre Vendas Novas (Fiães/Castro Redondo) e o Douro, seguindo paralela ou coincidente com a EN1, que em muitas troços ainda é designada por “Rua da Via Romana”. O trajecto fazia-se (e faz-se) por Vergada, Picoto, Vendas de Grijó (8 m.p.), Carvalhos (6 m.p.), Canelas (4 m.p.), Santo Ovídio (2 m.p.), Jardim de Soares dos Reis (1 m.p.) e finalmente, descendo talvez pela Rua Direita, atingia o cais de Gaia.

Fig. 1 – Via Langobriga – Cale com estação a 8 milhas do Douro

Depois de cruzar o rio, a via dirigia-se para Bracara, seguindo aproximadamente a rota da EN14, percorrendo cerca de 35 milhas, tal como indicado no Itinerário, trajecto já analisado em artigo anterior. A parte inicial do percurso continua em utilização como ruas da cidade. Partindo da Porta do Olival, junto do Jardim da Cordoaria, seguia pela lateral do edifício da Universidade do Porto, antiga «Calçada dos Órfans» e actual Rua Dr. Ferreira da Silva, cortava a Praça dos Leões em direcção ao Largo do Moinho de Vento, continuava pela Rua Mártires da Liberdade até à Praça da República e daqui pela Rua Antero de Quental rumo à travessia do rio Leça na Ponte da Pedra (São Mamede de Infesta). Daqui seguia para a travessia do rio Ave na Trofa, passando em Pinta (Maia) e Forca (8 m.p.), percurso recentemente (re)confirmado pelo descoberta de um miliário numa casa do lugar da Barca, indicando precisamente 27 milhas a Braga, ou seja, oito milhas a Cale.

Fig. 2 – Rede viária a norte do rio Douro com pontos focais Cale e Bracara Augusta.

Do mesmo modo, os trajectos das outras vias que partiam de Cale continuam em utilização pelos séculos seguintes, sendo progressivamente absorvidos pela expansão urbana da cidade. Apesar de estas vias não serem mencionados nos Itinerários de Antonino e da ausência de miliários, não há qualquer dúvida sobre a sua utilização já nesse período (e mesmo em períodos anteriores), formando a rede principal de estradas que partiam de Cale.

Uma destas vias é designada na documentação medieval por «karraria vetera», «via publica» e «estrada mourisca» em diferentes pontos do seu percurso e que hoje está assinalado como «Caminho de Santiago». Partindo do mesmo local da estrada para Braga, Campo do Olival, seguia pela Rua de Cedofeita (antiga «Cacarreira») até ao Padrão da Légua (4 m.p.), e daqui à Ponte Romana de Barreiros sobre o Leça (Maia).

Daqui poderia ligar por uma ramal ao nó viário da Forca (8 m.p.) na via para Bracara (onde apareceu miliário), mas é provável que a «karraria» seguisse para noroeste por Vilar do Pinheiro e pela base do Castro de Boi (15 m.p.), rumo à travessia do rio Ave junto do Castro de Santagões.

Daqui seguia para a Igreja de São Pedro de Rates (23 m.p.), provável estação viária onde a via bifurcava em dois trajectos, um seguindo para noroeste rumo à travessia do rio Cávado na Barca do Lago (ligando a Viana do Castelo), e outro seguia para nordeste rumo à travessia do mesmo rio em Barcelos (o chamado «Caminho de Santiago Central»), continuando depois até Ponte de Lima. (ver https://viasromanas.pt/#porto_barcelos).

Admite-se uma variante a este trajecto mais próxima do litoral, desviando da «karraria vetera» no Padrão da Légua, seguindo na direcção do Castro de São João em Vila do Conde, local de cruzamento do rio Ave. Daqui seguia próximo dos castros de Terroso e Laúndos rumo à travessia do rio Cávado na Barca do Lago, reunindo com a «karraria» cerca de três milhas antes de atingir esta passagem. (ver viasromanas.pt/#porto_caminha).

As restantes vias seguiam na direcção nordeste. A primeira delas partia de Cale rumo a Guimarães, seguindo junto do Castro de Águas Santas (6 m.p.), Castro do Monte Padrão (18 m.p.), Citânia de Sanfins (22 m.p.) e Castro da Polvoreira/ Santo Amaro (30 m.p.). (ver viasromanas.pt/#via_vimaranes).

A segunda via para nordeste, ligava Cale a Tongóbriga, seguindo próximo do Castro de Vandoma (15 m.p.) e do Castro de Quires (26 m.p.), de onde descia à travessia do rio Tâmega, a trinta milhas de Cale. Daqui ascendia por Marco de Canaveses à cidade romana de Tongóbriga, da qual subsistem importantes vestígios, mas como vimos ao longo do Itinerário XVI, assenta ela própria sobre um antigo povoado da Idade do Ferro do qual teria herdado o nome.

A parte inicial do trajecto desta via subsiste ainda hoje, partindo da antiga Porta de Vandoma e seguindo pela Rua Cimo de Vila, percursos que mantém a tipologia antiga, ascendendo a ladeira por patamares suaves até à actual Praça da Batalha. Daqui seguia por St. Ildefonso, Bonfim (1 m.p.), Corujeira/ Campanhã (2 m.p.), São Roque da Lameira (3 m.p.), continuando pelos topónimos viários, Cavada, Ferraria, Carreira e Vale de Ferreiro até Valongo, provável estação viária a oito milhas de Cale, relacionada com a exploração mineira identificada nas proximidades. (ver viasromanas.pt/#porto_freixo)

Notar que esta distância de oito milhas à primeira estação já tinha sido identificada nas outras vias que partiam de Cale, nomeadamente em Vendas de Grijó e Barca, sugerindo que o seu estabelecimento não foi arbitrário. Notar também a grande resiliência destes trajectos apesar das enormes transformações sofridas pela cidade nos últimos séculos.

Fig. 3 – Vias antigas na actual área urbana da cidade do Porto.

Na ausência de factores externos como terramotos ou grandes planos urbanísticos (felizmente) as principais vias que partiam da cidade do Porto acabaram por permanecer em utilização até aos nossos dias. Seria interessante um dia fazer um roteiro destas vias pela cidade.

Com este artigo sobre Cale termina esta série de seis artigos sobre o itinerário de Olisipo a Bracara ou Itinerário XVI. No próximo post será abordada a problemática das alterações da orla costeira e as suas implicações na rede viária antiga.

Parte 5 || Talábriga

Neste percurso pelo Itinerário XVI chegamos agora a uma das questões mais discutidas na historiografia nacional, a problemática localização de Talábriga. Pela sequência de estações não há qualquer dúvida que esta se deveria localizar nas proximidades do Rio Vouga que constitui o maior obstáculo entre Aeminium e Cale. No entanto, o seu exacto posicionamento é alvo de grande controvérsia entre investigadores.

Segundo o Itinerário XVI, teríamos:
Aeminium m.p. X
Talabriga m.p. XL
Langobriga m.p. XVIII
Cale m.p. XIII

Como é habitual, as primeiras tentativas de localização surgem no século XVI, tendo os iluministas portugueses proposto a sua identificação com Cacia (Barreiros, 1561) e Aveiro (Brito, 1597). A hipótese Cacia era baseada no achado de vestígios romanos na Torre da Marinha Baixa. No entanto, a passagem neste local é inviável dado que aqui era a antiga linha de costa em período romano, podendo corresponder a um vicus portuário. Aliás, toda a área de Aveiro estaria submersa, inviabilizando portanto a hipótese lançada por Brito.

A questão só é retomada no início do século XX, com diversos autores tentando compatibilizar as distâncias medidas no terreno com a informação contida no Itinerário. Entre eles, destaca-se Félix Alves Pereira que publica em 1907 um seminal artigo intitulado “Situação Conjectural de Talábriga”, onde alerta para a necessidade de posicionar Talábriga a norte do Vouga, dado que as 40 milhas indicadas são superiores à distância entre o Mondego e o Vouga (c. 34 milhas).

Com base na distância indicada a Langobriga (18 m.p.), equaciona a hipótese de Talabriga estar na área da povoação de Branca, apontando como possíveis localizações o Castro de São Julião e o vicus de Cristelo, hipótese seguida por autores posteriores (Souto, 1941; Vaz, 1983: 32-38).

Fig. 1 – Esboço do trajecto entre Coimbra e o Porto elaborado em 1941 por Alberto Souto

O problema desta proposta é que não acerta com o Itinerário dado que este local não está a 40 milhas de Aeminium. De facto a distância deste local ao Vouga é de cerca de 10 milhas perfazendo um total de 44 milhas a Aeminium (34+10) quando o Itinerário indica 40.

