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Um post sobre as vias antigas do Algarve

Apesar de ser uma região fortemente romanizada, a rede viária do Algarve na antiguidade continua com várias questões em aberto. As diferentes propostas que têm sido aventadas, muitas vezes incompatíveis entre si, não permitem traçar um quadro geral da rede com segurança. O primeiro investigador que abordou o problema de forma científica foi Estácio da Veiga nos finais do século XIX, iniciando um conjunto de estudos com base na evidência arqueológica que ia compilando e publicando durante as suas prospecções no terreno. Ao propor em definitivo a localização de Balsa na área da actual Quinta de Torre de Aires (em vez de Tavira) e de Baesuris no povoado sidérico de Castro Marim (em vez de Ayamonte), Veiga veio esclarecer muitas das dúvidas que permaneciam sobre a localização destes aglomerados desde as propostas iniciais de André de Resende no século XVI (Veiga, 1886). Por sua vez, a localização Ossonoba em Faro só ficou definitivamente estabelecida em meados do século XX por Abel Viana, desfazendo outro equívoco de Resende que associara Ossonoba aos vestígios monumentais da villa de Milreu em Estoi (Resende, 1593: fl.189; Viana, 1952: 250-285).

Segundo o Itinerário de Antonino (IA, 425.6), estes três povoados portuários do litoral Algarvio estavam interligados por uma via, seguindo presumivelmente paralela à linha de costa (Veiga, 1886). No início do século XX foi identificado próximo de Bias do Sul (Olhão) o único miliário até hoje conhecido do Algarve (IRCP 660), achado que parecia confirmar um trajecto próximo do litoral. O marco foi desenterrado a uma profundidade de 50 cm já tombado junto da «Canada de Bias», aparentemente in situ, sendo posteriormente reutilizado numa nora ali próximo. Fernandes Mascarenhas refere a existência junto ao marco de “vestígios de construções, tais como caboucos espessos e bocados de telha e tijolo muitíssimo grossos”, propondo ainda que as 10 milhas gravadas no marco seriam referentes a Faro, o que está de facto de acordo com a distância medida entre estes dois locais (Mascarenhas, 1967: 3-11).

Fotos  do miliário tombado aquando da sua descoberta, a sua reutilização numa nora de Bias, e detalhe da epígrafe com as letras realçadas (in Mascarenhas, 1967). 

Desde então, a generalidade dos investigadores traça o percurso desta via por Bias com base neste pressuposto (Mantas, 1990: 184, 1997; Silva, 2002, 2005 e 2007; Rodrigues, 2004; Maia, 2006). Felizmente o marco sobreviveu até aos nossos dias, e depois de ter estado muitos anos no Museu Paroquial de Moncarapacho, está hoje em exposição no Museu de Olhão

Apesar da aparente consistência dos dados disponíveis, na verdade não há qualquer evidência no terreno da passagem por Bias de uma via na direcção este-oeste, facto que Mascarenhas contorna fazendo passar a via pela actual N125 (Mascarenhas, 1967: 9). A ser assim, então a via teria de seguir a norte da villa da Quinta do Marim em direcção a Faro. No entanto, tudo indica que este percurso é moderno, dado que cruza diversos esteiros que no período romano penetravam bem para interior da costa, nomeadamente através do Ribeiro do Tronco e da Ribeira de Marim. Pelo contrário, tudo indica que o percurso antigo seria por Moncarapacho, continuando depois em direcção à Ponte Velha de Quelfes e daqui a Faro (ver itinerário).

Mas se era assim, então o miliário de Bias não poderia assinalar essa via ao longo do litoral, mas uma outra via, mas qual? Para sul, temos o oceano, logo a via só poderia correr para norte, perpendicular à estrada para Faro. E de facto o miliário apareceu tombado junto de um caminho antigo designado por «Canada de Bias» que parte para norte e que ainda hoje é utilizado como caminho rural, seguindo na direcção de Moncarapacho e daqui por São Brás de Alportel até Querença, entroncando aqui no itinerário principal de Faro a Alcácer do Sal (Salacia). Por sua vez, esta via cruzava a serrania Algarvia rumo ao povoado pré-romano do Castro da Cola (Ourique), presumível localização de Arannis, estação viária a 60 milhas de Faro de acordo com o Itinerário XXI de Antonino.

