VIAS MEDIEVAIS - I - ENTRE DOURO E MINHO
CAPÍTULO II
VIAÇÃO ROMANA NO ENTRE DOURO E MINHO
4) Vias referidas por Antonino.
Carlos Alberto Ferreira de Almeida
PORTO, 1968

VIAS REFERIDAS POR ANTONINO

O Itinerário de Antonino é um documento precioso para a determinação das vias romanas. Sendo uma lista de mansiones e de distâncias miliárias deve ter sido elaborado com fins estratégico-militares na época de Diocleciano, utilizando fontes anteriores. Adiante voltaremos à crítica desta fonte. O Itinerário cita na zona de Entre Douro a Minho, a partir de Braga, capital de conventus, cinco vias cujo traçado e história vamos tentar esclarecer.

  1. Via Bracara Calem, mpm XXXV. (Braga até Porto)
  2. Via Bracara Salaciam, mpm XX. (Indo por Chaves seguia até Astorga)
  3. Via Bracara Salaniam, mpm XXI. (Geira)
  4. Via Bracara Limiam, mpm XVIII. Tudem, mpm XXIII. (Braga até Tui, passando por Ponte de Limia)
  5. Via Bracara per loca marítima. (Via Marítima)

a) Via de Braga a Cale

Esta via, no seu traçado de Braga até Cale, está relativamente bem definida, tanto por marcos miliários aparecidos, como por restos de pontes romanas. Para o sul estrada romana seguia por Argoncilhe, onde ela pela sua estrutura permitiu muitas referências documentais medievais. Passando por Ul, onde se encontrou um marco miliário, dirigia-se a Coimbra (Eminium). A passagem do Douro far-se-ia em barcas. Os romanos não tinham possibilidades técnicas de lançar aí uma ponte de pedra. Fariam ponte de barcas sempre que precisassem.

Na direcção ao norte a via romana passaria a poente, embora não longe, da igreja de Paranhos e seguindo, ia pelas traseiras da actual igreja de S. Mamede de Infesta. Aí, mas mais para leste, esteve um marco miliário, que foi destruído, precisamente, no dia em que o Pe. Capela o foi procurar. Hübner e João Pedro Ribeiro, felizmente, tinham-nos dado já a sua lição. Era dedicado ao imperador Adriano.

Daí a via descia à Ponte da Pedra. Esta ponte, no seu estado actual, é medieval, mas tem fundamentos romano. Na sua estrutura vêem-se ainda muitas pedras de aparelho romano, algumas almofadadas.

A estrada romana seguia pela crista da zona seguindo pelos limites das actuais freguesias de Leça do Bailo e Gueifães. Vinha ao Picoto, lugar hoje chamado Vila da Maia, e à Pinta. Neste troço confinavam as freguesias de Barreiros a de Vermoim da Maia A partir da Pinta a via, fugindo aos terrenos pantanosos de Barca, cortava à esquerda da actual estrada Porto-Braga, indo por Mandim e servindo de limite às freguesias de Barca a Moreira. Seguia por S. Pedro de Avioso, pela parte alta, pelos limites de Guilhabreu. Descia depois a Alvarelhos, pela parte ocidental da Quinta do Paiço, onde se encontra um miliário de Adriano, ia à Peça Má, onde, parece, se encontrou outro miliário. Seria de Constâncio. Passando por Lantemil e Trofa Velha ia cruzar o rio Ave na Ponte da Lagoncinha. Neste trajecto temos ainda outros miliários. Um em S.Pedro de Avioso, muito apagado, no lugar do Ferronho. Outro em Lantemil, de Licínio, a na Trofa Velha, restos de um de Marco Aurélio a dois de Constante. Restos de outro se encontraram no lugar da Carriça.

A ponte da Lagoncinha na sua forma actual é uma notabilissima ponte medieval, mas o seu primeiro arco do lado sul, que é redondo a não quebrado como os outros, por se encontrar em zona bem firme a fora do leito, fora da corrente do rio, conservou-se. É romano e de técnica da primeira fase imperial.

