Um post sobre as vias do Algarve. Apesar de ser uma região fortemente romanizada, a rede viária do Algarve durante a antiguidade clássica continua com várias questões em aberto. As diferentes propostas que têm sido aventadas por diversos autores, muitas vezes incompatíveis entre si, não permitem traçar um quadro geral da rede com segurança. O primeiro investigador que abordou o problema de forma científica foi Estácio da Veiga nos finais do século XIX, iniciando um conjunto de estudos com base na evidência arqueológica que ia compilando e publicando durante as suas prospecções no terreno. Ao propor em definitivo a localização Ossonoba em Faro (em vez das ruínas de Milreu em Estoi tal como supunha André de Resende no século XVI), Baesuris em Castro Marim (em vez de Ayamonte) e Balsa na área da actual Quinta de Torre de Aires (em vez de Tavira), Veiga veio esclarecer muitas das dúvidas que permaneciam deste os tempos de Resende sobre a localização destes aglomerados. Segundo o Itinerário de Antonino, existia uma via que interligava estes três portos da costa Algarvia, seguindo presumivelmente paralela à costa. No início do século XX foi identificado o único miliário encontrado no Algarve (IRCP 660) que apareceu reutilizado numa nora próximo de Bias do Sul (Olhão), achado que parecia confirmar um trajecto próximo do litoral. Felizmente este marco sobreviveu até aos nossos dias, e depois de ter estado muitos anos no Museu Paroquial de Moncarapacho, está hoje em exposição no Museu de Olhão. Em 1967, Fernandes Mascarenhas propôs que as 10 milhas indicadas no marco corresponderiam à distância deste local a Faro que é anda de facto em redor deste valor. Aventou-se ainda a hipótese de o marco ter carácter territorial, assinalando nesse caso a fronteira entre as civitates de Balsa e Ossonoba (Mantas, 1990: 184). Desde então, a generalidade dos investigadores traça o percurso desta via passando por Bias (Mantas, 1990, 1997; Silva, 2002, 2005 e 2007; Rodrigues, 2004; Maia, 2006, Bernardes, 2011).

Apesar da aparente consistência dos dados disponíveis, na verdade não há qualquer evidência no terreno da passagem de uma via este-oeste passando neste local. Para obviar este problema, tem-se proposto um traçado coincidente com a actual estrada nacional 125 seguindo a norte da villa da Quinta do Marim rumo a Faro. No entanto, tudo indica que este percurso é moderno dado que cruza diversos esteiros que nessa época penetravam bem para interior da actual linha de costa. Deste modo, a partir de Balsa, a via não seguiria por Bias e Marim para Faro, mas sim por um percurso mais interior, passando por Moncarapacho e pela Ponte Velha de Quelfes rumo a Faro.

A ser assim, o miliário de Bias não assinalava a via de Balsa a Faro, mas uma outra via ainda não descortinada. Ora, o único caminho antigo identificado junto do miliário é designado por «Canada de Bias», não correndo num eixo este-oeste, mas sim norte-sul, portanto perpendicular à via de Castro Marim a Faro. A via segue para Moncarapacho e daqui para Querença onde entronca na via que ligava Faro a Alcácer do Sal. Muito próximo do local onde apareceu o miliário, existe um cruzamento de estradas que poderia o local original da sua implantação dado que este local se encontra precisamente a 3 milhas de Moncarapacho. com a primeira milha a ser vencida junto da Ermida de São Sebastião de Matinhos em Belo Romão. A partir de Moncarapacho, a via continuava para norte até ao Moinho de Pereiro (m.p. VI), junto do qual inflectia para noroeste rumo a São Brás de Alportel, passando junto do Poço do Cavaleiro (m.p. VIII) e do casal romano de Desbarato, situado a 9 milhas de Bias. Este local é mencionado na Crónica da Conquista do Algarve, como sendo o lugar de pernoita de Dom Paio Peres Correia e os seus cavaleiros, aquando da sua incursão a Tavira (Agostinho, 1792). A milha dez era atingida no sítio do Cerro da Mesquita, junto do cerro homónimo, sendo a estrada aparentemente referida num auto de 1595 como "caminho do Chamso a dar no Ribeiro da Mesquita […] e dahi vai a partisão pelo ribeiro da fonte da mesquita que he muito antiga"; Vinagre, 2006:55). A ser assim, então as 10 milhas registadas no miliário indicavam a distância de Bias ao Cerro da Mesquita, com paragem na Fonte da Mesquita (foto). Na área são conhecidos diversos casais romanos relacionáveis com esta paragem, mas não há sinais de qualquer povoado nas proximidades. Deste modo, é possível que esta estação esteja relacionada com algum lugar de culto, presumível antecessor da mesquita aparentemente denunciada pelo respectivo topónimo.