A estrada de Bias a Querença passando por Moncarapcho, Pereiro, Mesquita e São Brás de Alportel

Muito próximo do local onde apareceu o miliário, existe uma encruzilhada de estradas junto da casa da Quinta do Neto que poderia ser o local original da sua implantação, dado que este local se encontra a cerca de 3 milhas de Moncarapacho. Nesta encruzilhada existe um bebedouro para animais e um poço em relação directa com a estrada, evidenciando o carácter viário deste local (fotos). Este acerto torna-se evidente logo na primeira milha que era vencida junto da Ermida de São Sebastião dos Matinhos (ou do Bitoito) em Belo Romão.

A partir de Moncarapacho, a via prosseguia o seu percurso para norte até próximo do Cerro do Moinho de Pereiro (m.p. VI), junto do qual inflectia para noroeste rumo a São Brás de Alportel, passando junto do Poço do Cavaleiro (m.p. VIII) e do casal romano de Desbarato, situado a 9 milhas de Bias. Este lugar é mencionado na “Crónica da Conquista do Algarve“, como sendo o local onde Dom Paio Peres Correia e os seus cavaleiros pernoitaram, aquando da sua incursão a Tavira (Agostinho, 1792), possivelmente junto da fonte referida num auto de 1595 “…no primçipio das terras do desbarato domde esta húa fonte por marquo.” (Vinagre, 2006: 53).

É interessante notar que o nome deste lugar, ‘desbarato’, pode ser, segundo alguns autores, uma derivação da palavra árabe ‘bis-barat’ (Silva, 2002: 76) com a qual podemos relacionar o enigmático topónimo de ‘Bias’. Por sua vez, o termo ‘barat‘ poderia ser ‘balat‘ no nome original que tem o significado genérico de ‘via’ ou ‘caminho calcetado’. Se assim for, então o topónimo ‘bis-balat’ poderia ser lido como ‘calçada de Bias’, ou seja, seria uma referência directa à via na sua passagem por Desbarato, mas não dispomos de outros dados que o confirmem.

De Desbarato a via seguia até à décima milha que era vencida no sítio do Cerro da Mesquita, sendo a estrada aparentemente referida num auto de 1595 como “caminho do Chamso a dar no Ribeiro da Mesquita […] e dahi vai a partisão pelo ribeiro da fonte da mesquita que he muito antiga” (Vinagre, 2006:55). Na área são conhecidos diversos casais romanos relacionáveis com esta paragem, mas não há sinais de qualquer povoado nas proximidades. Deste modo, é possível que esta estação esteja relacionada com algum lugar de culto, presumível antecessor da mesquita aparentemente denunciada pelo respectivo topónimo.

A via continuava por São Brás Alportel, passando ligeiramente a norte desta povoação pelo lugar de Campina, onde deveria existir nova estação viária a 12 milhas de Bias. Daqui partia um ramal de ligação a Faro passando por Estoi (também com 12 milhas), mas a via que estamos a descrever continuava mantinha a sua directriz noroeste, seguindo em direcção a Querença pelo caminho de Almarjão. Em Querença, entroncava na principal via que saía do Algarve para norte rumo a Alcácer do Sal, passando por Arannis, estação rodoviária mencionada no Itinerário 21 de Antonino, presumivelmente localizada no povoado pré-romano de Castro da Cola (Ourique).

A utilidade da ligação a Bias é mais bem compreendida quando analisamos o seu percurso no sentido inverso. Para quem chegava ao Algarve por Querença poderia rumar a Faro por Loulé ou seguir pela «Canada de Bias» até ao litoral, cruzando em Moncarapacho com a via litoral de Faro a Castro Marim, seguindo por Balsa e Tavira. A existência desta via de Querença rumo a Bias só poderia ser explicada assumindo a existência aí de um porto durante o período romano. Em 1841, João da Silva Lopes escrevia: “No sitio de Bias tem-se encontrado muitas sepulturas, todas com uma pedra na cabeceira, outra aos pés, e duas no meio” (Silva Lopes, 1841: 372). Também Fernando de Mascarenhas refere “o achado de imensos materiais de construção de tipo romano, muito próximo do mar” (Mascarenhas, 1967: 4). A cerca de 500 m da encruzilhada de Bias, existem ainda vestígios de uma torre quadrangular fortificada (designada por «Torre de Bias do Sul 2») que poderá estar relacionada com esta função portuária, apesar de a sua cronologia não recuar aparentemente para além do século XI.

