Colóquio Viário do Marão
Enquadramento da Serra do Marão na rede viária romana

Pedro Soutinho
Vias Romanas em Portugal | viasromanas.pt
Outubro 2020 (draft 1)


Resumo

A Serra do Marão constitui um dos grandes acidentes geográficos a norte do Rio Douro. A sua travessia é obrigatória para todo o trânsito que acedia ao planalto Transmontano. Este eixo viário cruzava no Vale da Campeã com um outro eixo N-S que ligava Chaves à travessia do rio Douro na Régua. O local de cruzamento destes dois grandes itinerários continua a suscitar algumas dúvidas, condicionando o nosso entendimento da rede viária em época romana. Apresenta-se uma proposta que une estes dois itinerários próximo da Campeão seguindo depois por Santa Marta de Penaguião rumo à travessia do rio Douro junto de Peso da Régua. Equaciona-se também a hipótese desta travessia integrar o grande Itinerário romano de Braga a Mérida. Com este trabalho pretende-se acima de tudo proporcionar uma nova camada de informação que ajude os investigadores a melhor validar as suas propostas através da introdução de um critério geográfico na identificação da rede viária romana e assim abrir novas linhas de investigação que conduzam a uma melhor preservação e valorização deste património.

Palavras-chave: vias, romanas, serra, Marão, Campeã, Braga, Mérida.



Índice
  1. O projecto "Vias Romanas em Portugal"
  2. Sobre o estudo da viação romana
  3. Mitos e realidades sobre a antiga rede viária
  4. A formação da «via romana»
  5. A evidência dos caminhos antigos
  6. A rede viária da Serra do Marão
  7. O grande itinerário de Braga a Mérida


1. O projecto "Vias Romanas em Portugal"
O papel da rede viária no desenvolvimento da humanidade é insofismável; a circulação de bens e pessoas é essencial para a actividade comercial e continua a ser um factor crucial no nosso modelo de desenvolvimento. O período romano não é excepção, em particular porque permitia o acesso e controlo das importantes explorações mineiras da Ibéria que tanto atraíram as hostes romanas no início da nossa era. Articulando com os principais portos marítimos que bordejam a nossa costa deste o tempo dos comerciantes Fenícios, a rede viária tinha uma importância estratégica para o controle dos fluxos comerciais com o Mar Mediterrâneo.

Quando em 2004, durante uma viagem de automóvel entre Ponte de Sor e Alter do Chão, cruzei uma ponte antiga perfeitamente rectilínea e com duas faixas fiquei intrigado porque mantinha um piso lajeado quando servia uma estrada nacional, no caso a EN369. Parei, e descobri com surpresa que se tratava de uma ponte romana perfeitamente preservada. Tratava-se da chamada Ponte Romana de Vila Formosa, caso único no Alentejo de uma ponte ainda com a construção original romana; não havia letreiro ou qualquer outro sinal que pudesse avisar os viajantes que por ali passavam sobre a sua antiguidade. Mais surpreendido fiquei quando após algumas buscas percebi que o número de pontes romanas neste estado de conservação em todo o território nacional não ultrapassa os dedos de uma mão; de facto mais tarde vim a descobrir com espanto que a maioria das pontes ditas "romanas" são na verdade reconstruções posteriores sem qualquer sinal de romanidade.
Para além da bem conhecida Ponte de Trajano em Chaves, havia uma outra que tal como a ponte de Vial Formosa permanecia ignorada. Trata-se da Ponte Romana da Pedra sobre o rio Tuela próximo de Torre de Dona Chama (Macedo de Cavaleiros). Ambas serviam o Itinerário XVII (impropriamente chamado "de Antonino"), o grande itinerário que ligava Bracara Augusta a Asturica Augusta (actual Astorga) passando em Chaves e Bragança. Também esta não tinha qualquer letreiro apesar de ali estar uma obra romana exemplar, totalmente funcional que ainda hoje serve a estrada nacional que liga Valpaços a Bragança (EN206). Esta notável construção romana permanece praticamente ignorada até aos dias de hoje, e é muitas vezes confundida com uma obra do período Românico e mesmo do período Moderno!

Descobrir e viajar por estes trajectos antigos foi o grande motor para dar início a este projecto que conduziu à criação do sítio web viasromanas.pt. Este trabalho é assim fruto de uma enorme paixão por descobrir, divulgar e percorrer os estes trajectos antigos, onde as camadas de história permitem-nos recuar alguns milhares de anos para um mundo que em última análise não era assim tão diferente do nosso.



