Bairro da Sé do Porto - A RUA DE S. SEBASTIÃO (Antiga Rua da Sapataria)

A Rua de S. Sebastião corresponde hoje ao troço que, partindo do Largo Dr. Pedro Vitorino (antigo largo dos Açougues ou do Açougue Real ou do Paço), ligava até ao início da Rua Escura, mais precisamente até ao Arco da Sapataria ou Arco de S. Sebastião, a segunda porta da Muralha Românica. Ou, como registava documento antigo, ia "da Porta de baixo dos Açougues da cidade até S. Sebastião".

Na Idade Média a Rua de S. Sebastião era designada Rua da Sapataria estando assim documentada desde 1286. Em 1289 o rei D. Dinis enviava uma carta ao Almoxarife da cidade, ordenando-lhe a venda de umas casas que o monarca possuía na Rua da Sapataria, para pagamento de dividas. Em 8 de Maio de 1295, no testamento de D. Abril Peres, Cónego do Porto e Abade de Cedofeita, refere-se "a mha casa que comprey na Çapataria…". Em Maio de 1296, no testamento de D. Vicente Mendes, Bispo do Porto, refere-se igualmente "Çapataria". Magalhães Basto encontra-a documentada em 1307. Este autor regista, ainda, uma passagem documental do séc. XIV onde se referem umas casas na "Rua da Sapataria defronte donde se faz a Feira" e outras que "estão ante a feira da dita cidade e ... a rua da Sapataria e partem com o muro". Foi também designada na Idade Média por Rua do Castelo ou por Sapataria do Castelo (em 1317), e da Sapataria Velha (em 1486). Ficava "defronte de onde se faz a feira". Na realidade, um documento de 1335 refere "huas cazas citas na Rua da Çapataria defronte donde se fazia a Feira". Em 1474 a rua é localizada "(...) esta antre ambas as ruas a saber a que vay da dita rua pera as aldas e a outra que vay para os açougues (…)". É mencionada como "Rua dos Sapateiros" no Livro dos Legados do Cabido, fl 81 vº. Em inícios da Época Moderna, em 1572, dizia-se que a Rua de S. Sebastião ia "(…) da porta debaixo dos açougues da cidade até São Sebastião (…)". É igualmente designada Rua de S. Sebastião em 1690, num documento da Misericórdia.

Em 1926, ainda antes das profundas alterações urbanísticas no Terreiro da Sé, Faria e Castro registava que a Rua de S. Sebastião teria sido igualmente designada Rua do Açougue Real: "Teve também este nome a actual rua de S. Sebastião, a qual principiando na Rua Escura vae terminar na da Senhora de Agosto. Foi na de S. Sebastião que existiu aquelle antro imundo e ascoroso chamado Aljube."

O Pe. Pereira de Novais, na Anacrisis Historial, obra redigida no séc. XVII, refere-se às Escadas que, junto do arco de S. Sebastião, iam da Praça da Fonte de S. Sebastião para a Sé. A "praça" seria o Terreiro de S. Sebastião, mencionado em documento de 1744. Trata-se das Escadas da Sé, e não das Escadas da Rainha, as quais ficavam junto do edifício da Câmara. Efectivamente, e como já referimos a propósito da Rua Escura, Sousa Reis esclarece que ao Aljube iam dar as Escadas da Rainha, que partiam da Sé e desciam junto ao edifício camarário: "... no local do Aljube, aonde vem ter as escadas chamadas da Rainha, as quaes partem do Largo da Sé junto á caza das Vereações do Senado da Camara".

Isabel Osório sugeriu que o Arco ou Porta de S. Sebastião não existia no Séc. XIV e que seria uma obra tardia, do séc. XVI. Há, no entanto, referências a este acesso ao espaço intra-muros em documentação mediévica, embora naturalmente com outras designações, uma vez que o culto a S. Sebastião é tardio, quinhentista, sendo fruto da crença do seu valor protector contra a Peste. Na realidade, encon-tramos referências ao Arco da Sapataria em 1307.

O Arco de S. Sebastião era designado "Porta de Ferro junto a S. Sebastião" em documento da Misericórdia datado de 1599. A designação dada então à porta da Muralha Românica - a Porta do Ferro - traduz a sua proximidade em relação ao Recolhimento de Nª Sª. do Ferro (que aqui se localizava, antes de ser transferido para as Escadas do Codeçal, à Lada). Assim, em 1599 a Porta ainda não era conhecida por S. Sebastião. No entanto, esta referência garante-nos que a imagem de S. Sebastião, que lhe veio a dar o nome, já se encontrava embutida em nicho nas suas proximidades. Efectivamente, a Capela de S. Sebastião esteve até 1718 erguida junto da Casa da Câmara.