Admitindo que está distância está correcta (não havendo razões objectivas para duvidar deste valor), então Talabriga teria de estar 6 milhas a norte do Vouga, distância que permite associar esta estação ao povoado castrejo da Ns. do Socorro em Albergaria a Velha. Aliás, na Carta do Couto de Osseloa do ano 1117 (DMP DR 49) é referida a «strada que currit de Portugal in directo de Petra de Aquila», sendo que a generalidade dos autores identificam a “Pedra de Águia” com o actual Bico do Monte no Santuário da Ns. do Socorro (Ribeiro, 1810:243-246, Oliveira, 1943), sinal evidente que a via corria por ali. O Monte da Sra. do Socorro é mencionado em documentos medievais como «Albergarie veteris de Meigonfrio», topómimo com possível origem no termo latino mansio (Oliveira, 1943). João de Almeida refere a existência no local de uma antiquíssima fortaleza de um possícel castro “luso-romano” (Almeida, 1948:46), mas até hoje não há registo de qualquer vestígio de povoamento no local.

Esta hipótese não é inteiramente nova, tendo sido sugerida inicialmente pelo Tenente-Coronel Costa Veiga em 1943, ao contestar a sua identificação com Branca, proposta por Félix Pereira. Com efeito, com base nas distâncias medidas no terreno, este investigador propôs a localização de Talábriga no Monte da Ns. do Socorro dada a concordância das distâncias (Veiga, 1943). No entanto, o Padre Miguel de Oliveira publicava no mesmo ano uma súmula destas hipóteses, avidando prudentemente que o problema da localização de Talábriga permanecia tal como Félix Pereira o tinha deixado, isto é, por resolver (Oliveira, 1943: 61-62).

Entretanto, uma segunda hipótese foi lançada por Amorim Girão no início do século XX, a sua identificação com as ruínas que emergiam no chamado Cabeço do Vouga (Girão, 1922) , proposta entretanto reforçada pelos sucessivos achados arqueológicos no topo deste outeiro sobranceiro ao local de travessia do Vouga, levando autores posteriores, como Jorge de Alarcão e Seabra Lopes, a subscreverem esta proposta (Alarcão, 1988; Lopes, 1995, 2000), apesar do evidente desacerto com a informação do Itinerário (Mantas, 2018: 44).

Apesar do seu relativo esquecimento, a hipótese de identificação de Talabriga com o povoado fortificado da Ns. do Socorro, tem vindo a ser recuperada (Mantas, 2014: 247) atendendo à concordância com a distância indicada de 40 milhas a Coimbra. Apesar da notícia de achados arqueológicos no local (que foram enquadrados no Bronze Final), pouco sabemos sobre a ocupação deste povoado dado que este foi totalmente arrasado com a construção do actual santuário.

Seguindo esta hipótese, foi criado um percurso alterativo à “Estrada Real” (que passa no vale, junto a Branca e Albergaria-a-Nova), o verdadeiro percurso da via poderia ser pelo alto da serra, em altitude, tocando nos referidos povoados proto-históricos e que está representado no mapa abaixo (linha azul).

Fig. 2 – Nova proposta de traçado da via entre Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis seguindo junto dos povoados castrejos de Ns. do Socorro, São Julião e Lações.

Esta proposta de trajecto apresenta pouca variação de cota e acerta a marcação miliária com os referidos povoados, com Ns. do Socorro na milha 6, São Julião na milha 10 e Lações a 17 milhas do Vouga, outro povoado fortificado que daria origem a Oliveira de Azeméis e que foi destruído com a construção do Santuário de Ns. de La Salete.

A etapa seguinte ligava Talábriga a Langóbriga que tem sido identificada com o Castro do Monte Redondo em Fiães com base no vasto espólio recolhido no local (Corrêa, 1925; Almeida e Santos, 1971). De facto, a sua posição é compatível com as 13 milhas indicadas a Cale. No entanto, as 18 milhas indicadas são claramente insuficientes para cumprir a distância entre Monte Redondo e o Castro da Ns. Socorro, percurso que ronda as 23 milhas. Poderá tratar-se de um erro do copista medieval pois não seria difícil haver confundir os numerais “XXIII” e “XVIII”, bastando a troca do segundo “X” por um “V”, explicando deste modo, o diferencial de 5 milhas encontrado no trajecto até Cale.

Corrigindo este valor obtemos acerto da marcação miliária, isto é, somando as distâncias intermédias entre o Vouga e o Douro (6 + 23 + 13) obtemos um total de 42 milhas que é a distância que separa os dois rios. Esta divisão pouco usual entre etapas resulta do posicionamento dos povoados indígenas ao longo da via. No entanto, verifica-se que as estações romanas viriam a instalar-se num módulo mais regular de 4 milhas (1 légua) com
Albergaria-a-Velha (a 4 milhas do Vouga), a Albergaria de Souto Redondo (a 16 milhas de Cale), com outra estação a meio percurso, ou seja, a oito milhas do rio Douro, em Vendas de Grijó, nó viário de onde partia a via para Viseu, situado na base do maior povoado desta região, o Castro do Monte Murado (Carvalhos).

Assim o Itinerário corrigido seria o seguinte:
AEMINIUM X
TALABRIGA XL
LANGOBRIGA XXIII
CALEM XIII

Naturalmente de que não dispomos de provas conclusivas, nomeadamente de ordem epigráfica, que possam fechar a discussão, mas a concordância com as distâncias medidas no terreno pelo percurso proposto constitui um forte argumento para a sua validação. Os dados arqueológicos conhecidos também parecem apontar para esta hipótese com a via a passar junto dos principais povoados castrejos, denunciando mais uma vez a origem pré-romana destas rotas.

Por último, admitindo que Talabriga corresponde ao assentamento da Ns. do Socorro, então o Cabeço do Vouga teria outra designação, o que obriga a reconsiderar a antiga hipótese lançada por Brito de que ali se encontrava o antigo Oppidum Vacca (Brito, 1597). De facto, Plínio refere o flumen Vacca (NH, IV, 113) , mas segundo Gaspar Barreiros, num manuscrito de Toledo podia ler-se oppidum et flumen Vacca, do mesmo modo que no mesmo trecho Plínio menciona o oppidum et flumen Aeminium (Barreiros, 1561).

A existir o povoado de Vacca (Vacua em Estrabão; Geo. I, 3, 4), este poderia corresponder ao Cabeço do Vouga, explicando o miliário que Brito refere junto do Castro de S. Julião (S. Gião no original), indicando 12 milhas a «VAC», abreviatura que desdobrou em VACCA ou VACUA. Em suporte à veracidade desta notícia, notar que tanto o miliário da Vimieira (Mealhada) como de Úl (Oliveira de Azeméis) indicam 12 milhas, um valor típico entre estações viárias.

Neste nova proposta de traçado, o miliário em Úl fica algo afastado da via. No entanto, este miliário poderia ter um carácter mais territorial, definindo o limite sul da Civitas Langobrigensis, aliás, em concordância com o terminus augustalis, actualmente encastrado na parede traseira da Igreja Paroquial de Úl, indicando a distância de doze milhas a Langobriga (Castro de Fiães).

Como é visível pelos argumentos enunciados acima, estamos ainda longe de resolver o problema de localização de Talabriga. A ausência de provas epigráficas torna o Itinerário a única fonte primária para a localização destas estações apesar de eventuais erros e omissões. O que não podemos é pura e simplesmente descartar a informação nele contida quando esta não se adequa a uma outra proposta de localização.