2. Sobre o estudo da viação romana
Na época, para um leigo, com uma visão toldada pela engenharia, a primeira impressão era de que a informação permanecia algo difusa, isto é, dispersa por uma infinidade de publicações que em geral abordam o problema de forma lateral e pretendendo apenas dar alguma visão sobre a rede viária antiga de uma determinada região ou área. Afinal esta «amálgama» de informações dispersas e difusas por monografias e revistas regionais, apesar de fornecerem muitos dados sobre as evidências arqueológicas no terreno, continuavam a propalar a visão fantasista à boa maneira de uma certa tradição literária que fala de intrépidas legiões entrando pelo nosso território e logo ocupando-se de construir estas tais «vias e pontes romanas»; ora esta tarefa seria humanamente impossível e a explicação de ter sido à custa de trabalho escravo é tão absurda como a própria conjectura; pretenderam alguns que estas estradas eram compostas por quatro ou mais camadas, e pavimentadas com um lajeado de pedra; certamente que uma construção deste tipo ainda hoje não estaria terminada!

Os trabalhos arqueológicos das últimas décadas permitiram fazer grandes avanços na compreensão da rede, motivando constantes alterações e actualizações; no entanto, esse processo foi estabilizando e chegou a um ponto em que sentia um beco sem saída (afinal o grande labirinto de vias onde se perderam tantos investigadores do passado); rapidamente tornou-se claro que para haver novos avanços relevantes teria de se adoptar outros métodos que pudessem desbloquear as muitas dúvidas e incertezas que sempre rodeiam este tema. Ora, esse caminho apresenta-se claro pois, em resultado do estudo de uma década, não havia qualquer dúvida que esse caminho seria pela via do critério geográfico.

Mas para adoptar um critério geográfico era preciso desenhar as possíveis rotas numa ferramenta de georreferenciação. Assim, por volta de 2012 comecei por assinalar cidades, estações e outros vestígios relacionados com via. Com o tempo comecei a fazer percursos ainda esquemáticos marcando a rota do caminho sobre fotografias de satélite, ou uma simples linha recta quando esse caminho era desconhecido. Comecei então a ter uma visão de conjunto da rede, uma espécie de perspectiva aérea que os mapas militares não eram capazes de transmitir. Claro que nesse momento esta tarefa parecia um trabalho hercúleo tal a quantidade de caminhos e a sua extensão, no entanto, surpreendentemente este processo mostrou-se de grande eficácia e pouco a pouco a rede começou a tomar forma e a mostrar um "encaixe" diferente do que se pensava até então. Mesmo nos casos em que pouco resta da via, as fotografias de satélite permitem por vezes identificar uma ténue linha da paisagem que permitiu identificar o trajecto. Os resultados deste processo foram surpreendentes porque permitirem grandes avanços na definição da rede e desmontar muitas das propostas fantasistas que permanecem ainda hoje.

A discussão sobre o trajecto das vias romanas em Portugal constituiu um dos assuntos mais debatidos na historiografia e na arqueologia ao longo do último século. Nos anos 70, alguns investigadores como Jorge de Alarcão iniciam uma revisão mais sistemática destas informações com obras como «Portugal Romano» e «O Domínio romano em Portugal». Nessa época era claro o quão pouco sabíamos sobre o tema e as grandes dificuldades para localizar o percurso da via mesmo em grandes itinerários onde sabemos o nome das estações viárias e as respectivas distâncias intermédias. O estudo intensifica-se nos anos 80 e 90, graças a investigadores como Vasco Mantas ou Sande Lemos, entre outros, que têm dedicado grande parte do seu trabalho ao estudo da rede viária no período Romano. Graças ao trabalho deste e muitos outros autores é hoje possível ter uma visão muito mais detalhada da rede e propostas mais de acordo com o registo arqueológico. No entanto, o nosso entendimento da rede é ainda muito superficial e pejado de incertezas, onde a simples descoberta de um miliário pode alterar completamente o percurso de um itinerário que antes parecia seguro.