Em 29 de Abril de 1393, os vereadores pretendiam que os pesos da cidade fossem guardados numa casa da Rua da Çapataria especialmente reservada para o efeito. Efectivamente, em acta da sessão camarária ficou registado "…que os pesos seiam na Çapataria e outro ssy todos aqueles que trouverem mercadorias aa dita çidade que as nom ponho em outro logar senom na casa onde severem os pesos e o que o contrairo fezer pague por a primeira vez vynte libras e por a segunda XXX e por a terceira L libras e aia o acusador que o acusar o terço e o Conçelho as duas partes ...". Esta decisão só pode reflectir duas realidades: primeiro, que a rua da Sapataria seria uma das mais movimentadas do velho burgo episcopal no que respeita a movimento mercantil: segundo a proximidade, decisiva, dos Paços do Concelho. A Torre dos Alães estava situada na rua da Sapataria.

À semelhança do que acontece um pouco por toda a zona central do velho Burgo Episcopal, a degradação das suas habitações começa a sentir-se de forma dramática nos alvores do séc. XIX. É o que se espelha nos Autos de Vistorias, feitas a casas degradadas, ou nas Intimações da Câmara, feitas a prédios em situação de ruína eminente:

- Em 14 de Outubro de 1839, Auto de Vistoria às Casas Nº 32 e 33 pelo seu estado de ruína, tendo sido decidida demolir pois desconheciam-se os seus legítimos proprietários. A vistoria parece ter surtido efeito. Na realidade, logo em 11 de Maio de 1840, é feito um novo Auto de Vistoria ao Nº 32 porque o seu proprietário, entretanto identificado, pretendia fazer recuar a fachada do prédio para que ele tomasse a alinhamento da rua". E em 29 de Julho de 1840 foi decidido obrigar os proprietários das casas Nº 31 e 33 a procederem de forma idêntica, reparando os prédios em rumas e recuando as fachadas.
- Em 25 de Maio de 1839 foi feito Auto de Vistoria aos Nºs. 41 e 42 por se encontrarem em ruínas.
- Em 3 de Março de 1843 foi feito Auto de Vistoria aos Nºs. 33 e 34, por idênticos motivos.
- Em 26 de Dezembro de 1870 é feita intimação ao Pe. José Laranjeira a propósito do prédio Nº 53 a 61.
- Em 9 de Abril de 1872 um oficio dá conta do estado de ruína do Nº 67.
- Em 4 de Novembro de 1878 é feita uma Intimação a propósito do estado de ruína do prédio Nº 53 a 61.

No Nº 53 da Rua de S. Sebastião encontram-se umas Alminhas, datadas de 1699. De resto, as casas Nº 53-55 devem corresponder a essa centúria, tal como o lote Nº 57-61.

No início da Rua de S. Sebastião, na base da rampa que dá acesso à fachada ocidental da Sé, encontra-se reconstruída a Torre Medieval. Nela se instalou o Arquivo Histórico Municipal do Porto no tempo de Dr. A. Magalhães Basto. No entanto, esta Torre medieval não se erguia originalmente neste local. É possível ainda ver a sua primitiva implantação na Planta Topográfica do Porto, de 1892, no ângulo Sudoeste ao quarteirão onde se tinham localizado, outrora, os Açougues. Deste modo, com as remodelações urbanas do Terreiro da Sé, nos anos '40, a Torre seria deslocada alguns metros, tendo sido reconstruída na sua nova implantação. Não se sabe rigorosamente se a forma exterior do edifício foi inteiramente respeitada, o que parece pouco provável. Seguro é que o seu interior foi desvirtuado, e adaptado a um gosto neogótico. O mesmo se diga da porta de acesso e das frestas geminadas que o edifício ostenta.

Bem mais interessantes eram os testemunhos arquitectónicos modernos, que se podiam admirar no prédio que lhe fica a Poente, imediatamente abaixo dos chamados arcos de S. Sebastião. Tratava-se de uma construção que, não há muitos anos, apresentava os andares superiores com os característicos avançamentos de origem mediévica. Quase todo o edifício era construído em taipa (à excepção do R/C, que era pétreo). O estado de ruína do edifício permitia reconhecer a característica malha geométrica da taipa, com traves de madeira formando painéis rectangulares subdivididos em X e com pequenas ripas verticais, tudo preenchimento com tijolo e argamassa. Infelizmente foi objecto de uma profunda e radical reconstrução, que não soube aproveitar os testemunhos de antanho, valorizando-os e integrando-os em dialogo com as novas técnicas.