O sexto e último artigo desta série abordará a travessia do Douro e as vias que daqui partiam de Cale

Bibliografia:
ALARCÃO, Jorge de (1988) – “Roman Portugal”. Warminster: Aris & Phillips, 3 Vols.
ALMEIDA, C.A.F.; SANTOS, E. (1971) – “O Castro de Fiães”. Revista da Faculdade de Letras. Série de História. II., 147-168.
ALMEIDA, Fernando de (1956) – “Marcos miliários da via romana «Aeminium-Cale»”. OAP, 2ª Série, Vol. III, 111-116.
ALMEIDA, João de (1948). Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Lisboa
BARREIROS, Gaspar (1561) – “Chorographia de alguns lugares que stam em hum caminho que fez Gaspar Barreiros”. Coimbra: João Aluarez.
BRITO, Bernardo de (1597) – “Monarchia Lusytana”. Lisboa: Mosteiro de São Bernardo. Vol. I.
CORRÊA, A. A. Mendes (1925) – “Nótulas Arqueológicas. Estação luso-romana em Fiães”. Revista de Estudos Históricos.
GIRÃO, Amorim (1922) – “A Bacia do Vouga. Estudo Geográfico”. Diss. de Doutoramento em Geografia.
LOPES, Luís Seabra (1995) – “Talábriga – Situação e limites aproximados”. In Portugália, Vol. XVI, Instituto de Arqueologia, Porto, 331-343.
LOPES, Luís Seabra (2000) – “A Estrada Emínio-Talabriga-Cale”. In «Conimbriga», 39, 191-258.
MANTAS, Vasco G. (2014) – “As estações viárias lusitanas nas fontes itinerárias da antiguidade”. In Humanitas 66, 231-256.
MANTAS, Vasco G. (2018) – “As cidades romanas de Portugal: problemática histórica e arqueológica”. In “As cidades romanas de Portugal. problemática histórica e arqueológica” Imprensa da Universidade de Coimbra, 23-51.
OLIVEIRA, Pa. Miguel de (1943) – “De Talabriga a Lancobriga pela Via Militar Romana”. Arquivo do Distrito de Aveiro, Vol. IX.
PEREIRA, Félix A. (1907) – “Situação Conjectural de Talabriga”. OAP Vol. XII, 129-158.
SOUTO, A. (1941) – “Romanização no Baixo-Vouga (Novo Oppidum na Zona de Talábriga)”. Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. 9 (1939), 4, 283-328.
VAZ, J. L. da Inês (1983) – “Escavações no Cristelo da Branca”, Munda 5: 32-38.
VEIGA, A. B. da Costa (1943) – “Algumas estradas romanas e medievais”. Estudos de História Militar Portuguesa. Vol. I. Lisboa: Imp. Tip. Torres

The Bracara-Asturica Itinerary through «Gerês»

This itinerary from Braga to Astorga (Via XVIII of the Itinerary of Antonino) integrates one of the best preserved stretches of the route in Portugal, crossing the Serra do Gerês (where it is called “Geira”), heading towards Galicia through Portela do Homem. The Portuguese part is relatively well studied, with a consolidated route based on the great number of existing milestones, but in the Spanish part there are still great uncertainties, both in the actual route chosen and the location of the intermediate stations. In the attempt to clarify the route to Astorga, and applying the methods developed for the survey of the Portuguese part, we propose the following solution.

Tracing of the XVIII itinerary of Antonino with the respective stopping stations.

The problem is centred in the distances between stages that do not match the distance measured on the ground. Summing all the stages we get 218 miles, however the total distance indicated in the itinerary is 215 miles, a divergence never fully explained and which opens the possibility of errors in the miles indicated in one or more stages. If for Aquis Originis and Aquis Querquennis there seems to be no doubt in their location respectively at Banhos do Rio Caldo and Baños de Bande, from there on the doubts grow. According to the Itinerary, the next station, Geminas, is located 16 miles from
Aquis Querquennis but following the route (confirmed by milestones), this value is insufficient to cover the distance between Baños de Bande and Castrum of Torre de Sandiás, the most likely location of this station. This difference is also confirmed by the milestones found nearby since the milestone of Casasoá indicates 73 miles to Braga, a value in accordance with the milestone count. Thus, we would have to correct the 16 miles indicated for this stage for the 17 measures, making a total of 70 miles to Braga.

The location of the following stations is still under great discussion and no consensual solution is in sight. The proposals of Rodriguez Colmenero (et al. 2004) continue to be the basis of what is written on the subject, maintaining the great confusion installed by launching the theory of different values of mileage that supposedly would be used in different stretches of track, depending on the characteristics of the terrain. This was an attempt to justify the various inconsistencies in the proposals presented, creating a deadlock that remains to this day. Later studies came to dismantle this thesis because the only measure verified on the ground corresponds to the so-called “classic” mile, which is around 1500m.

The clear excess of miles in this itinerary, making it necessary to place two stations very close to each other seemed to make the hypothesis of an error in the miliary counting much more likely.

Continuing the route, Salientibus could be in Vigueira de Abaixo (milestones), 18 miles from Geminas (Torre de Sandiás). Consequently, the next station, Praesidio, would be 18 miles ahead, distance which puts this station in Pobra de Tivres, in a strategic place since it was located between the two main Roman bridges, Ponte Navea and Ponte de Bibei (this one still standing!). After crossing the Bibei river, the route ascended to Larouco and from here, headed to Ponte da Cigarossa (also presenting Roman foundations) where Nemetobriga should be located. The recent discovery in 2022 of a milestone of Nero during works near the bridge, reconfirms the passage of the XVIII Itinerary in this place, which is exactly 120 miles away from Braga (meanwhile the milestone was placed in its probable original location at the bridge entrance).

The main problem lies in the next stage, between Nemetobriga and Foro, for which the Itinerary indicates the distance of 19 miles. However, this value seems too high since adding up all the stages until Bergido (undoubtedly located in Castro Ventosa, west of Cacabelos), we get a total of 50 miles (19+18+13), a value that greatly exceeds the distance between Cigarrosa Bridge and Castro Ventosa which is no more than 39 miles.

This difference of 11 miles must be justified by an error in the Itinerary. Now, analyzing the intermediate distances, everything indicates that this error can only be in the Nemetobriga to Foro leg that should be corrected to 8 miles (possible confusion between the numerals XVIIII and VIII). In this way, we reach the Foro station near the so-called villa of San Salvador in the place of Proba in Barco de Valdeorras. The site was excavated and then reburied, but it was found to be a vicus viarum, located next to the via, where a milestone also appeared. A votive inscription placed by a member of the VII Gemini Legion reinforces the passage of the Roman road here.

The distances to the following stations seem to be correct, with Gemestario located 18 miles from Foro and 13 miles from Bergido, a position which corresponds to the Alto da Portela de Aguiar in a mountain range called Sierra de Encina da Lastra, which defines de geographical border between the provinces of Galicia and Asturias. From here, the route descends to the valley of the river Sil and continues straight up to the Ventosa castrum, where it joins the Lugo-Astorga road. Here it curves eastwards for another twenty miles to Interamnio Fluvio or Intereraconio Flavio (different spellings of the same station), most probably located close to Bembibre, next to the junction of the rivers Noceda and Boeza, a position that fits a name as “Interamnio Fluvio“.

From Bembibre the route follows more 30 miles up to Astorga, passing Ribeira de Folgoso, Torre del Bierzo, San Juan de Montealegre, Manzanal del Puerto and Brimeda, a route marked by several milestones.

Thus, the survey of the route and the milestone sequence points to the following proposal for the location of the stations: Salientibus (Vigueira de Abaixo, XVIII), Praesido (Pobra de Trives, XVIII), Nemetobriga (Ponte da Cigarrosa, XIII, 120 miles to Braga), Foro (VIII, Pobra de Barco), Gemestario (Alto da Portela de Aguiar, XVIII) and Bergido (Castro Ventosa, Cacabelos, XIII), See route description here.

https://viasromanas.pt/#via_nova

O Itinerário Bracara-Asturica pela Serra do Gerês

Este itinerário de Braga a Astorga (Via XVIII do Itinerário de Antonino) integra um dos troços melhor preservados da via em Portugal, cruzando a Serra do Gerês (onde é designada por “Geira”), rumo à Galiza pela Portela do Homem. A parte portuguesa está relativamente bem estudada, com percurso consolidado baseado no grande número de miliários existentes, mas na parte espanhola subsistem ainda grandes incertezas, quer no seu traçado quer na localização das estações intermédias. Na tentativa de aclarar o percurso até Astorga, e aplicando os métodos desenvolvidos para o levantamento da rede na parte portuguesa, propõe-se a seguinte solução.

Traçado do itinerário XVIII de Antonino com as respectivas estações de paragem.

O problema centra-se nas distâncias entre etapas que não casam com a distância medida no terreno. Somando todas as etapas obtemos 218 milhas, no entanto a distância total indicada no itinerário é de 215 milhas, divergência nunca cabalmente explicada e que abre a possibilidade de existirem erros nas milhas indicadas em uma ou mais etapas. Se para Aquis Originis e Aquis Querquennis não parece haver dúvida na sua localização respectivamente a Banhos do Rio Caldo e Baños de Bande, a partir daí as dúvidas crescem. Desde logo, a estação seguinte, Geminas, estaria segundo o Itinerário a 16 milhas, mas fazendo o percurso (confirmado por miliários) verifica-se que esse valor é insuficiente para atingir o Castro de Torre de Sandiás, a sua mais que provável localização. Essa diferença é aliás confirmada pelos miliários encontrados nas proximidades dado que o miliário de Casasoá indica 73 milhas a Braga, valor em conformidade com a contagem miliária. Deste modo, haveria que corrigir as 16 milhas indicadas para esta etapa para as 17 medidas, perfazendo um total de 70 milhas a Braga.