Nos anos 50, Mário Saa empreendeu um vasto estudo sobre a viação romana, numa obra algo labiríntica e muito contestada, mas que tem apesar dos seus muitos equívocos, a virtude de nos dar um impressivo relato dos muitos vestígios que ainda jaziam pelo terreno em particular no Alentejo, de onde era natural; onde as enormes mudanças operadas na paisagem com a "revolução" agrícola dizimaram muito desse património. É incrível como em tão poucos anos a rede que aguentou 2000-3000 anos leva agora uma machada final. Felizmente, essa não é a realidade mais a norte, onde a geografia impõe a manutenção desses caminhos; entre «mortos e feridos» há que parar este processo e preservar o que resta; no entanto, contrariamente do que se diz no «vox populi», sempre negativista, a verdade é que o território nacional ainda preserva importantes vestígios desta rede antiga, sendo frequentes grandes troços com quilómetros de via preservada no cimo das serras.

Por todo país podemos encontrar também restos de lajeados, uns já muito adulterados é certo, mas que transmitem uma vaga sensação do que seria viajar por estas estradas. Ao contrário de outros países, como França e Espanha, onde grandes troços de via foram obliteradas pelo novo ordenamento agrícola, a verdade é que em Portugal, a maioria desses caminhos têm ainda hoje pelo menos alguma servidão agrícola e ainda usados pelas populações locais. Vários factores contribuíram para isso: desde logo o atraso económico do interior tem sido factor de conservação deste património, limitando a sua destruição e agora recuperados como mais-valias para um turismo cultural. Mas talvez os factores mais decisivos sejam a própria a geografia e uma tradição cultural Portuguesa muito arreigada ao passado e as suas crenças.

Geográfica certamente, porque cruzar o nosso território não é tarefa fácil, com intrincadas montanhas e fortes rios que dificultam a progressão. Cultural também o será, porque existe uma forte tradição cultural ligado aos caminhos que perdura até aos dias de hoje, fortemente enraizada no saber popular! Assim não de pode falar propriamente de um fenómeno de destruição, mas antes uma constante transformação em reflexo de novas ordens administrativas que se sucederam ao longo dos tempos. Não falemos só do período romano e posterior, mas também se milénios de trânsito nestas estradas, bordejadas algumas por antas e mamoas, outras por povoados fortificados da Idade do Ferro, os castros, controlando as principais passagens; assim, o período romano não é mais que uma nova camada de tempo que moderniza esta rede com outros meios e outros interesses mais globalizante visto que a rede está agora integrada um grande império. A «febre» construtora do período romano vai-se esvanecendo, mas estes caminhos foram sempre mantidos porque eram de facto essenciais. No período Medieval assiste-se a nova transformação, de certa forma «cristianizando» a antiga rede, onde marcos miliários passam a cruzeiros, pequenos santuários romanos à margem da estrada são sacralizados como alminhas, capelinhas, ermidas, etc, e novas albergarias são construídas sobre as antigas mutationes mansiones romanas.

A sacralização destes antigos lugares são um reflexo dessa vã tentativa de manter viva essa memória do lugar e das almas que lá viveram; ali estão para nos guiarem e guardarem num caminho que seria sempre perigoso porque isolado; junto da estrada surgem regularmente designações como «Senhora da Guia», da «Boa Passagem», do «Bom Caminho», das «Angústias», dos «Remédios», da «Agonia», dos «Mártires», etc., que nos permitem ir marcando a passagem da via. Outros referem importantes acidentes geográficos como «Senhora da Ribeira», da «Portela», do «Viso» da «Serra», e outros ainda a povoados, «Senhora da Cividade» ou «Senhora do Castelo».

É este sentido de respeito e um forte simbolismo tão enraizado na nossa população que de certa forma tem mantido e preservado este património em actos tão singelos como limpar e colocar flores nessas alminhas por aí espalhados que afinal já ninguém se lembra porque ali estão. A rede utilizada no período romana continuou em utilização por toda a Alta Idade Média e permaneceu em uso praticamente até ao século XX; no entanto, com a estabilização política conducente à formação do Reino de Portugal, a rede vai sofrer grandes alterações com a construção de novas estradas e pontes por todo o território que viriam a alterar em definitivo o panorama viário; este processo teve continuidade até aos nossos dias, o que torna difícil por vezes identificar o verdadeiro percurso no tempo romano.