O ALJUBE
A área em estudo não comporta o Aljube medieval, que ficava na Viela do Aljube, junto da Rua do Senhor do Fuso, artérias que corriam pela face exterior da muralha românica entre o Arco de Vandoma e a Rua Escura. No entanto, encontra-se dentro da área que é objecto de análise o Aljube moderno, criado nos meados do séc. XVIII (1749), e que veio substituir o velho cárcere eclesiástico, procurando dignificar um pouco mais as suas instalações. o primeiro Aljube Eclesiástico, que ficava perto do Arco de Vandoma, foi em 1749 transferido para a Rua de S. Sebastião. Seria não muito longe do local onde este viria a ser instalado que se localizavam as casas que o Cabido da Sé aforou ao Pe. João Afonso, em 1514, e que ficariam defronte do Chafariz da Sé. Esse Aljube setecentista ficava na Rua de S. Sebastião, nas antigas casa de D. Jerónimo de Távora, então Deão do Cabido da Sé do Porto, e deveria ser objecto de um estudo cuidado e exemplar antes de ser realizada qualquer obra de reconstrução (aparentemente planeada), dando-se uma oportunidade de análise arqueológica e arquitectónica mais cuidada. Apesar de tudo, ainda é possível distinguir; no loteamento urbano dessa zona, a existência dos dois lotes de que nos fala o Conde de Campo Bello quando diz que o Aljube foi feito em duas casas de D. Jerónimo de Távora.

Sobre o mediévico Aljube do Bispo, que se erguia primeiro na Viela do Aljube e que mais tarde seria transferido para a Rua de S. Sebastião, escreveu o Conde de Campo Bello:

"Ficava próximo da Sé, com cuja rua e terreiro confinava pelo sul e poente, ao passo que de norte confrontava com a viela do Aljube e rua do Senhor do Fuso e do nascente com a Casa de Vandôma e capela da Virgem desta invocação. Devia ter sido construção antiga, possivelmente medieval num só pavimento, com a sua torre ao lado. Nos meados do século XVIII, o Aljube achava-se em deplorável estado de conservação, o que levou o Prelado a procurar local mais adequado para onde o transferisse. (...) D. Jerónimo de Távora possuía duas moradas de casas contíguas, com seus respectivos quintais, as quais estavam pelo nascente com a rua pública de S. Sebastião, pelo norte e poente com prédios da rua da Bainharia e pelo sul com a capela de S. Sebastião.
(…) Ocorreu então a ideia de adaptar a Aljube aquela propriedade do Deão. (…) Regia então os destinos da diocese portucalense Dom Frei José Maria da Fonseca e Évora, Bispo do Porto. (…) Na transformação das casas da rua de S. Sebastião, ficou estipulado que durante o período de dois anos, considerado suficiente para a efectivação das obras, senão na sua totalidade, pelo menos na porte indispensável para agasalhar os reclusos, a Mitra pagar-lhe-ia anualmente 40 mil réis, importância equivalente à renda que até à data estivera recebendo dos inquilinos que ocupavam os prédios. (…) A construção mereceu dos contemporâneos o qualificativo de admirável e que a porte reservada aos reclusos deveria ocupar só o andar superior, visto que o rés-do-chão estava destinado a ser alugado. (…) Por mais de um século ficou pois o Aljube aqui instalado."
.

Pinho Leal esclarecia que se tratava de um "Pequeno edifício, construído extra-muros da circunvalação, mandado fazer por D. Gonçalo Pereira, bispo do Porto, mas encostado á muralha. Está logo abaixo do Sé, no principio da rua de se Sebastião, e do chafariz do mesmo nome. Foi construído para prisão dos clérigos delinquentes. Depois que terminou o foro ecclesiastico, ficou sendo cadeia publica. (…) Desde 17 de abril de 1875, estabeleceu-se aqui o asylo dos rapazes, que até então esteve na rua das Carvalheiras."

Em 6 de Fevereiro de 1865 criar-se-ia, no Aljube do Porto, uma secção para as "mulheres vagabundas".