A localização das estações seguintes continua em grande discussão sem vislumbre de consenso. As propostas de Rodriguez Colmenero (et al. 2004) continuam a ser a base do que se escreve sobre o tema, mantendo a grande confusão instalada ao lançar a teoria dos diferentes valores de milha que supostamente seriam utilizadas em diferentes troços da via, em função das características do terreno. Tentava-se assim justificar as várias incoerências nas propostas apresentadas, criando um impasse que permanece até hoje. Estudos posteriores vieram desmontar esta tese porque a única medida verificada no terreno corresponde à milha dita “clássica” que ronda os 1500 m. O claro excesso de milhas neste itinerário (obrigando a colocar duas estações muito próximas um da outra) parecia tornar a hipótese de haver erro na contagem miliária muito mais verosímil.

Continuando a contagem, Salientibus poderia estar em Vigueira de Abaixo onde há miliários e era vencida a milha 18 a Geminas (Torre de Sandiás). Consequentemente, a estação seguinte, Praesidio,  estaria 18 milhas adiante, distância que coloca esta estação próximo de Pobra de Tivres, um local estratégico dado que se encontra entre as grandes pontes de construção romana designadas por Ponte Navea e Ponte de Bibei (esta ainda pé!), a cerca de 3 milhas desta última.

Depois de cruzar o Rio Bibei ascendia a Larouco e daqui seguia em direcção à Ponte da Cigarossa (também com alicerces romanos) onde se deveria localizar Nemetobriga. A recente descoberta em 2022 de um miliário de Nero (?) durante umas obras junto à ponte, vem reconfirmar a passagem do Itinerário XVIII neste local que se encontra a exactamente 120 milhas de Braga (entretanto o marco foi colocado no seu provável local original à entrada da ponte).

O principal problema encontra-se na etapa seguinte, entre Nemetobriga a Foro, para a qual o Itinerário indica a distância de 19 milhas. Ora, este valor parece demasiado elevado dado que somando todas as etapas até Bergido (sem dúvida localizado no Castro Ventosa, a oeste de Cacabelos), obtemos um total de 50 milhas (19+18+13), valor que excede largemente a distância entre a a Ponte da Cigarrosa e o Castro Ventosa que não se contam mais que 39 milhas.

Esta diferença de 11 milhas tem de ser justificada por um erro no Itinerário. Ora, analisando as distâncias intermédias, tudo indica que esse erro só pode estar na etapa de Nemetobriga a Foro que deverá ser corrigida para 8 milhas (ainda que seja difícil explicar a troca do numeral VIII por XVIIII). Deste modo, atingimos a estação de Foro junto da chamada villa de San Salvador no lugar da Proba em Barco de Valdeorras. O sítio foi escavado e logo enterrado novamente, mas apurou-se que se trata de um vicus localizado junto da via, onde aliás apareceu um miliário. Uma inscrição votiva colocada por um membro da VII Legião Gémina reforça o carácter viário do local.

As distâncias das estações seguintes parecem estar correctas, com a Gemestario localizada a 18 milhas de Foro e a 13 milhas de Bergido, posição que corresponde ao Alto da Portela de Aguiar na Serra da Encina da Lastra que serve de divisão geográfica entre as províncias da Galiza e Astúrias. Daqui desce ao vale do rio Sil seguindo reto até ao castro Ventosa, onde entronca na via Lugo-Astorga. Aqui inflectia para leste, seguindo por mais vinte milhas até Interamnio Fluvio ou Intereraconio Flavio (diferentes grafias da mesma estação), possivelmente localizada em Bembibre, junto da confluência dos rios Noceda e Boeza, posição mais adequada ao topónimo Interamnio Fluvio (entre os dois rios).

De Bembibre seguia por mais 30 milhas até Astorga, passando em Ribeira de Folgoso, Torre del Bierzo, São João de Montealegre, Manzanal del Puerto e Brimeda, trajecto que é assinalado por diversos miliários.

Deste modo, o levantamento do percurso e da sequência miliária aponta para a seguinte proposta de localização das estações: Salientibus (Vigueira de Abaixo, XVIII), Praesido (Pobra de Trives, XVIII), Nemetobriga (Ponte da Cigarrosa, XIII, 120 milhas a Braga), Foro (VIII, Pobra de Barco), Gemestario (Alto da Portela de Aguiar, XVIII) e Bergido (Cacabelos, XIII), Ver do percurso aqui.

https://viasromanas.pt/#via_nova

O «Carril Mourisco» e outras vias

Tem havido um interesse crescente num caminho histórico habitualmente designado por Carril Mourisco que percorre o planalto Mirandês. Trata-se de uma via antiga percorrida pelos almocreves até aos inícios do século XX que foi registada em 1915 pelo Pe. Francisco Manuel Alves (mais conhecido por Abade de Baçal) com base em notas do Major Celestino Beça, aventando a possibilidade da estrada recuar ao período romano (Alves, 1915). Por consequência o caminho viria a ser assinalado como “Antiga Via Romana” no respectivo mapa militar, curiosamente a única vez que isso acontece em toda a série M888. Sande Lemos viria a publicar o trajecto (LEMOS 1993, p. 299) e mais recentemente foi feito o respectivo levantamento topográfico (LIMA et al., 2015). No entanto, subsistiam algumas dúvidas no seu trajecto após a passagem por Brunhosinho, dúvidas essas que finalmente conseguimos esclarecer, e que vieram clarificar a rede viária na região.

O Carril Mourisco integrava um grande itinerário com origem em Compleutica (estação da via Chaves-Astorga situada em Figueruela de Arriba) que seguia rumo ao Rio Douro por San Vitero, entrando no actual território português pela Cruz de Canda em Cicouro. A partir daqui o seu percurso é descrito pelo Abade de Baçal cruzando o planalto Mirandês nos actuais concelhos de Miranda do Douro e Mogadouro. As dúvidas colocadas por diversos autores posteriores sobre a cronologia da estrada tem de certa forma ocultado a sua importância na rede viária romana, dúvidas entretanto desfeitas pela recente identificação de um miliário no percurso do «Carril Mourisco» que está actualmente no apeadeiro de Urrós, junto do Café Ramiro, mas que teria vindo de um curral da freguesia de Brunhosinho.

Imagem do miliário de Urrós retirada do Google Street View

Apesar de anepígrafo, não temos dúvidas de que se trata efectivamente de um miliário romano atendendo à sua base quadrangular e dimensões, (re)confirmando a passagem da via ao longo da linha férrea rumo ao nó viário de Brunhosinho, local da maior importância pois daqui partiam ramais de ligação a Penas Roias e Mogadouro, enquanto o Carril inflectia o seu percurso para sul rumo a Barca Dalva. Este nó viário é assinalado por várias mamoas sobre a designação de conjunto megalítico da Pena Mosqueira, evidenciando o carácter viário destes monumentos, fazendo recuar as origens deste traçado ao Neolítico Final (!).

Segundo a nossa proposta, a marcação miliária do Carril no apeadeiro de Urrós corresponde à milha 45, contadas a partir de Compleutica. No entanto, como o miliário veio das proximidades de Brunhosinho, é mais provável que o seu ponto original de implantação fosse na milha seguinte que corresponde ao local onde a via cruza o IC5 (41°22’7.42″N, 6°30’40.42″O). Por sua vez, a distância deste local ao Douro é de cerca de 40 milhas pelo que este poderia ser o valor indicado pelo marco (dado ser um valor habitual entre etapas de uma jornada), dando assim preciosa informação aos viandantes. Da milha seguinte (39) partia o referido ramal para Penas Roias, atingindo a oitava milha junto do sítio romano da Fonte do Sapo (junto ao cemitério), que assim deverá corresponder a um estabelecimento viário tipo mutatio. Voltando ao Carril, a milha seguinte era atingida junto da mamoa 3 da Pena Mosqueira, e a seguinte milha era atingida junto da mamoa 2, considerada o maior e mais importante dos quatro monumentos do grupo da Pena Mosqueira. Este local é muito relevante porque aqui era o ponto onde o Carril Mourisco inflectia a sua direcção para sul rumo a Barca Dalva, e também porque daqui o partia um outro ramal que ligava a Mogadouro, também localizada a oito milhas.

Nó viário da Pena Mosqueira, mostrando a passagem do Carril Mourisco em Urrós e o local de cruzamento da IC5 que poderia ser o local original do miliário, 40 m.p. do Douro e 46 de Compleutica. Os traçados a azul correspondem aos ramais de ligação a Penas Roias e Mogadouro a partir das mamoas da Pena Mosqueira. Em Vila de Ala o Carril confluía com a via norte-sul que ligava Babe a Vila de Ala.