3. Mitos e realidades sobre a rede viária antiga

MITO 1: "Troços lajeados são por norma romanos"
Os velhos traçados e o seu pavimento foram sendo reparados ao longo dos séculos e qualquer via lajeada é logo calçada remanescente é confundida com via antiga. A datação destes troços apresenta-se de grande dificuldade pois os vestígios arqueológicos junto ao leito da estrada são escassos e as lajes em pedra não permitem aferir a sua cronologia com segurança. O lajeamento das vias poderá ter começado no período romano, mas a sua prática generalizada será mesmo uma prática medieval. Ou seja, o lajeamento da via não serve como critério de identificação dos itinerários romanos, podendo ser o resultado das sucessivas reparações efectuadas ao longo do período Medieval e mesmo em tempos mais recentes.

MITO 2: "A estrada romana desapareceu na paisagem!"
Pelo contrário, a via antiga mostra uma grande resiliência pois foram 2000 anos de uso e bastaram 100 anos para a reduzirmos a velhos caminhos abandonados, mas que apesar de vilipendiadas, ainda marcam de forma indelével a paisagem do nosso território. Na verdade, a maioria são caminhos pré-romanos que continuaram a ser usados durante o período romano e também medieval como se pode constatar nas muitas referências as estes antigos trajectos em documentos do período Alto-Medieval, onde a propósito dos limites de propriedades, são referidos como «via antiqua», «strada maiore», «strada mourisca», «via publica», «karraria antiqua», etc. A maioria destes caminhos continuam a ter ainda hoje servidão e por isso sofrem obras de manutenção e reparação, e mesmo quando já asfaltados, são testemunhos do antigo trajecto. Outros estão completamente ao abandono (o que ironicamente tem contribuído para a sua preservação) ou ainda pior sujeitos a cortes e mutilações que inviabilizam a sua futura valorização. Assim, é muito importante não só proteger um ou outro troço lajeado (que muitos vezes são caminhos bastante recentes relacionados com o acesso a terras de cultivo), mas também assegurar que o caminho se mantém viável permitindo a sua utilização para fins culturais e turísticos. Com a excepção destes raros troços lajeados, todo o resto encontra-se sem protecção, sendo ainda comum a existência de grandes troços pelo alto da serra praticamente inalterados desde o período romano.

As inúmeras destruições registadas nas últimas décadas, seja pela construção de novas estradas ou resultante da actividade agrícola, constituem razão suficiente para a adopção de uma nova abordagem à sua conservação. Precisamos assim com urgência de uma missão de salvamento que possa preservar o que resta deste património, não só o lado material associada às evidências da estrada, mas de todo conjunto imaterial ligado à passagem da via que tanto marcou (e marca) o carácter das povoações que atravessa. Mas o pior inimigo da sua conservação não é nem abandono nem os maus exemplos que se vêm por aí, mas a ignorância sobre o real valor patrimonial. Quando percorremos estes longos troços em terra batida sem viva alma em redor não podemos deixar de imaginar como seria viajar nesses tempos.


MITO 3: «As estradas romanas procuram os vales para amenizar subidas e descidas!"
"Efectivamente sendo o Montemuro uma barreira geográfica, seria contraproducente investir em vias que o sulcassem. A solução era contorná-lo, aproveitando as margens do Douro" Nuno Resende in «Ermidas do Montemuro». Nada mais longe da realidade; a viação romana reutiliza a rede viária já existente aquando da sua conquista; invariavelmente a via procura percursos de altitude pelas cumeadas dos montes. O percurso pelos vales obriga a inúmeras travessias de rios e ribeiras que tornariam o caminho intransitável, em particular no Inverno. Por outro lado, a descida ao vale obriga a nova subida à portela seguinte, descendo daqui a novo vale e assim sucessivamente. Teríamos assim a descrição de uma sinusóide o que é de todo improvável.

MITO 4: «As estradas romanas apresentam troços rectilíneos!».
Sim, em terreno perfeitamente plano como muita da paisagem na Europa Central ou Italiana; mas no nosso território isso é manifestamente impossível; mesmo onde isso seria possível aparentemente, como no caso da região do Alentejo, o que se observa no terreno é longas rectas alternando com repentinas mudanças de direcção em curvas quebradas que vistas num mapa militar seguem exactamente o trajecto mais a seco possível. Nas zonas montanhosas como quase todo o nosso território a norte do rio Tejo, os trajectos antigos adaptam-se e obedecem às necessidades de viabilidade face aos obstáculos geográficos como se torna evidente nas vias que percorriam a Serra do Marão.