O velho edifício seria desactivado e, algum tempo depois, em 1921, seriam submetidos à Câmara do Porto pelo seu proprietário, Januário de Sousa Barbosa, para aprovação da Edilidade, projectos de obras de alteração do prédio. Os respectivos processos foram submetidos em Agosto e Outubro de 1921, e constam dos Livros de Plantas de Casas.

Aljube 1 Aljube 2

CASA DA CÂMARA
O principal edifício da Rua de S. Sebastião, do ponto de vista histórico, é sem dúvida a Domus Municipalis, que se ergue junto do que era o início mediévico da rua de S. Sebastião, na zona do Arco do mesmo nome.

Segundo Magalhães Basto, "Os mais antigos Paços Municipais foram uma casa de madeira, muito pequena e des-ordinhada, «junto com as paredes da Sé»; e que em 1350 foi resolvido edificar «um Paço em arcos, no Cemitério (ou adro) afastado da dita Igreja». Este Paço ruíu pouco depois, e em 1443 outro se andava construindo sobre as suas ruínas, Deste último existiam ainda os restos entre o Largo da Sé e a rua de S. Sebastião. (…) Este, estaria pronto muito antes de 1485. (…) Em 1443, foi dada a empreitada ao Mestre Carpinteiro Gonçalo Domingues a obra de carpintaria do sobrado destinado à Sala dos Sessões, e do inferior destinado as audiências".

Do primeiro edifício que se erguia junto da Sé, feito em madeira, encontramos alguns testemunhos documentais: em 12 de Junho de 1330, por exemplo, era feito um documento "…no sobrado de sobrelo Conçelho…" .

Como J.A. Pinto Ferreira sublinhou, pouco depois da instalação dos Dominicanos no Porto, uma parte significativa das reuniões camarárias passou a escolher a "crasta segunda de S. Domingos como palco; "…as sessões da Câmara realizavam-se na «Clasta do Mosteiro de S. Domingos» e no Mosteiro de S. Domingos; sobre o assunto vid. o Livro 2.º de Pergaminhos - Doc. 28, in Arq. do C. M. P. - Gabinete de História da Cidade e o Corpus Codicum... Vol. I, pág. 47". Ainda em 1402 assim acontecia, pois no dia 24 de Janeiro a vereação municipal reuniu-se "…no moesteyro de Sam Domjngos, que está no cydade do Porto, na crasta segundo ...".

Em 1350, como vimos, a vereação decidiu mandar erguer um edifício próprio, um "paço em arcos", que seria construído sobre o muro velho, ou seja, a muralha românica. Nas palavras de Magalhães Basto, no entender da Câmara o antigo edifício. que se erguia junto dos muros da Sé, "não era "honesto nem convinhavel" por ser "mui pequeno e desordinhado" e tão junto à catedral que "quando alguns por justiça metem a tormento", o gordura e sangue que se aí faz cai e recude (sai) sobre as paredes da igreja, e as confissões que esses assim faziam não se podiam fazer; segundo o lugar em que era, que não fossem ouvidas por quem passava na rua, visto ser de tabuado o edifício. Por esta mesma razão não podiam igualmente os Juizes e Vereadores la dentro "usar nem falar nenhuns segredos segundo a seus ofícios pertencia". Resolveu então o Concelho, mesmo para "ennobrecimento da cidade", construir "um Paço em arcos em o cemitério afastado da dita igreja, em que alguns pilares foram postos em um muro novo que fizera Vasco Pereira"; muro "assaz bom e forte", como disseram pedreiros e mesteirais que do oficio sabiam". Era certo que o muro abatera; porém a causa não fora o peso dos pilares do novo Paço, mas sim o de outras casas que "achatando-se a ele" o fizeram cair, arrastando tudo na derrocada."

Deste modo, seria esta primeira construção, um Paço erguido sobre arcos, que, por força de problemas estruturais potenciados pelo pendor do terreno nesta zona, viria a cair pouco depois. A derrocada trouxe estragos ao cemitério da Sé, que a Câmara seria obrigada a recompor.

O itinerário do edifício municipal foi traçado por; entre outros, Luciano Sollari Allegro. Segundo este autor; "o mais antigo local onde a camara funcionou, uma casa situada atraz da Obra da Sé, em data de 5 de março do anno de 1324 (Era de 1362). (…) Um documento, datado de junho de 1354 allega ter a camara feito, quatro annos antes, em 1350, o seu paço, no sitio do cemiterio, muito próximo á igreja do Sé. (...) Desde 1485 até perto de 1539, os paços do concelho eram no referido cosa, sito no largo de S. Sebastião, defronte da Sé, e junto á cadeia do Aljube. Em abril de 1539, as audiências municipais passaram a fazer-se n'uma casa da rua das Flores. (…) Em fevereiro de 1604, tornou a camara a funccionar na casa defronte da Sé. Desde abril de 1784, até 1800, a casa da municipalidade continuou no largo de S. Sebastião, sendo o archivo d'ella removido n'aquelle anno para o collegio de S. Lourenço ou dos jesuitas (...) Em 1814 as sessões camararias voltaram a recusar-se na casa do largo de S. Sebastião.".