Da Pena Mosqueira, o Carril seguia a noroeste da aldeia de Tó, passando nos topónimos « Pinhal de Brunhozinho», «Lagoa de Thó» e «Pontão de Thó», tal como indicado por Celestino Beça (Alves, 1915, p. 7) e não por Variz como anteriormente proposto (LIMA et al., 2015, p. 58). Na entrada norte desta povoação existe um cruzeiro que assinala o local da marcação miliária, ou seja, 32 milhas ao Douro. Notar que são oito milhas daqui ao miliário, sugerindo que aqui existiria mutatio, hipótese muito reforçada pelo facto de este ser o ponto onde o «Carril» confluía noutro importante itinerário, também com origem na via Chaves-Astorga, mas que partia da estação viária de Babe (da mutatio do Sagrado), seguindo por Vimioso e pela velha Ponte de Algoso até Vila de Ala, percorrendo também cerca de 46 milhas, curiosamente (ou talvez não), o mesmo valor verificado para o miliário de Brunhosinho a Compleutica. O traçado desta última via foi finalmente identificado em todo o seu percurso que passa a estar descrito aqui, sendo também incluído na nova versão do Mapa de Vias (ver 5.0).

Traçado das duas vias que confluíam em Vila de Ala rumo ao Douro (in viasromanas.pt/vr_map.html).

Descrição dos Itinerários:
Via de Compleutica a Barca Dalva (Carril Mourisco)
Via de Babe a Vila de Ala

Bibliografia:
ALVES, Pe. Francisco Manuel (1915) – “Estudos arqueológicos do Major Celestino Beça – A estrada militar romana de Braga a Astorga por Bragança”. OAP Vol. XX, 74-106.
LEMOS, F. Sande (1993) – “Povoamento Romano de Trás-os-Montes Oriental”. Braga: Universidade do Minho. Tese de Doutoramento.
LIMA, A.C. et all. (2015) – “O Carril Mourisco. O traçado romano de uma grande rota contemporânea”. In Côavisão, 17, 54-79.

Post about the ancient roads of the Algarve

Despite being a strongly Romanised region, the road network in antiquity in the Algarve region remains with several open questions. The different proposals that have been put forward, often incompatible with each other, do not allow to draw a general picture of the network. The first researcher to tackle the problem in a scientific way was Estácio da Veiga at the end of the 19th century, initiating a series of studies based on the archaeological evidence he was compiling and publishing during his field surveys. By definitively proposing the location of Balsa in the area of the present-day Quinta de Torre de Aires (instead of Tavira) and of Baesuris in the sideric settlement of Castro Marim (instead of Ayamonte), Veiga clarified many of the doubts that had remained about the location of these settlements since the initial proposals launched by André de Resende in the 16th century (Veiga, 1886). In turn, the location of Ossonoba in Faro was only definitively established in the mid-20th century by Abel Viana, dispelling another of Resende’s misconceptions, who associated Ossonoba with the monumental remains of the villa of Milreu in Estoi (Resende, 1593: fl.189; Viana, 1952: 250-285)..

According to the soc-called “Antonine Itinerary” (IA, 425.6), these three port settlements on the Algarve coast were connected by a road, presumably running parallel to the coastline (Veiga, 1886). At the beginning of the 20th century the only known milestone in the Algarve (IRCP 660) was found probably in situ near a place called Bias do Sul (Olhão) and then re-used in a water noria, a find which seemed to confirm a route close to the coast (Mascarenhas, 1967: 3-11) . Fernandes Mascarenhas also mentions “traces of constructions, such as thick foundations and pieces of very thick tiles and bricks” next to the milestone.

Photos of the milestone when it was discovered, later reused in a water noria and detail of the epigraph with the letters revived indicating 10 miles (in Mascarenhas, 1967).

Mascarenhas also proposed that the 10 miles indicated in the milestone (M.P. X) were referring to the city of Faro which is in fact the distance between these points. SInce then, most researchers followed this proposal and traced a route through Bias along the (Mantas, 1990: 184, 1997; Silva, 2002, 2005 and 2007; Rodrigues, 2004; Maia, 2006). This landmark is currently on display at the Olhão Municipal Museum after many years in the Moncarapacho Parish Museum.

Despite the apparent consistency of the arguments presented, actually there is no evidence of any east-west road passing through this location, a fact that Mascarenhas gets around by supposing the road is under the current N125 (Mascarenhas, 1967: 9). If this was the case the track would have to follow north from the villa of Quinta do Marim towards Faro. However, all indications are that this route is a modern construction as it crosses several mats that at that time penetrated well inland through the streams of Ribeiro do Tronco and Ribeira de Marim. This way, from Balsa, the roads to Faro had follow a more inland route to avoid these mats, passing through Moncarapacho and Ponte Velha de Quelfes towards Faro (see itinerary).

But if the milestone of Bias was not marking this route along the coast, then it belonged to another “via”, but which one? To the south, we have the ocean, so the road could only run north, perpendicular to the route to Faro. And in fact, the column was found next to an ancient path called “Canada de Bias” that runs from Bias to the north. This route, mostly still used today as a rural path, goes in the direction of Moncarapacho. It then goes through São Brás de Alportel to reach the town of Querença, a major road-junction of the region. Here, it joins with the main route connecting Faro to the port of Alcácer do Sal (Salacia), passing in the pre-Roman settlement of Castro da Cola (Ourique), presumably the location of Arannis, a road station mentioned in the Antonine Itenerary 60 miles from Faro.

The road from Bias to Querença passing in Moncarapcho, Pereiro, Mesquita and Alportel

Very close to the place where the milestone appeared, there is a road junction next to Poço de Bias which could be the original site of its implantation, since this place is located around 3 miles from Moncarapacho. In this junction, next to rural house of Quinta do Neto, there is an animal trough and a well in direct connection with the ancient road (see photos). This assumption is also confirmed by the fact that the first mile falls on the ancient christian temple known as the Ermida of São Sebastião dos Matinhos (or do Bitoito) in Belo Romão.

From Moncarapacho, the road keeps going north reaching the Cerro do Moinho de Pereiro (m.p. VI), from where it turns northwest towards São Brás de Alportel, passing near Poço do Cavaleiro (m.p. VIII) and Desbarato, located 9 miles from Bias. This place is mentioned in the “Crónica da Conquista do Algarve ” as being the place where Dom Paio Peres Correia and his knights spent the night during their incursion to Tavira (Agostinho, 1792), most likely next to the fountain mentioned in a document of the year 1595: “…no primçipio das terras do desbarato domde esta húa fonte por marquo.” (Vinagre, 2006: 53).

It is interesting to note that the name of this place, ‘desbarato’, may according to some authors be a derivation of the Arabic word ‘bis-barat’ which could explain the origin of the enigmatic toponym ‘Bias’. Also the name ‘barat’ could be a corruption of ‘balat‘ which has the
generic meaning of ‘via’ or ‘paved road’. If so, then this toponym ‘bis-balat’ could be read as ‘the paved road to Bias‘, i.e., a direct reference to via passing in Desbarato.

The road went on to Fonte da Mesquita, reaching the tenth mile near a small hill called Cerro da Mesquita. The road is apparently mentioned in a document also of 1595 as the “caminho do Chamso a dar no Ribeiro da Mesquita […] e dahi vai a partisão por ribeiro da fonte da mesquita que ele muito antiga“; Vinagre, 2006:55).

Several small Roman rural structures are known in the area, probably related to this road station, but there is no sign of any settlement nearby. It is therefore possible this stop was related to some place of worship, presumably a sanctuary, and possibly a predecessor of the “mesquita” (mosque) stated in its toponym.

The track goes on through São Brás Alportel, passing slightly north of this town in a place called Campina, another another road station located 12 miles to Bias. From here there was a direct connection to Faro going through Estoi (also 12 miles long), but the route we are describing keeps going to northwest towards Querença, a road station on the route linking the Algarve to Alcácer do Sal. The usefulness of this connection to Bias is better understood when we analyse this route in the opposite direction. If you arrived at Querença coming from the north, you could go to Faro through Loulé or follow the road described here as “Canada de Bias”, connecting Querença to the ancient coastal area in Bias.