A via continuava por São Brás Alportel, passando ligeiramente a norte desta povoação pelo lugar de Campina, onde deveria existir nova estação viária pois está a 12 milhas de Bias. Daqui partia um ramasl de ligação a Faro passando por Estoi (também com 12 milhas), mas a via que estamos a descrever continuava proveniente de Bias mantinha a sua directriz noroeste, seguindo na direcção de Querença por Almarjão. Em Querença, entroncava na principal via que saía do Algarve para norte, seguindo pelo Castro da Cola rumo a Alcácer do Sal. A utilidade da ligação a Bias é mais bem compreendida quando analisamos o seu percurso no sentido inverso. Para quem chegava ao Algarve por Querença poderia rumar a Faro por Loulé ou seguir pela «Canada de Bias» até ao litoral, podendo pouco antes rumar a Balsa e Tavira seguindo pela via litoral de Faro a Castro Marim.

A existência desta derivação da via para Faro a partir de Querença rumo a Bias, permite equacionar a possibilidade de existência de uma estrutura portuária em Bias durante o período romano. Portanto, o miliário assinalaria a distância de 10 milhas contadas de Bias à estação viária Cerro da Mesquita. A importância desta estação decorre do facto se localizar exactamente a meio percurso desta via, dado que daqui a Querença são também 10 milhas, perfazendo o valor de 20 milhas, módulo que se repete na via de Castro Marim a Faro com um total 40 milhas, tendo Tavira (e não Balsa, fundada apenas no século I) como ponto intermédio, dado que se encontra a 20 milhas tanto de Faro como da margem direita do Guadiana junto a Castro Marim. Esta surpreendente concordância nas distâncias entre etapas não pode ser devida a uma mera coincidência, mas um acto deliberado de estruturar a rede neste módulos.

Neste contexto, importa recuperar a velha discussão sobre a localização da Statio Sacra mencionada pelo Anónimo de Ravena entre Balsa e Ossonoba. Em 1877 Estácio da Veiga propôs a sua localização na Quinta do Marim, sugerindo a existência de um santuário rural, hipótese que sempre levantou justificadas dúvidas entre os investigadores, não sendo confirmada a existência desse santuário (Graen, 2007:277); outros apontaram para Moncarapacho (Silva, 2002:47), outros para a villa de Milreu (Mantas, 2008:247), mas o problema permanece em aberto. Moncarapacho seria de facto um bom candidato dado que se trata de uma estação viária da via de Ossonoba a Balsa, no entanto é difícil de explicar a razão do "Anónimo" mencionar uma estação que estava tão próximo Balsa (apenas 6 milhas), além de que esta estação não é mencionada no Itinerário de Antonino. A proposta da sua localização no Cerro da Mesquita ultrapassa esta aparente incoerência nas fontes e acima de tudo, explicaria a colocação de um marco em Bias já em fase Imperial, indicando, portanto, a distância entre a Statio Sacra e o seu porto de mar.
Claro que esta possibilidade de localização da Statio Sacra no Cerro da Mesquita não passa, por agora, de uma mera hipótese que carece confirmação, mas não há qualquer dúvida sobre a importância deste local no contexto viário romano e consequentemente para o desenho da rede viária antiga do Algarve. Os resultados destas alterações podem ser consultados no site www.viasromanas.pt e respectivos traçados no mapa sobre as vias a partir da versão 4.4.

Coordenadas:
Milha zero em Bias: 37.049608, -7.776432
Ermida de São Sebastião (m.p. I): 37.060587, -7.785435,
Desbarato (m.p. IX): 37.143647, -7.842630
Fonte da Mesquita: 37.146892,-7.854586
Milha X no Cerro da Mesquita: 37.149943,-7.855184

Bibliografia:
AGOSTINHO, Frei Joaquim de Santo (1792) - "Sobre huma chronica inédita da conquista do Algarve", Memórias de Litteratura Portuguesa, Real Academia das Ciências, Lisboa, Tomo I, p.74-97.
GRAEN (2007), Dennis - "O sítio da Quinta de Marim (Olhão) na época tardo-romana e o problema da localização da Statio Sacra". In RPA 10, 1, 275-288.
MAIA, M. (2006) - "De Baesuris a Pax Ivlia por Aranis". São Brás de Alportel: Actas das I Jornadas «As Vias do Algarve», 46-53.
MANTAS, Vasco G. (1990) - "As cidades marítimas da Lusitânia". Paris: CNRS (Coll. Maison des Pays Ibériques; 42), p. 149-205.
MANTAS, Vasco G. (2008) - "A rede viária romana em Portugal: estado da questao e perspectivas futuras". Anas, 21-22, 2008-2009, 245-272.
MASCARENHAS, J. Fernandes (1967) - "De Ossónoba a Balsa". Col. Por Terras do Algarve - Tavira: Ed. Autor, 7-25.
RODRIGUES, Sandra (2004) - "As Vias Romanas do Algarve". Faro: CUP-UAlg/CCRA.
SILVA, L. Fraga da (2002) - "A região de São Brás de Alportel na Antiguidade". Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
SILVA, L. Fraga da (2005) - "Tavira Romana". Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
SILVA, L. Fraga da (2007) - "Balsa, cidade perdida". Tavira: Campo Arqueológico de Tavira.
VINAGRE, Augusto et al. (2008) - "Toponímia de S. Brás de Alportel". Trabalho com alunos da Escola EB2,3 de S. Brás de Alportel in "dos Algarves", 17, 52-58.