Ainda sobre a «Via Nova» e o Itinerário XVIII de Antonino

O Itinerário XVIII descreve a rota de Braga a Astorga cruzando a Serra do Gerês. Ao longo do trajecto apareceram diversos miliários que assinalam obras de construção e reparação da via que é designada nas epígrafes como «Via Nova», fixando a associação desta via ao Itinerário XVIII. No entanto, as duas não são absolutamente idênticas, dado que a «Via Nova» introduz uma variante mais curta ao Itinerário, com menos quatro milhas, ao evitar o rodeio desnecessário da sua passagem por Bergido.

Em vez disso, a «Via Nova» desvia dessa rota em Paradela do Rio Sil (a 153 milhas de Braga) seguindo para nascente rumo a Ponferrada. Aqui cruzava o rio Sil, e logo depois atingia a estação viária de San Tomás de las Ollas, onde a «Via Nova» reunia com a variante por Bergido, estrada que integrava a grande rota de Lugo a Astorga descrita no Itinerário XIX. Assim, esta variante funcionava como um atalho encurtando o percurso em quatro milhas. Ora, como este atalho representa 12 milhas de caminho até San Tomás de las Ollas, aqui contam-se 165 milhas a Braga, lugar que por sua vez está a 40 milhas a Astorga. Deste modo, somando estes valores (165+40), obtemos a distância total de Braga a Astorga, ou seja, 205 milhas.

Fig. 1 – O trajecto da «Via Nova» (azul) atalhando entre o Itinerário XVIII e XIX

Paradoxalmente a consolidação do trajecto pela «Via Nova» gerou uma descontinuidade na respectiva marcação miliária, dado que existe uma discrepância de uma milha, aumentando a distância total de 205 para 206 milhas de Braga a Astorga. Com efeito, as primeiras 70 milhas parecem acertar com a contagem miliária, atingindo o povoado de Torre de Sandiás, que por sua vez está a 40 milhas de Chaves. No entanto, o cruzamento das vias fazia-se na milha anterior, em Sandiás (Cruz da Cardeita), onde viria a instalar-se a mansio romana, explicando desse modo a contagem de 69 milhas a Braga indicadas no Itinerário XVIII. O referido «salto» na contagem miliária surge a partir de Geminas, com os miliários colocados ao longo de percurso a sugerirem uma contagem não a partir de Geminas, mas a partir de Torre de Sandiás. Desta forma, o trajecto surge alinhado com a segmentação em etapas de dez milhas, fazendo 70 milhas junto de Torre de Sandiás, 110 em Praesidium, 120 em Nemetobriga (Rio Sil) e 159 Bergido, que juntando a milha em falta perfaz 160 milhas.

O trajecto de Nemetobriga a Bergido está bastante consolidado, apesar da incerteza sobre a localização das estações intermédias, Foro e Gemestario, em resultado da baralhação nas distâncias indicadas no Itinerário. Depois de cruzar o rio Sil, a via prosseguia para a travessia da Serra da Encina da Lastra, importante obstáculo que divide as actuais províncias da Galiza e as Astúrias, mas que seria também fronteira administrativa no período romano, onde aliás apareceu um miliário. Com efeito, transposto este obstáculo, entramos na área de influência de Astorga, e em particular da importante via de Lugo a Astorga que passava mais a norte. Assim, Itinerário XVIII indica a continuação desta rota até Bergido onde entronca na referida via, enquanto o trajecto da «Via Nova» atalhava caminho, bifurcando na estação de Paradela do Rio rumo a Ponferrada. A distância de Braga a Astorga por Bergido totalizava 210 milhas enquanto o percurso pela «Via Nova» totalizava 206 milhas, encurtando o percurso em quatro milhas. Porventura, a consolidação do trajecto terá motivado alterações nas distâncias intermédias ainda em período romano, e mesmo posteriormente pelos copistas medievais, na tentativa de acertar as distância com as presumíveis localizações das estações intermédias, levando à grande desordem na versão que chegou até nós.

Em síntese, ao contrário do que se suponha, a «Via Nova» não é uma construção ex-novo dado que utiliza o antigo traçado do Itinerário XVIII em quase todo o seu trajecto, com a excepção do referido atalho, e mesmo este parece utilizar uma antiga rota para as Astúrias, pelo que a «Via Nova» é acima de tudo uma reconfiguração dos antigos traçados, dando prevalência à ligação mais curta entre as duas capitais provinciais, Braga e Astorga, justificando os grandes investimentos efectuados nesta via pelos sucessivos imperadores. Temos assim finalmente total concordância entre os dados historiográficos, a marcação miliária e as medições no terreno, mostrando que mesmo uma rota tão estudada e com tantas evidências da sua passagem guardava afinal ainda importantes segredos por revelar.