Roman road network of the Algarve (viasromanas.pt)

The usefulness of the connection to Bias is better understood when we analyse this route in the opposite direction. If you arrived to the Algarve through Querença, you could either head to Faro via Loulé or follow the “Canada de Bias” to the coast, crossing at Moncarapacho with the coastal road from Faro to Castro Marim, and then on to Balsa and Tavira. Now, the existence of this route from Querença to Bias could only be explained by assuming that Bias was a sea port during the Roman period. In 1841, João da Silva Lopes wrote: “At the site of Bias we have found many graves, all with a stone at the head, another at the feet, and two in the middle” (Silva Lopes, 1841: 372). Mascarenhas also mentions “the discovery of immense construction materials of Roman type, very close to the sea” (Mascarenhas, 1967: 4). Just 500 m from the milestone, facing the ancient coastline there are still remains of a quadrangular fortified tower (named «Torre de Bias do Sul 2») that may be related to this harbour, despite current dating pointing to no early than the 11th century.

As such, the milestone would mark the distance counted from Bias’s port to the road station in Cerro da Mesquita, a place that matches the 10 miles engraved in the milestone. The importance of this station derives from the fact that it is located exactly halfway along this route, as the distance from here to Querença it is also 10 miles, making a total of 20 miles, a module that is in fact repeated on the route from Castro Marim to Faro with a total of 40 miles, with Tavira as an intermediate point, given that it is 20 miles both from Faro and from the right bank of the Guadiana near Castro Marim (and not Balsa, only founded in the 1st century) . This surprising concordance in distances between stages cannot be just a coincidence, but rather to a deliberate act of structuring the network with standardised distances.

In this context, it is important to recover the old discussion about the location of the Statio Sacra, a place mentioned in the geography book of the so-called Anonymous of Ravenna, apparently located by this author between Balsa and Ossonoba (Rav. IV.43). In 1877 Estácio da Veiga proposed its location in Quinta do Marim (Veiga, 1887: 390-391) an hypothesis highly disseminated, but that was never consensual among researchers (Mantas, 1997: 315). The name suggests some kind of rural sanctuary, but only a private mausoleum was found here, most likely belonging to the near by Roman villa (Graen, 2007: 277). In turn, Leite de Vasconcelos associated Statio Sacra with the Promontorium Sacrum (present-day Cabo de São Vicente), placing it in roman finds of Martinhal beach (Vasconcelos 1905:198), actually a amphora-producing factory ; more recently it was associated with Moncarapacho (Silva, 2002: 47) while Mantas proposed the villa of Milreu (Mantas, 2008: 247); however, none of these proposals were ever confirmed. Moncarapacho would indeed be a good candidate given that it is a road station of the route from Ossonoba to Balsa, 10 miles from Tavira and to Faro.

However, it also possible that the Statio Sacra is not related to the Ossonoba-Balsa road, but to this road from Bias to Querença. Based on the data currently available, we cannot exclude its location at any of the respective stations (namely, Bias, Moncarapacho, Mesquita, Alportel and Querença), but the fact that the milestone indicates 10 miles cannot be ignored, suggesting that it marked the distance to a relevant location, i.e., the distance from the port of Bias to some road station with a more inland location.

If this were the case, then the Statio Sacra would be located in Fonte da Mesquita or its proximities, referring to an eventual rural sanctuary, but for the moment this is merely a working hypothesis, since the inverse is also possible, that is, the name ‘statio’ was also applied to name a ‘small port’, an interpretation that fits perfectly to its location in Bias do Sul. In turn, the epithet ‘Sacra‘, in this context, may have the meaning of ‘imperial’, suggesting a consecration of the place to the imperial cult (Tovar, 1976: 206). The archaeological context also points in that direction, namely an inscription consecrated to Augustus by an administrator (‘dispensator’) da vizinha cidade de Balsa (IRCP 74), as well as the milestone itself that was most likely also placed during the Julio-Claudian dynasty, that is, sometime between 27 BC and 68 AD. (Encarnação, 1984: 720). The foundation of Balsa in this period (possibly as a result of the progressive silting up of the port of Tavira, just 6 km away), may have implied a reform of the road system, of which the Statio Sacra and the milestone would echo.

But regardless of the true location of the mysterious Statio Sacra, there seems to be no doubt about the importance of this route in the overall road network during the Roman period (and before and after), allowing the solve many of the inconsistencies of the previous proposals to be solved and proposed a revised map of the ancient road network in the eastern Algarve (see map). The description of these routes can be found on www.viasromanas.pt and their tracing on the Map of Vias (from version 4.4 on).

Coordinates of some key points on this route:
Mile zero at Bias: 37.049608, -7. 776432
Chapel of St Sebastian (m.p. I): 37.060587, -7.785435,
Desbarato (m.p. IX): 37.143647, -7.842630
Fonte da Mesquita: 37. 146892,-7.854586
Cerro da Mesquita (m.p. X): 37.149943,-7.855184

Bibliography:
AGOSTINHO, Frei Joaquim de Santo (1792) – “Sobre huma chronica inédita da conquista do Algarve”, Memórias de Litteratura Portuguesa, Real Academia das Ciências, Lisboa, Tomo I, p.74-97.
ANONYMOUS OF RAVENA (c. 7 AD) – “Ravennatis Anonymi Cosmographia et Guidonis Geographica”. Berlin: M. Pinder / G. Parthey (1860).
ENCARNAÇÃO, José d’ (1984) – “Inscrições Romanas do Conventus Pacensis: subsídios para o estudo da romanização (IRCP)”. Coimbra: Universidade.
GRAEN (2007), Dennis – “O sítio da Quinta de Marim (Olhão) na época tardo-romana e o problema da localização da Statio Sacra”. In RPA 10, 1, 275-288.
MAIA, M. (2006) – “De Baesuris a Pax Ivlia por Aranis”. São Brás de Alportel: Actas das I Jornadas «As Vias do Algarve», 46-53.
MANTAS, Vasco G. (1990) – “As cidades marítimas da Lusitânia”. Paris: CNRS (Coll. Maison des Pays Ibériques; 42), p. 149-205.
MANTAS, Vasco G. (1997) – “As civitates: Esboço da geografia política e económica do Algarve romano”, in Noventa séculos entre aserra e o mar, Lisboa, 283-309.
MANTAS, Vasco G. (2008) – “A rede viária romana em Portugal: estado da questao e perspectivas futuras”. Anas, 21-22, 2008-2009, 245-272.
MASCARENHAS, J. Fernandes (1967) – “De Ossónoba a Balsa”. Col. Por Terras do Algarve – Tavira: Ed. Autor, 7-25.
RESENDE, André de (1593) – “As Antiguidades da Lusitânia”. Lisboa: Edição «Fundação Calouste Gulbenkian», 1996. Introdução, tradução e comentário de R. M. Rosado Fernandes.
RODRIGUES, Sandra (2004) – “As Vias Romanas do Algarve”. Faro: CUP-UAlg/CCRA.
SILVA, L. Fraga da (2002) – “A região de São Brás de Alportel na Antiguidade”. Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
SILVA LOPES, J. B. da (1841) – “Corografia ou Memória económica, estadística e topográfica do Reino do Algarve”. Lisboa: Academia Real das Ciências.
TOVAR, Antonio (1976) – “Iberische Landeskunde – Die Völker und die Städte des antiken Hispanien”, Part II, Vol. 2. Lusitanie. Baden-Baden.
VASCONCELOS, J. Leite de (1905) – “Religiões da Lusitânia”. Vol.pro 2. Lisboa: INCM (reed. de 1989).
VEIGA, Estácio da (1866) – “Povos Balsenses: sua situação geographico-physica indicada por dous monumentos romanos recentemente descobertos na Quinta da Torre d’Ares…”. Lisboa: Livraria Catholica.
VEIGA, Estácio da (1887) – “Antiguidades monumentais do Algarve Tempos prehistóricos”. Lisboa: Imprensa Nacional, Vol. 2.
VIANA, Abel (1952) – “Ossónoba. O problema da sua localização”, Revista de Guimarães 42, 250-285.
VINAGRE, Augusto et al. (2008) – “Toponímia de S. Brás de Alportel”. Trabalho com alunos da Escola EB2,3 de S. Brás de Alportel in “dos Algarves”, 17, 52-58.
WESSELING, Petrus (1735) – “Vetera Romanorum Itineraria, sive Antonini Augusti Itinerarium, Itinerarium Hierosolymitanum, et Hieroclis Grammatici Synecdemus”. Amsterdam.