A rede viária romana do Algarve entre Faro e Castro Marim (viasromanas.pt)

A ser assim, então o miliário assinalava a distância do porto de Bias à estação viária do Cerro da Mesquita, local que concorda com as 10 milhas indicadas. A importância desta estação decorre do facto se localizar exactamente a meio percurso desta via, dado que daqui a Querença são também 10 milhas, perfazendo um total de 20 milhas, módulo que aliás se repete na via de Castro Marim a Faro com um total 40 milhas, tendo Tavira como ponto intermédio, dado que se encontra a 20 milhas tanto de Faro como da margem direita do Guadiana junto a Castro Marim (e não Balsa, fundada apenas no século I). Esta surpreendente concordância nas distâncias entre etapas não pode ser uma mera coincidência, mas antes um acto deliberado de estruturar a rede com distâncias normalizadas.

Neste contexto, importa recuperar a velha discussão sobre a localização da Statio Sacra mencionada na obra geográfica do Anónimo de Ravena, aparentemente localizada por este autor entre Balsa e Ossonoba (Rav. IV.43). Em 1877 Estácio da Veiga propôs a sua localização na Quinta do Marim, hipótese muito disseminada, mas que sempre levantou muitas dúvidas entre investigadores (Veiga, 1887: 390-391; Mantas, 1997: 315). O nome sugere a existência de um local de culto ou santuário rural, mas em Marim apenas foi identificado um mausoléu privado relacionado com a villa romana que ali existia (Graen, 2007: 277). Por sua vez, Leite de Vasconcelos associou-a ao Promontorium Sacrum (actual Cabo de São Vicente), supondo que corresponderia aos vestígios do centro de produção de ânforas da Praia do Martinhal (Vasconcelos 1905:198); mais recentemente foi associada a Moncarapacho (Silva, 2002: 47) e à villa de Milreu (Mantas, 2008: 247), mas nenhuma destas proposta foi até hoje confirmada. Moncarapacho seria de facto um bom candidato dado que se trata de uma estação viária da via Ossonoba-Balsa, no entanto é difícil de explicar a razão do “Anónimo” mencionar uma estação tão próximo Balsa (apenas 6 milhas), sendo que esta estação não é mencionada no Itinerário de Antonino.

Perante estas incoerências nas fontes, é possível que a Statio Sacra não estivesse relacionada com a estrada Ossonoba-Balsa, mas com esta via de Bias a Querença. Com base nos dados actualmente disponíveis, não podemos excluir a sua localização em qualquer das respectivas estações (nomeadamente em Bias, Moncarapacho, Mesquita, Alportel ou Querença), mas o facto do miliário indicar 10 milhas não pode ser ignorado, sugerindo que existia algum lugar relevante a essa distânciaa de Bias.

A ser assim, então a Statio Sacra estaria a 10 milhas de BIas, ou seja, nas proximidades da Fonte da Mesquita, remetendo eventualmente para um santuário rural, mas para já não passa de uma mera hipótese de trabalho, até porque o inverso também é possível, ou seja, a palavra “statio” também designava um ‘pequeno porto’, viabilizando a sua localização em Bias do Sul. Por sua vez, o epíteto “sacra” poderá, neste contexto, ter o sentido de “imperial” (Tovar, 1976: 206), sugerindo uma consagração do lugar ao culto imperial. O contexto arqueológico aponta também nesse sentido, nomeadamente uma inscrição consagrada a Augusto por um administrador (‘dispensator’) da vizinha cidade de Balsa (IRCP 74), assim como o próprio marco de Bias que terá sido colocado durante a dinastia júlio-cláudia, ou seja, em algum momento entre 27 a.C. e 68 d.C. (Encarnação, 1984: 720). A fundação de Balsa neste período (possivelmente em resultado do progressivo assoreamento do porto Tavira, do qual dista apenas 6 km), poderá ter implicado também a reforma do sistema viário, das quais a statio sacra e o miliário fariam eco.

Porém, seja qual for a verdadeira localização da misteriosa Statio Sacra, a importância desta estrada de Bias a Querença no contexto viário romano (e anterior) parece inquestionável, permitindo solucionar muitas das incongruências observadas nas anteriores propostas que em geral fazem seguir a estrada Ossonoba-Balsa por Torre de Aires, Bias e Marim, enquanto consideram que a estrada proveniente de Querença seguia pelo Cerro da Mesquita directo a Tavira, o que não se verifica no terreno. Naturalmente que estas propostas têm fortes implicações no quadro geral da rede viária do Algarve, com os itinerários revistos disponíveis em www.viasromanas.pt e os respectivos traçados no Mapa de Vias disponível em www.viasromanas.pt/vr_map.html (a partir da versão 4.4).