MITO 5: «As pontes medievais são sucedâneas de outras, mais antigas, do período romano!»
Este mito tem levado a considerar como romana um vasto número de pontes claramente de construção medieval, sem qualquer indício da utilização de materiais romanos na sua construção ou qualquer outro vestígio dessa época. Logo se faz passar uma importante "via romana" que na verdade nunca existiu. Na realidade o número de pontes romanas conhecidas é diminuto face ao grande número de pontes construídas durante o período medieval.


4. A formação da «via romana»
Importa agora clarificar de que falamos quando aplicamos o termo "via romana". A habitual visão "monumental" da via com as suas quatro camadas construtivas finalizada por um empedrado com pavimento não passa de um equívoco introduzido no período do iluminismo Francês por Nicolas Bergier na sua obra "Histoire des Grands Chemins de L'Empire Romain" publicado 1622. Esta visão dita "clássica" da via romana tornou-se oficial e desde então até hoje a construção da via é ilustrada com essas camadas e um perfeito lajeado a servir de pavimento, recorrendo para a sua construção de uma grande número de mão-de-obra escrava sobre as ordens de legionários. Esta fantasia persiste até hoje levando a visão totalmente afastada da realidade. Na verdade tratou-se de uma confusão com as vias urbanas que iam sendo observadas nas ruínas das antigas urbes, essas sim fortemente estruturadas e com um pavimento lajeado mais salubre e portanto mais apropriado a uma cidade quando comparado com estradas de terra.

Pelo contrário, o modelo construtivo para estradas no período romano assentava em técnicas muito mais simples e mais eficazes, recorrendo na maioria das vezes à simples escavação de uma trincheira com valas laterais, onde se iam depositando várias camadas de terra misturada com areia, gravilha, restos de cerâmica ou pequenos seixos, todo compactado para criar uma superfície em terra relativamente lisa e apropriada para o trânsito com carros (embora os materiais possam variar muito em função da sua disponibilidade e proximidade da via). A manutenção da via resumia-se assim, à deposição de uma nova camada ou à reparação das bermas. Só assim se explica como foi possível manter operacional o chamado «cursus publicus» que terá atingido cerca de 70.000 km em certa fase da era romana. Além disso, as tipologias de construção observadas são muito variados e adaptadas a cada situação em concreto. Por exemplo, em Itália foi possível registar tanto vias assentes em estacas para cruzar zonas pantanosas, como vias totalmente escavadas na rocha para cruzar zonas montanhosas (vide "Construir estradas em época romana: técnicas e morfologias. O caso da Itália setentrional" por Michele Matteazzi).

Por mais que esta visão "clássica" da via seja desmentida pela evidência arqueológica nas mais variadas partes do antigo Império, a verdade é que ela persiste, levando a grandes equívocos na identificação dos antigos trajectos. Claro que quando temos miliários e pontes num percurso não há lugar para qualquer dúvida que estamos na presença de um trajecto romano. A construção de novas pontes e a marcação miliária são a prova da sua importância e a existência de múltiplos miliários num só ponto da estrada é bem revelador das sucessivas reparações que via sofreu ao longo do período romano (são mais de 230 miliários já conhecidos nas 30 milhas da «Via Nova» pela Serra do Gerês, tendo algumas milhas mais de 10 marcos em seu redor). Aliás, as inscrições nesses miliários dão conta desse mesmo facto ao utilizar expressões como «refecit» ou «restituere» (no sentido de 'refazer', 'reparar': por exemplo «vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt» no Miliário que está no Solar de Bertiandos em Ponte de Lima).

Actualmente não há qualquer dúvida que a rede é anterior e não uma construção romana ex-nihilo. Pelo contrário, a rede reflecte claramente uma realidade pré-romana, em particular nomeadamente do período anterior designada por II Idade do Ferro como fica evidente da relação de proximidade da via com os típicos povoados fortificados desse período; é mesmo provável que estes trajectos tenham uma origem muito anterior que pode recuar à Idade do Bronze ou mesmo a outras épocas anteriores.