Um post sobre as vias antigas do Algarve

Apesar de ser uma região fortemente romanizada, a rede viária do Algarve na antiguidade continua com várias questões em aberto. As diferentes propostas que têm sido aventadas, muitas vezes incompatíveis entre si, não permitem traçar um quadro geral da rede com segurança. O primeiro investigador que abordou o problema de forma científica foi Estácio da Veiga nos finais do século XIX, iniciando um conjunto de estudos com base na evidência arqueológica que ia compilando e publicando durante as suas prospecções no terreno. Ao propor em definitivo a localização de Balsa na área da actual Quinta de Torre de Aires (em vez de Tavira) e de Baesuris no povoado sidérico de Castro Marim (em vez de Ayamonte), Veiga veio esclarecer muitas das dúvidas que permaneciam sobre a localização destes aglomerados desde as propostas iniciais de André de Resende no século XVI (Veiga, 1886). Por sua vez, a localização Ossonoba em Faro só ficou definitivamente estabelecida em meados do século XX por Abel Viana, desfazendo outro equívoco de Resende que associara Ossonoba aos vestígios monumentais da villa de Milreu em Estoi (Resende, 1593: fl.189; Viana, 1952: 250-285).

Segundo o Itinerário de Antonino (IA, 425.6), estes três povoados portuários do litoral Algarvio estavam interligados por uma via, seguindo presumivelmente paralela à linha de costa (Veiga, 1886). No início do século XX foi identificado próximo de Bias do Sul (Olhão) o único miliário até hoje conhecido do Algarve (IRCP 660), achado que parecia confirmar um trajecto próximo do litoral.

Fotos  do miliário tombado aquando da sua descoberta, a sua reutilização numa nora de Bias, e detalhe da epígrafe com as letras realçadas (in Mascarenhas, 1967). 


O marco foi desenterrado a uma profundidade de 50 cm já tombado junto da «Canada de Bias», aparentemente in situ, sendo posteriormente reutilizado numa nora ali próximo. Fernandes Mascarenhas refere a existência junto ao marco de “vestígios de construções, tais como caboucos espessos e bocados de telha e tijolo muitíssimo grossos” (Mascarenhas, 1967: 3-11). Mascarenhas também propôs que as 10 milhas gravadas no marco indicavam a distância a Faro que ronda de facto esse valor. Deste então, generalidade dos investigadores fazem passar a via litoral por Bias (Mantas, 1990: 184, 1997; Silva, 2002, 2005 e 2007; Rodrigues, 2004; Maia, 2006). Actualmente este marco encontra-se em exposição no Museu de Olhão depois de ter passado pelo Museu Paroquial de Moncarapacho.

Apesar da aparente consistência dos dados disponíveis, na verdade não há qualquer evidência no terreno da passagem por Bias de uma via na direcção este-oeste, facto que Mascarenhas contorna fazendo passar a via pela actual N125 (Mascarenhas, 1967: 9). A ser assim, então a via teria de seguir a norte da villa da Quinta do Marim em direcção a Faro. No entanto, tudo indica que este percurso é moderno, dado que cruza diversos esteiros que no período romano penetravam bem para interior da costa, nomeadamente através do Ribeiro do Tronco e da Ribeira de Marim. Pelo contrário, tudo indica que o percurso antigo seria por Moncarapacho, continuando depois em direcção à Ponte Velha de Quelfes e daqui a Faro (ver itinerário).

Mas a ser assim, então o miliário de Bias não poderia assinalar essa via ao longo do litoral, mas uma outra via, mas qual? Para sul, temos o oceano, logo a via só poderia correr para norte, perpendicular à estrada para Faro. E de facto o miliário apareceu tombado junto de um caminho antigo designado por «Canada de Bias» que parte para norte e que ainda hoje é utilizado como caminho rural, seguindo na direcção de Moncarapacho e daqui por São Brás de Alportel até Querença, entroncando aqui no itinerário principal de Faro a Alcácer do Sal (Salacia). Por sua vez, esta via cruzava a serrania Algarvia rumo ao povoado pré-romano do Castro da Cola (Ourique), presumível localização de Arannis, estação viária a 60 milhas de Faro de acordo com o Itinerário XXI de Antonino.

A estrada de Bias a Querença passando por Moncarapcho, Pereiro, Mesquita e São Brás de Alportel

Muito próximo do local onde apareceu o miliário, existe uma encruzilhada de estradas junto da casa da Quinta do Neto que poderia ser o local original da sua implantação, dado que este local se encontra a cerca de 3 milhas de Moncarapacho. Nesta encruzilhada existe um bebedouro para animais e um poço em relação directa com a estrada, evidenciando o carácter viário deste local (fotos). Este acerto torna-se evidente logo na primeira milha que era vencida junto da Ermida de São Sebastião dos Matinhos (ou do Bitoito) em Belo Romão.

A partir de Moncarapacho, a via prosseguia o seu percurso para norte até próximo do Cerro do Moinho de Pereiro (m.p. VI), junto do qual inflectia para noroeste rumo a São Brás de Alportel, passando junto do Poço do Cavaleiro (m.p. VIII) e do casal romano de Desbarato, situado a 9 milhas de Bias. Este lugar é mencionado na “Crónica da Conquista do Algarve“, como sendo o local onde Dom Paio Peres Correia e os seus cavaleiros pernoitaram, aquando da sua incursão a Tavira (Agostinho, 1792), possivelmente junto da fonte referida num auto de 1595 “…no primçipio das terras do desbarato domde esta húa fonte por marquo.” (Vinagre, 2006: 53).

É interessante notar que o nome deste lugar, ‘desbarato’, pode ser, segundo alguns autores, uma derivação da palavra árabe ‘bis-barat’ (Silva, 2002: 76) com a qual podemos relacionar o enigmático topónimo de ‘Bias’. Por sua vez, o termo ‘barat‘ poderia ser ‘balat‘ no nome original que tem o significado genérico de ‘via’ ou ‘caminho calcetado’. Se assim for, então o topónimo ‘bis-balat’ poderia ser lido como ‘calçada de Bias’, ou seja, seria uma referência directa à via na sua passagem por Desbarato, mas não dispomos de outros dados que o confirmem.

De Desbarato a via seguia até à décima milha que era vencida no sítio do Cerro da Mesquita, sendo a estrada aparentemente referida num auto de 1595 como “caminho do Chamso a dar no Ribeiro da Mesquita […] e dahi vai a partisão pelo ribeiro da fonte da mesquita que he muito antiga” (Vinagre, 2006:55). Na área são conhecidos diversos casais romanos relacionáveis com esta paragem, mas não há sinais de qualquer povoado nas proximidades. Deste modo, é possível que esta estação esteja relacionada com algum lugar de culto, presumível antecessor da mesquita aparentemente denunciada pelo respectivo topónimo.

A via continuava por São Brás Alportel, passando ligeiramente a norte desta povoação pelo lugar de Campina, onde deveria existir nova estação viária a 12 milhas de Bias. Daqui partia um ramal de ligação a Faro passando por Estoi (também com 12 milhas), mas a via que estamos a descrever continuava mantinha a sua directriz noroeste, seguindo em direcção a Querença pelo caminho de Almarjão. Em Querença, entroncava na principal via que saía do Algarve para norte rumo a Alcácer do Sal, passando por Arannis, estação rodoviária mencionada no Itinerário 21 de Antonino, presumivelmente localizada no povoado pré-romano de Castro da Cola (Ourique).

A utilidade da ligação a Bias é mais bem compreendida quando analisamos o seu percurso no sentido inverso. Para quem chegava ao Algarve por Querença poderia rumar a Faro por Loulé ou seguir pela «Canada de Bias» até ao litoral, cruzando em Moncarapacho com a via litoral de Faro a Castro Marim, seguindo por Balsa e Tavira. A existência desta via de Querença rumo a Bias só poderia ser explicada assumindo a existência aí de um porto durante o período romano. Em 1841, João da Silva Lopes escrevia: “No sitio de Bias tem-se encontrado muitas sepulturas, todas com uma pedra na cabeceira, outra aos pés, e duas no meio” (Silva Lopes, 1841: 372). Também Fernando de Mascarenhas refere “o achado de imensos materiais de construção de tipo romano, muito próximo do mar” (Mascarenhas, 1967: 4). A cerca de 500 m da encruzilhada de Bias, existem ainda vestígios de uma torre quadrangular fortificada (designada por «Torre de Bias do Sul 2») que poderá estar relacionada com esta função portuária, apesar de a sua cronologia não recuar aparentemente para além do século XI.

A rede viária romana do Algarve entre Faro e Castro Marim (viasromanas.pt)

A ser assim, então o miliário assinalava a distância do porto de Bias à estação viária do Cerro da Mesquita, local que concorda com as 10 milhas indicadas. A importância desta estação decorre do facto se localizar exactamente a meio percurso desta via, dado que daqui a Querença são também 10 milhas, perfazendo um total de 20 milhas, módulo que aliás se repete na via de Castro Marim a Faro com um total 40 milhas, tendo Tavira como ponto intermédio, dado que se encontra a 20 milhas tanto de Faro como da margem direita do Guadiana junto a Castro Marim (e não Balsa, fundada apenas no século I). Esta surpreendente concordância nas distâncias entre etapas não pode ser uma mera coincidência, mas antes um acto deliberado de estruturar a rede com distâncias normalizadas.