Coordenadas dos pontos-chave desta rota:
Milha zero em Bias: 37.049608, -7.776432
Ermida de São Sebastião (m.p. I): 37.060587, -7.785435,
Desbarato (m.p. IX): 37.143647, -7.842630
Fonte da Mesquita: 37.146892,-7.854586
Cerro da Mesquita (m.p. X): 37.149943,-7.855184

Bibliografia:
AGOSTINHO, Frei Joaquim de Santo (1792) – “Sobre huma chronica inédita da conquista do Algarve”, Memórias de Litteratura Portuguesa, Real Academia das Ciências, Lisboa, Tomo I, p.74-97.
ANÓNIMO DE RAVENA (7 d.C.) – “Ravennatis Anonymi Cosmographia et Guidonis Geographica”. Berlin: M. Pinder / G. Parthey (1860).
ENCARNAÇÃO, José d’ (1984) – “Inscrições Romanas do Conventus Pacensis: subsídios para o estudo da romanização (IRCP)”. Coimbra: Universidade.
GRAEN (2007), Dennis – “O sítio da Quinta de Marim (Olhão) na época tardo-romana e o problema da localização da Statio Sacra”. In RPA 10, 1, 275-288.
MAIA, M. (2006) – “De Baesuris a Pax Ivlia por Aranis”. São Brás de Alportel: Actas das I Jornadas «As Vias do Algarve», 46-53.
MANTAS, Vasco G. (1990) – “As cidades marítimas da Lusitânia”. Paris: CNRS (Coll. Maison des Pays Ibériques; 42), p. 149-205.
MANTAS, Vasco G. (1997) – “As civitates: Esboço da geografia política e económica do Algarve romano”, in Noventa séculos entre aserra e o mar, Lisboa, 283-309.
MANTAS, Vasco G. (2008) – “A rede viária romana em Portugal: estado da questao e perspectivas futuras”. Anas, 21-22, 2008-2009, 245-272.
MASCARENHAS, J. Fernandes (1967) – “De Ossónoba a Balsa”. Col. Por Terras do Algarve – Tavira: Ed. Autor, 7-25.
RODRIGUES, Sandra (2004) – “As Vias Romanas do Algarve”. Faro: CUP-UAlg/CCRA.
RESENDE, André de (1593) – “As Antiguidades da Lusitânia”. Lisboa: Edição «Fundação Calouste Gulbenkian», 1996. Introdução, tradução e comentário de R. M. Rosado Fernandes.
SILVA, L. Fraga da (2002) – “A região de São Brás de Alportel na Antiguidade”. Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
SILVA LOPES, J. B. da (1841) – “Corografia ou Memória económica, estadística e topográfica do Reino do Algarve”. Lisboa: Academia Real das Ciências.
TOVAR, Antonio (1976) – “Iberische Landeskunde – Die Völker und die Städte des antiken Hispanien”, Part II, Vol. 2. Lusitanie. Baden-Baden.
VASCONCELOS, J. Leite de (1905) – “Religiões da Lusitânia”. Vol.pro 2. Lisboa: INCM (reed. de 1989).
VEIGA, Estácio da (1866) – “Povos Balsenses: sua situação geographico-physica indicada por dous monumentos romanos recentemente descobertos na Quinta da Torre d’Ares…”. Lisboa: Livraria Catholica.
VEIGA, Estácio da (1887) – “Antiguidades monumentais do Algarve Tempos prehistóricos”. Lisboa: Imprensa Nacional, Vol. 2.
VIANA, Abel (1952) – “Ossónoba. O problema da sua localização”, Revista de Guimarães 42, 250-285.
VINAGRE, Augusto et al. (2008) – “Toponímia de S. Brás de Alportel”. Trabalho com alunos da Escola EB2,3 de S. Brás de Alportel in “dos Algarves”, 17, 52-58.
WESSELING, Petrus (1735) – “Vetera Romanorum Itineraria, sive Antonini Augusti Itinerarium, Itinerarium Hierosolymitanum, et Hieroclis Grammatici Synecdemus”. Amsterdam.