Por uma provisão de el-rei D. Manuel I, datada de 1 de Janeiro de 1518, foi mandada criar nesta cidade a chamada Casa dos Vinte e Quatro.

A Casa da Câmara, edifício gótico que era designado na documentação tardo-medieval por "Paço do Concelho", "Paço da Rolação", ou "Sobrado da Rolação", foi construído na 2ª metade do séc. XIV e de novo reconstruído em meados da primeira metade do séc. XV após o desabamento da primeira construção gótica.

Os Paços do Concelho encontram-se referidos a partir de 1390. Segundo uma descrição antiga, no Auto de Vistoria datado de 1783, seria um edifício com 100 palmos de altura, sendo assim, graças à altura da construção aliada a sua implantação topográfica, o segundo mais alto edifício da cidade logo após a Sé. Foi lá que se reuniu maioritariamente a vereação nos séc. XV e XVI. No entanto, seria mais tarde abandonado, por se verificarem problemas de estabilidade, dado o acentuado pendor do terreno nesta zona. Na realidade, construído numa fase tardia, e procurando uma implantação dentro do velho burgo, o Paço da Relação apenas poderia ter á sua disposição terrenos que, até ao momento, tinham sido preteridos pelas dificuldades que ofereciam para a construção. Foi o que se verificou com esta zona, onde o declive pronunciado convidava pouco a edificação. Tiveram, no entanto, um itinerário atribulado.

Já em 13 de Outubro de 1442, pouco mais de meio século depois da construção, o edifício carecia de profundas obras: "… por quanto em este Paço de Rolaçom chovia e compria de seer repairado e porem que mandavam que logo como fezese tempo o coregese de todo o que lhe comprise e nom ho fazendo asy ha o dicto Pacço veer alguum perigoo que o dicto procurador seja theudo a o compoer…" Logo em 1443 encontramos referência a obras profundas, de que ficou um extenso, pormenorizado e notável documento. Iria Gonçalves volta a assinalar obras de reparação no Paço da Relação ou Edifício da Câmara em 1450-51 (certamente aquelas a que aludiam os vereadores na reunião de 13 de Outubro de 1449) e em 1483. Em 23 de Dezembro de 1484 foi feito emprazamento do Armazem que se localizava "nos baixos" do Edifício da Câmara, cedido a Afonso Fernandes pela quantia de 120 reais, com a condição expressa de este não acender lume dentro das instalações e não danificar a "gaiola" ou "mirante" da Casa da Câmara. Este emprazamento parece indicar que os problemas construtivos tinham sido momentaneamente ultrapassados. Mas, em 1536 voltamos a ter referências a obras, para tentar solucionar problemas criados pela inclinação do terreno, e, em 1539 o edifício carecia novamente de reparações, para cujas obras chegou mesmo a ser pedido um parecer a João de Castilho. Em 18 de Junho de 1539 a Câmara recebia uma Carta Régia prorrogando por mais dois anos (além dos quatro já concedidos) os benefícios da Imposição do Sal, para com eles custear as obras na Torre do Paço do Concelho, que apresentava duas fendas, e cujas obras careciam de apeamento de um dos lados do edifício (o que se apoiava na muralha românica) até á cota dos alicerces. Uma nova Carta Régia datada de 30 de Agosto de 1539 volta a referir a necessidade de se realizarem obras na Torre do Concelho, desde as suas ameias até aos alicerces pelo lado em que tinha duas rochas, por ela se encontrar erguida adossada á muralha e ameaçar ruína. As obras devem ter-se prolongado por bastante tempo. Em 1542 a questão parecia ainda não estar resolvida, pois a Câmara necessitava de dinheiro para as obras do seu edifício. E, efectivamente, a Imposição do Sal seria de novo prorrogada por mais quatro anos em 22 de Agosto de 1542. Em 1684 voltamos a encontrar referências a problemas estruturais da construção então minada por fendas e desaprumos. As obras efectuadas nunca foram suficientes para estabilizar o edifício, e no séc. XVII este voltava a ameaçar ruína. E, a 8 de Fevereiro de 1783 era realizada uma Vistoria, de que nos ficou um pormenorizado Auto, onde a construção é referida como a "Caza do Senado da Câmara (…) situada conjunto ao páreo da Sé Cathedral por onde tem a entrado príncipal e faz lado ao nascente; e pelo lado norte e sul está unido e conjunta à Rua e Capela de São Sebastião, tendo por estes dous lados mais de cem palmos de cito, e pelo sul he conjunto a humo azinhaga que vem da dito rua para o mesmo pateo; compondo-se a dita Coso de hum armazem subterrâneo por dous lados, o qual tem a sua servidão para a mesma rua de São Sebastião; e por cima deste, no andar do sobredito pateo, tem a caza do Auditório ou Foral do Concelho, e por sima deste se acha a caza deste Senado (…) Onde a Câmara teve a sua sede desde meados do Século XV a 1784."