A ideia de que foram os romanos que construíram estas vias é assim descabida. Na verdade estes caminhos de passagem naturais existem há milénios sempre sempre utilizados pelo homem desde tempos remotos que não podemos para já precisar. Portanto, quando se diz que Augusto construi esta ou aquela via porque o miliário mais antigo da estrada é desse Imperador é uma imprecisão. A estrada já existia e continuou em funcionamento por pelo menos mais 2 milénios até chegar aos nossos dias. Assim quando surgem referências na documentação medieval à "via antiqua", "karraria antiqua" e outras expressões equivalentes, estamos sempre a falar dessa rede antiga que sempre existiu desde temos imemoriais e não a novos percursos criados no período Islâmico como por vezes se infere a partir destas referências à "strada mourisca", numa época em que o tempo romano já não passava de uma vaga memória e tudo o que "cheirava" a antigo era do "tempo dos sarracenos".


5. A evidência dos caminhos antigos
Todas sofreram algum tipo de restauro ou reparação pelo que se vê assume as mais diversas topologias não sendo pois um critério fiável para aferir a sua antiguidade. Por outro lado, o registro arqueológico, embora mais fiável, apresenta-se regularmente muito disperso por casais e villae o que dificulta a identificação do verdadeiro trajecto. Este método tem levado os investigadores a uma "colagem" dos vários troços conhecidos em percursos fantasiosos sem qualquer viabilidade. Haveria então de se encontrar um método que pudesse esclarecer as dúvidas do traçado. Ora, a análise dos percursos considerados seguros, mostrou que existe uma grande coerência geográfica em termos de trajecto adoptado.

Nos anos 50, os chamados voos USAF ainda mostravam muitos desses caminhos perfeitamente destacados na paisagem. Deste então a paisagem sofreu grandes mudanças pelo que este registo com fotografias aéreas constitui ainda uma importante fonte de informação para identificação das antigas vias; mais recentemente, a utilização de poderosas ferramentas GIS, veio trazer novas linhas de investigação e fazer grandes avanços nos últimos anos; no entanto estas análises cingem-se habitualmente a uma região específica e não fornecem a perspectiva global dos grandes itinerários.

A observação de um grande número de troços viais nas mais variadas regiões do nosso país permitiu-me identificar um padrão constante que assenta essencialmente no seguinte critério geográfico:
Claro que este critério para a escolha do percurso foi utilizado em função das características intrínsecas do terreno que pretende atravessar. Como a sul do Tejo temos uma paisagem de planície, sem grandes obstáculos naturais, obviamente que os trajectos apresentam uma pequeníssima variação de cota e são muito mais rectilíneos, formado por longas rectas, mas mesmo neste caso não deixam de mudar abruptamente de direcção procurando os caminhos de festo a fim de evitar a travessia de rios e ribeiras. Em síntese, apesar da paisagem Alentejana apresentar um terreno praticamente plano, ainda assim estamos longe da via observada em outras regiões do Império como Espanha, Itália ou França, onde um terreno praticamente sem obstáculos permitia a construção de trajectos perfeitamente rectilíneos.

A norte do Tejo, estas características são muito diferentes; dada a dificuldade de passagem em alguns pontos, o trajecto da via sofre grandes desvios da rota ideal (mais curta) de forma a minimizar as variação de cota ao longo do percurso, em particular quando este é obrigado a cruzar grandes rios como seja o Douro ou o Tâmega. Junto dessas travessias é comum a existência de troços lajeados com grandes blocos de pedra de grandes dimensões e de variadas formas, ajustadas e comprimidas umas contra as outras de forma a assegurar a solidez estrutural da estrada nestes troços particularmente declivosos e sujeitos a grande erosão pelas chuvas.

Por outro lado, os percursos ao longo dos vales ou das margens de rios são praticamente inexistentes porque se no primeiro caso obrigaria a constantes subidas e descidas de um vale para o seguinte, e por outro, no segundo caso porque obrigaria ao constante cruzamento dos seus afluentes. Por essa razão não existem vias ao longo das margens do rio Douro (como por vezes se tem proposto), mas apenas vias N-S cruzando o rio nos locais mais favoráveis à sua travessia. Estas auto-estradas, ou melhor dito "altas-estradas" permitiam assim percorrer vastas distâncias praticamente em terreno seco e como seguiam em altitude com pequenas variações de cota.


6. A rede viária romana em torno da Serra do Marão

Munidos deste critério podemos melhor justificar as nossas propostas para a rede de caminho que percorriam a Serra do Marão em época romana. O principal itinerário romano teria origem em Braga com uma directriz no sentido NO-SE rumo à travessia da Serra do Marão pela Campeã. No entanto, a identificação do trajecto tem sido de certa forma toldada pelo impacto criado pela construção da Ponte de São Gonçalo em Amarante já pleno período Medieval, alterando consideravelmente a rede viária de toda a região.