The ancient road through Lomba do Canho (Castro Laboreiro)

With regards to the current excavation at the Roman military camp of Lomba do Mouro (Castro Laboreiro), whose preliminary results point to the conquest period of the peninsular northwest (video), I tried to identify the possible route of the track that crossed the Roman camp, situated on the heights of the Laboreiro mountain range, present-day Galicia/Portugal border (apparently absent from the scientific literature). In fact, if we extend the track southwards, following the mountain’s festo line, we will find the new track, crossing the Lima river near the village of Torno (Lóbios). This route would be a northern derivation of the via nova between Bracara and Asturica, crossing the Lima at a meander of the river called Retorta, 45 miles away from Braga. It then ascended the slope up to the Ermida de San Benito (perhaps through Lama and Ferreiros), continuing afterwards through the Serra de Laboreiro up to the Roman camp, making up 13 miles from the Lima, the usual distance between road stations.

Fig. 1 – The Lomba do Mouro camp on the Luso-Spanish border (yellow line), walled enclosure and possible track layout (elaborated on Google Earth); distances to the Minho River (São Gregório, to the north) and the Lima River (Retorta, to the south). The light areas inside the enclosure correspond to previously excavated megalithic funerary monuments.

The compound still bears the remains of its 2.2 m thick wall, enclosing an area of over 20 hectares (Costa-García, Fonte and Gago, 2019: 33). The existence of this camp implies that the route would have continued to Galicia, but its route northwards from the camp does not seem feasible, presenting a very rugged terrain, where passage is very difficult. Thus, it is more likely that the track would have made an inflection towards Castro Laboreiro (perhaps through Alto da Picota, Queimadelo, Falagueiras, Coriscadas e Porto de Carros), and from there going north again, through Porto de Asnos and through the valley of the Trancoso River to São Gregório, where it entered Galicia. Its route should correspond to the path which passes through the road names Vido, Portelinha and Porteiro or Porto de Cavaleiros (former “Porto de Asnos”), continuing through Alcobaça, A-da-Velha, Campo do Souto, Sobreira and Cristoval as far as São Gregório, going down from here to cross the Trancoso river at the so-called Ponte Velha or Ponte Barxas, an ancient entrance gate into Galician territory. The route could then follow alongside the toponym Vendas towards the Ermida de San Xusto (Trado), 18 miles from Lomba do Mouro, possibly heading towards Ourense, but its final destination is still uncertain.

Fig. 2 – The Roman camp of Lomba do Mouro (in García, Fonte and Gago, 2019: 33)

The strategic importance of this penetration route for the Roman armies of the initial phase of the conquest seems to be attested by the great size of the military enclosure, almost totally surrounded by a solid wall, which could only be justified for a route of the greatest military importance. Its location, halfway between the Lima and Minho rivers (13 miles to the Lima and 14 to São Gregório), allowed it to exert total control over this passage.

Although some authors felt that there should be a northward derivation of the new route, its layout continued to raise many doubts. The identification and characterisation of this important military settlement thus provides a strong argument for the identification of this road axis and its articulation with the major routes in the region.

Fig. 3 – Hypothetical track layout (green line) deriving from the ‘new track’ to the north (yellow line), passing through Castrum da Lomba do Mouro, then descending towards Castro Laboreiro to take the old entry route to Galicia via Porto de Asnos and Ponte Velha de São Gregório (elaborated on Google Earth, 2021)

There doesn’t seem to be any doubt about the antiquity of this path, given that the Roman settlement sits on a vast field covered with megalithic funerary monuments that testify to its use since very early times. Despite the abandonment of the camp after the conquest of this territory, the track would have remained in use until the high-medieval period, during which the dividing line between Portugal and the current Galician territory was formed. The fact that the route crossed both sides of this division may have contributed to its decline, as it was now cut by the border line.

The “Portuguese” part, connecting Castro Laboreiro to São Gregório, through the referred
“Porto de Asnos” remains in use as the main entrance to Galicia, as referred to in various medieval documents, and is considered a strategic passage for the defence of the Entre Lima and Minho territory. Following a tax dispute with the neighbouring Castle of Melgaço, this stretch of the road was closed to traffic in 1361, forcing all travellers to go to and from Galicia via Melgaço, which also contributed to its oblivion:

“To avoid paying this toll, merchants who carried their goods from Galicia, and vice versa, opted for the passage of the Porto dos Asnos, joint place of the parishes of Lamas de Mouro and Castro Laboreiro. To avoid this tax evasion, by letter written in Elvas, on 28th May 1361, D. Pedro I forbade this path, forcing the merchants to pass through Melgaço”. (in Domingues, 2003: 11)

The growing disuse of this route may have contributed to its relative oblivion in the context of Roman roads, but identification of what seems to be “the largest and oldest” Roman military camp between the 2nd and 1st centuries BC. (Costa-García, Fonte and Gago, 2019: 33), located precisely halfway between the rivers Lima and Minho, constitutes a strong argument to validate the existence from this route that was surely one of the lines of penetration lines of the Roman army during the period of conquest in the northwest of the Iberian Peninsula.