Em 29 de Outubro de 1718 era decidido em Acordo, que se mudasse a Capela de S. Sebastião, que se localizava na parte baixa do edifício municipal, por ser muito estreita e por apresentar outros inconvenientes, para junto da Porta do Armazém das Armas, que se erguia nas proximidades.

Finalmente, em 1784 a Câmara mudava de instalações, passando a ocupar parte do Colégio de S. Lourenço, ou dos Grilos, e arrendando o seu velho edifício. Pouco tempo depois, uma série de documentos revelam o estado ruinoso em que se encontrava o edifício municipal.

De facto, poucos anos depois começa a ser referida a necessidade de demolição do que restava do edifício medieval, em degradação acelerada. Em 28 de Julho de 1790 foi decidida a demolição da antiga Torre da Câmara para que a pedra fosse utilizada para a Cadeia. Em 17 de Abril de 1793 volta a ser decidido demolir o edifício medieval até ao 1º Andar; por se encontrar em ruína. Em 30 de Outubro de 1794 e 6 de Novembro de 1794 seriam decididas medidas idênticas. Em 19 de Agosto de 1795 regista-se no Livro de Vereações que as barras de ferro retiradas do edifício camarário demolido pesavam 30 quintais, 2 arrobas e 20 arráteis. Em 12 de Maio de 1796 uma representação faz de novo menção à demolição da antiga Torre e Casa da Câmara.

O que restava do edifício mediévico, objecto certamente de reconstrução parcial, passava, desde então, a ser arrendado para diversas actividades.

Em 25 de Abril de 1875 o antigo edifício da Câmara foi destruído por um incêndio, passando desde então a ser votado a um abandono total. Na altura em que ocorreu o incêndio, no R/C estava instalada uma fábrica de refinação de açúcar e no 1º andar a sede da Associação dos Latoeiros. Magalhães Basto retirou do esquecimento a notícia deste incêndio:

"Incêndio - Hoje pelo 1 hora da madrugada houve um incêndio na antiga casa que olha para o largo da Sé e para a Rua de S. Sebastião. Esse prédio era denominado "dos 24" e onde a Câmara se reunia por ocasião da Procissão de Corpus Christi. Os baixos da casa estavam alugados, sendo um dos inquilinos o Sr. Francisco José Gomes de Carvalho, que tinha no prédio uma fábrica de refinação de açúcar; o salão do 1º andar estava alugado à Associação dos Latoeiros, que tinha ali a sua secretaria (…) o fogo lavrou com tal rapidez que em pouco tempo se apoderou de todo o prédio, que ficou consumido pelas chamas.".

Esquecido durante quase um século, o edifício seria objecto de escavações na década passada. Durante os trabalhos arqueológicos realizados no espaço exterior apareceu o lajeado de acesso à porta gótica e, a poucos metros, as ruínas da Muralha Românica. Foi igualmente possível detectar o derrube da Muralha Românica, no século XV para dar lugar à construção dos Paços do Concelho. Segundo Manuel Real, estas escavações, apesar de terem deparado com uma zona muito remexida, permitiram identificar dois estratos da Baixa-Idade Média, contemporâneos da construção dos Paços do séc. XV e provaram a ocupação do Morro de Pena Ventosa nos séc. IV e III a.C., portanto em época anterior à Romanização. Apareceu ainda um grande silo, possivelmente medieval e testemunhos de uma unidade fabril do séc. XIX, com um grande tanque encostado ao paredão de sustento do Terreiro da Sé.

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