Seguia a via por Cabeçudos, onde, em Santa Catarina, existe um miliário de Caracala e ia passar a oriente de Famalicão, em Santiago de Antas. Nesta zona aparecem quatro marcos. Um de Portela de Baixo, outro na Devesa Alta, e os outros dois perto da residência paroquial de Antas. Cortando ainda mais a oriente a estrada romana ia à freguesia da Portela onde apareceu um miliário que, inédito, se encontra no Museu do Seminário de Filosofia de Braga. Descia então a Braga passando a Penso e a Lomar.

Esta via deve ter sido feita pelo imperador Adriano ou então foi seriamente reformada por ele.

b) A via que de Braga ia a Chaves

A estrada romana que saía de Braga para Astorga passando por Chaves deve ser das mais antigas vias do conventus bracaraugustanus. Nela se encontram marcos milíarios de Augusto. O traçado desta via entre Braga e as Terras de Barroso, portanto na zona de Entre Douro a Minho, é muito hipotético pela falta de miliários in situ. A M. Capela, ele que conheceu muito bem, topográficamente, o terreno, afigura-se provável "que partindo de Braga tomasse pela serra do Carvalho, chapadas da Egreja Nova e Pousadouro nas alturas de Vieira a flanqueasse as vertentes da Cabreira sobre a margem esquerda do Cávado, penetrando por Ruivães no paiz barrosão."

"É por ter sido desde tempos immemoriaes esta a linha viaria entre Braga a Chaves, a que mais racional se mostra das variantes por este rumo e haver desde Ruivães a seu favor os dados positivos dos milliarios." "Na extrema N. desta freguesia jaz ao pé da estrada nova um miliário analfabeto e logo a poucos passos a ponto do Arco de construção romana."

A partir desta localidade a estrada está já bastante bem definida pelos muitos miliários aparecidos. Mas desde Ruivães que esta estrada imperial está em Trás-os-Montes.

c) A via que de Braga ia pelo Gerez

A via romana que saía de Braga para Astorga, passando pelo Gerez, é a mais recente e a mais directa das quatro estradas que, segundo Antonino, de Braga para lá se dirigiam.

Começada a construir por Vespasiano, os seus mais antigos marcos miliários são de Tito. Meio século depois, sob Adriano, era já reparada. Uma série de marcos de Caracala parece indicar que foi também reparada por este imperador, mas pode ser que tal reposição de miliários fosse só mera propaganda. Porém, os miliários de 236-237 referem, expressamente, um novo arranjo na via. Uma coluna da Portela do Homem diz: "Vias et pontes tempora vetustaté colaps restituerunt"...

O traçado desta via desde Braga até Paredes Secas (Amares) não tem, por enquanto, vestígio arqueológico algum a garanti-lo, nem miliários, nem restos de pontes romanas. Mas, por alguns elementos toponímicos e topográficos, ela pode traçar-se com relativa segurança.

Saindo de Braga pela parte norte da cardo iria, por Montariol, a Pinheiro e a Adaúfe, descendo pelo lugar da Estrada ao rio Cávado. Passaria este rio não pela ponte do Porto, que é uma ponte, em tudo, bem medieval, sem vestígio algum romano.

A via romana passava mais a jusante, não longe do local chamado Porto - ponto de passagem, documentalmente assegurado, antes de existir a ponte que está para nascente. Daí a estrada subia por entre Ferreiros a Amares a seguia por entre Caires e Dornelas indo a Paredes Secas onde nos aparece o primeiro marco miliário desta via assinalando a milha XII. Logo na freguesia sequente, Vilela, temos o marco da milha XIII a partir de Braga. Na zona seguinte nada se tem adiantado ao que disse o gerezense ilustre Pe. Martins Capela, a que vamos transcrever.

A via atingia "sobre a freguesia de Vilela as alturas da pequena portela de Santa Cruz, por onde penetra no estreito mas risonho vale do Homem. Da milha XIV não aparece representante mas no sítio chamado de Lampaças, freguesia da Balança, um dos dois miliários que parece ter sido de Maximiano dá XV milhas."