Bibliography:

COSTA-GARCÍA, J.M.; FONTE, J.; GAGO, M.; (2019) – “The reassessment of the Roman military presence in Galicia and Northern Portugal through digital tools: archaeological diversity and historical problems”, Mediterranean Archaeology and Archaeometry 19, 3, (2019), p. 17-49 https://zenodo.org/record/3457524

DOMINGUES, José (2003) – “O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro. “Ádito” para o debate”. Porto, 2003, [placed online 6 May 2013].
http://www.academia.edu/3470740

romanarmy.eu – Collective research on the Roman military presence in the northwest Iberian Peninsula https://www.youtube.com/watch?v=fXGZVPHf3Oc&ab_channel=romanarmy.eu

A via da Lomba do Mouro (Castro Laboreiro)

A propósito da escavação em curso no acampamento militar romano da Lomba do Mouro (Castro Laboreiro), cujos resultados preliminares apontam para o período inicial da conquista do noroeste peninsular (video), tentei identificar o possível traçado da via que cruzava o acampamento romano, situado nas alturas da Serra de Laboreiro, actual fronteira Galiza/Portugal (aparentemente ausente da literatura científica). De facto, se perlongarmos a via para sul percorrendo a linha de festo da serra vamos de encontro à via nova, cruzando o rio Lima próximo da povoação de Torno (Lóbios). Este trajecto seria assim uma derivação para norte da via nova entre Bracara e Asturica, cruzando o Lima num meandro do rio designado por Retorta que dista cerca de 45 milhas de Braga. Ascendia depois a encosta até à Ermida de San Benito (talvez por Lama e Ferreiros), continuando depois por alturas da Serra de Laboreiro até ao acampamento romano, perfazendo 13 milhas desde o Lima, distância habitual entre estações viárias.

Fig. 1 – O acampamento da Lomba do Mouro na fronteira luso-espanhola (linha amarela), recinto amuralhado e possível traçado da via (elaborado sobre Google Earth); distâncias ao Rio Minho (São Gregório, a norte) e ao Rio Lima (Retorta, a sul). As áreas claras no interior do recinto correspondem a monumentos funerários megalíticos anteriormente escavados.

O campo ostenta ainda os vestígios da sua muralha com 2,2 m de espessura, cercando uma área com mais de 20 hectares (Costa-García, Fonte e Gago, 2019: 33). A existência deste acampamento implica que a via teria continuação para a Galiza, mas o seu percurso para norte a partir do acampamento não parece ser viável, apresentando um terreno muito acidentado, onde a passagem se apresenta muito dificultada. Deste modo, é mais provável que a via fizesse uma inflexão rumo a Castro Laboreiro (por Alto da Picota, Queimadelo, Falagueiras, Coriscadas e Porto de Carros), para daqui retomar a direcção norte que trazia do rio Lima, seguindo por Porteiro (antigo «Porto de Asnos») e pelo vale do rio Trancoso até São Gregório, onde entrava na Galiza. O seu traçado deverá corresponder ao caminho que passa nos topónimos viários Vido, Portelinha e Porteiro ou Porto de Cavaleiros (antigo «Porto de Asnos»), continuando por Alcobaça, A-da-Velha, Campo do Souto, Sobreira e Cristoval até São Gregório, descendo daqui para cruzar o rio Trancoso na chamada Ponte Velha ou Ponte Barxas, antiga porta de entrada no território Galego. Na continuação, a via poderia seguir junto do topónimo Vendas em direcção à Ermida de San Xusto (Trado), local a cerca de 18 milhas da Lomba do Mouro, possivelmente rumo a Ourense, mas o seu destino final é ainda incerto.