De facto, é muito provável que a travessia do Tâmega no período romano se fizesse um pouco a montante de Amarante, junto ao povoado de Gatão, sendo este local mais coerente com a directriz da estrada com origem em Braga. Seguia depois por Pousada num percurso a meia encosta que sobre progressivamente a serra rumo à Campeã. Pelo contrário o percurso medieval pela ponte de Amarante apresenta fortes declives, como no troço lajeado do Marancinho, por muitos considerado um trajecto romano, mas que deverá corresponder à variante Medieval que entretanto ganhou importância em resultado da referida construção de ponte sobre o rio Tâmega em Amarante. Também será medieval a continuação do trajecto pela «Ponte da Rua» em Aboadela, aliás sem qualquer indício romano. A partir deste ponto, a ascensão da serra apresenta-se particularmente difícil com fortes declives, sendo por isso um forte indicador de que o percurso não seria por aqui.

Descartado o caminho medieval, podemos não só definir o antigo trajecto como identificar os possíveis locais de cruzamento de vias ou nós viários, nomeadamente o cruzamento com a via proveniente de Tongobriga (com origem certamente n travessia do rio Douro em Várzea de Douro) que vinha pelo planalto da Lomba até confluir na estrada proveniente de Braga junto do «Alto dos Picotos» em Vila Chã do Marão. Daqui seguia por «Estalagem Velha», Capela de São Bento, Bebedouros, Covelo do Monte, Lameira, «Rodas», «Fonte do Ladrão» e «Corredoura» até atingir as Vendas da Campeã, onde poderia existir um mutatio em torno da Capela de São Roque.

Com o percurso até à Campeã relativamente bem definido, podemos então focar a nossa atenção nas possíveis continuações deste itinerário. O troço calcetado (e "motor" principal deste colóquio) não deixa dúvidas quanto à sua continuação para oeste pelo menos até ao sítio de Lameirões, onde foi detectada um troço da velha calçada. No entanto, a partir daqui não é seguro que a via seguisse para a travessia do rio Corgo junto a Vila Real que é claramente uma criação já medieval. Deste modo, é muito provável que depois de cruzar a serra, a via rumasse ao rio Douro mantendo a directriz NO-SE que trazia de Braga. A ser assim é possível que a via cruzasse o rio Douro nas imediações de Peso da Régua ascendo depois ao planalto de Moimenta da Beira, importante nó viário da região, onde aliás apareceram miliários e outros vestígios viários importantes. Mas voltando atrás surge a questão de qual seria o trajecto desde a Campeã ao Rio Douro. Claro que a determinação do caminho está directamente relacionado com o local de cruzamento (ou melhor de confluência) com outra via fundamental na rede viária romana, a rota N-S proveniente de Chaves rumo ao Douro que percorria o planalto da Serra do Alvão, descendo depois ao Vale de Campeã e daqui por Santa Marta de Penaguião rumo à Régua. Torna-se assim necessário precisar qual seria o local de confluência destes dois itinerários. A nossa proposta é que esse cruzamento se fazia em Lameirões, precisamente no local onde a via procedente de Chaves cruzava o rio Sordo. Daqui a via seguia por Torgueda e Santa Marta de Penaguião para a Régua.

O problema desta proposta está na identificação do local de cruzamento da ribeira de Aguilhão; os fortes declives observados nos possíveis traçados para ultrapassar este obstáculo, não permitem uma conclusão definitiva. A única possibilidade de evitar o cruzamento desta ribeira é seguir o antigo caminho pela aldeia do Cotorinho que apresenta menos oscilações de cota. A via derivava possivelmente no lugar da «Estalagem Nova», a uma milha da Campeã, seguindo aproximadamente o trajecto do CM1240, passando nas aldeias de Cotorinho, Soutelo, Paradela da Serra, Senhora do Viso e Capela de Santa Quitéria, até atingir o nó viário de Fontes junto da Igreja Paroquial. A partir deste nó viário, conhecido pelo sugestivo topónimo de Fronteira, nas proximidades do Castro de São Pedro de Fontes, a via voltava a bifurcar em dois ramais, um seguindo para Peso da Régua e outro seguindo para a travessia do rio Douro na «Barca de Moledo». Esta passagem foi beneficiada por D. Teresa de Leão com uma albergaria no século XII. A sua utilização em período romano parece atestada pelos vestígios descobertos Caldas de Moledo, possivelmente um pequeno vicus; segundo António Lima este local de passagem corresponderia na Alta Idade Média ao «portu de aliovirio» referido num documento do ano 922 (PMH DC 25), levando este investigador a propor o nome de «Aliobriga» para o antigo povoado no Castro de Cidadelhe (Lima, 2008), situado sobre esta passagem. Cruzado o Douro, a via ascendia a Lamego e daqui rumava a Viseu.