"Desde aqui a Geira para não perder o plano horizontal, tem de acompanhar enormes reentrâncias e saliências dos flancos da montanha sobre as freguesias da Balança e Chorense donde lhe adveio, dizem, o nome por motivo de tamanhos giros."

"Passa em branco a milha XVI. Não assim a XVII, que ,é atestada por trés miliários de Caracala um, outro de Décio e o terceiro de Caro."

"Desta passamos à XIX, nos Lajedos. Marcos de Tito e Caracala." "Agora é em Travassos, freguesia de Vilar, um miliário de Heliogábalo. Diz XXI milhas. Em Santa Comba, freguesia de Chamoim, dois miliários. No sítio dos Esporões, da mesma freguesia, era a 23ª milha". Ainda há pouco lá estavam dois miliários.

"No lugar de Sá, freguesia de Covide, a coluna cruzeiro é um miliário de Décio; dá XXV milhas".

Daí descia a via a Campo e ao Vale de Linhares.

No Bico da Geira a 4 milhas romanas da fronteira parecem nove miliários. Na Volta do Covo dez. A estrada passando o riacho de Leonte ia à Ponte Feia, Albergaria onde se encontram catorze pedras miliárias. A via, prosseguindo para norte, cruzava o rio no lugar ponte do Porto. Esta ponte era romana. Ainda hoje se podem ver os fundamentos com pedra rusticada. Logo a seguir, está a Portela do Homem, fronteira, onde se localizava a lha XXXIV. Existem aqui nove padrões.

d) A via de Braga a Tui por Limia

A estrada romana que, saindo de Braga, ia a Astorga, passando por Ponte de Lima e Tui, pode ser decalcada, à parte de alguns pormenores, com bastante exactidão. São bastantes os miliários encontrados que lhe pertenciam. No seu trajecto, de Braga a Tui, existem vestígios de cinco pontes romanas, a saber: em Goães, Ponte de Lima, Geira, Arco (Labruja) e Rubiães.

Com dois miliários de Augusto, um encontrado em Rubiães e outro localizado em Prado, esta via pode considerar-se das mais antigas do conventus bracaraugustanus. Os marcos miliários desta estrada romana, conhecidos, repartem-se quase por todos os imperadores, desde Tibério a Valentiniano I, atestando múltiplos arranjos na via. Uma reforma mais notável, no piso e nas pontes, terá sido feita no governo dos imperadores Maximino e Máximo, como nos dizem os miliários que se encontram na Correlhã e em Bertiandos. Neste último miliário escreveu-se "vias et pon tes tempores vetustaté colapsos restituerunt"...

Esta via, saindo de Braga pelo lado norte da cardo a passando por Rial, a ocidente de S. Frutuoso, ia a Prado, onde cruzava o rio Cávado. Nesta localidade, por enquanto nada nos garante a existência de ponte romana. A passagem poderia ser feita em vau, sistema muito utilizado pelos romanos. Mas, que a via romana passava por aí não restam duvidas. Está assegurada por dois marcos miliários.

Em Prado metia à esquerda da actual estrada Braga - Ponte de Lima, indo por Oleiros, onde se encontrou um miliário que, inédito, está no Museu do Seminário de Filosofia de Braga. Seguindo, em frente, ia a Goães, onde existem restos iniludíveis de uma ponte romana. Subia depois a Rio Mau descia a Anais e a Fornelos. Aqui, no antigo passal, encontrou-se um miliário bastante deteriorado.