Fig. 2 – O acampamento romano da Lomba do Mouro (in García, Fonte e Gago, 2019: 33)

A importância estratégica desta via de penetração dos exércitos romanos da fase inicial da conquista parece atestada pela grande dimensão do recinto militar, cercado quase na totalidade por uma sólida muralha que só teria justificação para uma via da maior importância militar. A sua localização, a meio caminho entre os rios Lima e Minho (cerca de 13 milhas ao Lima e cerca de 14 a São Gregório), permitia-lhe exercer total controlo desta passagem.

Embora fosse pressentido por alguns autores que deveria existir uma derivação da via nova para norte, o seu traçado continuava a levantar muitas dúvidas. A identificação e caracterização deste importante assentamento militar vem assim trazer um forte argumento para a identificação deste eixo viário e a sua articulação com os grandes itinerários da região.

Fig. 3 – Traçado hipotético da via (linha verde) derivando da ‘via nova’ para norte (linha amarela), passando na Castrum da Lomba do Mouro, descendo depois rumo a Castro Laboreiro para tomar o antigo caminho de entrada na Galiza por Porto de Asnos e Ponte Velha de São Gregório (elaborado sobre Google Earth, 2021)

Não parece haver qualquer dúvida sobre a antiguidade deste caminho, dado que o acampamento romano assenta sobre um vasto campo coberto de monumentos funerários megalíticos que testemunham a sua utilização desde tempos bem recuados. Apesar do abandono do recinto após a conquista deste território, a via terá permanecido em utilização até ao período alto-medieval, durante no qual se foi formando a linha divisória entre Portugal e o actual território Galego. O facto de a via percorrer ambos os lados desta divisória poderá ter contribuído para o seu declínio dado que estava agora cortada pela linha fronteiriça.

A parte “portuguesa”, ligando Castro Laboreiro a São Gregório, pelo referido
«Porto de Asnos» continua em utilização como principal porta de entrada na Galiza, tal como é referido em vários documentos medievais, sendo considerada uma passagem estratégica para a defesa do território de Entre Lima e Minho. Na sequência de uma disputa tributária com o vizinho Castelo de Melgaço, este troço da via acaba sendo vedado ao trânsito em 1361, obrigando que todos os viandantes de e para a Galiza seguissem por Melgaço, o que também terá contribuído para o seu esquecimento:

“Para evitar o pagamento dessa portagem, os mercadores que acarretavam os seus bens de Galiza, e vice-versa, optavam pela passagem do Porto dos Asnos, lugar meeiro das freguesias de Lamas de Mouro e Castro Laboreiro. Para evitar essa evasão fiscal, por carta passada em Elvas, aos 28 de Maio de 1361, D. Pedro I interdita esse caminho, obrigando os mercadores a passar por Melgaço.” (Domingues, 2003: 11)

A crescente inutilização deste eixo viário poderá ter contribuído assim para o seu relativo esquecimento no contexto da viação romana, mas identificação do que parece ser “o maior e mais antigo” acampamento militar romano entre os séculos II e I a.C. (Costa-García, Fonte e Gago, 2019: 33), localizado precisamente a meio caminho entre os rios Lima e Minho, constitui um argumento de peso para validar a existência desta via que terá sido como tudo indica uma das principais linhas de penetração das hostes romanas durante o período da conquista do noroeste peninsular.

Bibliografia:

COSTA-GARCÍA, J.M.; FONTE, J.; GAGO, M.; (2019) – “The reassessment of the Roman military presence in Galicia and Northern Portugal through digital tools: archaeological diversity and historical problems”, Mediterranean Archaeology and Archaeometry 19, 3, (2019), p. 17-49 (https://zenodo.org/record/3457524)

COSTA-GARCÍA, J.M.; FONTE, J.; GAGO, M.; (2019) – “A reavaliação da presença militar romana na Galiza e no Norte de Portugal através de ferramentas digitais: diversidade arqueológica e problemas históricos”. Mediterranean Archaeology and Archaeometry 20 (2019)
(https://minerva.usc.es/xmlui/bitstream/handle/10347/19902/maa_resumo_pt.pdf)

DOMINGUES, José (2003) – “O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro. «Ádito» para o debate”. Porto, 2003, [colocado em linha a 6 de Maio de 2013]
http://www.academia.edu/3470740

romanarmy.eu – Coletivo de investigação sobre a presença militar romana no noroeste da Península Ibérica https://www.youtube.com/channel/UCpPG7vsTY5lpghKHcxXoRFg

The archaeological collection of the Bética Hotel (Pias)