7. O grande itinerário de Braga a Mérida
Temos assim dois grandes itinerários no Vale da Campeã: um proveniente de Braga e outro proveniente de Chaves que confluem na zona do Vale da Campeã, desdobrando-se depois rumo às travessias do rio Douro em Moledo (rumo a Moimenta da Beira) e na Régua (rumo a Lamego e Viseu). Mas por que é importante esta clarificação? Bem, esta questão está relacionada com uma outra muito mais abrangente e uma das grandes questões em aberto mais controversas sobre da rede viária romana, isto é por onde seguia o itinerário entre Braga e Mérida, a capital da Lusitânia? A proposta mais consensual tem feito passar este itinerário por Tongobriga, Caldas de Aregos, Cárquere, Castro Daire e Viseu. Apesar de a sua existência ser inquestionável, não me parece que este seja o melhor caminho para chegar a Mérida até porque uma passagem por Viseu obriga a abandonar a directriz NO-SE que trazia de Braga. Por outro lado, o percurso pela Serra do Marão - Régua - Moimenta da Beira apresenta um traçado mais curto e menos acidentado do que por Viseu e constitui por isso uma alternativa viável. A partir Moimenta da Beira, a via seguia por Fornos de Algodres (onde cruza o Mondego), ascendendo a Serra da Estrela por Linhares, descendo depois pela Quinta da Taberna e Famalicão da Serra até ao povoado romano de «Centum Cellas» em Belmonte. A partir daqui não há qualquer dúvida quanto ao trajecto pois a via dirigia-se pela cidade romana de Igaedis/Igaeditana (Idanha-a-Velha), ela própria certamente com origem numa estação viária desta estrada, rumo à travessia do rio Tejo na monumental Ponte Romana de Alcântara. O caminho pela Serra do Marão ganha assim uma importância acrescida ao integrar um grande itinerário que apesar de não ser mencionado nos chamados «Itinerários de Antonino», apesar de não contar com miliários ou pontes romanas monumentais, teria relativa preponderância para quem circulava entre Braga e Mérida, dois importantes centros administrativos na época romana.

Gostaria de deixar uma nota final para além destas questões mais do âmbito da arqueologia que afinal só interessam a punhado de investigadores. Mas afinal o que fica disto tudo para além da pura investigação. Bem, desde logo o ficarmos a saber por onde de facto passava a via, a única forma de assegurar a sua preservação; por outro lado, ao proteger a transitabilidade destes percursos para as futuras gerações estaremos eventualmente a criar a maior rede de caminhos históricos existentes na Europa. Numa perspectiva da sua valorização, sendo caminhos naturais, torna estes percursos particularmente apetecíveis para actividades de 'trekking', ciclismo, etc; no entanto, a isso podemos acrescentar uma camada histórica que recua e "mergulha" em tempos ancestrais, numa experiência que poderá ser única na Europa, com um notável capacidade de 'story telling' e por isso capaz de promover a sua valorização ambiental e turística. Seja pela resiliência como dizem uns, ou pelo extremo conservadorismo como dizem outros, ou mesmo pelo endémico atraso como arriscam outros, a verdade é que o nosso território guarda uma paisagem única, algo beliscada aqui ou acolá, mas nunca derrotado, e que nos permite entrar numa espécie de mundo alternativo em que o tempo perde o seu significado.

Obrigado pela vossa atenção!



NOTAS

1 a georreferenciação da rede viária romana está disponível no seguinte endereço:
https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?hl=en&mid=15ejrsZVn6BWpxKQpYQB1KgXbM5cVfezK



FIGURAS


Figura 1. Rede viária romana na região Norte de Portugal.


Figura 2. Rede viária romana na região da Serra do Marão.



BIBLIOGRAFIA

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