Neste contexto, importa recuperar a velha discussão sobre a localização da Statio Sacra mencionada na obra geográfica do Anónimo de Ravena, aparentemente localizada por este autor entre Balsa e Ossonoba (Rav. IV.43). Em 1877 Estácio da Veiga propôs a sua localização na Quinta do Marim, hipótese muito disseminada, mas que sempre levantou muitas dúvidas entre investigadores (Veiga, 1887: 390-391; Mantas, 1997: 315). O nome sugere a existência de um local de culto ou santuário rural, mas em Marim apenas foi identificado um mausoléu privado relacionado com a villa romana que ali existia (Graen, 2007: 277). Por sua vez, Leite de Vasconcelos associou-a ao Promontorium Sacrum (actual Cabo de São Vicente), supondo que corresponderia aos vestígios do centro de produção de ânforas da Praia do Martinhal (Vasconcelos 1905:198); mais recentemente foi associada a Moncarapacho (Silva, 2002: 47) e à villa de Milreu (Mantas, 2008: 247), mas nenhuma destas proposta foi até hoje confirmada. Moncarapacho seria de facto um bom candidato dado que se trata de uma estação viária da via Ossonoba-Balsa, no entanto é difícil de explicar a razão do “Anónimo” mencionar uma estação tão próximo Balsa (apenas 6 milhas), sendo que esta estação não é mencionada no Itinerário de Antonino.

Perante estas incoerências nas fontes, é possível que a Statio Sacra não estivesse relacionada com a estrada Ossonoba-Balsa, mas com esta via de Bias a Querença. Com base nos dados actualmente disponíveis, não podemos excluir a sua localização em qualquer das respectivas estações (nomeadamente em Bias, Moncarapacho, Mesquita, Alportel ou Querença), mas o facto do miliário indicar 10 milhas não pode ser ignorado, sugerindo que existia algum lugar relevante a essa distânciaa de Bias.

A ser assim, então a Statio Sacra estaria a 10 milhas de BIas, ou seja, nas proximidades da Fonte da Mesquita, remetendo eventualmente para um santuário rural, mas para já não passa de uma mera hipótese de trabalho, até porque o inverso também é possível, ou seja, a palavra “statio” também designava um ‘pequeno porto’, viabilizando a sua localização em Bias do Sul. Por sua vez, o epíteto “sacra” poderá, neste contexto, ter o sentido de “imperial” (Tovar, 1976: 206), sugerindo uma consagração do lugar ao culto imperial. O contexto arqueológico aponta também nesse sentido, nomeadamente uma inscrição consagrada a Augusto por um administrador (‘dispensator’) da vizinha cidade de Balsa (IRCP 74), assim como o próprio marco de Bias que terá sido colocado durante a dinastia júlio-cláudia, ou seja, em algum momento entre 27 a.C. e 68 d.C. (Encarnação, 1984: 720). A fundação de Balsa neste período (possivelmente em resultado do progressivo assoreamento do porto Tavira, do qual dista apenas 6 km), poderá ter implicado também a reforma do sistema viário, das quais a statio sacra e o miliário fariam eco.

Porém, seja qual for a verdadeira localização da misteriosa Statio Sacra, a importância desta estrada de Bias a Querença no contexto viário romano (e anterior) parece inquestionável, permitindo solucionar muitas das incongruências observadas nas anteriores propostas que em geral fazem seguir a estrada Ossonoba-Balsa por Torre de Aires, Bias e Marim, enquanto consideram que a estrada proveniente de Querença seguia pelo Cerro da Mesquita directo a Tavira, o que não se verifica no terreno. Naturalmente que estas propostas têm fortes implicações no quadro geral da rede viária do Algarve, com os itinerários revistos disponíveis em www.viasromanas.pt e os respectivos traçados no Mapa de Vias disponível em www.viasromanas.pt/vr_map.html (a partir da versão 4.4).

Coordenadas dos pontos-chave desta rota:
Milha zero em Bias: 37.049608, -7.776432
Ermida de São Sebastião (m.p. I): 37.060587, -7.785435,
Desbarato (m.p. IX): 37.143647, -7.842630
Fonte da Mesquita: 37.146892,-7.854586
Cerro da Mesquita (m.p. X): 37.149943,-7.855184

Bibliografia:
AGOSTINHO, Frei Joaquim de Santo (1792) – “Sobre huma chronica inédita da conquista do Algarve”, Memórias de Litteratura Portuguesa, Real Academia das Ciências, Lisboa, Tomo I, p.74-97.
ANÓNIMO DE RAVENA (7 d.C.) – “Ravennatis Anonymi Cosmographia et Guidonis Geographica”. Berlin: M. Pinder / G. Parthey (1860).
ENCARNAÇÃO, José d’ (1984) – “Inscrições Romanas do Conventus Pacensis: subsídios para o estudo da romanização (IRCP)”. Coimbra: Universidade.
GRAEN (2007), Dennis – “O sítio da Quinta de Marim (Olhão) na época tardo-romana e o problema da localização da Statio Sacra”. In RPA 10, 1, 275-288.
MAIA, M. (2006) – “De Baesuris a Pax Ivlia por Aranis”. São Brás de Alportel: Actas das I Jornadas «As Vias do Algarve», 46-53.
MANTAS, Vasco G. (1990) – “As cidades marítimas da Lusitânia”. Paris: CNRS (Coll. Maison des Pays Ibériques; 42), p. 149-205.
MANTAS, Vasco G. (1997) – “As civitates: Esboço da geografia política e económica do Algarve romano”, in Noventa séculos entre aserra e o mar, Lisboa, 283-309.
MANTAS, Vasco G. (2008) – “A rede viária romana em Portugal: estado da questao e perspectivas futuras”. Anas, 21-22, 2008-2009, 245-272.
MASCARENHAS, J. Fernandes (1967) – “De Ossónoba a Balsa”. Col. Por Terras do Algarve – Tavira: Ed. Autor, 7-25.
RODRIGUES, Sandra (2004) – “As Vias Romanas do Algarve”. Faro: CUP-UAlg/CCRA.
RESENDE, André de (1593) – “As Antiguidades da Lusitânia”. Lisboa: Edição «Fundação Calouste Gulbenkian», 1996. Introdução, tradução e comentário de R. M. Rosado Fernandes.
SILVA, L. Fraga da (2002) – “A região de São Brás de Alportel na Antiguidade”. Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
SILVA LOPES, J. B. da (1841) – “Corografia ou Memória económica, estadística e topográfica do Reino do Algarve”. Lisboa: Academia Real das Ciências.
TOVAR, Antonio (1976) – “Iberische Landeskunde – Die Völker und die Städte des antiken Hispanien”, Part II, Vol. 2. Lusitanie. Baden-Baden.
VASCONCELOS, J. Leite de (1905) – “Religiões da Lusitânia”. Vol.pro 2. Lisboa: INCM (reed. de 1989).
VEIGA, Estácio da (1866) – “Povos Balsenses: sua situação geographico-physica indicada por dous monumentos romanos recentemente descobertos na Quinta da Torre d’Ares…”. Lisboa: Livraria Catholica.
VEIGA, Estácio da (1887) – “Antiguidades monumentais do Algarve Tempos prehistóricos”. Lisboa: Imprensa Nacional, Vol. 2.
VIANA, Abel (1952) – “Ossónoba. O problema da sua localização”, Revista de Guimarães 42, 250-285.
VINAGRE, Augusto et al. (2008) – “Toponímia de S. Brás de Alportel”. Trabalho com alunos da Escola EB2,3 de S. Brás de Alportel in “dos Algarves”, 17, 52-58.
WESSELING, Petrus (1735) – “Vetera Romanorum Itineraria, sive Antonini Augusti Itinerarium, Itinerarium Hierosolymitanum, et Hieroclis Grammatici Synecdemus”. Amsterdam.

Miliários de Cortiço

In the village of Cortiço (Cervos, Montalegre) there is a milestone supporting the porch of a house, belonging to the Roman road from Braga to Chaves. Another fragment was reused in the garden of the house of Mr. Domingos in the municipal road EM1004 connecting the village to the national road EN103. He still remembers the existence of another similar fragment among the ruins of a village house. It is probably still there but today is no longer visible.

Coordinates milestone 1: 41.767853, -7.704702

Coordinates milestone 2: 41.771776, -7.704316