Adiante, em Santo Amaro, tínhamos o marco miliário que desde 1641 se encontra no Solar de Bertiandos. Ele marcava a milha XVIII, a partir de Braga. Passando por Gaia (Arca) a estrada metia-se na Ponte do Lima. Além Ponte, temos quatro miliários. A via, na sua progressão para norte, ia à igreja de Arcozelo, atravessando, pouco depois, o rio Labruja, na ponte da Geira. Esta ponte, pelo aparelho e pelo rusticado, é, sem dúvida alguma, romana. Continuava a estrada na margem esquerda do rio mas, adiante, para ir galgar a portela de Câmboa, cruzava novamente o rio Labruja na ponte do Arco. Também esta ponte é romana. A estrada inicia depois a sua ascensão para a portela de Câmboa. Aqui, aparece ter existido um miliário. Antes, há um outro. Não vamos referir todos os miliários aparecidos. Conhecem-se vinte entre Ponte de Lima a Valença. Um em S. João da Grova, ao que parece. Outro em S. Martinho de Coura, perto da Fonte do Olho. Vários em Rubiães: dois no lugar do Crasto a outro no adro da Igreja. Neste cavaram uma sepultura. Quatro estão em S. Bartolomeu de Antas. Em Sapardos três. Em Valença está outro. Este marco apareceu no fundo de Ganfei, frente a Tui. É dedicado a Cláudio. Assinala a milha XLII que o itinerario de Antonino dá para Tui. Assim a estrada romana iria de Sápardos à Fontoura, ao Cerdal, indo atravessar o rio Minho não muito longe do mosteiro de Ganfei.

e) Via de Braga a Astorga " per loca maritima"

Das estradas citadas por Antonino, no Entre Douro e Minho, esta é a única cujo traçado a orientação continua a ser um problema. Como deve entender-se a expressão "per loca marítima"- Contador de Argote não duvidou em considera-lar como significando via de navegação, tanto mais que não havia miliários alguns a demarcá-la. Iria de Braga ao Cávado e, descendo o rio, alcançava Fão seguindo pelo mar.

Embora os romanos tivessem uma navegação muito desenvolvida e o rio Cávado fosse outrora mais navegável não seguimos esta opinião.

Devemos considerar essa via como terrestre pois ia de Braga a Astorga. Todos os estudiosos deste problema assim o entendem. Por faltarem os miliários tem surgido na determinação do seu traçado, sugestões muito diferentes.

Segundo Filgueira Valverde e outros esta via coíncidia com a anterior até Tui. Só a partir daí procurava atingir a costa marítima, indo a Vigo (Vico Spacorum). Outros como A. Blázquez a L. Monteagudo colocam a mansio Aquis Celenis em Caminha, passando esta via a coincidir com a anterior só até Ponte de Lima. Daqui cortaria para Caminha.

Qual é a nossa posição?

Optamos por uma via terrestre que seguia a certa distância da costa mas com muitas derivantes para o mar. A existência de uma via romana "per loca marítima" a sul do Cávado está assegurada como adiante veremos.

Também parece não restarem dúvidas depois do estudo de Estefania Alvarez que esta estrada já é via "per loca maritima" na parte sul da Galiza. Assim passaria em Caminha onde se localizaria Aquis Celenis.

Parece-nos que esta estrada, saindo de Braga pelo lado ocidental, iria atravessar o Cávado na zona de Manhente ou Areias de Vilar. Cortando para noroeste ultrapassava o Lima na região de S. Salvador da Torre. Subindo por Nogueira ia a Amonde cruzando o rio Âncora na ponte de Tourim, cujos fundamentos parecem romanos. Prosseguindo, a via talvez não fosse para a costa, passaria em Gondar, Azevedo, entrando em Caminha pela Corredoura.

Este trajecto é muito hipotético. O elemento mais firme está na ponte de Tourim. É comum dizer-se que a Ponte de Vilar de Mouros é romana. Esta crença está errada. A ponte de Vilar de Mouros é bem medieval e, pelo seu estilo, deve ter sido construída nos princípios do século XV ou finais do anterior.

E porque não passaria esta via o Cávado em Padim da Graça, onde tradicionalmente havia barca- É mesmo provável que sim. Foi em atenção a algumas tradições viárias da zona de Manhente, de Arcozelo a de Campo que preferimos aquela solução. Não podemos excluir mesmo a hipótese desta via seguir no piso da outra até Prado cortando depois para noroeste. Para esta solução poder-se-iam invocar, também, razões.

E os miliários desta via?

É possível que o miliário que se encontrou na Correlhã fosse desta estrada. Pode ser que apareçam, entretanto. Se não aparecerem temos de considerar esta via, nesta zona, como secundária, isto é, não militar. Sabemos que, habitualmente, os marcos miliários só ladeavam as vias imperiais. Esta via teria sido feita pelos municípios, pelos povos.

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