For many years Mr. Victor Hugo, founder and owner of Hotel Bética in Pias, was the
faithful keeper of the many archaeological materials that kept being found around the village.
We owe him the preservation of this objects that otherwise will lost or sell for the best price.
This interesting collection can be seen on the hotel lobby, namely coins, tegula, loom weights, glandes, rings, a small bronze figurine of a goat, and three inscriptions. Unfortunately, we don’t know the exact provenance of these findings as Mr Hugo couldn’t finalize the inventory of the collection due to his sudden death. Only his incredible collection of more than 200 Roman coins were subjected to a preliminary study in 2017 by Marco Paulo Valente but the work didn’t have any continuation.

Some of the archaeological materials on display at the hotel lobby

The collection includes also three stones apparently with the same inscription found close to the village :
SCLA / DMA.

We are tempted to associate these inscriptions to 5 ‘dolia‘ stamps connected to the high-medieval period found in the region containing the following inscription: «Eclesiae Sanctae Mariae Lacaltensis Agripi» (Canto, 1997; Wolfram, 2011). Thus the inscription could be read with some reserve as S(an)c(ta) La(caltense) D(ea) M(ariae) A(gripi). In this context, the stones could be landmarks delimiting the territory of the Lacaltenses. Curiously, in the Museum of Moura there’s a Roman inscription (a statue pedestal) dedicated to Iulia Agripa by the civitas Aruccitana (CIL II 963). Could they be related?

Bibliography:
Canto, Alicia M. (1997)- “Epigrafía Romana de la Beturia Céltica”. Universidad Autónoma de Madrid.
Valente, Marco P. (2017) – “Circulação monetária na Freguesia de Pias (Concelho de Serpa, Distrito de Beja). Quando Roma era Império”. in «Scientia Antiquitatis», vol. 1, nr. 2.
Wolfram, Mélanie (2011) – “Uma síntese sobre a cristianização do mundo rural no sul da Lusitânia”. FLUL – PhD Thesis.

Coordinates: 38.022248, -7.480839

Mozarabe Church of St. Peter of Lourosa

(Originally published on September 13, 2013)

The Mozarabe Church of S. Pedro de Lourosa, built in the 10th century AD is one of few surviving buildings from the Early Middle Ages. Its has parallelism with the churches of S. Pedro de Balsemão in Lamego, São Gião in Nazaré and São Frutuoso de Montélios in Braga. The church was founded in 912 in accordance with to an inscription on the door lintel of the main entrance, a time when the Asturian reign still dominated the region. In its interior there’s a quite interesting baptistery consisting of an irregular circular base at floor level and an engraved channel to conduct the holy water; a time capsule that brings us to the beginnings of this Christian rite.

Many Roman materials were reuse in its construction probable taken from a previous Roman temple erected in the very same place based on the votive inscriptions found here (one Ara dedicated to a deity called Picio and another to Iupiter); at the church entrance there are some other Roman materials, namely an ara and a column base, and in the exterior wall around the yard there are some more reused Roman stones. The sanctuary was probable a stop point on the road linking the Roman city  of Bobadela (we still don’t know its name) and the gold rich Alva river where several mining explorations were identified. Departing from the church there’s still a well preserved section of the road in the direction of the village of Pombal, namely a stretch of the original pavement still intact. The name «Calçada Romana» is found afterwards going to Vila Pouca da Beira. Coordinates: 40.317455,  -7.931800

The Roman industrial complex at «Quinta do Lago»

(Originally published on September 13, 2013)

The archaeological site of «Quinta do Lago»

This archaeological site is located on the bank of the «Esteiro de Ancão» on grounds of the modern tourist resort called «Quinta do Lago» (next to Faro but formerly in Almansil, Loulé). This is a fish processing factory built in the first century AD that produced the famous garum, a fish paste from Lusitania much appreciated in Roman times; At least 5 salting tanks and other structures are still visible, with opus signinum-lined walls consisting of mortar gravel, hydraulic lime and sand for waterproofing the tanks.

This industrial complex was probably integrated in the fundus the Roman villa of «the Quinta do Ludo» a few miles inland, in an area now occupied by the new resort «Golf das Laranjeiras». This villa exploited the both agricultural and marine resources as many of the agro-industrial villae scattered across the coastline of Algarve. The monument is accessible through the resort southern golf course, but is in a rapid process of degradation. Coordinates: 37.025493,  -8.005853